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"eu quero o amor da flor de cactus"
rosas
innersmile


"Eu quero o amor da flor de cactus, ela não quis. Eu dei-lhe a flor de minha vida, vivo agitado. Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo. Eu só sei de mim, de nós, de todo o mundo." (João Ricardo, para a banda Secos & Molhados)

No final do verão de 2015, a casa dos meus pais já estava, finalmente, quase vazia. Os móveis tinham saído quase todos, aquilo a que antigamente se chamava o recheio de casa. Faltavam, arrumados num quarto, umas caixas de cartão com o mais complicado e difícil: as coisas mais pessoais, os documentos, as recordações de infância, as fotografias.

A varanda também tinha sido, aos poucos, esvaziada. As vizinhas e alguns amigos foram levando as plantas aos poucos, ficando aquelas que, por mais velhas ou falta de graça, ninguém quis. Eu passava semanas sem lá ir, e por isso, sem água e com o calor e o sol do verão, algumas foram secando. Muitas vezes parava no rés do chão para ir buscar o correio, e nem subia.

Numa das raras tardes em que fui lá a casa, fiquei surpreendido com uma flor lindíssima, muito esticada num caule esguio e forte, que nasceu de um cacto que dá apenas duas folhas, grossas, carnudas, que crescem praticamente coladas uma à outra, e que tinham crescido num vaso que, até há poucas semanas, parecia que estava vazio. Fiquei encantado com a beleza e o fulgor daquela flor, e muito emocionado com aquilo que me parecia ser uma oferenda que me era dada por uma casa carregada de memórias, que eu estava prestes a abandonar.

Claro, nessa mesma tarde trouxe o vaso com a planta para minha casa. A flor não durou muito, e acabou por esmorecer. Já ao longo do ano passado, as duas folhas também foram morrendo, muito lentamente mas de maneira inexorável. Guardei o vaso, com a vaga esperança de que o cacto ainda pudesse rebentar de novo, e também porque começaram a nascer algumas folhas da samambaia que está no vaso ao lado, no parapeito da janela.

Há uns poucos meses, pareceu-me ver um finíssimo rebordo verde onde antes apenas estava o resto ressequido do cacto. Afinal não tinha morrido, e até parecia que queria rebentar de novo. Há dias, reparei nas delicadas pétalas cor de rosa que rompiam por entre as minúsculas folhas. De dia para dia, a flor tem crescido e o caule despontado, carnudo e de um verde muito claro e vegetal. Voltou, a flor de cacto. Intensamente.

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