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enquanto a inglaterra dorme
rosas
innersmile


A reler Enquanto a Inglaterra Dorme, um dos primeiros romances do David Leavitt e que li, a calcular pela data da assinatura que apus nas primeiras páginas, há mais de 20 anos, em 1996! Talvez por isso, não me lembrava nada do livro, a não ser a grande polémica que rodeou o seu lançamento. Leavitt foi acusado, em tribunal, por Stephen Spender, de lhe ter “roubado” a vida, e de ter plagiado o seu livro World Within World. A primeira edição norte-americana do livro, de 1993, foi pura e simplesmente guilhotinada, e o livro saiu, finalmente, em 1995, depois de um acordo judicial e com alguns cortes e alterações.

Como nunca li a autobiografia de Spender (dele só li O Templo, e há muito tempo), não sei avaliar a questão. E recordo que, anos mais tarde, Leavitt também se “inspirou” em vidas reais, as de Srinivasa Ramanujan e do matemático inglês G.H. Hardy, para escrever um outro romance, The Indian Clerk (além de que escreveu igualmente uma biografia de Alan Turing, muito antes de Turing se ter tornado na espécie de ícone gay que é hoje).

O ponto é que estou a gostar imenso de Enquanto a Inglaterra Dorme, acho que o Leavitt tinha uma grande dinâmica narrativa, e uma maneira, ao mesmo tempo abrupta e suave, de apresentar e resolver os conflitos, e que depois, em sucessivos romances, se veio a tornar uma das marcas da sua escrita.

E talvez por se tratar dos seus primeiros romances, ou por, nessa altura, ainda não ser muito vulgar uma narrativa da relação afectiva homossexual, os livros do David Leavitt, quer os romances quer os contos, abordavam e desenvolviam muito este tema, eram verdadeiramente obras de “literatura gay” (a um nível do qual, por exemplo, o seu último romance The Two Hotel Francforts, passado em Lisboa, está bastante longe). Foi esse o caso de The Lost Language of Cranes, e é igualmente o de Enquanto a Inglaterra Dorme.

Nestes romances, a questão da vida secreta, no armário, não assumida, é sempre o pano de fundo das histórias, não o motor do drama, esse é sempre a relação afetiva, mas o contexto em que as personagens se movimentam. Mas, como disse, é no relacionamento afetivo, na descoberta da sexualidade, ou de uma sexualidade descoberta no seio da relação amorosa, e quais os contornos que essa descoberta assume quando se trata de duas pessoas do mesmo sexo, que o livro de Leavitt mais nos envolve e entusiasma.