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facas de caça
rosas
innersmile


Um dos contos de A Rapariga Que Inventou Um Sonho, o livro de Haruki Murakami que estou prestes a terminar, exemplifica bem algumas das razões pelas quais eu gosto tanto da ficção do autor. Como quase todas as 24 histórias que compõem o livro, passa-se muito pouco, as situações são quase banais, o enredo tem poucas peripécias. Nesta história, o narrador encontra-se, juntamente com a mulher, a passar férias num resort, e habituaram-se a ver um par de outros hóspedes, americanos, mãe e filho, este deslocando-se numa cadeira de rodas. Não há praticamente interacção entre os dois casais, até que, na véspera da partida, de madrugada, o narrador tem uma pequena crise de ansiedade, sai do quarto com uma garrafinha do minibar, procura uma das esplanadas dos bares do hotel, fechados àquela hora, para beber a sua bebida e relaxar um pouco. Sentado numa mesa, está o rapaz americano da cadeira de rodas, e desenrola-se entre ambos uma pequena conversa, em que um dos temas são as facas de caça, precisamente o título do conto.

Ao fim de poucas linhas, eu já estava completamente identificado com o narrador, quase como o conto se passasse comigo, e foi de tal ordem que passei a narrativa a projectar a paisagem num resort onde há uns anos, passei umas curtas férias, no Sinai. Qualquer descrição, um recanto do jardim, as esplanadas, a praia, as plataformas no mar de apoio aos banhistas, correspondia àquilo que me recordo desse hotel de que nem me lembro do nome.

Um dos aspectos que me fascinam na literatura de Murakami é como tudo é tão banal, é tão do dia a dia das pessoas, e no entanto há como que uma camada invisível, mais pressentida do que explícita, onde as coisas têm uma dimensão surreal. E é desta sobreposição entre o real e o surreal que nasce uma projecção emocional por parte do leitor. Passa-se como nos sonhos, em que o banal e o absurdo se misturam para nos ajudar a processar, não tanto os acontecimentos, mas sobretudo as emoções que dominam o nosso subconsciente.

Ainda por cima a escrita de Murakami é simples e directa, o que torna a leitura um exercício de prazer.


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:) são tão boas, as tuas críticas.

Obrigado Margarida. Pelo comentário, e também pelo Murakami :)

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