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Fui ver no fim de semana ao TAGV a peça Actores, encenada por Marco Martins (o realizador de Alice e de São Jorge), e com o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes, o Miguel Guilherme, a Rita Cabaço e a Carolina Amaral. Gostei muito da peça, mas confesso que fiquei perturbado com a recepção do público: as pessoas riam-se efusivamente com aquilo que me pareceu ser um drama, achavam cómico aquilo que a mim me pareceu frágil e angustiante. Não percebi, a sério, se fui eu que me enganei, e o espectáculo era de facto uma comédia, ou se, ao contrário, essa reacção mostra que a generalidade das pessoas já nem está disponível para ver e ouvir aquilo que se está a passar à sua frente, e reage em função de uma ideia pré-concebida.

A dramaturgia da peça assenta numa ideia muito rica e também ela um pouco perturbadora: trabalhar com um leque de actores, co-criadores do espectáculo no sentido em que este assenta nas suas próprias memórias dos momentos mais difíceis e angustiantes das suas carreiras, dos seus percursos enquanto actores. Não é um best of, nem sequer uma espécie de revisão de carreira. É mesmo um mergulho aos momentos mais difíceis dos seus percursos profissionais, quando, por exemplo, tiveram de lidar com a frágil exposição das audições ou com o embaraço do insucesso e de trabalhos de recurso para assegurar a sobrevivência.

Para incrementar o sentimento de imersão, dando maior veracidade ao jogo entre o que é real e o que ficção, o encenador opta por organizar o espectáculo como se ele fosse uma sala de ensaios, onde a estrutura da peça e a sua construção estão ali expostas ao nosso olhar. Assim, vê-se ao fundo uma série de folhas A4 que contêm a estrutura da peça e o seu desenvolvimento. Um ecrã em plano superior mostra-nos, com uma preocupação quase documentarista, a identificação dos diferentes espectáculos que cada um dos actores vai convocando, bem como o seu contexto cronológico nas respectivas carreiras. No segmento inicial, o das audições, um letreiro luminoso mostra, em letras vermelhas, uma espécie de didascálias das emoções que se esperam dos candidatos. Mas o exemplo mais flagrante deste jogo é talvez o facto de o próprio encenador participar na peça, dando, a partir do fundo da sala onde estamos, indicações de cena aos actores em palco.

O segmento final do espectáculo é, na minha opinião, o mais forte do ponto de vista emocional, e talvez aquele em que o equívoco do público se torna mais embaraçoso: cada actor conta um sonho ou um pesadelo que tenham tido relacionado com a sua profissão ou com determinado trabalho. Um deles sonha que acabou de assassinar todos os espectadores presentes numa determinada récita quando lhe vêm dizer que os seus pais também estavam na plateia. Outro sonha que está a fazer um monólogo shakespeareano e lhe começam a cair os dentes, um por um, mas ele persiste na representação tentando disfarçar a falta dos dentes.São momentos em que a vulnerabilidade e a fragilidade dos actores se torna muito emocional, quase arrepiante.
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