Previous Entry Share Next Entry
spotlight
rosas
innersmile
O aspecto verdadeiramente interessante de Spotlight, realizado por Thomas McCarthy, é o facto de se focar exclusivamente no trabalho de reportagem de um grupo de jornalistas pertencentes a uma unidade especial do jornal norte-americano Boston Globe que se dedica ao jornalismo de investigação. Claro, a matéria a que se dedicam é sensível: a teia de pedofilia que grassa por entre os padres católicos, com o conhecimento, e até a conivência, da hierarquia máxima da igreja.

O filme não cede à facilidade de representar padres e vítimas, cuja participação no filme é rara e reduzida ao mínimo necessário para justificar o trabalho dos repórteres (a cena em que a jornalista consegue falar com um dos padres envolvidos é das mais intensas e perturbadoras do filme). A narrativa do filme concentra-se no próprio trabalho de investigação, e na gestão das ondas de choque que a preparação da reportagem vai gerando entre os círculos mais ligados à poderosa igreja de Boston.

Ajuda muito à eficácia do filme um elenco de grupo magnífico: Mark Ruffalo (no papel de um jornalista de origem portuguesa, hélas), o magnífico Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Brian DÁrcy James, John Slattery (o Roger Sterling da série Mad Man) e Stanley Tucci, entre outros.

O filme passa-se em 2001, a publicação das reportagens foi adiada por causa do 11 de setembro para janeiro de 2002; mas parece passar-se numa época totalmente diferente, sem o predomínio da internet e dos telefones móveis, onde o papel e os arquivos físicos, juntamente com os protagonistas, ainda eram o principal instrumento de trabalho dos jornalistas. Não sei se tem só a ver com isso, mas o filme transmite uma sensação de seriedade e compromisso que, pelo menos na imprensa portuguesa, parece totalmente desaparecida. E no entanto, basta recuar estas menos de duas dezenas de anos, para nos lembrarmos de que também em Portugal havia jornais e jornalistas sérios, que estavam ao interesse da verdade e do público, e não dos grupos económicos e políticos que, hoje em dia, garantem a sua subsistência.
Tags:

  • 1
Triste é constatar que o jornalismo como esse parece que morreu (ou cambaleia) em todos os cantos do mundo. Há os "ativistas da classe", ainda, mas não encontram mais espaço que deveria ser deles. E no Brasil já nem se exige diploma universitário para a profissão.

não sei se morreu em toda a parte, mas cá em PT morreu sim. muito raramente ainda aparecem boas reportagens, nos jornais ou mesmo na tv, mas a maior parte do tempo e das páginas, é lixo mesmo: inútil, no melhor dos casos, abjecto no pior.

pulitzer! grande filme, como há muito não via (fiquei tão aborrecida com o revenant, só a fotografia me animou - podia ver o filme em formato de documentário sem os humanos horas a fio).

há investigação em portugal? se há, vai para a TV em programas que começam em canais generalistas e acabam nos de cabo...

boa, que bom que gostaste :)

  • 1
?

Log in

No account? Create an account