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(não canto senão o amor) + no rancho fundo
rosas
innersmile
Não canto senão o amor
Ainda que, se é só o que resta,
A cruel secura das cinzas

Canto a memória dos dias
A canção que passava na rádio
A estrada de montanha ao sol
O velho e esquecido hotel de província

Não canto outra coisa, o teu desvelado adeus
A serena crueza desse adeus verdadeiro

As cinzas. A fotografia antiga,
As cores evanescentes.

O tempo cabeceia sonolento
Enrolado sobre o tapete ao fundo da cama


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Quando, depois de o ter escrito, li pela primeira vez este poema numa madrugada de insónia, veio-me de imediato à cabeça a canção No Rancho Fundo, um velhíssimo samba-canção da autoria de Ary Barroso e Lamartine Babo. Nos anos 80, graças a uma novela, uma versão de uma dupla de música sertaneja tornou-a muito popular, e foi essa a versão seguida, mais recentemente, pelo Miguel Araújo e pelo António Zambujo, que a incluiram no alinhamento da série de concertos que realizaram juntos.
Apesar de não ter sido o seu criador original, escolhi para pôr aqui um clip com a versão de Sílvio Caldas, um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos. Foi gravada em 1939, com o Conjunto Regional, e escolhi-a, não tanto pela prestação vocal de Sílvio Caldas, aliás excelente, mas pelo alegre e fulgurante arranjo musical, que é por si só um exemplo de como o samba consegue juntar, na mesma passada, a tristeza de amar e a alegria de viver.
Se calhar, era esta a canção que passava na rádio, de que fala o poema.