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a capital
rosas
innersmile


Costumo dizer que a razão porque prefiro Machado de Assis a Eça de Queirós, é porque o Assis, no meio da ironia e do sarcasmo social, mantém alguma ternura pelos seus personagens, enquanto o Eça os trata de maneira impiedosa, com a implacabilidade de um entomologista que não se incomoda nem um pouco com o insecto agonizante que sacrifica em nome da ciência.

Mas acho que nunca o tinha lido tão implacável, mesmo cruel, como neste A Capital, a história de um rapaz de província que aproveita uma inesperada herança para tentar realizar o seu sonho de ter uma vida notável em Lisboa. Ninguém se safa neste romance, nem o Artur Corvelo, personalidade fraca e insegura que persegue com ingenuidade todas as ratoeiras que a vida lhe estende, nem toda a panóplia de pulhas interesseiros que se aproveitam dele para lhe ir delapidando a herança, a começar pelos tenebrosos Melchior e Meirinho e passando pela Concha, que, apesar de tudo, ainda é aquela que apresenta motivos mais “respeitáveis”: uma prostituta espanhola tem de fazer pela vida... Chega a ser confrangedor, há uma altura em que um tipo sente vontade de dar um par de tabefes ao Arturzinho a ver se o rapaz mete algum juízo naquela cabeça iludida.

Eça traça um retrato impiedoso da sociedade portuguesa da altura, e que, como todos sabemos, nunca se afasta muito da de hoje! Os hábitos sociais e os estilos de vida contrastantes, o ambiente político, o jogo da sociedade influente, o clima da cultura literata, tudo é dissecado ao bisturi e exposto à observação como uma ferida pustulenta. Com muito humor, claro, e com a mestria narrativa e de linguagem que faz do autor um dos maiores, ou mesmo o maior de todos os prosadores nacionais.
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