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monologuing and monologuers
rosas
innersmile
«(...) I know this because I heard him explain the theory at least four times. He told it to everyone. It was tiresome to hear this theory repeated, but it was even more annoying to realize that he had not remembered that he had told you the story twice before.
That was something his friends had to endure. If he couldn't recall that he was repeating something to you verbatim - shrieking each predictable thing and looking eager and hopeful - that seemed to indicate that he cared more about the «(...) I know this because I heard him explain the theory at least four times. He told it to everyone. It was tiresome to hear this theory repeated, but it was even more annoying to realize that he had not remembered that he had told you the story twice before.
That was something his friends had to endure. If he couldn't recall that he was repeating something to you verbatim - shrieking each predictable thing and looking eager and hopeful - that seemed to indicate that he cared more about the monologuing itself than about you. The worst aspect of monologuers is their impartiality, their utter lack of interest in whoever they happen to be drilling into. Because it hardly matters who they are with, everyone is a victimized listener, great and small.
Bruce was a fairly bad listener. If you told him something he would quickly say that he knew it already, and he would go on talking. Usually he was such a good talker that you didn’t care that he alone bounced the conversational ball.»


- Paul Theroux, Bruce’s Funeral, in FRESH-AIR FIEND (no Kindle)

Um dos capítulos do livro de Paul Theroux, Fresh-Air Fiend é dedicado a Bruce Chatwin, e inclui três breves textos, dois deles sobre os livros What Am I Doing Here e Anatomy of Restlessness, e o primeiro, a pièce de résistance do capítulo, intitulada Bruce’s Funeral. Estes textos foram anteriormente publicados como introdução a um livro que reunia os escritos de Chatwin e Theroux sobre a Patagonia, que causou alguma polémica, na altura, porque vinha, de alguma maneira, dessacralizar um certo endeusamento que se formou à volta da figura de Chatwin, nos anos seguintes à sua morte, em 1989. Estou à vontade para o referir porque eu próprio venerava, e ainda venero, a figura e o génio literário de Bruce Chatwin, e nem as leituras da biografia da autoria de Nicholas Shakespeare e da correspondência de Chatwin publicada em Under The Sun, perturbaram ou beliscaram esse amor que sinto pelo autor.

O trecho que acima transcrevo é bem indicativo do tom deste texto dedicado a Bruce Chatwin, bem como de um certo estilo de Paul Theroux: depreciativo, mas ainda assim elogioso o bastante para não ser considerado má língua.O Theroux, neste tipo de registo (que ele tem outros, é evidente) é um bocadinho como aquelas pessoas que não dizem inteiramente mal dos outros, mas deixam ali uma notazinha mais ácida para que eles próprios sobressaiam.

De qualquer modo este trecho ajusta-se bastante à imagem que eu tinha do Bruce Chatwin, um tipo com um ego imenso, a precisar de reforços constantes, talvez para disfarçar algumas das suas fragilidades. A menor delas não seria o facto de Chatwin ser um homossexual praticante mas absolutamente secretivo acerca da sua orientação. Nada que, à luz do que foram os seus tempos e o meio em que viveu, fosse muito anormal.

Mas a razão porque o trago aqui hoje é porque ao lê-lo não consegui deixar de me lembrar imediatamente de algumas pessoas que colam a esta descrição na perfeição. Não quero ser mauzinho, e por isso ‘no naming names’, mas lembrei-me logo de uma ou duas em particular que são tal e qual assim, não conversam mas antes debitam monólogos que os outros se limitam a escutar, e por isso, como falam para elas próprias e não para o outros, nunca se lembram de que já contaram a mesma história vezes sem conta. E é como diz Theroux, isso pode ser bastante irritante. Mesmo que essas pessoas, na maior parte dos casos, sejam bons contadores de histórias.

O ponto, agora, é que estava a pensar nisto e que, se parece haver um número razoável de pessoas a quem encaixa esta descrição, não se poderá dar o caso de eu próprio ser um desses chatos que fala sobretudo para se ouvir a si mesmo? Tenho consciência de que às vezes falo quase incessantemente. Lembro-me da minha mãe, que era uma óptima ouvinte, mas que quando desatava a falar não se calava, com uma espécie de ânsia, de fuga ao silêncio. É verdade é eu sou dado a grandes silêncios, até porque passo muito tempo sozinho. E sou um razoável ouvinte, ou pelo menos tenho-me nessa conta. Mas há ocasiões em que desato a falar e eu próprio tenho consciência de que não me calo, e de que a partir de certo ponto já não estou a conversar mas a contar uma história, quase me esquecendo de que está alguém em concreto no lugar do ouvinte.

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