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trabalhos e paixões de benito prada
rosas
innersmile


O Fernando Assis Pacheco é um dos meus escritores preferidos, e há muito tempo que eu andava com vontade de reler aquele que é o seu único romance: Trabalhos e Paixões de Benito Prada. Lembrava-me que tinha gostado muito do livro quando li na altura do seu lançamento, há mais de vinte anos. Mas já não sabia exactamente por que razões.

E esta releitura confirmou que se trata de um grande romance. Benito Prada é um excelente exemplo, aliás é um paradigma, das imensas qualidades da escrita de Assis Pacheco, a começar por um domínio absoluto da língua em que escreve, da sua flexibilidade gramatical, da riqueza do vocabulário. Há muito tempo que não me acontecia ter de ir procurar palavras ao dicionário, e não por desconhecimento absoluto do seu significado ou porque esse desconhecimento prejudicasse a compreensão da obra, mas pelo simples e puro prazer de descobrir ou redescobrir esta língua em que falo e escrevo, de descobrir a sua riqueza, os seus matizes, as suas declinações.

Depois, Assis Pacheco escreve, não direi com um excesso, mas de modo quase torrencial, as frases, as palavras, a narrativa, são um rio largo e caudaloso por onde seguimos, nem sempre flutuando com ligeireza, mas sempre com imenso gozo. Aliás o romance abre com uma sequência de uma violência extrema, quase indizível, mas que com o Assis parece sempre uma coisa muito bela e espantosa. O seu humor é simultaneamente irónico, por vezes mordaz, mas de uma ternura derramada sobre as personagens, todas elas. Mesmo em relação às mais antipáticas, parece que as percebemos, que entendemos as suas razões, ou pelo menos o fogo que as anima.

Benito Prada, o personagem, é, de facto, um personagem, um homem que se cola a nós, ou somos nós que nos colamos à sua pele, e isto porque Assis Pacheco consegue tratá-lo como um humano, com forças e fraquezas, com grandezas e misérias, mas ao mesmo tempo há ali uma aura de herói, ainda que tratada com subtileza e atenção.

Parte significativa do romance passa-se em Coimbra, e nunca esta cidade me pareceu tão fiel e verdadeiramente retratada. E nem o facto de a história se passar nas primeiras décadas do século XX, ou seja há cem anos, falseia a veracidade do retrato. A cidade que aparece no livro de Assis Pacheco é, na sua essencia, a cidade que ainda hoje existe, mas é o retrato quase chapado da cidade que ainda conheci quando vim para cá morar, em finais dos anos setenta do século passado.

De certo modo, este livro só tem um “defeito”, e mesmo assim vai ter de ir com aspas, e que é uma certa falta de ambição do autor em relação a ele. Assis Pacheco não se considerava um autor, não tomava conta da sua obra, nem a plantava com esmero nem a fazia crescer com cuidados. Era essencialmente um jornalista, e era ao efémero dos dias que dedicava quase tudo o que escrevia. A sua obra poética, reunida no volume A Musa Irregular, foi, na sua maior parte, criada em plaquetes que distribuía aos amigos. E este Trabalhos e Paixões de Benito Prada é assim, feito de capítulos curtos, quase crónicas, escrito, seguramente, digo eu, nos intervalos de outras escritas. Nota-se que este é um labour of love por parte do seu autor, mas falta-lhe o fôlego de quem se proporia a escrever um grande e definitivo romance. E mesmo assim, contra essa falta de ambição, este é um grande e definitivo romance: sobre um homem e o seu tempo, mas também sobre a história de dois países, Galiza e Portugal. Um grande e definitivo romance que, como todos os maiores, é sempre e apenas sobre o mundo em que viveu e sobre o homem que o escreveu.
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Fiquei muito curioso agora, vou tentar encontrar algo por aqui. Um abraço :)
Edu

talvez não esteja publicado no Brasil, mas se eu encontrar aqui, mando-te um exemplar :)

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