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conto: 2074
rosas
innersmile
2074

Quando paras em frente à casa onde viveu a tua avó, estás numa cidade estrangeira. As árvores frondosas formam um país de sombra, que separa o quarteirão de todo o bulício em volta. A terra comeu o alcatrão da rua em crateras largas e profundas. Os passeios desapareceram, e no seu lugar as vastas e nodosas raízes das árvores.
Na casa geminada com aquela onde viveu a tua avó, o tempo desfez os muros, o jardim é um mapa desenhado na areia, e a ruína tomou conta do interior, deixando ver, pelas janelas do primeiro andar, o céu aberto no lugar do telhado.
Em frente, do outro lado da rua, as duas casas estão pintadas de amarelo e vermelho, e uma placa desenhada por mão pouco firme, anuncia um clube de bairro. Uma caixa de refrigerantes apodrece de ferrugem na varanda, e desliza ainda a sombra da última pessoa que entrou pela porta partida.
Nos quarteirões em volta, naqueles que consegues avistar do ponto onde estacionaste o carro, espalha-se a mesma ruína e o mesmo vazio, com o calor a queimar o ar para lá da nave de sombra que te abriga.
Só a casa onde viveu a tua avó se destaca. Permanece intacta. As paredes pintadas de fresco, os muros altos protegendo um jardim fresco e muito verde, as caixas dos aparelhos de ar condicionado a marcarem a brancura do edifício, o prato de uma antena parabólica a desenhar o telhado renovado. Uma janela aberta, no primeiro andar, e por detrás das grades de segurança, o esvoaçar de uma cortina à brisa da tarde.
Tentas fixar a casa, guardá-la nítida e intacta, para a poderes levar contigo e partilhá-la com aqueles a quem ela diz mais do que a ti. Mas no próprio momento em que ligas a ignição do carro, e começas a subir a rua, devagar e com cuidado por causa dos buracos, sabes que a casa começa a desaparecer, a desfazer-se em fumo. Tentas agarrá-la, mas é inútil.
Da esquina onde ficava a mercearia onde compravas pastilhas de mentol, com as moedas que em segredo a tua avó te dava, espreitas pelo espelho retrovisor. A casa está lá, efectivamente. Mas tu já não sabes onde a vês intacta: se no quarteirão sombrio de uma cidade estrangeira, se na ruína da tua própria memória.
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eu tb comprava doces na mercearia perto da casa da minha avó, com as moedas que ela me dava do troco que sobrava das compras... era bom... :)

e esse texto... me fez sentir visitando a casa da tua avó... :)
lindo!

:*

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