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the lord won't mind
rosas
innersmile


Lembro-me dos livros de Gordon Merrick nas prateleiras da Gay’s The Word e de outras livrarias londrinas, sobretudo por causa das suas capas sugestivas. Por mera casualidade, ou possivelmente porque haveria outras alternativas mais chamativas, nunca tinha lido nenhum livro dele, até a oportunidade surgir finalmente.

É interessante que Merrick não faça parte do canone actual dos autores de literatura gay, nem mesmo dos que são hoje os géneros mais populares e fáceis, como os livros de aventuras românticas dedicadas aos leitores masculinos, quando, pelo menos nos anos 90, era ainda um escritor bastante popular.
De certo modo, a avaliar por este The Lord Won’t Mind, percebe-se esse desinteresse dos leitores gay por este autor. Um excesso de romantismo que terá pouco a ver com as experiências e as vivências dos gays de hoje, um erotismo que consagra um culto de beleza e de virilidade nos quais, de igual modo, a maioria dos gays de hoje não se reverá.

E no entanto há razões para prestar atenção a este livro que foi escrito em 1970, mas que se passa muito tempo antes, na década de quarenta, nos anos imediatamente anteriores à entrada dos EUA na II Guerra Mundial. É interessante, por exemplo, que este livro tenha sido um best-seller, passando várias semanas las listas dos livros mais vendidos, quando é um livro especificamente gay, que pretende valorizar a homossexualidade como um lugar de realização pessoal e amorosa, recusando as ideias de depravação ou degradação; recorde-se que o livro foi publicado em 1970, os motins de Stonewall tinham ocorrido em junho de 1969!

E se de certa forma o opróbrio social está ausente da trama do livro, a sua essencia repousa precisamente nas questões de auto-rejeição, de recusa e vergonha de assumir uma orientação que era objecto de um forte estigma, quer no âmbito individual quer no familiar. Charles, que é também o narrador da história, ainda que na terceira pessoa do singular, é a personagem com quem o leitor se identifica, com todas as suas dúvidas e recusas, que cede ao apelo da sua natureza sexual mas recusa que ela marque as suas vidas pessoal, familiar, amorosa e até profissional. Peter ao invés, é apresentado como uma espécie de ‘bom selvagem’, puro e inocente, que não tem consciência de que é homossexual até ao dia em que conhece o amor por outro homem, aceitando sem quaisquer restrições ou problemas, a sua condição.

Para além disto tudo, estamos aqui perante aquilo que é, essencialmente, literatura light, de diversão, aquilo a que se chamava pulp fiction, e é inegável que a escrita de Gordon Merrick mantém esse potencial de entretenimento.

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Bem observado: apesar de ser literatura de cordel é um reflexo da época em que foi escrito, o que pede uma leitura mais atenta do que a que eu fiz há uns anos... :D

li um destes dias uma referência ao livro em que se salientava o facto de ser dos primeiros casos da literatura gay em que a história de amor acaba bem, sem crimes, suicídios ou manicómios :)

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