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outra casa
rosas
innersmile


Durante uma semana, a janela do meu quarto abria para um pedaço de rio, represado, onde, à tarde, os miúdos vinham dar mergulhos barulhentos, e durante a noite se ouvia o murmulho constante e suave da água a correr.

Durante uma semana, da minha janela quase tocava com a ponta dos dedos, uma nora grande e enferrujada. Uma azenha cujas pás, já quase desprovidas dos alcatruzes, nos recordavam, em perpétuo movimento, de como o passar do tempo é inexorável, tão belo quanto inútil.

Durante uma semana, a janela do meu quarto voltava para uma parede branca, quase imaculada, nove janelas a comporem abstratas geometrias, uma régua estreita a marcar a profundidade das águas, e a luz do dia a brincar ao cinema, declinando sombras e cores, lembrando, mais uma vez, que as horas passam, e passam mesmo sem nós.

Durante uma semana passeei por lugares carregados de memórias, de referências e lembranças. Alguns lugares doem mais, com mais veemência. Outros doem com dolência suave, quase mansidão. Outros cantam alegres, refulgem ao sol. Uns chamam-nos com as suas sombras frescas, outros com uma frescura sombria.

Mas todos os lugares têm ainda um nome, o lampejo de um olhar, a pressentida entrevisão de um sorriso. Uma voz, quase inaudível, que continua a chamar por nós.

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