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frangipani (balada)
rosas
innersmile
Trazes a flor do frangipani.

Era um terreiro amplo, de terra batida, limpo de tão varrido. Pequenas pedras caiadas de branco desenhavam canteiros em forma de circulo, dentro dos quais cresciam as árvores de tronco hesitante do frangipani. Todos os dias chovia, quase sempre à mesma hora. Tudo era imenso, a paisagem, a terra, as distâncias.
Estávamos no terreiro, junto aos frangipanis, e parecia-nos que o mar ficava tão longe. Mas se as distâncias eram grandes, e os caminhos lentos e difíceis, o tempo também era imenso, e escorria devagar pela superfície branca e metalizada de um velho volkswagen, de matrícula LM-10-30.
Saíamos de madrugada, ainda noite cerrada, os cestos de verga enfiados da bagageira funda e estreita que ficava entre o banco corrido e o óculo traseiro. Era a hora dos sons, dos insectos ruidosos, de um rugido fantasmagórico, ouvido na distância.
Passávamos o dia na praia, à sombra das casuarinas. Eu não tinha vergonha, nesse tempo. Só tu me aliviavas de um permanente sentimento de estranheza, de não pertença às brincadeiras que os bandos de miúdos armavam no areal extenso.
Ou entrar no mar, de óculos e barbatanas, e ficar a flutuar à superfície da água, admirando, maravilhado, a vida feérica e colorida do banco de coral, até a pele dos dedos ficar enrugada e os lábios trementes de frio. Secar-me, embrulhado na toalha, ao pé de ti.
Regressávamos tarde, saíamos já de noite, e quando chegávamos de novo ao terreiro imenso do quintal, com as suas árvores cobertas de flores, era quase outra vez madrugada, eu a dormir, estendido no assento corrido do volkswagen.

Agora, enquanto espero, pacientemente, o fim da noite, trazes, todos os dias, a flor do frangipani.
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