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A crise dos refugiados que está na ordem do dia da Europa é, como quase todas estas coisas, demasiado complexa para podermos ter opiniões muito simplistas e taxativas. O mundo raramente é a preto e branco, e o demónio esconde-se nas múltiplas e subtis variedades de cinzento.

Mas há duas ou três coisas que eu sei. A primeira é que, e isto é enfaticamente assim no caso dos refugiados sírios, o Ocidente tem muitas, para não dizer todas as responsabilidades na origem desta crise. Para poder levar a democracia, ou o simulacro dela que é o regime que nós conhecemos, a países com regimes mais ou menos ditatoriais, e dessa forma diminuir o poder das oligarquias reinantes que obstaculizavam os interesses do ocidente, a Europa e os EUA armaram tudo o que era oposição; foram as famigeradas primaveras árabes, que nós andámos a celebrar nas redes sociais, e que destaparam as caixas de pandora de todos os fundamentalismos radicais. Daí a guerra na Síria, que dura há quatro ou cinco anos, que tem destruído património da humanidade e levado o caos ao país e o sofrimento às populações. Os sírios não eram uns tipos andrajosos e maltrapilhos que viviam em lassidão à espera que lhes pusessem uma arma na mão; ao contrário, eram um povo trabalhador e culto, com estilos de vida tão ou mais sofisticados do que o nosso, que tinham uma economia próspera e diferenciada, e que vivam sob um regime que negava a liberdade de oposição política e cerceava o direito de opinião, mas que mantinha um equilíbrio estável e participado entre os diversos grupos religiosos, e que permitia liberdade de circulação às pessoas, nomeadamente para virem estudar ou trabalhar para os países ocidentais.

Outra coisa que eu sei é que, como acontece habitualmente, a verdade imanente das coisas não está nas redes sociais: nem na ingenuidade bondosa de quem pretende receber os refugiados de braços abertos (desde que eles não sejam colocados na minha terra, como a co-incineradora), nem na retórica demagógica de quem acha que atrás de cada criança síria está um terrorista façanhudo e que esses tipos só querem vir para cá roubar-nos os empregos e as mulheres. Uma e outra posição são apenas as duas faces da mesma realidade: a de quem não quer ver perturbado o seu estilo de vida, nem ter problemas de consciência com o mal dos outros.

A outra coisa que eu sei é que a minha mãe, durante todo o tempo que viveu depois da vinda de Moçambique, sempre recusou o epíteto de ‘retornado’ com que se apelidaram as pessoas que vieram das ex-colónias; ela dizia que não tinha retornado a sítio nenhum, porque nunca tinha posto os pés em Portugal até ao dia de abril de 1977 em que desembarcou na Portela.Considerava-se antes uma refugiada, a quem, por razões que a ultrapassavam e que não tinham nada a ver com a sua circunstância pessoal, mas com os ventos da história, impediram de continuar a viver na terra onde nasceu e obrigaram a procurar refúgio (lá está!) em terra alheia.

Foi, digo eu, e tal como aconteceu comigo, com muitas pessoas da minha família e com um número incontável de amigos e conhecidos, uma refugiada privilegiada, porque no meio do caos que varreu a sua vida, encontrou uma terra que a acolheu, que a integrou e que lhe deu todas as condições para ela, a partir daí, a considerar tão sua com tinha sido aquela de onde teve de sair por razões que lhe foram alheias e que causavam enorme, e insustentável, constrangimento e sofrimento, quer físico quer psicológico. Ora, e o ponto deste texto é este, parece-me que a propósito desta crise de refugiados sírios, nõs não deveríamos estar a falar de qualquer outra coisa senão de isto mesmo.
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ainda hoje estava a pensar nesse aspecto, olhando sob a perspectiva da minha mãe e o resto da família que nasceu em Angola... :/

esquecemo-nos da nossa história enquanto olhamos implacáveis a história dos outros

Nós alimentamos o esquema das opiniões simplistas quando mudamos a foto de perfil apoiando o Charlie Hebdo ou quando lhe adulteramos as cores para formar um pretenso arco-íris qualquer (eu não).
Não posso censurar quem quer dar a sua opinião e não o pode fazer através de uma crónica num jornal; não tendo um blogue, fá-lo no mural do facebook, às vezes bem, outras vezes num pequeno texto pejado de demagogia e de preconceito.

O que noto, sim, é que há os que aceitam bem os refugiados e os que se opõem à sua vinda. De entre eles, onde me incluo, há os que defendem que quem vem por bem é bem-vindo, mas que não censuram que os Estados soberanos possam impor alguma ordem nas chegadas desenfreadas. Os países têm o seu limite. Acredito que seja uma visão muito crua, economicista, aceito a crítica. Qualquer um de nós, perante uma leva de pessoas querendo entrar em sua casa, provavelmente fecharia a porta. Assim se passa com os Estados. Governar um país não difere muito, exceptuando em proporção, de governar uma casa.

Temos responsabilidades, os ocidentais, sim, temos. Pergunto-me, por que motivo países como a Arábia Saudita, acérrima aliada dos E.U.A, país rico, decerto, entre outros do Médio Oriente, não aceita refugiados aos milhares? Estariam melhor integrados, já que «em Roma, sê romano».
Depusemos tiranos, propiciámos conflitos intermináveis. Talvez seja o preço a pagar.

*aceitam (e não "aceita")

é certo que a Arábia saudita não aceita refugiados. mas o Líbano, que é um país já de si muito frágil, tem mais de 4 milhões e já passou o ponto da ruptura. a Turquia também, creio, tem mais de 1 milhão. a Jordânia também tem, não sei quantos.

por outro lado a Europa e os EUA assistem impassíveis (é que já nem fingem choque!) à destruição que o estado islâmico está a provocar no médio oriente, nomeadamente na Síria e no Iraque. esquecem-se de que, como na canção antiga do Leonard Cohen, "first we take Manhatten then we take Berlin": o EI tem planos para invadir e conquistar a Península Ibérica e nós olhamos para isso como se eles fossem uns tolos que não sabem o que dizem.

esta Europa afásica é humilhante.

Miguel, os países mais ricos da região não receberam uma alma sequer: Qatar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait. E a Turquia, a Turquia, meu Deus, ficarão por lá, ou utilizarão a Turquia como mera passagem para um destino... ainda melhor?...

A França quer combater o EI e fá-lo-á em breve. Pelo menos foi o que li.

Da minha parte, levo muito a sério os planos do EI quanto à nossa península. Escrevi sobre isso há uma semana e pouco, creio. Não sei se tiveste a oportunidade de ler.

não sou grande leitora das redes sociais agora, basta-me ler os comentários a uma notícia online e fico agoniada. muito fanatismo sem se aperceberem que por detrás daquelas pessoas há vidas que se perderam, bens que deixaram para trás, raízes e história. e, já agora, a história da síria tem muito que se lhe diga na 1.ª GM (uma leitura rápida à wikipédia...).
a minha família retornou a casa, eu não, mas a bandeira era a mesma...

sim, a bandeira era a mesma. mas a diferença, acho eu não está aí. apesar da confusão brutal em que estávamos metidos em 75-77, havia princípios e valores, acreditava-se na solidariedade. hoje não; achamos que o problema não é nosso, só não queremos é que nos chateiem. e não estou a falar de ti ou de mim, mas da Merkle ou do Passos.

não só que não nos chateiem, mas que não nos tirem o que é nosso. egoísmo e luta pela sobrevivência.

Se há tema do qual não escrevo é esse, até porque a minha opinião tem dois lados, o racional e o do coração, entram em choque e não é de admirar que existam pessoas a favor e outras contra, as razões são várias :-S

mas é bom conseguirmos analisar as coisas sob várias perspectivas. claro, torna mais difícil escrever sobre os assuntos, é mais fácil mandar umas bocas muito inflamadas.

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