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saudade
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Durante os mais de dois meses em que a minha mãe esteve internada nos cuidados paliativos, a A foi, de todos os meus amigos, a que esteve mais presente. Presente com a minha mãe, pois ia visitá-la quase todos os dias, nomeadamente nas ocasiões em que eu não podia lá ir: a A foi, com exceção do pessoal da enfermaria, a última pessoa a ver a minha mãe viva, cerca de uma hora antes de morrer, para me poder mandar notícias, pois eu estava fora de Coimbra, em trabalho, logo desde manhã.

E presente comigo, a ouvir-me falar incessante e desalmadamente sobre o momento que estava a viver, a repetir vezes sem conta os sentimentos e as emoções para, falando sobre elas, aprender a conhecê-las e a lidar com elas. Presente a acompanhar-me nas visitas à minha mãe quando percebia quando eu estava dividido entre a obrigação moral de ir estar com ela e a exaustão de quem já não aguentava tanta sangria emocional.

Escassos quatro meses passados, a A acabou de viver tudo isso que eu vivi. Mas de certo modo com um choque maior e mais brutal. Faz precisamente hoje quinze dias, numa visita ao hospital pouco mais do que de rotina, surgiram os primeiros sinais de que a sua Mãe padecia de uma doença muito grave. Seguiram-se oito dias de internamento durante os quais, pareceu-me a mim, à distância, os médicos hesitaram em fazer qualquer tipo de intervenção terapêutica. Na segunda-feira, uma paragem cardio-respiratória pôs termo àquilo que iria ser uma intensa agonia.

Foram muito difíceis estes dias mais recentes. Por ver uma amiga tão querida a passar por momentos tão violentamente dolorosos, e por perceber quase como se fosse num espelho, o torrencial de emoções e perplexidades que nos dilaceram a mente nestes momentos, que vai do remorso, mesmo quando para ele não há justificação alguma, à total incredulidade, passando pela imensa incógnita sobre como seremos capazes de encarar o vazio afectivo que fica no lugar de quem tanto amamos, e por uma profunda compaixão por quem partiu quando ainda tinha tanta alegria e vontade de viver.

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Agora um beijo para AVdC...

:(( que merda de vida esta, nestas alturas...

curioso que no outro dia fui dar com uma das muitas coisas que tenho escritas sobre a minha mãe e dei por mim a passar isso, ontem, para um outro blog que tenho (mas que também não costumo actualizar com frequência... ). acho que vou copiar aqui para o LJ também.
maioria das vezes guardo para mim mas quando me apercebo do impacto que têm em mim as histórias dos outros, talvez as minhas também tenham para eles se as puser cá fora...

Lembrei-me de ti e da tua mãe hoje, ao passar num local que fotografei no meu verão horribilis de 2008, que coloquei no lj e tu comentaste porque era o dia de anos dela. Nunca a conheci, ainda não te conheci, mas vão, as duas, ficar ligadas a esse local e a essa memória. E isso é bom. :)

Edited at 2015-07-08 11:46 pm (UTC)

:))

já não me lembrava disto. guardei a foto nas memórias ***

traz para aqui sim, é bom partilharmos as nossas histórias.

:-( um choque inimaginável. o fim seria o previsto, mas assim não. Todavia, a tua amiga sofre neste momento, mas a sua mãe, como referes, não teve de passar por todo sofrimento, como ambos sabemos e assistimos.
Tu seres um ombro amigo é o que ela necessitará agora mais do que nunca.

nestas horas é preciso uma pessoa elevar-se muito, para encontrar consolo nos outros. a dor pode tornar-nos egoístas.


Abraços e silêncios são os melhores lugares nessas alturas.

obrigado Carla, tens razão

A morte que vem sem avisar é mais perturbadora, mas creio que o que muitos dizem ser possível, ou seja, ir desprendendo gradualmente os laços nos casos de doenças terminais, não é acontece assim de forma tão mecânica. Ninguém quer encarar a morte de um ente querido até ser confrontado com ela.

Como disse a Carla, os silêncios ajudam mais do que qualquer palavra.

um abraço e muita força para a A.

sim, Mark, não maneiras melhores ou maneiras piores de vivermos a dor devastadora da perda das pessoas a quem mais amamos, nem de atenuar as saudades que se vão sempre acentuando ao longo do tempo.
um abraço e obrigado pelas tuas palavras sempre carinhosas.

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