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rosas
innersmile
O innersmile faz hoje 16 anos.
Aqui há dias o meu amigo João Roque, a propósito de um post reproduzindo um texto do seu antigo blog, e do facto de praticamente já não haver blogs nem blogosfera, prestava, em comentário, homenagem à “meia dúzia de corajosos resistentes”.

Fiquei a pensar no assunto, e a achar que, apesar de, com muita probabilidade, ele me incluir no lote dos resistentes, eu de facto não me sinto nada um sobrevivente da blogosfera. Na realidade, nunca me senti um blogger nem alguma vez senti que fazia parte de qualquer coisa a que se chamava blogosfera.

Desde logo porque o innersmile apareceu antes de haver blogosfera, e mesmo antes de haver blogs, ou pelo menos de eles darem por esse nome. Logo na primeira entrada do innersmile refiro-me aos diários online como ‘logs’, que eram como se chamavam na altura. ‘Log’ quer dizer, entre outras coisas, diário, e o ship log era como se chamava aos diários de bordo dos capitães dos navios, sendo a palavra blog uma truncagem da expressão web log, diários na rede.

Por isso desde a primeira hora sempre me referi ao innersmile como um diário na net, ou online, e raramente utilizei a expressão post para os textos que publiquei. Chamava-lhes entradas, como nos diários, ou então mesmo textos, a minha denominação favorita para a coisa.

Ainda antes da blogosfera se expandir, o meu primeiro contacto com um certo sentimento de comunidade foi mesmo dentro do livejournal, com várias pessoas com quem aos poucos fui estabelecendo relações, primeiro virtuais e depois de amizade. A maior parte dessas ligações perderam-se pelo caminho.

Depois aconteceu a expansão da blogosfera, sobretudo com o aparecimento de plataformas muito fáceis e populares de publicação online. Nunca me senti como fazendo parte de qualquer comunidade dentro da blogosfera, de qualquer rede de blogs, digamos assim, nem sequer experimentei esse sentimento de pertença em relação à própria blogosfera. O facto de seguir e comentar alguns blogs, fez com que desenvolvesse relações de amizade com algumas pessoas e durante algum tempo tive várias oportunidades de conviver com várias pessoas que tinham blogs. De algumas dessas pessoas fiquei amigo, e essa amizade vai perdurando e, espero eu, fortalecendo-se. Mas, lá está, com aquelas que ficaram minhas amigas, o facto de os blogs terem desaparecido não ameaçou a amizade.

Na realidade a blogosfera preencheu durante algum tempo a necessidade que as pessoas sentem de comunicar com os outros, de estabelecer uma rede de contactos e relações, aproveitando as potencialidades da web, quer o imediatismo da ligação quer a convergência dessas ligações em lugares ou ambientes comuns. Quando foram criados programas e plataformas especificamente desenhadas para potenciar essas ligações, as redes sociais, os blogs deixaram de ser necessários e por isso é natural que fossem desaparecendo.

Tudo isto para dizer o quê? Que mais do que para estabelecer redes de contactos e ligações sociais, o innersmile sempre me serviu essencialmente para fazer duas coisas que estão intimamente interligadas: para escrever e para ser lido.

Para escrever aquilo que me apetece, para me ajudar a estabelecer a minha relação com o mundo e com os outros, para me ajudar a perceber as coisas, para poder fazer uma espécie de registo do tempo a passar, para me dar um veículo ao meu gosto de escrever e que fosse feito à minha medida e à das minhas circunstâncias.

Para ser lido, porque sempre que escrevemos, seja o que for, é para alguém nos ler. E não se trata de escrever e dar a ler aos amigos, à família ou aos colegas. Não, é antes escrever e deixar o que escrevemos à solta, jogar o jogo de podermos ser lidos seja por quem for, por perfeitos desconhecidos, por pessoas que nunca saberemos que nos lêem, sermos lidos por pessoas que conhecemos, por pessoas que nos dizem que leram, por pessoas que passam a gostar de nós porque gostam do que leram, ou pelo contrário, a detestar-nos, por pessoas que nos conhecem mas nunca nos dizem que nos leram, por pessoas que nos lêem com interesse ou curiosidade, por pessoas que lêem distraidamente e se desinteressam.

Foram estas as duas razões porque comecei a escrever o innersmile, ainda antes de haver blogs. É por elas que continuo a escrever, mesmo depois dos blogs já terem desaparecido. E enquanto isso fizer sentido, continuarei a escrever.

No entanto, e para além destas duas razões, o innersmile deu-me algumas coisas muito importantes. Não foi, nem é, por elas que eu o escrevo, mas são as coisas mais importantes que o innersmile me deu, e algumas das mais importantes que eu tive nestes anos da minha vida desde que o escrevo. Estou a lembrar-me de três dessas coisas. Primeiro, deu-me grande amigos, grandes amizades, muito estimulantes e compensadoras. Algumas delas perderam-se, outras perduram. Depois, deu-me amor, a possibilidade de me apaixonar e amar pessoas que conheci na vida apenas pela circunstância de se terem cruzado com o innersmile. Finalmente deu-me a possibilidade de publicar livros, quer porque neles usei textos que escrevi para o innersmile, quer porque de alguma forma foi igualmente o innersmile que me proporcionou conhecer quem mos publicasse.

Duas fortes razões e três dádivas muito generosas. Não é má, a contabilidade destes dezasseis anos.

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Parabéns! E, por todas as razões, que venham mais 16.

Eu comecei a gostar de ti porque a tua escrita me cativou, e eu li o teus textos todos. Miguel, lembras-te do nosso primeiro encontro, parecia que já nos conhecia-mos desde longa data.
Escreve sempre, pois eu não passo sem visitar este diário.
Beijinho. Lídia

Querida Lídia, esse dia perdura na minha memória como uma ocasião de intensa felicidade. É sempre uma sentimento muito presente, o que senti quando, cinco minutos depois de nos conhecermos, estávamos a ter uma conversa como só se tem com os amigos mais especiais.

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