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o mundo é um balão
rosas
innersmile


Tinha visto num filme um globo terrestre insuflável, como as bolas de praia. Não sei se foi o Michael Palin que usou um, numa das suas séries sobre viagens. Encontrei estes globos numa ida a Londres, numa livraria de viagens em Convent Garden. Acho que não estava sozinho, mas já não me lembro quem estaria comigo, e deduzo que a livraria possa ter sido a Stanfords, a maior livraria de mapas e de guias de viagens do mundo, que fica em Long Acre, mas já passaram tantos anos que não consigo precisar.

Durante muito tempo, o globo esteve dobrado e arrumado, mas desde que vim para minha casa, há dezasseis anos, tem estado ali a enfeitar o topo de uma das estantes do quarto, de tal forma que já nem dou por ele, nem sequer me lembro de que o tenho. Como se vê pelo detalhe da foto, repousa junto ao que foi o primeiro telefone fixo que mandei instalar cá em casa, essencialmente para usar a ligação telefónica como acesso à internet.

E lembrei-me do meu globo terrestre insuflável ao ler um artigo numa edição já atrasada do suplemento Ípsilon, do jornal Público, sobre um livro intitulado Livrarias, da autoria do escritor espanhol Jorge Carríon, que fiquei com vontade de ler. No artigo, Carríon conta como, quando viaja, gosta de visitar livrarias em cidades estrangeiras, nomeadamente livrarias sobre viagens, e como esse gosto por livrarias tinha de certo modo começado em Londres, onde o autor tinha uma espécie de atlas afectivo de livrarias.
Claro que, por associação de ideias, também comecei a pensar como, nos meus tempos de viajante, gostava de visitar livrarias, mesmo em países onde não percebia uma linha do que estava escrito, como em Creta, uma livraria lindíssima que tinha na montra uma edição do Principezinho.

Lembrei-me de uma livraria em La Valletta, Malta, na rua central, a República, para onde escapei enquanto os meus colegas de viagem visitavam igrejas e Caravaggios, e de onde saí com um volume enorme do Kenneth Williams, já não posso precisar se os diários ou as cartas, um deles. Como me lembrei da Ateneo, na avenida Santa Fe, em Buenos Aires, que é a livraria mais bonita que eu conheci e da qual já falei aqui, creio que mais do que uma vez.

E também me lembrei, é claro, de que foi igualmente em Londres que cresceu o meu gosto pelas livrarias, desde muito cedo, que se foi consolidando ao longo dos vinte anos em que visitei anualmente a cidade, e que constituíam uma geografia muito pessoal de percursos e deambulações. A Gay´s The Word, próxima de Russell Square. A Dillons, em Gower Street, e também em Sloane Square, em frente à estação de metro. A Foyles, em Charing Cross Road, e também as livrarias de livros antigos e de álbuns, também em Charing Cross, do outro lado da rua. A Compendium, em Camden High Street, uma livraria alternativa e muito política. A Waterstones, onde ia consultar uma espécie de anuários dos filmes, que havia nesses tempos antes da internet e do google. A Stanford, de que falei acima. A Books Etc, igualmente em Charing Cross, onde havia uma poderosa secção de literatura gay, e a Borders, uma cadeia de livrarias norte-americana que, por um tempo, tomou conta de uma série de outras livrarias, e onde eu ia comprar revistas de música country. As livrarias das estações, como a WHSmith na estação de Euston, onde passava horas, por ser ao lado de casa, e onde ia comprar os jornais de domingo que saíam ao sábado à noite.O próprio mercado de livros em segunda mão em South Bank, paragem obrigatória quando ia ao cinema no National Film Theatre ou ao Museum of Moving Image, mesmo ao lado, ao National Theatre ou ao Royal Festival Hall.

Grande viagem, esta, pelas livrarias de Londres, a que me levou, agora, o meu globo terrestre insuflável.

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