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né ladeiras
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Tão bom o concerto da Né Ladeiras ontem no auditório do Conservatório de Coimbra. Maravilhoso! E tão lindas as novas canções. Algumas eu já conhecia, porque a Né as tem posto na sua página do Facebook. O concerto serviu de apresentação dessas canções, que integrarão o novo disco da cantora, Outras Vidas. Mas, claro, tratando-se a Né de uma cantora com um percurso tão vasto e generoso, o concerto revisitou outras canções, os incontornáveis José Afonso (um versão arrepiante de Benditos) e Fausto (Todo Este Céu; as canções do Fausto parecem todas elas terem sido escritas para a voz e o canto da Né), além de temas de Trás-os-Montes e, já no encore, uma versão a solo de Gracias a La Vida.

A voz e o canto da Né Ladeiras. Sim, porque não é só a voz, o timbre, que são únicos, é o modo como a Né Ladeiras canta, o sentido da musicalidade, a capacidade, e o conhecimento, de dar às palavras a entoação que elas precisam para se transformarem em canto. E ver isso tudo acontecer ali, ao vivo, à nossa frente, é quase da ordem dos milagres. E depois é toda a presença em palco, o corpo esguio e alto, a silhueta do figurino, o movimento, o gesto, a dança, a comunicação com o público.

E o raro privilégio de ter visto pela segunda vez este ano a Né Ladeiras em palco, primeiro em janeiro, naquela que foi a sua primeira prestação pública em muitos anos, e depois, agora, com as novas canções, belíssimas, todas ou quase todas com poemas, tão magníficos quanto apropriados, de Tiago Torres da Silva. Acompanhada em palco pelos músicos Amadeu Magalhães, multi-instrumentista e produtor do disco Outras Vidas, Diogo Passos e Ricardo Mingatos, o concerto contou ainda com a participação de Rafa Cota Silva, que traduziu para língua gestual portuguesa.

O canto da Né Ladeiras tem o condão de me emocionar. Acontece nos discos, acontece quando oiço, mesmo por acaso, uma das suas canções ou a sua voz nos inúmeros projectos em que colaborou, da Brigada Victor Jara à Banda do Casaco. E acontece quando tenho este privilégio único de a ouvir cantar ao vivo. Porque há no seu canto uma beleza que as palavras não têm a delicadeza suficiente para traduzir. Porque o seu canto consegue transpor emoções que são maiores e mais poderosas do que aquelas que são trazidas nas próprias palavras que canta. A voz e o canto da Né Ladeiras conseguem dizer-nos tudo aquilo, do mais frágil ao mais poderoso, do mais simples ao mais intenso, que precisamos sentir e dizer quando nos faltam palavras as adequadas para o fazer.
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