?

Log in

No account? Create an account

Previous Entry Share Next Entry
louça
rosas
innersmile




Eu tinha cinco anos quando fui viver para Nampula. Primeiro, ficámos uns tempos instalados nuns quartos que havia no Clube Ferroviário, lá em cima, junto à direcção, e depois em casa dos meus tios, à espera que vagasse a casa do Bairro do Museu, onde vivi até finais de 1976, quando fui recambiado, tipo encomenda postal, para uma aldeia remota na Beira Alta.

Ainda hoje me parece que essa foi a casa da minha vida, aquela onde o tempo se suspendeu e eu morei nela ‘desde sempre’ e ‘para sempre’. Apesar de não ter vivido nela nem dez anos. Depois disso, morei durante cerca de vinte e cinco anos na Rua de macau, e agora, já para aí há uns quinze que vivo no meu actual apartamento.


A casa de Nampula tinha uma cristaleira, um armário de casa de jantar em madeira trabalhada e vidro, e que foi das poucas coisas que eu trouxe da casa dos meus pais, e que agora está na minha sala. E desde sempre, desde Nampula, e todo o tempo do apartamento na Rua de Macau, havia na cristaleira dois pequeninos cães de louça, castanhos e brancos. Aliás, tenho a impressão de que eram originalmente três, mas o maior perdeu-se nas voltas da vida.


Trouxe esses dois cães de louça para minha casa. Mal os vejo, de tal modo os meus olhos estão habituados à sua presença. Mas cada vez que reparo neles, lembro-me de que são dos raríssimos objectos que estão comigo e que vêm desde a minha infância. Sobreviveram já a várias derrocadas: à do império e às outras, as mais pessoais e dolorosas.


Nampula, 1960's

  • 1
Confesso que gostaria de ter mais coisas da minha infância, mas a forma como o tempo apaga certas coisas até assusta.

eu também. mas também assumo que muitas coisas fui eu que não quis guardar.

  • 1