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história a história, áfrica
rosas
innersmile
Começou no passado domingo uma nova temporada da série História a História, da autoria do historiador Fernando Rosas, desta vez dedicada a África e ao tema da história colonial portuguesa. Neste primeiro episódio o tema foram as chamadas “campanhas de pacificação”, em finais do século XIX e inícios do XX, e que, de facto, marcaram o início da ocupação colonial de Portugal em África, que, até aí, se limitava a uma presença apenas no litoral destinada a servir o comércio de escravos.

Claro que a perspectiva de Fernando Rosas é, como acontece habitualmente nos seus programas, marcada por uma certa visão da história e da sociedade, muito política, ideológica, de esquerda, influenciada pela economia política e pela história dos meios de produção. Mas isso não constitui propriamente um problema, antes pelo contrário, uma vez que nos dá um contraponto à visão da história oficial, institucional, e que, no meu caso, pelo menos até certo ponto da minha formação escolar, era a visão imperial do Estado Novo, também ela completamente política e ideológica.

Naturalmente, não quero perder esta série de episódios. De resto, o ponto deste texto era precisamente referir como, ao ver o episódio de domingo, registei como este início da presença colonial portuguesa em África, em particular as campanhas de pacificação, estavam ainda tão próximas e presentes na vida da minha família e na minha, durante a infância e o tempo em que vivi em Moçambique. Desde logo, porque a minha minha mãe contava muitas vezes como a sua própria avó, Maria, recordava com orgulho o dia em que foi ver o Mouzinho de Albuquerque desfilar vitorioso nas ruas da baixa de Lourenço Marques.

Na minha primeira infância, passada até aos cinco anos em Lourenço Marques, vivia na mesma casa desta minha bisavó Maria, e apesar de ter apenas uma memória muito vaga, lembro-me de que me deitava na sua cama, num cantinho do quarto grande do primeiro andar da casa da Gomes Freire, e que ela me dava, de um porta-moedas que guardava debaixo da almofada, dinheiro para eu ir às escondidas à cantina do Sr. Aires comprar pastilhas brancas de mentol. Tinha de ser às escondidas, porque estávamos ambos proibidos de as comer, por razões opostas: eu por ser ainda muito novo, ela por ser já demasiado velha.

A avó Maria, como todos a chamávamos, morreu nonagenária. Era madeirense, e chegou a Lourenço Marques pela primeira vez em 1894, pouco mais que uma criança, contratada como dama de companhia das crianças de uma família. Passado um ano regressou à Madeira com essa família, mas voltou depressa para Lourenço Marques, de onde nunca mais saiu até ao ano da sua morte, 1967, poucos meses depois de eu, com cinco anos de idade, ter ido, como os meus pais, viver para Nampula. A minha avó Lucinda, sua filha e mãe da minha mãe, nasceu em Lourenço Marques, em 1909. O meu avô José, pai da minha mãe, nasceu também em Lourenço Marques, em 1905, mas desconheço em que ano o seu pai terá ido para Moçambique, se ainda no século XIX ou se já no século XX.

No episódio de Domingo da série de Fernando Rosas evocaram-se alguns nomes dos oficiais portugueses que participaram nesse esforço colonial, e, mais uma vez, registei como esses nomes fazem parte da memória onomástica da cidade de Lourenço Marques, nas suas ruas, praças e avenidas: o Mouzinho, é claro, mas também Paiva Couceiro ou Andrade Corvo, entre outros. Já em Nampula, a escola primária que frequentei chamava-se Roberto Ivens, que foi, juntamente com Hermenegildo Capelo, um dos exploradores que fez a viagem de Angola à contracosta, em Moçambique, para tentar firmar a presença portuguesa no interior do continente africano, e dessa maneira segurar o chamado Mapa Cor de Rosa, então alvo da contestação inglesa.