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ora, como eu dizia...
rosas
innersmile


Estava a viver em Coimbra há muito pouco tempo quando apareceu nos cinemas o primeiro filme dos Monty Pythom, O Cálice Sagrado. Os meus amigos da altura estavam numa excitação imensa, porque eram fãs da série televisiva, Os malucos do Circo, o título em português do Flying Circus. Excitação que eu não acompanhava porque, muito simplesmente, nunca tinha ouvido falar neles. Na altura, claro, não havia net, nem youtube, nem downloads, nem sequer dvds, nem ao menos cassetes video, ou seja, não havia maneira nenhuma de ver o que quer que fosse fora da transmissão em antena pelos canais de televisão (que eram só dois, ou melhor um e meio, que o segundo canal só funcionava aos bocadinhos). E eu, quando a série passou na TV portuguesa, ainda estava em Moçambique, onde não havia televisão.

Lembro-me que estranhei muito o humor dos Python, de tal forma ele era diferente de tudo o que eu conhecia até à altura. Mas, claro, foi uma paixão (para usar uma expressão cara aos editores do John Cleese) que se foi entranhando à medida que foi crescendo, primeiro com os filmes, depois com as cassetes de video, depois com as repetições que eu apanhei numa canal qualquer de tv já no tempo dos satélites, depois com os dvds, e finalmente com a transmissão em directo nos cinemas, o ano passado, do espectáculo que fizeram na arena O2.

Apesar de gostar muito dos Python, e de saber de cor alguns dos mais famosos sketches, e as canções desbragadas, não sou, como em geral não o sou, daqueles fãs die-hard, que compram a memorabilia, que ouvem os discos e lêem os livros todos. Mas desta vez apeteceu-me ler a tradução portuguesa de So, Anyway (em português Ora Como Eu Dizia...), a espécie de autobiografia e livro de memórias que John Cleese escreveu sobre o que foi a sua vida desde que nasceu até à transmissão do primeiro episódio do Flying Circus.

Claro que o livro é muito divertido, e de algum modo condiz com a ideia que fazemos do Cleese, alguém que está ali a meio entre o tipo dos silly walks e o Basil das Fawlty Towers (não, isto não pretende ser um elogio). Mas houve coisas que me surpreenderam, e algumas até foi das que mais gostei no livro. Como perceber, de forma muito nítida, que o John Cleese é essencialmente um escritor, um argumentista, alguém que começou a sua carreira a escrever rábulas de comédia e foi crescendo daí em diante. E que o seu compromisso sempre foi com a escrita de comédia, e não tanto com a sua representação.

Outro aspecto que me surpreendeu um bocado é uma espécie de negrume que perpassa por todo o livro. Eu já sabia que o Cleese dedicou anos à psicoterapia (até escreveu um livro em co-autoria com um dos seus terapeutas), mas é incrível como o tipo é cheio de issues, que começam, de maneira bem freudiana, pela complicada relação com a mãe. Mas o que é verdadeiramente surpreendente é a forma desabrida e honesta (mas nunca candida ou ingénua) como o John Cleese assume isso no livro, como fala desses assuntos.

Um aspecto que me tocou é este livro ser, quase tanto como uma auto-biografia, um livro de homenagem à memória do Graham Chapman, que morreu de cancro em 1989, e que foi o principal parceiro de escrita de Cleese nos anos pré-Python e, claro, durante os anos em que o grupo esteve mais activo. O Graham aparece muito cedo no livro e nunca mais sai dele, e o que me tocou é que o livro é assim como se o John Cleese estivesse a fazer a sua parte para o Graham poder participar não tanto da enorme popularidade mas do sentimento de admiração e mesmo devoção que os fãs de todo o mundo dedicam aos Python, reparando assim a tremenda injustiça que foi a sua morte precoce.

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Muitos gostam do "Monty Pythom" eu não conheço, já ouvi falar e muito, e bem mas como já se sabe o tempo não estica :-S

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?

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