Previous Entry Share Next Entry
o clube
rosas
innersmile
É uma mistura de factores. O facto de os meus sobrinhos terem embarcado esta semana para Moçambique, viagem que eu também faria se não fossem os problemas de saúde. A leitura do livro Ponta Gea, de João Paulo Borges Coelho, que me está sempre a enviar para as recordações da minha infância moçambicana. E, como pano de fundo, eu estar muito frágil em termos emocionais, porque este período em que estou a aguardar a cirurgia me torna particularmente ansioso e triste. E o resultado da soma destes factores, é eu andar muito nostálgico, sempre a lembrar-me de coisas muito antigas, lembranças e recordações muito vagas e imprecisas da minha infância.

Um dia destes lembrei-me, já nem tenho ideia de qual o factor desencadeante, de um campo de jogos abandonado que estava implantado no topo norte, lado nascente, do quarteirão onde ficavam as instalações do clube ferroviário. Durante os primeiros anos da minha estadia em Nampula eu passava muito tempo nas instalações do Ferroviário, e tive oportunidade de explorar tudo aquilo. Aliás, durante os primeiros meses após a chegada à cidade, e enquanto não se arranjava uma casa para arrendar, ficámos mesmo instalados nuns quartos que havia lá em cima, nas traseiras da sede do clube.

Essa zona abandonada do clube tinha, se não estou em erro, uns dois courts de ténis, onde o meu pai costumava jogar durante uma sua estadia anterior na cidade, e o campo propriamente dito, que tinha, tanto quanto me lembro, marcações de futebol de salão e de basquete, e duas ou três filas de bancadas em cimento, a toda a volta. Creio que o campo deixou de ser utilizado com a construção do pavilhão, mesmo ao lado.

As minhas lembranças do campo de jogos são muito poucas, porque foram raras as vezes em que lá entrei. Sempre à socapa, claro, galgando muros e portões. Apesar de ser um sítio que convidava à aventura, estava sempre muito conspurcado, principalmente com dejectos humanos. O facto de estar muito próximo da estação de comboios, de ficar numa das zonas de transição entre as duas cidades, a do cimento e a do caniço, e sobretudo de ser um lugar abandonado e resguardado da rua, provavelmente tornava-o um ponto privilegiado para o pessoal resolver as aflições.

Na escola primária, eu tinha um colega, que se chamava Victor Jorge, que vivia nas casas do Caminho de Ferro que ficavam na avenida junto ao clube (no lado pobre, dos operários, do outro lado da rua ficavam as casas dos quadros médios e superiores). Como a minha vida familiar, nessa altura, andava muito à volta do clube, eu ía às vezes estudar para casa do Victor Jorge, por ser mesmo ao lado. Claro, estudar, nesse tempo, era fazer os deveres e depois só brincadeira. A casa tinha um quintal enorme, em terra batida, com árvores frondosas, e já só isso tornava essas sessões de estudo muito apelativas. Além disso a mãe do meu colega, to make ends meet, como se diz em inglês, fazia gelados de água, açúcar e corantes, que depois o criado andava a vender pelas redondezas, carregando-os numa pequena caixa frigorífica. E, claro, sempre sobrava um gelado para o nosso lanche.

A partir de certa altura, eu e o Victor Jorge decidimos roubar cigarros aos nossos pais. Eu acho que ele já o fazia, e desafiou-me para alinhar, coisa que fiz com agrado. Roubava cigarros à minha mãe, nunca tive coragem para roubar ao meu pai. Depois, tínhamos uma caixa de fósforos igualmente roubada e escondida num local secreto, e de vez em quando saltávamos o muro do campo para, entre o pivete do cocó de preto, nos dedicarmos, com a pica que sempre dá a brincadeira proibida, a clandestinas sessões de cigarradas.

?

Log in

No account? Create an account