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gisela joão
rosas
innersmile
O melhor do fim de semana passado foi o concerto da Gisela João, no sábado à noite, no auditório ao ar livre da Quinta das Lágrimas. A Gisela parece uma miúda (ok, é uma miúda), de saia curta e sapatilhas, sempre aos pulinhos e a dançar pelo palco. Mas tem aquele vozeirão e uma maneira de o usar para exprimir emoções, contida e ao mesmo tempo exuberante, que nos transmite gravidade e respeito. E depois tem ainda um cuidado extremo com a dicção que nos possibilita perceber todas e cada uma das palavrinhas dos poemas e das letras que canta. Foi acompanhada por Ricardo Parreira, na guitarra portuguesa, Nelson Aleixo, na viola clássica e Francisco Gaspar, no baixo acústico.

Apesar de ter sido um belo concerto, não gosto muito dos espectáculos na Quinta das Lágrimas, sobretudo estes concertos que dependem muito da cumplicidade entre artista e público. Apesar do enquadramento de luxo (a noite, as estrelas, a lua, a água, as árvores, o ruído da cidade lá ao fundo), há uma distância física muito grande entre o palco e a plateia que arrefece o ambiente. Não me estou propriamente a queixar, mas gostava de assistir a um concerto da Gisela num espaço mais acolhedor e, digamos, íntimo.

Como o fado se pratica sobretudo nas casas de fado, a necessidade de o trazer para os grandes auditórios das salas de espetáculos do país tem cristalizado num modelo de concerto que, por um lado, alterna temas mais lentos e íntimos (eventualmente mais devedores do fado tradicional) com outros mais animados e que apelam mais à participação do público, e que, por outro, tenta equilibrar os repertórios próprios dos artistas, em particular o que gravam em disco, com outros temas, mais populares, que são convocados para os espectáculos ao vivo. Curiosamente é nestes temas mais populares e “mexidos” que a maior parte dos artistas vai buscar ao baú da Amália Rodrigues que, por fazer muitos concertos, criou, de certo modo, este modelo. No concerto de ontem, a Gisela João cantou o Sr. Extra-terrestre, um tema do Carlos Paião que a Amália gravou em início dos anos 80, numa altura em que a sua carreira estava um pouco em baixo, na sequência dos fervores revolucionários do pós-25 de abril que colaram muito o fado aos tempos do regime fascista. Gostei de ouvir o tema, que nem é dos seus melhores, sobretudo porque foi uma bela maneira de recordar um grande autor de canções populares.
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