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Aquarius é um filme realizado pelo brasileiro Kleber Mendonça Filho, que conta a história de Clara, uma mulher de 65 anos que recusa deixar-se intimidar por uma empresa de construção civil que lhe quer comprar o apartamento onde vive para poder transformar um prédio velho numa nova e mais lucrativa torre de apartamentos.

E o problema é que é isso que de facto parece fazer mais sentido. A razoabilidade parece estar toda do lado dos que querem, e são quase todos, que Clara se mude. Mas logo no início do filme, numa cena passada trinta anos antes da acção actual, há uma festa de aniversário que homenageia a vetusta idade da Tia Lúcia. Acontece que a Tia Lúcia, enquanto a família lhe canta os parabéns, só se recorda do seu falecido amante, Artur, e e do amor que ambos faziam ali, naquela sala, naqueles móveis. E é em nome desta memória, a memória de que é feita as nossas vidas, a vida das nossas famílias, dos que vieram antes de nós e dos que chegaram e vão chegando depois, a memória dos lugares onde vivemos ou das casas onde habitámos, que Clara recusa abandonar a sua vasta coleção de discos em vinil (nada contra o formato digital), a sua rede com vista para a praia e para os casais que à noite fazem amor no areal defronte, o pequeno quintal de árvores frondosas e onde alimenta os gatos da vizinhança.

Sendo um filme político, no sentido em que é um filme sobre como a lógica do capitalismo é insensível às pequenas comédias e aos insignificantes dramas da gente comum (e neste aspecto lembrei-me dos filmes de Ira Sachs que vi, Strange Love e Little Men), é também um filme sobre a velhice. Não a do drama da decadência, como é habitual, mas sobre a velhice como esse lugar de memórias, uma espécie de templo do tempo, um modo de medir o tempo por aquilo que ele foi acumulando ao longo dos anos das nossas vidas, contando os ganhos e descontando as perdas.

Como é igualmente um filme sobre a maneira como nos confrontamos com a vida real, a nossa e a dos outros. Falo em primeiro lugar da própria condição feminina, da história de uma mulher no limiar da velhice, sobrevivente ao cancro da mama mas com as marcas que carrega para sempre, atenta aos filhos mas que não se deixa aprisionar pela função de “avó” que lhe possa estar reservada, em paz com o seu passado, com os seus amores, mas que, quando é necessário, bebe um copo a mais e telefona a contratar os serviços de um garoto de programa.

E muitos outros aspectos, que o filme aborda, poderiam ser convocados para esta discussão, como a estranha relação que se estabelece entre as famílias, em particular as patroas, e as empregadas domésticas, e que no caso do Brasil não deixa de reflectir, de várias maneiras, o peso da herança esclavagista do país, possivelmente o seu mais distintivo e perturbador traço de carácter.

Há pelo menos três aspectos que não podem deixar de ser mencionados a propósito do filme de Kleber Mendonça. O primeiro é a banda sonora, que é perfeita, toda ela de facto parece ser a banda sonora de uma vida pessoal, as músicas que ficam sempre connosco a marcar as diversas fases das nossas vidas. O segundo é a narrativa, e a forma como Aquarius é um filme “escrito”, não apenas na meticulosa construção dos diálogos, mas principalmente na maneira como o filme se estrutura, como se planeia, como todas as cenas parecem obedecer a um plano muito bem delineado.

Mas, claro, que o principal aspecto do filme, e de certo modo o seu principal trunfo, é o desenho da personagem que o protagoniza, Clara, e a enorme actriz que de dá corpo (e raras vezes esta expressão faz tanto sentido como aqui), Sónia Braga. O filme é Sónia Braga, na medida em que Sónia é Clara.
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  • 1
Este resumo do filme está excelente.
Muito bem escrito, merece o meu elogio.
Críticos de cinema, normalmente não
chegam a este patamar. Gostei muito.


Este resumo do filme está excelente.
Muito bem escrito, merece o meu elogio.
Críticos de cinema, normalmente não
chegam a este patamar. Gostei muito.


Muito o obrigado Maria. Suponho que os críticos de cinema sofram condicionalismos que eu aqui não tenho, e isso condiciona o resultado final. E eu aprendo muito a ler críticos como o João Lopes, que aprecio bastante.

excelente texto, para não variar.
eu queria tanto ver, mas com tantas coisas ao mesmo tempo e, ainda por cima, amanhã tenho o dia preenchido com eventos culturais em Lx, incluindo uma visita ao museu do dinheiro para ver um documentário do o'neill, não sei. a ver vamos se dá para assistir ao fim da tarde. mas é bom manter a cabeça ocupada e não pensar em outras coisas.

acabei de o ver, adorei a banda sonora, esta no S. graças a este blog: http://blogs.ne10.uol.com.br/social1/2016/08/29/trilha-sonora-de-aquarius-esta-em-playlist-do-spotify/

não sei quantas vezes passei o 'hoje'.

Que bom que gostaste (não tinha visto este comentário quando respondi ao anterior).

Já sigo a playlist no S :)

Ouvi tanto a "hoje" :-) até pus o clip no fb

não conhecia o Taiguara e, claro, fui ao S. procurar mais e à W.

sim, 'hoje' é muito adequada.

Quando puderes vê. É muito bom, mas alem disso é extraordinário, fora de vulgar.

É bom ter uma vida cultural muito preenchida :-)

Quando puderes vê. É muito bom, mas alem disso é extraordinário, fora de vulgar.

É bom ter uma vida cultural muito preenchida :-)

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