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livros: bufo & spallanzani, diário de um zé ninguém
rosas
innersmile


Uma obra prima. A intriga de Buffo & Spallanzani é instigante e surpreendente, mas, como seria de esperar, o grande trunfo desta obra é a escrita virtuosa e perfeita de Rubem Fonseca. O domínio é absoluto: da narrativa, da semântica, da sintaxe. Da língua portuguesa, que nas mãos de RF parece sempre mais rica e complexa mas ao mesmo tempo muito simples e directa. Em cada romance, RF cria não apenas uma densidade narrativa muito coerente, mas reinventa uma linguagem que funciona como um sistema perfeito.

Gustavo Flávio é uma personagem a la Rubem, em toda a linha, e o jogo que o autor faz com as referências literárias, uma das marcas da narrativa, é, ao mesmo tempo, um desafio ao leitor e um irónico exercício meta-literário.

De resto, Bufo & Spallanzani é um das grandes obras de Rubem Fonseca (que não escreveu pequenas obras, nem sequer nas suas colectâneas de contos breves), e que se insere, a letras de ouro, na máquina RF: pelo menos dois dos personagens apareceram ou aparecerão em outros livros do autor.

O gosto pela literatura como uma ‘fine art’ convive com a violência mais brutal ou o sexo mais erótico (vale trocar a ordem dos factores: o sexo mais brutal ou a violência mais erótica), ou com o gosto pela comida e as descrições luxuriantes das refeições, tornando os romances em exercícios de puro e sensual prazer, quer do espírito quer da carne.



Muito divertido, este clássico da literatura de humor oitocentista. Mas este diário desinteressante de um amanuense com uma vida banal, empregado de uma firma na City e vivendo num bairro dos subúrbios de Londres, é sobretudo uma caricatura da classe média inglesa do século XIX, e uma observação, que nalguns pontos chega a ser satírica e mordaz, do rígido sistema de classes da Inglaterra, tanto da época como da actual, bem como das regras e dos protocolos da vida em sociedade.

Mas para nós leitores deste início do século XXI, O Diário de um Zé Ninguém tem ainda a inesperada característica de se aproximar, de uma forma risível e surpreendente, dos nossos hábitos das redes sociais, quer dos blogs quer da necessidade de partilhar no facebook e no instagram os aspectos mais insignificantes do nosso quotidiano e das nossas vidas como se o que comemos ao almoço ou a visão dos nossos pés estendidos na praia fossem a coisa mais importante da humanidade.