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dora bruder
rosas
innersmile


Gostei imenso de Dora Bruder, da autoria de Patrick Modiano. Eu já tinha lido um outro livro do autor, As Avenidas Periféricas, que a Margarida me ofereceu no Natal, e de que já tinha gostado bastante. Não é uma escrita empolgante, não se trata propriamente de page turners, mas os livros têm ao mesmo tempo uma profundidade e uma limpeza, que me seduzem. Por outro lado gosto da mistura de realidade e ficção, de modo que não conseguimos perceber exactamente o que é que são factos concretos e o que é que é fruto da imaginação do escritor. Quando estava a concluir a leitura do livro lembrei-me que, se calhar, Modiano e Sebald são os dois escritores que eu escolheria se pudesse escrever à maneira de. Não é a mesma coisa que dizer que são os meus escritores favoritos, não é nem deixa de ser, mas a escrita de ambos fascina-me ao ponto de eu dizer que sim, que se eu conseguisse, escreveria livros como os deles.

Este Dura Bruder é uma espécie de inquérito. Tem como ponto de partida um anúncio de jornal publicado em 31 de dezembro de 1941: os pais de Dora noticíam o desaparecimento da filha, uma adolescente judia de 15 anos, divulgam os seus sinais particulares, e pedem informações sobre o seu paradeiro. Com base nesta escassa informação, o narrador Modiano tenta, por um lado, reconstruir o que foi a vida dos Bruder e de Dora nos tempos da ocupação nazi, e o percurso de Dora desde o seu desaparecimento até ser deportada para Auschwitz, em setembro de 1942.

Outro aspecto que me fascinou particularmente no livro é o seu carácter “topográfico”. Muita da pesquisa de Modiano tem a ver com as ruas, com os edifícios, com aquilo que permanece desse tempo negro, e com aquilo que desapareceu para sempre. O autor percorre os caminhos, estabelece trajectos, e formula hipóteses baseando-se nas suas próprias vivências da cidade. Este aspecto dá um certo tom à narração, uma certa melancolia, uma dor por todas as perdas que a França ocupada sofreu: a perda das pessoas, das histórias, até das ruas e dos bairros.

O resultado deste inquérito pessoal é um relato sombrio e desesperado sobre a vida na capital francesa sob a ocupação nazi. A violência e o horror que sentimos latente ao longo de todo o livro, entra como um relâmpago quase no final, breve e intensamente, a justificar a razão pela qual este como outros exercícios de memória são imprescindíveis.

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Desconhecia por completo este autor até lhe ter sido atribuído o Nobel, este ano.
Adquiri um livro dele que ainda não li, O Horizonte e nada mais, mas fiquei muito curioso deste outro.

um óptimo autor e um livro excelente

estás na profissão errada. agora só me apetece ter todos os livros deste autor. peguei na livraria há pouco o 'para que não te percas no bairro' e foi a custo que lá o deixei...

concordo contigo: deviam pagar-me para eu escrever aqui no innersmile :)

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