miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

mia madre

Consegui finalmente ver Mia Madre, o mais recente filme de Nanni Moretti. É inevitável pensar em La Stanza Del Figlio e até em Caos Calmo, um filme de que Moretti foi argumentista e actor. Todos estes filmes lidam com o tema do luto, com a devastação emocional, quer individual quer familiar, que representa a morte de alguém que faz parte do nosso círculo mais íntimo.

Moretti tem uma maneira muito particular, e muito eficaz, de se aproximar do melodrama. Tal como acontecia com O Quarto do Filho, há uma enorme subtileza no modo como aborda os sentimentos, nunca os mostrando ou nomeando, mas criando momentos ou espaços de silêncio nos quais as personagens, e nós com elas, se confrontam na sua própria solidão e desamparo.

Como Mia Madre também é um filme de comédia, um dos gags recorrentes tem a protagonista, Margherita, uma realizadora de cinema a rodar um filme de intervenção social e política, a dar aos seus actores a seguinte orientação: ela quer que eles sejam o personagem mas que ao mesmo tempo estejam, enquanto pessoas, ao lado da personagem, fora dela. Trata-se de uma instrução que os actores têm dificuldade em compreender, quanto mais executar, mas que é o que acontece no filme com espantosa eficácia: o filme é o que a câmara mostra, é o que está ali, mas é sobretudo o que está ao lado, o que está fora, a vida, o tumulto interior das personagens que apenas assoma nos pequenos gestos, nos olhares, no desânimo que de súbito tira ritmo aos passos quando caminhamos, nos breves momentos em que a tensão não pode mais ser contida e explode em breves mas devastadoras erupções.

Se O Quarto do Filho abordava o luto propriamente dito, o efeito irreparável de uma morte brutal e inesperada, Mia Madre centra-se nessa espécie de luto antecipado com que se vive uma morte anunciada: sabemos que vai acontecer, inevitavelmente, mas também em vão, tentamos preparar-nos para o pior que nos espera, tentamos lidar com a insuportável iminência da falta que nos vai fazer não apenas a pessoa de quem nos despedimos, mas também o amor que nos liga a ela. Aos poucos, a nossa vida passa a ser vivida quase inteiramente sob o plúmbeo céu da compaixão, do desânimo, da tristeza, da preocupação. As coisas do dia a dia, os pequenos incidentes e contrariedades, os caprichos dos outros, tudo isso se torna abrasivo. A dor imensa começa a esconder-se debaixo de uma espécie de conformismo bovino, animal; uma coisa sem nome e sem tacto. Uma mancha.
Tags: cinema, moretti
Subscribe

  • azul velho

    Esta foto tem mais de 11 anos, foi feita em Março de 2008 na piscina de um resort em Hoi An, no Vietname, por um outro hóspede que eu não…

  • leituras

    Down There on a Visit é um dos livros do Christopher Isherwood de que mais gostei, e já li alguns. Como nas suas obras mais populares, também este…

  • leituras

    Continuo a entrar e sair do hospital por causa das infecções. Desde a última vez que escrevi aqui, já tive alta e, ao fim de 6 dias em casa, voltei a…

  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 4 comments