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bilac vê estrelas e o resto
rosas
innersmile


Bilac Vê Estrelas é uma fantasia policiária em volta da figura de Olavo Bilac, que tem como mote um dos seus sonetos mais populares, aquele que termina assim: "Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e entender estrelas".

Ruy Castro é um virtuoso da palavra, e constrói uma narrativa (quase) integralmente suportada em factos e personagens históricas. O "quase" é precisamente o delírio ficcional que, "quase" literalmente, põe o grande poeta parnasiano da língua portuguesa (a Última Flor do Lácio, como a denominou num outro poema), a ver estrelas.

Conheço pouco, e muito dispersamente, a obra de Olavo Bilac, apenas aquilo que li, séculos atrás, nas aulas de literatura em língua portuguesa, do liceu. E aquilo que se vai atravessando no caminho, normalmente através de referências e citações. Por exemplo, o soneto Última Flor do Lácio, conheci por causa da canção Língua, de Caetano Veloso, no velhinho disco de 1984, Velô, que ouvi pela primeira vez em casa de uns primos, que viviam em Queluz, numa das minhas idas ou vindas de Londres.

E no entanto o meu conhecimento mais antigo da poesia de Olavo Bilac vem de muito tempo atrás, de outra vida, de outro mundo. Quando o ano lectivo de 1974/75 terminou, em Moçambique, em junho de 1975, poucos dias antes da independência do país, estivemos muitos meses sem aulas, até iniciarmos o ano lectivo apenas em janeiro de 76. A ideia era acertar um novo calendário escolar no país, já que o calendário escolar seguido até aí, o da chamada metrópole, adaptava-se pouco ao ritmo anual da vida em Moçambique.

Durante esses largos meses passávamos a quase totalidade do tempo no próprio liceu. Em actividades desportivas e artísticas, ou em trabalhos em prol da própria escola (fazer limpezas, lixar as carteiras, capinar no jardim), ou em actividades políticas: havia grupos de trabalho, os grupos dinamizadores, havia trabalhos de preparação de congressos, havia comícios semanais no pavilhão desportivo.

Para além da actividade política e dos trabalhos no liceu, eu integrava o grupo de poesia. Reuníamos em dias certos numa das salas do liceu, onde tomávamos contacto com a poesia de autores moçambicanos dos anos da guerra colonial, muitos deles combatentes, com a poesia dos chamados poetas nacionalistas, e com outros poemas que eram chamados à colação por terem temática relacionada com o momento político: a revolução, a liberdade, por aí. Depois cada um escolhia um poema, que decorava, e apresentava-o quando a ocasião se proporcionava, num dos comícios ou num sarau por exemplo. Tinha, até há pouco tempo, um caderninho que vinha desse tempo, com os poemas transcritos à mão, mas não sei se na débâcle da casa dos meus pais ele se salvou ou se foi na enxurrada.

Não me lembro do poema que me calhou, mas lembro-me perfeitamente de um dos poemas que, desde então, sempre guardei na memória e me acompanhou. Era de Olavo Bilac, e chamava-se O Pássaro Cativo. Quando penso nesse poema ouço-no com a toada e a pronúncia da minha colega, negra, do grupo de poesia, que ficou com ele. Por isso, mesmo conhecendo pouco a obra de Bilac, o seu nome faz parte da minha household, é um nome familiar, porque vem desde esse tempo, o da infância e juventude, quando retemos para sempre as coisas que são importantes nessa altura.

"O PÁSSARO CATIVO

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão..."


- Olavo Bilac