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retrato oficial
rosas
innersmile
O burburinho que vai para aí com o retrato oficial de Cavaco Silva, da autoria do pintor Carlos Barahona Possollo. É que Possollo é igualmente autor, num estilo realista que não se afasta muito do retrato, de obra vasta marcada por acentuado erotismo, quase sempre de natureza homossexual.

Eu percebo que o Cavaco estava mesmo a pedi-las: há uma ironia fantástica no facto de um tipo muito conservador, que sempre que pode se opôs às alterações legislativas que visavam consagrar a igualdade cívica entre cidadãos independentemente da orientação sexual de cada um, ter o seu retrato oficial feito por um artista que tem dedicado parte do seu esforço, eu diria até aquela parte da obra menos institucional e por isso que mais corresponderá à sua “voz interior”, a fazer quadros de um homo-erotismo explícito e assumido. Por outro lado, não deixa de revelar uma certa elevação por parte de Cavaco, que certamente não ignora essa outra obra do pintor escolhido. Por isso merece uma vénia, ainda que discreta, no dia em que, finalmente, nos vimos livres dele.

Mas intriga-me sobretudo o facto de, subitamente, a net, e em particular os blogues e as redes sociais, estarem cheias de fotos dos quadros “picantes” de Possollo, juntamente com o retrato oficial do Cavaco. Claro que há aquela coisa um pouco ‘à Bocage’ do fascínio pelo interdito, e que tem um lado subversivo que me agrada.

Mas pergunto-me se será apenas isso, se não haverá aqui uma certa manifestação do nosso moralismo provinciano e hipócrita, aquela coisa homofóbica da “maricagem”: olha, afinal o Cavaco tem um retrato pintado por um gajo que faz quadros de paneleiros! E além disso, como as matrafonas do carnaval de Torres Vedras, de repente todos temos licença para publicar nas nossas páginas fotos de gajos nus de falo em riste.

Seja como for, mesmo que levemente embaraçado com essa espécie de curiosidade malandra e parola, acho isto uma coisa positiva, porque o que dá visibilidade à homossexualidade acaba por ter um certo efeito favorável, sobretudo quando estamos a falar de arte e cultura. E suponho que seja também positivo para o artista, que de repente anda na boca de toda a gente (salvo seja, claro!); a não ser que quem lhe encomenda os retratos ou os selos de correio, agora se sinta incomodado ou envergonhado com a revelação.

Só uma nota mais pessoal para dizer que descobri Carlos Possollo, não pela pintura mas, inevitavelmente, através da literatura: publicou aqui há uns anos valentes, um volume de contos muito interessante, As Lágrimas de Bibi Zanussi, que tinha uma capa que ficava muito bem nas mesas das livrarias: um par de nádegas muito bem feitas segurando um pé de antúrio. Publicado com o pseudónimo de Pedro Gorski, não foi difícil chegar a um outro pseudónimo do artista, Bebé Mascarenhas de Meneses, e sobretudo ficar a conhecer a belíssima obra, quer a mais institucional quer sobretudo a outra, de Carlos Barahona Possollo.
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Interessantes as pinturas do moço! E que seja como você diz: que traga uma visibilidade e discussão positiva para o assunto. Passou da hora de deixar de ser tabu (mas sei que ainda há muito chão...)

também gosto das pinturas, fazem-me lembrar banda desenhada :)

Parte do teu texto fez-me rir, não sei se era bem a tua intenção e faz todo o sentido o que lá escreveste.

se calhar é mesmo para rir

rag :D
gosto do teu humor.
já por aqui se escreveu sobre ele, li algures.

olha, por aqui acusam-me de andar resmungão :)

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?

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