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on the move: a life
rosas
innersmile


Já aqui escrevi, há dias, sobre On The Move, de Oliver Sacks. Trata-se da autobiografia, tão boa como surpreendente, do autor de O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu e Awakenings, entre muitos outros títulos que reportaram a sua experiência enquanto médico e académico ligado às doenças neurológicas e mudaram a perspectiva com que olhamos para as pessoas que padecem dessas doenças.

A primeira parte do livro, correspondendo à juventude do autor e ao seu início de carreira, têm um tom mais pessoal, e é sem dúvida a parte mais interessante do livro. Na segunda parte, Oliver Sacks faz a ponte entre a vida e a literatura, contextualizando a escrita e a publicação dos seus livros com os desenvolvimentos da sua vida profissional e até pessoal.

A escrita de Sacks é muito ágil e fácil, e mesmo os trechos mais técnicos, onde predomina a linguagem específica das ciências, em particular da medicina, se lêem muito bem, como, aliás, eu me lembrava da experiência de ler O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu. Para mais li em ebook, no original, apesar de já ter visto à venda a edição portuguesa, da editora Relógio d'Água.

Comecei a ler o livro quando, há duas semanas, estava a ter de novo hematúrias. E terminei-o no domingo de manhã, quando já sei, desde quinta-feira passada, que tenho de novo lesões malignas na bexiga e vou ter de ser novamente operado, e muito em breve. A doença atravessa o livro de Sacks, e não apenas as doenças neurológicas, mas muitas outras, nomeadamente o cancro, que vitimou muitos dos seus familiares e amigos, e o próprio Oliver Sacks. Eu ia escrever que, por isso, a leitura do livro foi um pouco triste, mesmo depressiva, apesar de isso ser uma enorme injustiça para um livro que é sempre luminoso e positivo.

Mas de facto o que me entristeceu na leitura do livro não foi tanto a circunstância da doença, mas sobretudo o facto de Sacks ter vivido uma vida muito solitária; uma solidão tanto procurada, como resultante das circunstâncias da vida, e que se manifestou desde a sua juventude, quando a paixão pelas motos lhe dava o pretexto para se isolar em passeios e viagens solitárias. E uma solidão para a qual Oliver Sacks foi muito empurrado pelo facto de ser homossexual e, na sua juventude, ter tido a percepção, ou então apenas o receio, de que a sua identidade sexual o pudesse afastar daqueles a quem mais amava, nomeadamente a sua família.

Os livros de Sacks devem-se, sobretudo, ao facto de ter sido sempre um escritor compulsivo, em especial de anotações para si próprio, através nomeadamente de diários. Estava sempre acompanhado de um caderno e apontava tudo, rigorosamente tudo o que lhe passava pela mente. Um caderno junto à cabeceira da cama para apontar sonhos e outras reflexões noturnas. Outro na borda da piscina ou na margem do lago, para anotar os pensamentos que tinha enquanto nadava (sei por experiência própria que, como Sacks refere, enquanto nadamos o pensamento se cristaliza por vezes em frases ou parágrafos inteiros e perfeitos).

Todos estes aspectos que refiro criaram, naturalmente, uma certa identificação minha com o autobiografado. Não como exercício de vaidade, é claro, duas vidas não poderiam ser, quer na sua circunstância quer principalmente no mérito do seu propósito, mais diversas. Mas claro que não é isso que está em causa; é outra coisa, e, como diria Pessoa, ou o Zé Mário Branco, essa coisa é que é linda! Por isso é que este livro me inspirou tanto. Passa, naturalmente, para a prateleira afectiva dos meus livros favoritos.

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não era o stockler que tinha uma frase sobre as coincidências da vida e dos livros que estamos a ler no momento? acontece-me muitas vezes, embora não tenha chegado ao momento por que estás a passar mais uma vez.
vi o filme baseado no seu livro não há muito tempo, mas nada li dele, embora, por curiosidade, já depois do nosso almoço, tenha folheado os seus livros na fnac do colombo.
de resto, neste comentário vê-se como te identificaste com o autor e como gostaste da autobiografia. encontramos nas palavras dos outros muito da nossa vida que não conseguimos transpor para o papel e nem, sequer, dizer.
a solidão tem tanto que se lhe diga...

era sim. sempre impressionado com as "coincidências junguianas" :)
que falta que me faz o Saint-Clair, que saudades.

é essa a magia da literatura e dos livros, não é Margarida? a forma como explicam e clarificam a nossa vida :)

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