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a grande arte, a vida como ela é
rosas
innersmile


O trocadilho é fácil e está mesmo a pedi-las: grande arte, é a literatura de Rubem Fonseca. O escritor brasileiro redefiniu, ou recriou (no sentido de criar de novo, ex novo), as regras do policial, com a sua atenção à marginalidade sórdida, à crueldade sádica da violência (onde estavas tu, Tarantino?), ao bas-fond pestilento da grande urbe, à mistura de sexo, drogas, crime, e poder. Mandrake, o advogado que narra e vive esta grande arte, é uma personagem com o poder de atracção, e a voracidade, de um buraco negro.

Mas a grande arte de Rubem está apenas e tão-só na escrita: uma coisa magnífica, lustrosa, exuberante, que tanto se espraia em parágrafos inteiros de descrições ou simples enumerações, como ganha uma eficácia rápida, crua e despida como um osso. Mas sempre irrepreensível, majestosa, e galvanizante como poucas.

Rubem Fonseca é um mestre, o maior de todos, e neste livro está toda a sua Grande Arte.



São 100 histórias de moral e (bons) costumes, ambientadas à pequena burguesia, em que o poder transgressor do desejo abala todos os convencionalismos. A ousadia é espantosa, tendo em atenção a época em que os textos foram escritos. A escrita é galvânica, com a clareza, a velocidade e a simplicidade dos jornais (pelo menos dos de antigamente). E proporciona uma viagem saborosa por um português escrito que tem uma elegância e uma vivacidade que são raras hoje em dia.

A semelhança de temas, e o facto de estas histórias terem sido criadas para serem lidas, autonomamente, em crónicas de jornal, podem tornar a leitura da edição original pouco entusiasmante, de modo que talvez seja preferível a recente edição 'abrégée' portuguesa, da Tinta da China, que apresenta uma seleção, de Abel Barros Baptistas, de 60 destas pérolas.

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