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Há três razões pelas quais é impossível não gostar de Miles Ahead, o biopic que o actor Don Cheadle realizou sobre o grande trompetista Miles Davis. A primeira tem a ver, forçosamente, com a música de Miles, que não só está presente durante todo o filme, mas que marca a narrativa, dá-lhe corpo e ritmo. A segunda é porque este filme é claramente um labour of love por parte de Cheadle (que interpretou, realizou, produziu, foi co-autor da história e do argumento) e isso contamina o filme. Finalmente, o trabalho de interpretação de Don Cheadle é um assombro, ele veste a personagem de Miles Davis a partir de dentro, e, sobretudo nas sequências em que Miles está a tocar, é arrepiante a energia e a verdade que vêm à face do actor / personagem; trocadilho intencional: Cheadle dá um verdadeiro sopro de vida a Miles Davis.

Dito isto, há, contudo, coisas no filme que não só não resultam, como prejudicam de modo irremediável a completa adesão do espectador. O dispositivo narrativo do filme assenta na ideia de que, em meados dos anos 70, quando Miles Davis se afasta da música e do trompete, um pretenso, e inventado, jornalista, o aborda no sentido de sacar o maior furo do jornalismo musical, e leva Davis a envolver-se numa rocambolesca aventura de carácter mais ou menos policial para recuperar uma bobina roubada, que contém a música que Miles gravou durante esse período de reclusão. E o problema é que esta parte da história, que funciona como a estrutura narrativa do filme, é tão caricatural que não tem ponta de verosimilhança. O filme ganha em credulidade sempre que, através de flashbacks, recua para períodos anteriores da vida de Miles Davis, em particular os que se referem à relação apaixonada e tormentosa com a bailarina Frances Taylor, que aparece na capa do álbum Someday My Prince Will Come.

Felizmente, esse aspecto mais caricatural não atinge a personagem de Miles Davis, do qual o retrato que Don Cheadle compõe mantém complexidade e ambiguidade, entre o pico do génio e os abismos das dependências ou da insensibilidade amorosa.

Um dos atrativos do filme consta em tentar identificar toda a legião de músicos, entre os mais talentosos que o jazz já conheceu, que aparecem no filme nas várias formações que acompanham Miles: John Coltrane, Gill Evans, Herbie Hancock entre muitos muitos outros. E o final do filme é irresistível, com o Miles Davis de Don Cheadle a tocar com uma banda de verdadeiros músicos, como Esperanza Spalding, Gary Clark Jr., Antonio Sanchez, e, principalmente, dois músicos que de facto tocaram com Miles: Hancock e Wayne Shorter.
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