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uma nova maneira de encarar o mundo
rosas
innersmile


Comecei há dias a ler o livro Jalan Jalan, da autoria de Afonso Cruz. Já aqui há uns anos tinha feito uma tentativa de ler um livro do autor, mas desconsegui, como se diz na minha terra. Desta vez, atraíram-me os temas e a própria estrutura do livro: textos curtos, reflexões despoletadas por leituras ou por pequenos episódios da vida real, quase sempre dominados pelo signo da viagem. Talvez o que me tenha atraído é o facto de, assim descritos, remeterem para os textos de um blog, que é aquilo que eu gosto de escrever.

Logo nas páginas iniciais do livro, Afonso Cruz explica que Jalan Jalan, na Indonésia, sugere a ideia de passeio. Jalan significa andar, e a repetição traduzirá a ideia de andar para andar. Jalan também significa rua, e eu lembrei-me de que tem esse mesmo significado na Malásia, e até tenho uma fotografia tirada no bairro da chamada comunidade portuguesa de Malaca, à placa toponímica da Jalan D’Albuquerque.



Ontem uma passagem do livro fez-me pensar que, do ponto de vista dos acontecimentos do mundo, os dois acontecimentos que mais me marcaram pessoalmente, foram a Queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e o ataque ao World Trade Center de Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001. A nossa visão do mundo vai-se construindo aos poucos, à medida das nossas vivências diárias, dos acontecimentos políticos e sociais que se vão sucedendo no quotidiano. Os dois acontecimentos que referi tiveram o efeito de destruir em minutos, essa visão do mundo que tinha levado uma vida a construir, e obrigaram-me a, entre o perplexo e o desnorteado, tentar perceber “uma nova maneira de encarar o mundo” (para roubar uma frase feliz de uma canção tão notável quanto antiga, do Quarteto 1111).

De sentido contrário, houve dois acontecimentos que marcaram muito positivamente a minha vida, embora tenham sido de natureza exclusivamente pessoal: os três meses, de abril a junho de 1998, que vivi numa pequena cidade do Wisconsin, no midwest dos Estados Unidos, e as três semanas de janeiro de 2003 que assinalaram o meu regresso a Moçambique, depois de uma ausência de 27 anos. Com o primeiro, aprendi a conhecer e a amar a América e os americanos (é impossível amar sem conhecer, ao contrário do que acontece com o ódio), e cresci muito do ponto de vista pessoal, descobri que conseguia funcionar sozinho no mundo, aprendi a identificar e nomear os meus medos, quase com a clareza de um taxonomista. O regresso a Moçambique, por outro lado, parece que ainda foi mais importante para mim, porque me permitiu reencontrar uma parte de mim que eu nem sabia que tinha perdido, e que só quando a encontrei percebi a dimensão da falta que me fazia e quão importante era para mim. Acho que posso dizer que aquele eu que voltou de Moçambique era já, passadas escassas três semanas, uma pessoa diferente do eu da viagem de ida.

A nível afetivo houve duas pessoas, ou melhor duas relações que me marcaram de forma indelével:a primeira vez que verdadeiramente amei uma mulher, que me apaixonei perdidamente, teria uns 25 anos, mais ou menos. Essa mulher tornou-me uma pessoa melhor, mais sabedora, mais voltada para fora e para o mundo, mais culta. Não porque ela fosse isso tudo, mas porque me levava a ser. E a primeira vez que me apaixonei, tinha 37 anos, por um homem, e vivi a mais alucinante história de amor que me aconteceu, cheia de aventuras e experiências. Foi um amor breve, mas que demorei anos a processar e a digerir, e deu-me muito do que tenho hoje, até a vontade e o gosto de escrever.

Deixei de fora a doença. A doença grave que tive, quando tinha 21 anos, e que ocupou dois anos da minha vida, e a que nos últimos 6 anos domina toda a minha vida actual. A doença, quando é grave, é a coisa mais devastadora que pode acontecer numa vida. Aprendemos a viver com uma nuvem de chumbo a pesar-nos a alma, com o frio do cano do revólver permanentemente encostado à nuca. É como um buraco negro, que absorve toda a energia que nos anima, e nos deixa pouca margem para conseguir fazer coisas fora do seu domínio. Escrever, como ler, são como que um exercício de rebelião, uma tentativa de encontrar um ainda que minúsculo espaço de liberdade.

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Berlim caiu em 1989, não 2009. Seguramente um erro involuntário - pode excluir este comentário depois.

Oops. Obrigado pela chamada de atenção, vou corrigir.

O teu texto publicado depois da segunda foto é absolutamente notável, Miguel.
Um abraço do tamanho do mundo do teu incondicional amigo
João C.R.

Obrigado, querido João. Um grande abraço.

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