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selfie
rosas
innersmile
Comecei há uns dias a sentir vontade de publicar uma selfie mostrando a minha urostomia. Acho que esta vontade resulta de vários factores. Primeiro, por uma questão de identidade. É este que eu sou agora, é esta a realidade. E mostrar uma foto da urostomia ajuda-me, porque os outros são o nosso reflexo, a assumir que este é o que eu sou agora.

Por outro lado, há já duas semanas que não tenho infecções, e nasce a esperança de que possa estar a caminho de um nova normalidade. A minha vida nunca mais vai ser como era, mas vai haver uma outra maneira de viver a vida. E faz parte deste processo de encontrar uma nova normalidade assumir que, agora, sou uma pessoa ostomizada.

Contra publicar a foto, há sobretudo uma razão de pudor. A urostomia é uma coisa íntima, e tem limites a parte da minha intimidade que estou disponível para partilhar com os outros, sejam eles amigos mais chegados, meros conhecidos ou completos estranhos. Mas pudor por vezes pode-se confundir, e estou apenas a falar por mim, com vergonha, e vergonha é o que eu não quero sentir em relação à urostomia. Aliás, já tive sentimentos de vergonha na minha vida que chegaram, não preciso de mais.

De certo modo, mostrar uma foto da minha urostomia é como sair do armário. E também por isso dizia que mostrar uma selfie não é apenas um gesto destinado aos outros, é também, e sobretudo, uma maneira de me ajudar a construir uma nova imagem de mim próprio, a minha selfie mental. Tenho de atingir um ponto em que, quando penso em mim, penso-me como uma pessoa ostomizada. Da mesma maneira que quando penso em mim, estão presentes todos os outros aspectos da minha vida que constituem a minha identidade e até a minha maneira de ser.

Claro que não consigo por uma selfie com a urostomia no Facebook, aquilo é um antro de coscuvilhice. Apetecia-me publicá-la no Instagram, mas mesmo aí ia-me sentir muito exposto. Pelo menos neste momento, pode ser que mais tarde publique. Por isso só faz sentido por a foto aqui, nesta espécie de diário aberto, um lugar que me dá, ao mesmo tempo, o aconchego da intimidade e a liberdade do anonimato.


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obrigada, Miguel, pela coragem por esta publicação.
ainda esta manhã pensei que este teu diário está quase a fazer 20 anos. e esta entrada é mais um exemplo da sua excelência.

Obrigado eu, Margarida, pela tua atenção de sempre.
Este ano o "aniversário" (17°?) calhou em plena tempestade e eu esqueci-me por completo de fazer um texto sobre o assunto, só me lembrei quando li o teu comentário.

É uma foto tão corajosa como necessária a ti próprio, tu mesmo o reconheceste e pela minha parte posso dizer-te que não me chocou a não ser o facto de preferir que não estivesses nessa situação.
Abraço muito grande do João Roque

Muito obrigado meu querido amigo. Foi tão bom ter a vossa visita.

Michael Baggins (and just as cute and special as any in that family...)

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