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sam shepard, e patti smith
rosas
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A Patti Smith publicou um texto lindíssimo na New Yorker. Chama-se My Buddy, e é uma elegia muito sentida, muito espiritual mas também muito sensorial ao mesmo tempo, dedicada à memória de Sam Shepard, cuja morte chegou, “pontualmente na hora incerta” como diz o poema de Quintana, no princípio desta semana.

O texto da Patti Smith confirma o sentimento mais nítido que eu tenho em relação a Shepard, e que é o de que ele tinha uma aura de mistério, o estofo das lendas, como sempre acontece em relação ao nossos mitos maiores. Shepard parecia vir de um tempo que já não existia, e ao mesmo tempo pertencer a um tempo que ainda havia de chegar. Sentia-se uma centelha de rebelião, um inconformismo relativamente à nossa sociedade dos relógios e dos compromissos. E era, além de tudo o mais, um homem muito bonito, um cowboy solitário que nos fazia sonhar com os grandes espaços e a vastidão da abóbada celeste à noite.

Não vi muitos filmes com ele. Ali por meados dos anos 80 lembro-me claramente dele em The Right Stuff, de Philip Kaufman, e lembro-me muito nitidamente dele ao lado da Jessica Lange, num filme de que já não recordo o nome, mas que acabou em casamento entre os dois actores. O seu lado mítico, a que me referi, tem também muito a ver com o facto de ter sido o argumentista de Paris Texas, o filme de Wim Wenders que é, de certa forma, um marco geracional. Tudo neste filme é mítico: os actores, a história, a fotografia, a música de Ry Cooder. Lembro-me igualmente de ter lido (talvez ainda o tenha lá em casa), um seu livro de contos.

Mais recentemente o Sam Shepard voltou a entrar na minha vida (so to speak, é claro!) através da leitura do livro da Patti Smith, Just Kids. Focalizando-se na memória da relação entre Patti e Robert Mapplethorpe, conta igualmente como ela e Sam foram amantes durante algum tempo, no início dos anos 70, e a circunstância de, durante parte substancial da relação, a Patti Smith não fazer ideia de que ele era, na altura, um dos mais reputados dramaturgos da cena teatral nova-iorquina. Confesso que da leitura do livro não fiquei com a melhor das impressões acerca do comportamento do Sam nesse episódio autobiográfico. Mas felizmente a Patti Smith, neste seu texto na New Yorker, vem resgatar por inteiro essa memória, repondo Sam Shepard entre essas estrelas que iluminam o céu noturno do deserto.

O link para o texto elegíaco da Patti Smith sobre o Sam Shepard está no segunte link: http://www.newyorker.com/culture/culture-desk/my-buddy-sam-shepard

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