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“Já à chegada a (Cidade de) Guatemala houve um incidente mesmo à frente do nosso autocarro: dois cães completamente desorientados meteram-se no meio do tráfego infernal da auto-estrada e, claro, um deles foi atropelado e provocou um acidente entre o carro que o atropelou e uma motocicleta. O condutor da motocicleta deu uma cambalhota mas não pareceu ter-se magoado muito. O carro desapareceu, mesmo sem pára-choques traseiro. Claro que eu não olhei, para não ver e ficar marcado pela imagem do acidente, mas mesmo assim impressionou-me olhar para os cães e perceber que iam morrer logo a seguir.”

Escrevi este texto aqui há muitos anos, este incidente que descrevo passou-se faz amanhã exactamente 9 anos. Recordo muitas coisas das minhas viagens, mas este episódio nunca me saiu da mente, nunca esqueci por completo o sentimento de angústia que senti. Sei que soa a clichê, mas de facto há momentos, alguns bem recuados no tempo, que continuamos a rever na nossa mente como que em câmara lenta. E que normalmente se referem a situações de angústia alheia a que assistimos, em que o tempo parece suspender-se e tudo à nossa volta desaparece, quase como se, de repente, tivéssemos acesso às grandes dores do mundo, dos outros, sejam eles uma pessoa ou um animal.

Um dia, não sei se já falei disso aqui, ia a sair da megastore da Virgin, em Oxford Street quando, mesmo à minha frente, estacionou um carro. Um ciclista, que seguia velozmente atrás do automóvel, começou a ultrapassá-lo no preciso momento em que o condutor do automóvel abriu a porta para sair. A bicicleta embateu na porta, e o ciclista foi projecto por cima do capot do carro e estatelou-se no chão, batendo com a cabeça na esquina do lancil. Isto tudo passou-se mesmo diante dos meus olhos, eu fiquei parado a olhar, completamente absorvido por aquela sequência de acontecimentos. Poucos momentos depois de embater com a cabeça no lancil, e ainda antes de haver tempo para outras pessoas que assistiram à cena acorrerem ao ciclista, um fino fio de sangue começou a escorrer-lhe do ouvido. Eu desviei o olhar, aliás deixei sequer de conseguir ver, tapado pelas pessoas que se acercaram, e afastei-me rapidamente, sem qualquer curiosidade em saber o que se passou a seguir.

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