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Possivelmente o nome do Nicolau Breyner entra na história da cultura popular em Portugal por estar ligado, de uma forma quase autoral, à ficção televisiva, em particular ao desenvolvimento de uma indústria de telenovelas que é uma das marcas mais distintas da televisão que se faz em Portugal. Como não sou espectador de novelas (nem de televisão, aliás), assinalo o facto, reconheço-lhe importância no âmbito da economia cultural (sobretudo pela criação de uma vasta escola de actores e de técnicos), mas não me comovo.

Então, o “meu” Nicolau vem de trás, dos seus tempos de actor de comédia com presença frequente no humor televisivo, antes deste se ter tornado, também ele, uma espécie de indústria cultural. O Nicolau Breyner era como o Raúl Solnado, entrava-nos pela casa e era da nossa família. Ouvi alguém dizer, não sei se na TV ou na rádio, que não deve haver um português que nunca tenha soltado uma gargalhada à conta do Nicolau, e isso de facto é uma coisa espantosa, torna o Nicolau num verdadeiro ícone da cultura popular do espectáculo português.

Provavelmente as minhas recordações mais antigas do Nicolau são do cinema, das comédias muito naives dos anos 60 e 70, das suas participações nos filmes do Artur Semedo (outro que deixou muitas saudades), todos eles, os filmes, e todas elas, as participações, notáveis e inesquecíveis.

Talvez ainda mais antigas do que as da televisão, que só comecei a ver quando vim para Portugal, em finais de 1976, só apanhando a mítica dupla Sr. Feliz e Sr. Contente, com o Herman José, já no fim da sua presença televisiva. Mas lembro-me do Eu Show Nico, com a sua inolvidável Tia Eva, ou dessa espantosa Gente Fina É Outra Coisa, uma série de humor que Nicolau fez já a testar a maneira de fazer ficção televisiva, e que ficou marcada pelo regresso ao activo de Amélia Rey Colaço. Esta série deve ter sido a oportunidade de muita gente da minha idade de ver essa que foi uma das maiores actrizes de sempre, a trabalhar. De resto, uma das minhas vénias à memória de Nicolau faço-a com frequência quando, com alguns amigos, falamos nos Bentorrado Corvelins Penha Leredo.

Fui procurar no livejournal referências ao Nicolau, e encontrei duas, ambas de 2005. Uma de fevereiro, a propósito da série de televisão João Semana, uma adaptação das Pupilas do Sr. Reitor, de Júlio Dinis. Escrevi o seguinte:
“O Nicolau Breyner é um grande actor, e chega a ser comovente ver a intensidade e o sentido da sua interpretação, sobretudo porque é feito sempre num registo contido, de uma certa escassez, que vai muito bem com a bonomia e a tranquila determinação da personagem.”

A outra é uma coroa de glória, a única vez que vi o Nicolau ao vivo, em palco. Foi em maio desse ano, a propósito da passagem por Coimbra de uma peça feita em monólogo, pelo actor:
“Nicolau Breyner decidiu regressar aos palcos e fê-lo com 'Esta Noite Choveu Prata', uma peça em dois actos do brasileiro Pedro Bloch. Na verdade são três curtos monólogos de três personagens: um português e um italiano, que no primeiro acto falam sobre a vida e a amizade com um velho actor brasileiro, cuja fala ocupa todo o segundo acto.
Interessante foi Nicolau ter decidido correr literalmente o país todo apresentando a peça antes de a mostrar em Lisboa. Gostei muito de o ver em palco, é um daqueles actores que ocupam o espaço, que conseguem transformar o ar do palco numa coisa palpável, com densidade. “

O Nicolau faz parte da nossa memória colectiva, e sabemos como a memória é tão importante na construção da identidade. Por isso não podemos deixar de estar, nesta hora da sua morte, mais tristes e mais pobres.
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Também estou muito triste. As palavras do Herman ajudam mas mesmo assim não há volta a dar a esta incompreensão perante a tragédia universal que, nestes casos, se torna a ameaça real à nossa vida.... Beijinhos, Miguel. Madalena

há pessoas especiais, parece que nos são íntimas apesar de nos serem distantes. e que quando partem vão fazer falta como se existissem também para nós.
um beijinho Madalena

Faz parte do ciclo da vida, o que é certo que é alguém que marcou a sua presença em Portugal e que irá marcar para sempre.

também concordo que sim

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