Previous Entry Share Next Entry
granta, isabela figueiredo, andrei platonov, milan kundera (e o acordo ortográfico)
rosas
innersmile


O número 10 da revista Granta Portugal é a última edição da revista que leva este título. A partir da próxima, a primeira de 2018, vai passar a chamar-se Granta Portugal | Brasil, agregando numa única as duas edições em língua portuguesa. Não sei se gosto muito da alteração, sobretudo porque sou um bocado reaccionário, no sentido em que não gosto de mudanças, acho que, pelo menos num nível mais imediato, prefiro sempre que fique tudo como dantes.

Ainda não sei qual é a ideia dos editores da futura revista para o seu conteúdo, o que é outra coisa que me chateia: assinei a revista com uma determinada expectativa, e agora mudam as regras a meio do jogo. Tenho receio de que se perca a oportunidade de se conhecerem alguns dos textos que a Granta tem publicado e que são traduções de textos já anteriormente publicados noutras edições da revista, e que, de uma forma geral, são sempre os mais interessantes de ler.

Por outro lado, e como os textos de autores portugueses nem sempre são muito entusiasmantes (são, na maior parte das vezes, demasiado curtos, e o seu valor ou interesse literário e narrativo nem sempre corresponde à expectativa), confesso que tenho uma certa curiosidade em aceder aos textos originais de escritores brasileiros. Tenho uma ideia em geral muito favorável da literatura brasileira, e vai ser uma boa oportunidade de conhecer uma maneira tão diversa de trabalhar e contar em prosa histórias na língua portuguesa.

(Eu sei que não vem para o caso, mas estou-me tão a borrifar para o debate sobre o Acordo Ortográfico. Quero lá saber se a coisa respeita a pureza da língua ou se tem ou não tem os cês mudos ou se se confunde o espetador do filme com o espetador do espeto! Quero lá saber dessa ganga. A língua é viva, e o que importa é o que as pessoas fazem dela, e a sua riqueza oral e escrita, e a capacidade de gerar literatura que seja instigante e sedutora e intelectualmente desafiante. O resto são polémicas para entreter os que em vez de lerem, se ocupam a discutir merdas a que, a bem dizer, eles não dão importância nenhuma: grande parte, atrevo-me a dizer que a maior parte, dos portugueses que vociferam contra o acordo, escrevem mal, com erros ortográficos e de sintaxe de palmatória, acham que a eficácia da mensagem é mais importante do que a sua beleza ou correcção… Que diferença é que lhes faz se dão erros numa ou noutra versão da ortografia?!)

Ainda me faltam ler uns três textos desta edição da Granta dedicada à revolução, um deles do grande mestre Mário de Carvalho, muito provavelmente o melhor ficcionista português vivo. Admito que quando recebi o meu exemplar, folheei, lí o índice, a biografia dos autores, e não fiquei muito entusiasmado. Mas ao dar delas, há textos magníficos, que me arrebataram completamente. Desde logo um conto da Isabela Figueiredo, intitulado Beleza Infinita. Mal vi o texto, fiquei a salivar, e a sua leitura ultrapassou a expectativa. A Isabela é uma escritora fantástica, e este conto, tão bem pensado e concretizado, tem aquele golpe de asa (habitual nos textos da autora) de estar a contar uma narrativa em particular, mas ao mesmo tempo de estar a falar de nós todos, daquilo que somos enquanto seres sociais, da nossa portugalidade, da nossa maneira de viver e da nossa mentalidade. E depois escreve de maneira magnífica, com um asseio e uma simplicidade poderosas, com um sentido de humor que consegue ser simultaneamente mordaz e carinhoso.

Para além deste, adorei dois outros textos, um do escritor russo Andrei Platónov, um conto ( ou será já uma novela?) escrito em 1937, sobre um soldado que regressa a casa depois da guerra, e que é uma jóia, uma verdadeira obra-prima. É espantosa e comovente a sua capacidade de falar das coisas mais delicadas e subtis num ambiente de extrema pobreza, aliás miséria, em que as pessoas passam por dificuldades inimagináveis, a um nível quase infra-humano, mas que mantêm a delicadeza e fragilidade do espírito humano.

O outro texto que adorei é de Milan Kundera, Um Ocidente Raptado, ou a Tragédia da Europa Central. Trata-se de um texto já antigo, publicado originalmente em inícios da década de 80, quando a geografia da Europa era completamente outra, tendo o texto de Kundera um propósito assumidamente militante, concretamente o de resgatar os países da Europa Central (República Checa, Hungria e Polónia) do seu alinhamento a Leste, sob o domínio da Rússia na sua vertente soviética, responsabilizando o Ocidente, no entendimento político da expressão, de estar a alienar uma parte importante da sua essência, da sua identidade. O que é muito interessante é que este texto de Kundera, que de facto se refere a outro mundo muito diferente daqueles em que vivemos, um mundo que deixou de existir (mas que foi o meu, e que de certa forma continua a ser, dado o papel determinante que têm, na nossa cosmogonia, os anos de formação pessoal), mantém uma actualidade e um interesse absolutos.

Por um lado, a sua análise veio a mostrar-se de uma clarividência cristalina pela própria evolução da Europa após a década de 80 e o desabar da União Soviética e do seu bloco, quer no que que toca à União Europeia, quer no que diz respeito à Europa de Leste. Por outro lado, o texto de Kundera ajuda a perceber e a explicar a actual geo-política europeia, e a fragilidade, ainda que esforçada, da União Europeia, sobretudo da Alemanha, no modo de enfrentar o gigante russo. Além disso, e num tempo tão marcado, e dominado, pela economia e pelas suas transacções e preocupações, não deixa de constituir uma enorme chamada de atenção o ênfase que o texto de Kundera põe na componente cultural como o factor decisivo da construção de uma identidade europeia, em que a diversidade cultural, ao invés de constituir um factor desagregador, é antes o cimento que nos chama uns aos outros e nos mantém juntos. Uma lição que, de resto, podemos aproveitar para outros dilemas identitários que, de forma mais ou menos regular, vão surgindo em diversas regiões europeias, como é o caso, actualmente, na nossa Península Ibérica.

Não tenho aqui o texto para o citar com rigor, mas há uma frase do texto de Kundera, que, recordo, foi escrita em inícios da década de 80, que é, simultaneamente, de uma beleza imponente e de uma esclarecedora, e até radical, precisão. Diz ele que uma das diferenças entre a Europa Central e a Rússia, é que na Europa valoriza-se a maior diversidade cultural possível no mínimo espaço territorial possível, enquanto na Rússia, pelo contrário, procura-se a menor diversidade cultural no maior espaço possível. Acho que, no fundo, é isto que diferencia a vocação da democracia da vocação imperial.

  • 1
mas tu já leste a granta? mas tu já leste a granta?! foi a noite de insónia?
folheei mas, como tenho tantos para ler e outros tantos já encetados, terá de ficar para uma próxima vez.
quanto à junção PT/BR, nem é pelo AO, é mesmo por aquilo que referiste atrás, pela oportunidade de ler histórias traduzidas noutras grantas por esse mundo fora, e espero que mantenham essa regularidade. e é isso: eu paguei (ok, tb tive uma oferta simpática) por um serviço e agora viram as regras a meio do jogo.
ps: voltou a fotografia, eu preferia a BD.
ps2: estou a descobrir autores russos, para além dos clássicos e da nobelizada. o que anotas merece uma pesquisa.

olha, nem de propósito: caiu-me um post da granta no feedly e era este:
https://granta.com/djaimilia-pereira-de-almeida/

eu tenho o livro e emprestei-o à Lídia :)

o livro é o Esse Cabelo?

acho que tenho de pôr a Granta no meu feedly :)

sim, mas não foi à Lídia, foi à Magda, enganei-me. comprei-o ainda em 2015 mal saiu. vale a pena, se bem que não seja de muito fácil leitura.

põe, sim, vale a pena :)

qual é o endereço que pões no feed: granta.com?

Copiei a url. Acho que sim. Escreves e depois ele pp procura e tu associas.

ok, thanks, é como costumo fazer, mas às vezes tenho destas brancas. é do cúmulo das anestesias eheh

já li quase toda. mas foi uma questão de oportunidade, chegou na altura certa, peguei-lhe logo.

já tinha percebido o teu interesse pelos russos :)
até pensei que pudesse ser influência de um dos textos da Granta, o do Rui Cardoso Martins.

eu gostei das fotos do Alfredo Cunha, fazem parte de uma iconografia que me é muito reconhecivel, por causa da provecta idade cof cof


ainda não li, acho que foi mesmo coincidência (e ler a opinião do Milhazes no jornal ajuda. gosto dele :) )

ah, o Alfredo Cunha, ora bolas, vês como não prestei atenção? o AC... olha a provecta idade tb cof cof :p

  • 1
?

Log in

No account? Create an account