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resiliência
rosas
innersmile
Mais duas estadias no hospital, mais cirurgias. No mês passado, fui internado para ser submetido a uma cistectomia radical, que foi, nos últimos anos, o meu maior medo. Ou seja, a remoção total da bexiga, por causa do carcinoma, enquanto ele não se lembrava de começar a disseminar. Agora tenho uma urostomia, e apesar de já ter passado mais de um mês, ainda não me habituei à ideia. Acho que a minha cabeça vai demorar algum tempo até incluir esta situação no mapa corporal que a nossa mente cria, apesar de, pelo menos uma vez,ter tido um sonho em que já estava urostomizado.

Já este mês novo internamento, curto, por causa de uma infecção. Felizmente desta vez não era uma bactéria multi-resistente, e a coisa está a resolver-se com alguma tranquilidade. Mas muito provavelmente a infecção teve a ver com a urostomia, o que me traz mais e novas preocupações quanto ao futuro. O estoma é uma via aberta para infecções, e eu, no estado em que estou, sou mais vulnerável e suscetível.

Como se tudo isto não bastasse, o temporal da semana passada causou estragos no telhado do meu prédio, e já me choveu no quarto, mesmo em cima da cama.

Dizer que estou saturado disto tudo, destes últimos meses, destes últimos anos, da forma como a minha saúde se deteriorou, é pouco. Na verdade estou desesperado, para além do limite do suportável. Por vezes penso se não estarei a lutar ingloriamente contra uma lenta e agónica inevitabilidade.

A vida tem-me tirado tudo, e não posso dizer que é aos poucos, pelo contrário tem sido à bruta. Perdi os meus pais, perdi o meu irmão, perdi a saúde, perdi o gosto e a energia para o trabalho, perdi autonomia ao ponto de ter de ter em casa ajudas de cuidadores, perdi a vontade e o gozo de ir ao cinema,ou aos concertos, ou ao teatro. Perdi amigos e companhias, nem digo que propositadamente se afastaram, mas simplesmente porque a vida, a ”normalidade”, a vida que corre lá fora de modo inexorável, não se compadece com quem cai e fica para trás.

Terminar este texto com uma nota positiva? Não sei, não sei se tenho promessas, esperanças, sonhos a que agarrar. Tenho uma certa resiliência, que nasceu comigo e me vai impedindo de cair. Vou-me aguentando.

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Meu caro amigo -- I knew things were tough, but didn't realize they were quite this tough. I am so sorry...I wish I were closer so I could do something tangible to help. Voce vai ficar no meu coracao cada dia, sem duvida. Patricia

Thank you Dear Cronopio. Your words warmed my heart and brought tears to my eyes.

Uma "certa" resiliência? Tu és a resiliência personificada. Abraço grande

É isto. É isto. Um abraço guarda-chuva.

Não é mérito meu. Saí assim.

Perdeste amigos?
Nem todos, sabes que estou e estarei sempre ao teu lado.
Grande abraço de Massamá.

Obrigado João, eu sei.
Mas é inegável que um processo destes nos torna mais sós. Deve ser o preço que pago por nunca ter tido vontade ou coragem de estabelecer uma relação "familiar" afetivamente forte.

Há amigos que ficam, mesmo que longe. :*

[Sabias que é só para saber de ti que ainda venho ao livejournal? Quero-te bem.]

Edited at 2018-11-24 02:09 am (UTC)

Um beijo Carla, obrigado

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