film stars don’t die in liverpool
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Acho que é difícil não gostar de Film Stars Don’t Die in Liverpool (desde logo pelo próprio título do filme), realizado por Paul McGuigan. Primeiro pela Annette Bening que é soberba. É delicioso ver o seu jogo, mas também é fantástico o desenho da personagem que ela entrega. Depois pela mistura de drama e comédia romântica tendo como pano de fundo o ambiente típico dos filmes ingleses que se passam nas working classes, e aqui a presença da Julie Walters é preciosa. Apesar de secundária, muito do tom do filme, da comédia e da seriedade e do compromisso, deve-se à sua personagem e ao seu trabalho. Outra razão para gostar do filme é a banda sonora, a começar com os acordes iniciais de Song for Guy, do Elton John, e a terminar na canção que Elvis Costello escreveu propositadamente para o filme.

Mas a glória do filme (trocadilho intencional) é a Bening, a forma como ela se dá fisicamente ao papel, o modo como seduz, quer o Peter Turner, quer todos nós espectadores. E a maneira crua, mas mantendo essa centelha de sedução, como vive a degradação física que acompanha os últimos momentos da vida de Gloria Grahame.
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mulheres de cinza, o meu tio, uma história de pássaros
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Lido o primeiro volume, Mulheres de Cinza, de uma trilogia que Mia Couto dedicou aos últimos dias do Império de Gaza, o grande reino que dominava todo o sul de Moçambique, e que os portugueses conquistaram no primeiro esforço sério feito para penetrar no interior do território moçambicano, já quem até aí, a ocupação se resumia a uma fraca presença em algumas localidades do litoral. Na última década do século XIX a capital portuguesa em Moçambique ainda era a Ilha de Moçambique, e só a partir destas campanhas de de ocupação de terrotório, com a transferência da capital para Lourenço marques, se pode dizer que verdadeiramente começa a ocupação colonial em Moçambique.

A minha infância foi povoada de histórias do Gungunhana, como o chamávamos em português, e do seu captor, o oficial Mouzinho de Albuquerque, que tinha uma estátua equestre na principal praça da cidade de LM. A minha bisavó Maria, que eu ainda conheci e com quem convivi diariamente, foi ver o Mouzinho a desfilar vitorioso pelas ruas da cidade, uma história que sempre ouvi contar a minha mãe.

O livro de Mia Couto conta a história desses últimos dias do império nGuni a partir de dois relatos alternados: o de uma rapariga de 15 anos residente de uma aldeia ocupada pelos portugueses, e o de Germano, sargento português, de facto o único ocupante do improvisado quartel da aldeia, através de correspondência que vai acentuando o desespero e a paranóia de quem está em estado de solidão total e se apercebe da inutilidade da campanha face à dimensão e à força da cultura local.

Mia Couto escreve, como já está estabelecido há muito, magistralmente, e o que mais apreciei no livro foi a sua capacidade de tornar inteligível para nós o universo de referências e valores de culturas que nos são muito distantes. Há uma maneira de ler o mundo e a vida que não entendemos e Mia Couto abre-nos a porta para essa leitura.



Dois contos muito bons, uma edição distribuída gratuitamente que me levou a comprar o jornal Expresso da semana passada (isso e a magnífica entrevista com Adolfo Mesquita Nunes, o vice-presidente do CDS).

O de Isabela Figueiredo, O Meu Tio, confirma a grande escritora que a autora é, e o seu talento para desenhar perfis psicológicos e sociológicos sempre com sentido de humor e a mais terna das ironias em relação às personagens.

O conto de Afonso Reis Cabral, Uma História de Pássaros, foi uma revelação, não conhecia o autor e gostei bastante da sua prosa escorreita, e do sentido de humor subtil.

cada dia
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No sábado passado, fiz anos, 56. Começo a sentir cada ano que completo como uma conquista. Esteve um lindo dia de sol e céu azul, e eu fui almoçar com a minha tia, comer um belo de um caril à goesa, o meu preferido. Passei o dia bem disposto, animado.

Confesso que fico um bocadinho chocado quando falo com algumas pessoas e elas parecem não valorizar os problemas de saúde que tenho, e que são cada vez maiores, e acham que há aqui uma componente de medo ou depressão. Faço um grande esforço para manter a cabeça à tona da água, para não me desesperar, para não pensar muito no futuro e naquilo que eu posso esperar dele, em termos de saúde. Continuo a trabalhar, apesar de na maior parte dos dias isso me deixar exausto, mas o trabalho dá um certo sentido de normalidade à minha vida, obriga-me a sair dos meus problemas e das minhas angústias.

Acho que tento seriamente não ser um “drama queen”, sempre centrado nos seus problemas de saúde e que não fala de outras coisas. Mas tenho receio de que me esteja a tornar cada vez mais naquele tipo de gajo que a gente vê ao fundo da rua e passa cautelosamente para o outro passeio e a quem acenamos vivamente com a mão mas sem nos atrevermos a parar. Um chato. O tipo de pessoa a quem perguntamos um simples “estás bom?” e nos arriscamos a estar meia-hora a ouvi-lo despejar o processo clínico.

Por estes dias, nasceu um bebé, com 28 semanas e pouco mais de 1 quilo de peso. No meio de um pesadelo arrepiante, feito de dúvidas e contradições, o bébé resolveu sair cá para fora, espontaneamente, à procura das melhores condições de viabilidade. O futuro para ele ainda permanece uma grande incógnita, mas ele cá está, a lutar tenazmente por cada dia. Como todos nós, afinal. Neste momento, este bebé é o meu herói, tento, humildemente, aprender com ele.

eu cláudio, vertigem assassina
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Há anos que tenho cá em casa o livro Eu, Cláudio, da autoria do inglês Robert Graves. Trata-se, como o título deixa adivinhar, de um romance histórico, passado na época imperial de Roma, e que se organiza como uma autobiografia escrita por Cláudio, quarto imperador da dinastia júlio-claudiana. Portador de evidentes deficiências físicas, e por isso olhado com desprezo pelos restantes membros da família, Cláudio conseguiu, precisamente por causa delas, sobreviver a conjuras e atentados e tornar-se imperador, contra as suas próprias expectativas.
O livro de Graves serviu base a uma série televisiva, creio que ainda nos anos 70, com Derek Jacobi no protagonista. Vi-a na altura (e revi-a, mais tarde) e desde então que tenho vontade de ler o livro. Comprei-o já há uns poucos de anos, mas só agora o li, e é um livro deveras fascinante pela vivacidade do relato e pela riqueza dos pormenores, pela quantidade de informação histórica que consegue transmitir, mas sem nunca perder o interesse romanesco desta história exemplar de política e de família, de poder e de moral.


Já tinha lido dois thrillers de Nelson DeMille, sempre com o John Corey, o narrador e protagonista desta Vertigem Assassina. Foi, se bem me lembro dos anteriores, o volume mais fraquito. A concentração da acção num período de tempo relativamente curto, em que o narrador nos vai mantendo a par e passo das peripécias da acção, exigem um nervo de escrita que nem sempre está presente, e há trechos do livro que são um pouco aborrecidos.

phantom thread
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Gosto muito dos filmes de Paul Thomas Anderson e, se bem que Boogie Nights e Magnolia tenham sido marcantes, acho que os filmes mais recentes do realizador têm uma gravidade, um peso, que os torna particularmente interessantes.

Por um lado, é a meticulosidade rigorosa da sua câmara, uma atenção obsessiva ao detalhe, uma composição perfeita do plano. Isso é particularmente notável em Phantom Thread, já que o filme se centra na figura de um costureiro inglês de meados do século XX, ele próprio um obsessivo pela delicadeza das texturas e pela subtileza dos pormenores.

Outro aspecto fascinante dos filmes de Anderson é complexidade das personagens, a sua densidade. São normalmente personagens que reunem em si o melhor o pior, transportam em si a capacidade de se sublimarem, de subirem acima da fasquia, de gestos da maior grandeza, mas trazem igualmente uma centelha malévola, uma certa capacidade de destruição, deles próprios e daqueles que estão à sua volta.

Phantom Thread tem ainda a mais valia de contar com três trabalhos de interpretação excepcionais. Dane Day Lewis, claro, é um actor fora de série, e anunciou que este é o seu último trabalho no cinema, para nossa grande perda. Mas a excelência da interpretação de Lewis é igualada pelas suas colegas de cena, Vickie Krips e em especial a Lesley Manville, um desempenho tenso e afinado como uma corda de violino.
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actores
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Fui ver no fim de semana ao TAGV a peça Actores, encenada por Marco Martins (o realizador de Alice e de São Jorge), e com o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes, o Miguel Guilherme, a Rita Cabaço e a Carolina Amaral. Gostei muito da peça, mas confesso que fiquei perturbado com a recepção do público: as pessoas riam-se efusivamente com aquilo que me pareceu ser um drama, achavam cómico aquilo que a mim me pareceu frágil e angustiante. Não percebi, a sério, se fui eu que me enganei, e o espectáculo era de facto uma comédia, ou se, ao contrário, essa reacção mostra que a generalidade das pessoas já nem está disponível para ver e ouvir aquilo que se está a passar à sua frente, e reage em função de uma ideia pré-concebida.

A dramaturgia da peça assenta numa ideia muito rica e também ela um pouco perturbadora: trabalhar com um leque de actores, co-criadores do espectáculo no sentido em que este assenta nas suas próprias memórias dos momentos mais difíceis e angustiantes das suas carreiras, dos seus percursos enquanto actores. Não é um best of, nem sequer uma espécie de revisão de carreira. É mesmo um mergulho aos momentos mais difíceis dos seus percursos profissionais, quando, por exemplo, tiveram de lidar com a frágil exposição das audições ou com o embaraço do insucesso e de trabalhos de recurso para assegurar a sobrevivência.

Para incrementar o sentimento de imersão, dando maior veracidade ao jogo entre o que é real e o que ficção, o encenador opta por organizar o espectáculo como se ele fosse uma sala de ensaios, onde a estrutura da peça e a sua construção estão ali expostas ao nosso olhar. Assim, vê-se ao fundo uma série de folhas A4 que contêm a estrutura da peça e o seu desenvolvimento. Um ecrã em plano superior mostra-nos, com uma preocupação quase documentarista, a identificação dos diferentes espectáculos que cada um dos actores vai convocando, bem como o seu contexto cronológico nas respectivas carreiras. No segmento inicial, o das audições, um letreiro luminoso mostra, em letras vermelhas, uma espécie de didascálias das emoções que se esperam dos candidatos. Mas o exemplo mais flagrante deste jogo é talvez o facto de o próprio encenador participar na peça, dando, a partir do fundo da sala onde estamos, indicações de cena aos actores em palco.

O segmento final do espectáculo é, na minha opinião, o mais forte do ponto de vista emocional, e talvez aquele em que o equívoco do público se torna mais embaraçoso: cada actor conta um sonho ou um pesadelo que tenham tido relacionado com a sua profissão ou com determinado trabalho. Um deles sonha que acabou de assassinar todos os espectadores presentes numa determinada récita quando lhe vêm dizer que os seus pais também estavam na plateia. Outro sonha que está a fazer um monólogo shakespeareano e lhe começam a cair os dentes, um por um, mas ele persiste na representação tentando disfarçar a falta dos dentes.São momentos em que a vulnerabilidade e a fragilidade dos actores se torna muito emocional, quase arrepiante.
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manchester e outras histórias
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É amanhã, dia 5 de fevereiro, posto à venda mais um pequenino volume de contos, que tenho escrito ao longo dos anos. Leva o título de um dos contos do livro, Manchester, precisamente a história mais antiga que escrevi, ainda nos anos oitenta, na ressaca da minha experiência com o cancro num hospital de Londres. A razão pela qual uma história passada num hospital de Londres se chama Manchester não é explicada no texto, e acho que também não o será aqui. Basta dizer que, neste caso, o nome tanto se refere à cidade no nordeste da Inglaterra como ao seu clube mais emblemático, o Man United.

Este conto dá o mote ao que poderá ser a temática aglutinadora destas histórias. São, em geral, histórias sobre a doença, o envelhecimento, e a degradação física. Acho que estão aqui alguns dos contos mais tristes que eu escrevi, e quase todos têm, porque não sei escrever de outra maneira, um fundo muito pessoal, mesmo que não sejam propriamente, ou exclusivamente, histórias de teor autobiográfico.

Claro que a edição deste livro, como o de todos os que publiquei anteriormente, se deve unica e inteiramente à generosidade e à disponibilidade dos meus amigos João e Luís, através da sua editora Index Ebooks. E por razões muito fortes, no caso deste livrinho a gratidão que me vincula a estes amigos é ainda maior. De facto, a edição do livro, depois de um ano em que andei dolorosamente à volta dele, deve-se apenas a eles e à sua amizade. Ainda que, neste caso ainda mais do que nos outros, os seus defeitos e as suas fragilidades sejam exclusivamente da minha responsabilidade.

Todas as informações sobre o livro e as formas alternativas de o adquirir, quer em formato digital quer em edição impressa, podem ser encontradas no site da Index Ebooks, em especial no link seguinte: http://www.indexebooks.com/manchester.html

labirinto ou não foi nada
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Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua ...
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.


É um poema lindíssimo escrito por David Mourão Ferreira e que já conhecera versão para fado. Mas no seu último disco, Nua, a Gisela João recuperou-o para um fado tradicional, o Fado Vianinha, e o resultado é de prender a respiração. E como se não bastasse, pô-lo num videoclip espantoso, com a Debora Kristal, e o seu criador Fernando Santos, a dar-lhe uma expressão ainda mais intensa, verdadeiramente melodramática.

Já não é novo, mas não me lembro de o ter posto aqui, e faz tanto sentido, é daqueles poemas, e agora canção, que ajudam a contar as nossas vidas.


de passagem
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Voltou a ser uma noite de sonhos consecutivos. Num deles, estava a jantar naquilo que suponho era a casa dos meus pais, mas que não correspondia à que de facto foi a sua casa. A mesa era grande e quadrada, eu estava sentado de frente para o televisor, que era a preto e branco, a minha mãe estava à minha direita, o meu pai à minha frente (de costas para a tv, o que era uma incongruência, ele sentava-se sempre de frente para a tv), e, à minha esquerda, estava o meu irmão, muito jovem, tão novo como já só o recordo por fotografias, não tenho nenhuma memória viva do meu irmão assim tão novo. Mas o meu irmão estava de passagem, depois do jantar ia regressar ao sítio dele, que não sei qual era. Esta circunstância faz sentido, sempre me lembro, na minha infância, do meu irmão estar de passagem, nunca foi uma presença constante. O meu pai estava sempre a levantar-se e, a certa altura, foi pôr uma panela com água a ferver para fazer chá, num fogareiro portátil, em frente a uma janela aberta por onde brilhava o sol, no lugar onde antes estava a tv a preto e branco. Estávamos a comer restos do almoço, tagliatelles com carne picada e arroz branco. O meu irmão estava a comer à pressa para se ir embora, eu e a minha mãe conversávamos não faço ideia sobre que assunto. Às tantas eu deitei a cabeça na mesa e desatei a chorar, a gritar que não queria ser operado nem ir a uma consulta para ouvir uma segunda opinião.
Acordei, eram seis e pouco da manhã. O gato sentiu-me acordar e imediatamente saltou para cima da cama, ao lado da almofada, a lamber-me as mãos.

the post, call me by your name
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Fui ver dois belíssimos filmes este fim de semana.

O primeiro foi The Post, a reconstituição que Steven Spielberg fez do episódio dos Pentagon Papers que, em 1971, abalou a administração norte-americana de Richard Nixon, e ajudou a consolidar o jornal The Washington Post como grande órgão de imprensa escrita de dimensão nacional. De resto, o filme termina com uma “ponte” para o célebre escândalo Watergate, novamente desencadeado pelo Post, e que ditou a renúncia de Nixon da Casa Branca.

Spielberg faz as coisas como ele só sabe fazer: grande sentido e economia narrativas, progressão constante da acção, muito rigor no conjunto dos elementos narrativos (a música, como habitualmente de John Williams, a reconstrução do ambiente das grandes redações dos jornais) mas sempre ao serviço da história.

Ajuda muito à eficácia do filme o trabalho da muito notável dupla de protagonistas: Meryl Streep e Tom Hanks são dois actores maduros, com pleno domínio da sua arte, que arrancam aqui dois desempenhos brilhantes (mais ele do que ela, acho eu, já vimos várias vezes Meryl usar recursos que aqui se repetem).


O outro filme visto foi igualmente fantástico: Call Me By Your Name, realizado por Luca Guadagnino, de quem vi aqui há uns anos, um inesquecível Io Sono L’Amore. Tal como este, Call Me... é um filme de grande beleza, com uma luz, natural, que nos inunda de uma sensação de quase transcendência, de grande inspiração. O olhar da câmara sobre a paisagem em redor, sobre os personagens, essa espécie de imanência da beleza que nos resgata o olhar, são, de certa modo, o tema e a essência do filme, o drive que, afinal de contas, conduz o enredo e os seus protagonistas.

O ponto fulcral do filme, e que lhe dá o tom, é a personagem de Elio, desempenhada por Timothée Chalamet, que funciona simultaneamente como objecto do desejo, nosso, do espectador, mas que tem igualmente o seu próprio objecto de desejo, a personagem de Oliver, interpretada por Armie Hammer. A adolescência de Elio e a espantosa (e mesmo perplexa) luz solar da fotografia, são uma e a mesma coisa, e são quem nos conduz através de um romance em que o único sobressalto parece ser aquele que resulta das próprias personagens.

É ainda de notar que o argumento, baseado num romance da autoria de André Aciman, foi escrito por james Ivory, ele próprio um cineasta de grande renome, e que na sua obra não é alheio ao deslumbra da paisagem do norte de Itália, onde a acção do filme decorre.
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o gato
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Numa manhã de domingo de janeiro, muito fria e com um céu muito azul, o gato deitado ao sol junto à janela, preguiçoso e muito quentinho, é o meu último reduto, táctil e visual, da felicidade possível. A única coisa que, por momentos, consegue suspender o mundo lá fora.

(não canto senão o amor) + no rancho fundo
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Não canto senão o amor
Ainda que, se é só o que resta,
A cruel secura das cinzas

Canto a memória dos dias
A canção que passava na rádio
A estrada de montanha ao sol
O velho e esquecido hotel de província

Não canto outra coisa, o teu desvelado adeus
A serena crueza desse adeus verdadeiro

As cinzas. A fotografia antiga,
As cores evanescentes.

O tempo cabeceia sonolento
Enrolado sobre o tapete ao fundo da cama


___________________________________
Quando, depois de o ter escrito, li pela primeira vez este poema numa madrugada de insónia, veio-me de imediato à cabeça a canção No Rancho Fundo, um velhíssimo samba-canção da autoria de Ary Barroso e Lamartine Babo. Nos anos 80, graças a uma novela, uma versão de uma dupla de música sertaneja tornou-a muito popular, e foi essa a versão seguida, mais recentemente, pelo Miguel Araújo e pelo António Zambujo, que a incluiram no alinhamento da série de concertos que realizaram juntos.
Apesar de não ter sido o seu criador original, escolhi para pôr aqui um clip com a versão de Sílvio Caldas, um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos. Foi gravada em 1939, com o Conjunto Regional, e escolhi-a, não tanto pela prestação vocal de Sílvio Caldas, aliás excelente, mas pelo alegre e fulgurante arranjo musical, que é por si só um exemplo de como o samba consegue juntar, na mesma passada, a tristeza de amar e a alegria de viver.
Se calhar, era esta a canção que passava na rádio, de que fala o poema.


cosmicomix: a descoberta do big bang
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Uma verdadeira aventura no espaço, a que foi protagonizada, ao longo do século XX, por cientistas de todo o mundo, trabalhando conjunta ou separadamente, para formular, e comprovar, a teoria do big bang, que fornece uma explicação para a origem do universo.

E é precisamente isso que Amedeo Balbi e Rossano Piccioni fazem neste Cosmicomix: transformar o que foram notáveis, mas sempre complexos e difíceis progressos científicos numa fantástica e envolvente aventura, em que os protagonistas são astrónomos, físicos, matemáticos e outros cientistas.

É notável como os autores conseguem, mantendo o rigor histórico, dar a esta história o ritmo e o empolgamento da banda desenhada. Mas é igualmente notável como mantêm o rigor científico do processo e ao mesmo tempo desmontam os conceitos e as explicações de forma a que se tornem simples e compreensíveis para todos os leitores.

germana tânger
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Morreu hoje, poucos dias depois de completar 98 anos, Germana Tânger. Conheci o seu nome há uns dez anos, talvez, quando a editora Assírio e Alvim, se não estou em erro, editou um livro e CD com gravações suas de vários poemas, já que era uma diseuse notável.

Se por mais não fosse, sempre lhe ficaríamos devedores por este assombroso e inesquecível momento de televisão.


as braçadeiras azuis
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Como tenho um sono leve e acordo muitas vezes ao longo da noite, normalmente lembro-me dos sonhos que estava a ter quando acordo, e muitas vezes uso-os para voltar a adormecer logo a seguir, começando a recordar pormenores do sonho e entrando no seu espírito. Por outro lado, de uma forma geral consigo relacionar os sonhos, ou pelo menos alguns aspectos e detalhes, com o que está a acontecer na minha vida, e principalmente com o meu estado anímico.

Esta noite passada, sonhei que estava em Londres. Lembro-me do sonho a partir do momento em que estava no metro a dirigir-me para casa da minha amiga N, e que foi, durante o tempo que lá passei e depois de todas as vezes em que regressei, também a minha casa lá. Saí do edifício da estação de Euston pela porta lateral que fica próximo de um WH Smiths, e estava a atravessar o pátio exterior quando decidi que já não era necessário estar com as braçadeiras insufláveis azuis, daquelas que os miúdos usam na piscina. Tirei-as quando já estava ao fundo da escada junto ao semáforo para atravessar a Eversholt Street. Já do outro lado da rua parei a ver a montra de uma loja que tinha aberto no lugar onde antigamente havia uma liquor store. Quando cheguei junto ao prédio onde mora a N, ela estava cá fora no pátio, o que me surpreendeu porque o apartamento dela não tinha porta para o pátio, só o da vizinha. Dei a volta para entrar, e então percebi que a casa da N estava muito maior, tinha crescido precisamente para o que era a casa da vizinha. Dei uma vista de olhos a identificar os compartimentos mais antigos, que eu já conhecia, nomeadamente aquele que era o meu quarto e que agora também tinha uma porta para o pátio. Na sala havia uma mesa posta para seis pessoas, algumas delas já estavam sentadas à mesa, entre elas as minhas amigas A e C, também londrinas, a quem perguntei quem eram os restantes convidados.

Começando pelo fim, isto é muito típico em mim, sempre que vou a um jantar em que vão outras pessoas para além daquelas com quem combino ir, fico sempre muito curioso, porque, como sou um tipo ansioso, assim posso-me me ir preparando mentalmente para ter de interagir com pessoas que não conheço. Acho que também consigo identificar perfeitamente qual é o papel simbólico das braçadeiras de plástico. Quanto a sonhar com Londres, com a casa da N, e com ela e com as outras amigas que lá tenho, sinto que tem tudo a ver com o facto de eu ter uma nova recidiva do carcinoma e ter de ser operado novamente (tinha sido pela última vez intervencionado, fez a semana passada quatro meses).

Claro que a memória dos sonhos é uma coisa complexa e muito difusa. Nunca podemos ter a certeza se a memória de um sonho é real, ou se é ela própria um sonho (um pouco como a sensação de dejá vú, em que o cérebro arruma directamente na pasta das memórias um acontecimento que estamos a viver no momento). Mas tenho ideia de que, mais até do que a casa da N, a estação de Euston é um dos lugares recorrentes do meus sonhos, quer o interior do enorme hall da estação, quer as portas, quer o tal pátio lateral que nos leva até à Eversholt Street.

(de um dia para o outro regressas)
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de um dia para o outro regressas
sais da ausência velada de todos os dias
e eu volto a sentir
a necessidade de te telefonar a meio do dia
só para te dizer que estou bem, mas
no fundo, para que a tua voz me tranquilize
para acreditar que haverá saída um dia
que as coisas naturalmente se resolvem
e vão resolver-se bem
que esta noite tormentosa vai ter de acabar
e vai acabar mesmo

diz-se que todos estamos sozinhos no
momento em que nascemos e no
momento em que morremos, mas
estamos igualmente sozinhos no
momento em que o telefone toca com más notícias, ou no
momento em que, de madrugada
acendemos o candeeiro de cabeceira
para espantar os fantasmas do medo

estou sozinho no momento em que fecho os olhos e
adormeço de exaustão, é certo, mas
apenas porque me falta a tua voz tranquilizadora
a mão leve com que me afagavas os cabelos quando
deitava a cabeça no teu colo

faltam-me até, imagina, as horas em que
na penumbra do teu quarto
eu lia livros no pequeno ecrã do telefone
enquanto a tua respiração difícil
se ia despedindo de mim, com
a serena e implacável crueldade das coisas irreversíveis
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redemption song
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Soube-me muito bem, um destes dias à noite, quando já estava deitado e a dar uma vista de olhos ao facebook, descobrir esta versão que o John Cash fez, em dueto com o Joe Strummer, e no âmbito das sessões American Recordings que gravou com Rick Rubin, de uma canção muito antiga do Bob Marley. Redemption Song é um tema inspirado e inspirador que, segundo li na Wikipedia, Marley escreveu quando já sabia que estava doente. Parte da letra da canção reproduz palavras de um discurso do activista Marcus Grey, nacionalista jamaicano e figura central do movimento rastafari, que defendia o regresso dos negros na diáspora, a África, à sua terra natal.

Mas esses versos e a canção de Bob Marley ganharam outro significado, menos político, digamos, mas mais humano e profundo, que a interpretação de Cash e Strummer acentua. Aliás, não há nada que o John Cash cante que não pareça directamente apontado ao mais fundo e denso da alma humana.

Desde que a ouvi, que a canção tem andado sempre comigo. De vez em quando apanho-me a cantá-la mentalmente. Tem sido uma espécie de mantra nestes últimos tempos, que voltaram a ser negros e difíceis. Quando a vida e a falta de saúde parecem constantemente puxar-me para baixo, tenho de fazer um grande esforço para tentar manter a cabeça livre e limpa, não me deixar aprisionar no desânimo e na angústia. “None but ourselves can free our minds”.



"Old pirates, yes, they rob I;
Sold I to the merchant ships,
Minutes after they took I
From the bottomless pit.
But my hand was made strong
By the 'and of the Almighty.
We forward in this generation
Triumphantly.
Won't you help to sing
These songs of freedom?
'Cause all I ever have:
Redemption songs;
Redemption songs.
Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our minds.
Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them can stop the time.
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look? Ooh!
Some say it's just a part of it:
We've got to fulfill the book.
Won't you help to sing
These songs of freedom?
'Cause all I ever have:
Redemption songs;
Redemption songs;
Redemption songs."

o seminarista, persona
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Aproveitei o fim de semana passado para pôr leituras em dia. Terminei um livro, li outro (ok, tinha muito poucas páginas) e comecei a leitura de um terceiro que já estava há anos cá em casa à espera de vez (mas deste falarei noutra ocasião).



O Seminarista é mais uma obra-prima do grande, enorme, Rubem Fonseca, a história de um assassino profissional, ex-seminarista, que decide aposentar-se por amor. Como sempre, a escrita de RF é soberba, uma coisa monumental, cuja leitura proporciona um prazer quase sensual. E como é igualmente habitual no autor, o calão mais desbragado convive com a mais elevada erudição, o gore vive paredes meias com a sofisticação.



Entretanto no fim de semana reli Persona, uma breve coleção de três contos, da autoria de Eduardo Pitta. Acho que é o meu livro preferido do autor, e é uma lição da arte de bem escrever prosas curtas. A escrita de EP, a sua vocação natural para fazer frases muito sintéticas e muito cheias de informação, torna-se uma verdadeira arte de escrever narrativas curtas.
Estes três contos têm muito em comum, a começar pelo personagem, Afonso Sacadura, e representam três momentos do seu crescimento, constituindo-se numa espécie de coming-of-age, começando pela adolescência e terminando na prestação do serviço militar, no teatro da guerra colonial.

De resto, a ligação a Moçambique é outra das razões porque gosto tanto deste livro. Em particular no último dos três contos, mais extenso e desenvolvido, e onde o autor nos dá um fresco bastante completo do que era a vida quer em Lourenço Marques, quer em duas outras cidades a que estou muito ligado, Nampula e a Ilha de Moçambique. Tratando-se de verdadeiras narrativas “à clef”, e apesar de eu ser um miúdo no tempo em que elas decorrem, creio mesmo que consigo identificar uma das personagens, quer por memórias minhas quer por histórias que ouvia contar aos meus pais.

Comprei este livro em 2001, na primeira edição da Angelus Novus, e que me lembro foi muito difícil encontrar. Eu já conhecia o nome do autor sobretudo dos artigos sobre poesia que escrevia na revista Ler, ainda no seu formato antigo, uma revista volumosa, com um grafismo muito sóbrio, quase sem publicidade, e que saía quando saía. Depois dessa primeira leitura, tenho relido mais vezes o livro, sempre com muito e renovado prazer e interesse. Foi entretanto feita uma nova edição, mas que infelizmente não comprei, pois creio que tem alterações em relação à primeira. Como comecei por referir, são absolutamente exemplares estes três contos, da arte de escrever narrativas curtas.

Vale a pena ler este post sobre o livro no blog Há Sempre um Livro: https://hasempreumlivro.blogspot.pt/2013/10/persona-de-eduardo-pitta-quidnovi.html

three billboards outside ebbing, missouri
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O que mais me agradou em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, escrito e realizado pelo inglês Martin McDonagh, é o facto de o filme (aliás como já acontecia um pouco no anterior filme que vi do realizador, In Bruges) nos ir colocando constantes dilemas morais que nos impedem de satisfazer aquela necessidade um pouco maniqueísta que todos temos de alinharmos com o lado do bem e nos opormos ao lado do mal. Também gostei muito do final em aberto, porque mais uma vez, o realizador não cede à necessidade que o espectador tem de resolução do conflito.

O filme evoca inevitavelmente, sobretudo pelo humor, em particular um humor muito negro, e pela forma como se sustenta na “americana”, o cinema dos irmãos Coen (sem falar no evidente ponto de ligação que é Frances McDormand), mas é mais subtil do que os filmes de Ethan e Joel, não tem aquela tendência para a caricatura sarcástica nem para ser impiedoso com os personagens, o que reverte muito em seu favor.

Para além da banda sonora magnífica, em especial as canções country, é obrigatório destacar o trabalho dos actores. Three Billboards é um filme de grande interpretações, com grande destaque para a Frances McDormand, que é soberba, nomeadamente porque pega numa personagem que se prestava muito à caricatura e consegue dar-lhe uma subtileza e uma nuance que a tornam mais humana e mais complexa. Sam Rockwell passa o tempo todo a deslizar sobre uma película fina de gêlo e sai-se sempre com grande classe. E o Woody Harrelson, bem, não me lembro de o ver a fazer outro trabalho assim tão delicado e tão maduro.
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the greatest showman
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Gostei muito de The Greatest Showman, um musical produzido directamente para o cinema, ou seja, sem ser uma adaptação de uma peça teatral, com realização de Michael Gracy, baseado num argumento com co-autoria de Bill Condon, um realizador de que gosto muito, e que fez, entre outros, Gods and Monsters, Kinsey, e os musicais Chicago e Dreamgirls.

O filme inspira-se na história de P.T. Barnum, um dos criadores do circo moderno, o Barnum & Bailey Circus (Bailey inspirou em parte a personagem de Carlyle, desempenhada pelo heartthrob juvenil Zac Efron) e aproveita o dispositivo circense para os seus números musicais, ao mesmo tempo que remete para a história dos antigos “freaks” de feira, como metáfora de uma história sobre a diferença e a discriminação.

Uma belíssima fita de puro entretenimento, com grandes canções (da autoria da dupla de letristas Pasek and Paul, que escreveu as canções de La La Land, e aqui trabalha com os compositores John Debney e Joe Trapanese), coreografias criadas especificamente para a montagem cinematográfica, e um grande actor de musical em pleno pico de forma: Hugh Jackman é a alma do filme, com a sua energia, a sua voz e presença, e um notável sentido do tempo próprio do cinema musical. Para além de Jackman e de Zack Efron, destaque ainda para uma actriz de quem gosto imenso, a Michelle Williams.
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star wars: the last jedi
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Durante a época natalícia fui ver o mais recente episódio da saga Star Wars, The Last Jedi, realizado por Rian Johnson e que junta, tal como acontecia no episódio anterior, actores da primeira série, como Carrie Fisher ou Mark Hamill, com actores mais jovens, como John Boyega ou Daisy Ridley, nos protagonistas desta nova série de aventuras.

Não sou propriamente um die-hard fan de Star Wars, nem me comove o esforço que autores e fãs desenvolvem no sentido de a inscrever no conjunto dos grandes relatos de fantasia. Gostei muito do primeiro Star Wars de todos, e em geral de toda a primeira trilogia, mas sobretudo pela frescura que trouxeram ao cinema, reinventado e relançando a velhinha tradição do cinema de aventuras, em especial dos filmes em séries. Digamos que gosto da parte das aventuras, mas sou imune à space opera.

E neste aspecto, este segundo filme da terceira trilogia, como já acontecera no anterior The Force Awakens, é bem mais entusiasmante do que toda a segunda trilogia, a chamada prequela, restituindo a Star Wars o espírito da “cóboiada” que animava o filme original de George Lucas.

É certo que a actual tecnologia de efeitos especiais oferece ao filme um aparato cénico grandioso, e que contribui para a eficácia narrativa, mas também confesso que esta perfeição tecnológica me deixa sempre um bocadinho saudoso do tempo dos velhinhos efeitos especiais conseguidos através de cartão e cola e ângulos de câmara.
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acta est fabula: epílogo
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Eugénio Lisboa acrescenta um pungente e doloroso epílogo às suas memórias, dedicado inteiramente à evocação de Maria Antonieta, sua mulher e companheira de sessenta anos, e em especial às circunstâncias da sua doença e morte.

O volume compreende um texto memorialístico e páginas do diário do autor, e constitui um poderoso relato sobre o luto, dos mais impressionantes que conheço.

O livro de EL é particularmente marcante para quem viveu processos de luto assim devastadores, perturbadores da vida de quem os viveu, ao ponto de a pôr em causa.

E ombreia com outros livros igualmente marcantes e dolorosos que li, como The Year of Magical Thinking, de Joan Didion, ou o livro de Rosa Montero A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te. Em português, assim tão forte apenas me recordo de Fernanda, de Ernesto Sampaio, que li há muitos anos.

the best of times, the worst of times
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Há os inevitáveis balanços de fim de ano, nomeadamente nas redes sociais. Para uns, o ano que termina foi o melhor de sempre, para outros foi uma miséria. O que isto nos diz, claro, é que os anos são inocentes, no fundo são todos mais ou menos a mesma coisa, e tornam-se bons ou maus conforme as nossas vidas e o que nelas se vai passando.

Eu gosto muito de inventários, de listas. São uma maneira de registar, de marcar o tempo que passa. Mas tenho sempre alguma dificuldade em fazer balanços pessoais, o que aconteceu de bom ou mau, se foi um ano positivo ou negativo. Vivemos a vida a cada dia, a cada momento, e o que conta é se, no cômputo geral, foram mais os dias felizes ou os de angústia e sofrimento.

Mas inevitavelmente, dei por mim a pensar, na mudança de ano, se o ano que ficou para trás tinha sido melhor ou pior. A verdade é que venho de uma série de anos muito difíceis, que começou em 2009, teve um sério sobressalto em 2012, e desde 2014 tem sido péssima. Problemas de saúde que se têm agravado, a perda das pessoas que eram mais importantes para mim e que davam mais sentido à minha vida. Em dezembro de 2014, e desde 2015 todos os meses de setembro, estive hospitalizados e fui submetido a intervenções cirúrgicas. Perdi a minha mãe e o meu pai com diferença de um ano certo. As dificuldades de mobilidade têm-se agravado muito. Desde setembro que não nado, o que me faz uma falta terrível.

Ora, em 2017 não me morreu ninguém muito próximo e, apesar de ter feito uma cirurgia, não foi uma situação tão grave como a que tinha ocorrido em 2016, quando corri algum risco de ir desta para melhor ou pelo menos de ficar com sequelas muito graves. Só isso chegava para 2017 já não ter sido um ano tão mau como os anteriores. Os meus problemas de saúde não são life-threatening, e permitem-me minimamente fazer a vida: ler, estar com os amigos, passear q.b., ir ao cinema, gozar a companhia do gato, e trabalhar. Aliás, o trabalho tem sido um aspecto muito importante para o meu equilíbrio mental, porque dá à minha vida algum sentido de normalidade, mesmo quando me exaura. E do outro lado da balança, a verdade é que as coisas más que me aconteceram este ano foram mais do tipo “aquilo que não te mata, torna-te mais forte”.

vila viçosa
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Foram uns dias valentes longe deste diário e, melhor ainda, longe da minha vida de todos os dias. Passei a noite e o dia de Natal com duas amigas, em casa de uma delas, sempre muito descontraídos, quentinhos e animados. E a cumprir as tradições: o circo do Mónaco na televisão, e o Sound of Music na tarde do dia de Natal. Para além das comezainas, claro.

Logo a seguir ao Natal, arrancámos os três, mais uma vez para o Alentejo, onde ficámos até ao Ano Novo. Desta vez fomos para Vila Viçosa e instalámo-nos na Pousada Dom João IV, em pleno paço Ducal, no antigo Real Convento das Chagas de Cristo. A pousada é um mimo, quer em termos de património histórico e arquitectónico, quer em termos de decoração e conforto, quer, sobretudo, pela simpatia e afabilidade do pessoal. A própria localização da pousada ajuda a criar um ambiente especial, que nos transporta para fora da “vidinha”.

Depois, os dias foram passados em pequenos passeios ali à volta. Fomos a Estremoz, a Borba, ao Alandroal e a Évoramonte (com rápida passagem pelo Redondo). Aproveitámos ainda a proximidade para ir conhecer o Teatro e o Anfiteatro romanos, em Mérida, uma visita fantástica. Transportou-me para outras viagens que fiz, em especial para a visita a Bosra, no sul da Síria, que tem o teatro romano mais impressionante que conheci, ou para o teatro de taormina, na Sicília.

Fizemos ainda uma incursão a Rio de Mouro, perto de Sintra, para eu visitar a minha tia e, claro, para matar saudades do caril de camarão da Tânia, na Palhota, o melhor caril goês do mundo.

De resto, a gastronomia foi, como é habitual nestes nossos passeios, outro dos pontos de interesse. Visitámos quase todos os restaurantes de Vila Viçosa e todos eles têm nota máxima ou, pelo menos, nota alta em alguma especialidade (uma sopa de grão e massa única, como nunca tinha provado): os Cucos, o Ouro Branco, o Safari, a Taverna dos Conjurados, e o Café Restauração. Em Mérida, junto às ruínas romanas, comemos tapas, e em Evoramonte almoçámos no Emigrante, uma surpresa muito simpática. Na viagem de ida, voltámos ao Lagarteiro, em Gáfete, para matar saudades da deliciosa sopa de tomate. Fizémos ainda três refeições nos restaurantes da Pousada, uma delas a ceia de passagem de ano, seguida de festa de reveillon num dos salões da pousada.

Mas o melhor de tudo, para além da companhia, claro, é ainda a própria localidade de Vila Viçosa. Eu tinha passado por lá uma vez, há mais de vinte anos, e já tinha gostado bastante, mas agora adorei. E já nem falo na monumentalidade ligada à Casa de Bragança, que é sempre impressionante, mas a própria vila, que é muito bonita e luminosa. A grande alameda central é fantástica, encimada, num extremo, pelo castelo, e no outro, pela imponência da igreja de São Bartolomeu, os passeios adornados por laranjeiras, com lojas e cafés e outros serviços públicos, e o ponto de encontro das pessoas, em especial nas manhãs de domingo. Outra coisa de que gostei imenso é o modo como está presente na vida da cidade a memória dos seus naturais ilustres, como a Florbela Espanca, ou Bento de Jesus Caraça.

amor
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Vinha um cão à minha porta
- escanzelado e a cheirar mal
Lambia-me as mãos
e comia o resto do meu jantar
Escorracei-o
Foi-se a ganir cabisbaixo
E já longe do portão
pôs-se a ladrar zangado
E uivou à Lua como um lobo
Chamava-se Amor.
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festas felizes
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"O amor torna-nos jovens, mas o mundo faz-nos velhos." (David Leavitt, ENQUANTO A INGLATERRA DORME)

Na improbabilidade de aqui vir nos próximos dias, deixo a todos os amigos e leitores que ainda persistam, os meus votos de FESTAS FELIZES. Espero que passem um NATAL tranquilo (e com coisas doces e fritas, que é o que desejo para mim), e que o futuro vos traga um ANO de 2018 com muita saúde e muitas realizações pessoais e profissionais.

só uma canção no mundo (ainda a título de inventário)
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Como vem sendo habitual nos últimos anos, a música que mais ouvi este ano foi no Spotify. Em casa, e para além da rádio, praticamente apenas oiço música em streaming, cd’s só no carro. E como no Spotify utilizo quase exclusivamente playlists que vou construindo, ando quase sempre às voltas com as mesmas músicas.

Tenho uma playlist a que chamei Saturday Morning, que já vai em quase 14 horas de música e que tem, entre coisas novas e antigas (e outras muito antigas…), álbuns completos de Carrie Rodriguez, Willie Nelson, Charlie Haden, Alison Krauss, Bert Jansch, Linda Ronstadt, The Carpenters, Lila Downs, Bernardo Sassetti, Secos & Molhados, Julee Cruise, Sílvia Pérez Cruz, Elvis Costello, Robert Plant & Alison Krauss, Couple Coffee, Rúben Gonzalez e Beth Gibbons. E como estão sempre a chegar discos novos, a tendência da lista é para crescer.

Relativamente ao discos, estes foram alguns dos discos a que prestei mais atenção ao longo do ano, e que me acompanharam nas viagens de automóvel que fiz.


O primeiro é um disco já antigo da Marisa Monte, de 2011, Tudo O Que Você Quer Saber de Verdade. Descobri-o logo no início do ano, na ressaca de um desgosto de amor, e proporcionou-me a banda sonora perfeita para essa altura: canções de um formato pop perfeito, a abordarem de uma forma leve e divertida temas que para mim eram sensíveis. O desgosto passou, mas o disco da Marisa Monte ficou no porta-luvas do carro.


De certo modo as parcerias autorais desse disco antecipavam o lançamento de um novo disco dos Tribalistas, 15 depois do enorme sucesso do primeiro disco. Apaixonei-me pelas canções à primeira audição e à medida que foram sendo lançadas na rede. Grandes canções, com uma certa vocação universalista, super antenadas com o pulsar do mundo de hoje. A Carminho é co-autora de duas canções e participa na gravação de Os Peixinhos, e dá a gravação um carácter muito especial, com um saborzinho a fado que é inevitável sempre que ela canta. “Sou tão feliz e saudável”, a transbordar de leveza pop e ironia, foi um dos meus mantras este ano.


Tal como aconteceu com o concerto da Sílvia Pérez Cruz a que assisti este ano, também o disco Vestida de Nit foi um dos meus discos do ano. Comprei-o no próprio concerto, e é das poucas música que fez o cross-over: tocou no carro e tocou em casa. Arranjos lindíssimos e a voz e o canto da Sílvia que é capaz de correr todo o espectro de emoções na mesma frase musical.


Outro disco marcante deste ano foi o que Camané dedicou ao fado de Alfredo Marceneiro. As grandes criações de Mestre Marceneiro sempre estiveram presentes ao longo da carreira discográfica do Camané, através do recurso a novos poemas para recriar os fados tradicionais. Mas desta vez o Camané decidiu ir à pureza da fonte e o resultado é irrepreensível: o domínio da voz, a contenção emotiva, o acompanhamento e a produção de luxo, e sobretudo o canto, a maneira de cantar, a forma encantatória como Camané nunca abdica da sua “voz”, nem do seu vozeirão poderoso, mas consegue estabelecer interpretações que remetem e evocam a própria maneira de cantar, intensa mas ao mesmo tempo portadora de uma certa fragilidade, de Alfredo Marceneiro.


Já perto do final do ano, descobri numa viagem de automóvel de algumas horas, a voz de Raquel Tavares. Comprei numa área de serviço o disco que gravou recentemente dedicado ao repertório mais romântico de Roberto Carlos, e que delícia de disco, uma excelente companhia para a condução. Nunca tinha prestado a devida atenção à voz de Raquel Tavares, perdi-a na avalanche de novas fadistas, e gostei muito. Antes de comprar o cd apenas tinha ouvido uma das suas canções a passar na rádio, e antes de saber de quem era a voz, prendeu-me a atenção o facto de, por vezes, sobretudo nas frases mais tranquilas e menos “esforçadas”, o seu timbre ter um registo que me parecia próximo do de Amália Rodrigues.

Estes foram os discos e as músicas, mas para ilustrar este ano musical e ficar aí a pulsar na rede, sobretudo nesta época do ano que, para além de festiva, tem sempre um certo sabor, ainda que doce e suave, a tristeza e a melancolia, escolhi uma canção que é já de 2015, foi lançada em finais de 2016, mas eu só a descobri, e com que intensidade, já no início deste ano. É do David Fonseca, do disco Futuro Eu, e diz tudo sobre o que é a música e o papel que ela representa para mim: “A vida leva quase tudo, Fica só uma canção no mundo, E é para ti.” É para ti, mãe.


inventários 2017
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Este ano, os inventários do costume chegam mais cedo e vêm reunidos numa só publicação. A partir de agora, novos livros ou filmes (nas outras categorias é muito improvável que haja novidades) que apareçam, só irei falar deles no próximo ano.

1.
Concertos

- Adriana Calcanhotto, com Arthur Nostrovski, TAGV
- Cristina Branco (Menina), com Luís Figueiredo, Bernardo Couto, Bernardo Moreira, ACMC
- Ute Lemper, CAE da Figueira da Foz
- Jacques Morelembaum, com Lula Galvão e Márcio Dhiniz, ACMC
- Grigory Solokov, Convento São Francisco
- Silvia Pérez-Cruz (Vestida de Nit), Convento São Francisco
- António Zambujo (Até Pensei Que Fosse Minha), Convento São Francisco

Dança

- CNB - Balanchine/Forsythe/Van Manen/Keersmaeker, CAE Figueira Foz

Teatro

- Quem Tem Medo de Virgínia Wolf, de Edward Albee, enc Diogo Infante, CAE Figueira Foz
- Simone, O Musical, de Tiago Torres da Silva, enc Tiago Torres da Silva, CAE Figueira Foz
- Mais Respeito Que Sou Tua Mãe, de Hernán Casciari, enc Joaquim Monchique, CAE Figueira Foz

Exposições e Museus

- Museu do Caramulo, coleções de arte, brinquedos e carros antigos

Poucos concertos, mas todos muito bons e inesquecíveis. Irrepreensíveis, os concertos de Cristina Branco e de António Zambujo, a apresentarem os seus mais recentes trabalhos discográficos. E uma ocasião única, a possibilidade de ouvir um recital de Solokov. Mas se tiver de escolher apenas um, terá de ser o da Sílvia Pérez Cruz, no auditório do Convento de São Francisco, e apesar do gigantismo da sala não ser nada apropriado à intimidade da música e do canto de SPC. Primeiro foi a revelação: já tinha ouvido a música, escutei previamente as canções, mas só naquele momento, ali, ao vivo, fui tocado pela sua força e pela sua doçura. Depois foi a força inspiradora daquela voz (e dos fantásticos arranjos para quarteto de cordas), o seu poder de efabulação, de nos levar através de narrativas imaginárias, a sensação de comunhão plena com as canções e os seus intérpretes, mesmo quando estamos desterrados lá na última fila do imenso auditório. Fez-me muito lembrar um concerto a que assisti, há muitos anos, da Lhasa de Sela, no Gil Vicente, e que foi igualmente transformador do ouvinte.

De assinalar ainda o espectáculo de dança da CNB (tinha e continuo a ter saudades de ver dança ao vivo) e, nos espectáculos teatrais, a emoção de Simone, O Musical.


2. Filmes

- Milky Road, de Emir Kusturica
- Little Men, de Ira Sachs
- Silence, de Martin Scorsese
- La La Land, de Damien Chazelle
- Moonlight, de Barry Jenkins
- Manchester By The Sea, Kenneth Lonergan
- Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
- Denial, de Mick Jackson
- Dalida, de Lisa Aznelos
- The Zookeeper’s Wife, de Niki Caro
- Paula Rego, Histórias e Segredos, de Nick Willing
- Churchill, de Jonathan Teplitzky
- Paris Can Wait, de Eleanor Coppola
- Lady MacBeth, de William Oldroyd
- Return to Montauk, de Volker Schlondorff
- Victoria & Abdul, de Stephen Frears
- Al Berto, de Vicente Alves do Ó
- Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve
- Django, de Etienne Comar
- Loving Vincent, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman
- Quand On A 17 ans, de André Téchiné
- Peregrinação, de João Botelho
- Murder On The Orient Express, de Kenneth Branagh
- 120 Battements Pas Minute, de Robin Campillo
- Wonder Wheel, de Woody Allen

Acho que se tivesse de escolher o meu filme do ano, seria o Aquarius, do brasileiro Kleber Mendonça Filho, sobre a luta que uma mulher a envelhecer trava para guardar as memórias de uma vida como as outras, ou seja, cheia de alegrias e tristezas, de momentos de felicidade e de momentos de angústia, com uma actriz no seu melhor, Sónia Braga, e uma narrativa eficaz, segura e envolvente.

Mas destacaria igualmente outros filmes que me tocaram intensamente: Manchester By The Sea, de Kenneth Lonergan, sobre a possibilidade de recuperarmos de perdas irrecuperáveis, Quand On A 17 Ans, de André Téchiné, sobre as grandes descobertas da adolescência e que são sempre viagens interiores, Peregrinação, de João Botelho, que reinventa uma maneira de contar o livro de Fernão Mendes Pinto, e um filme que vi apenas em dvd, Paula Rego, Histórias e Segredos, de Nick Willing, que é uma espécie de mapa dos mistérios que a pintura de Paula Rego encerra, e que o filme mostra mas não decfra.


3

Livros (os títulos estão no idioma em que os li)

- Comer | Beber - Filipe Melo e Juan Cavia
- Vampiros - Filipe Melo e Juan Cavia
- A Pior Banda de Mundo I - José Carlos Fernandes
- A Pior Banda de Mundo II - José Carlos Fernandes
- O Segredo do Espadão I - Edgar P. Jacobs
- O Segredo do Espadão II - Edgar P. Jacobs
- O Segredo do Espadão III - Edgar P. Jacobs
- O Testamento de William S - Yves Sente
- Astérix e a Transitálica - Jean-Yves Ferri e Didier
- O Lótus Azul, de Hergé

- Nada Tem Já Encanto - Rui Knopfli

- Esaú e Jacó - Machado de Assis (ebook)
- Bilac Vê Estrelas - Ruy Castro
- Bufo & Spallanzani - Rubem Fonseca (ebook)
- 8 Minutos, Fabíula Bertolozzo (ebook)
- Ponta Gea - João Paulo Borges Coelho
- A Rainha Ginga - José Eduardo Agualusa (ebook)
- A Capital - Eça de Queirós
- O Segredo dos Braganças - Ricardo Correia

- Todo Teu: Quinta - Nuno Oskar (ebook)
- Todo Teu: Fim de Semana - Nuno Oskar (ebook)

- Francisco Pinto Balsemão - Joaquim Vieira
- Abril e Outras Transições - José Cutileiro
- Memórias Anotadas - José Medeiros Ferreira
- O Raio Verde: Crónicas - Fernando Fausto de Almeida
- Tenho Cinco Minutos Para Contar Uma História - Fernando Assis Pacheco
- A Doença, O Sofrimento e A Morte Entram num Bar - Ricardo Araújo Pereira
- Uma Autobiografia - Rita Lee
- Dicionário da Literatura Gay, 5ª edição - Luís Chainho e João Máximo (ebook)

- Itália, Práticas de Viagem - António Mega Ferreira
- Diário das Viagens Fora da Minha Terra - Eugénio Lisboa
- Legendary Pacific Coast: de Sidney a Cairns - Luís Chainho e João Máximo (ebook)

- O Factor Humano - Graham Greene (ebook)
- O Nosso Agente em Havana, Graham Greene (releitura)
- Só Nos Deixaram as Roupas Que Vestiam - Alan Bennett
- Diário de Um Zé Ninguém - George Grossmith
- O Escritor Fantasma - Philip Roth
- Enquanto a Inglaterra Dorme - David Leavitt (releitura)
- Our Young Man - Edmund White (ebook)
- O Ministério da Felicidade Suprema - Arundhati Roy
- A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha - David Lagercrantz

- O Homem Que Gostava de Cães - Leonardo Padura
- O Labirinto dos Espíritos - Carlos Ruiz Zafón

- Logical Family, A Memoir - Armistead Maupin (ebook)
- Miles, The Autobiography - Miles Davis
- O Túnel dos Pombos - John Le Carré
- Sal Mineo, A Biography - Michael Gregg Michaud
- Autobiografía, O Mundo de Ontem - Stefan Zweig (ebook)
- Tio Tungsténio - Oliver Sacks (ebook)
- O Rio da Consciência - Oliver Sacks
- Fresh-Air Fiend - Paul Theroux (ebook)
- By The Seat of My Pants - (Antologia) org. Don George
- Em Viagem pela Europa de Leste - Gabriel Garcia Marquez
- Gilgamesh

- Granta Portugal 9: Comer beber
- Granta Portugal 10: Revoluções

Mais de 50 livros, muitos e bons. A leitura tem vindo a ser, e cada vez mais nos últimos anos, a minha companhia e o meu refúgio. Este ano li mais BD do que o costume, e, possivelmente pela primeira vez, mais livros de não ficção do que contos ou romances. Cada vez mais me apetece ler livros de memórias ou biografias (umas 10 obras, este ano) e de viagens (6). Li 14 livros em forma de ebook, menos do que gostaria pelo conforto que me dá a leitura em formato electrónico. E reli dois livros, do Graham Greene e do David Leavitt, dois autores que foram muito importantes em determinados períodos da minha vida, e que tenho vindo a redescobrir com igual ou maior entusiasmo.

É difícil destacar os melhores livros, desde logo porque “ser melhor” é um conceito complexo e subtil. Nuns casos, os melhores foram os mais divertidos, noutros, os que me proporcionaram mais revelações e descobertas. Os melhores livros são sempre aqueles que nos tornam a nós melhores pelo facto de os termos lido. Alguns desses, foram estes cinco: Os Vampiros, que resgata através da ficção a memória importante da guerra colonial em pranchas perfeitas e de uma beleza imensa, Ponta Gea, obra incategorizável que de forma delicada e intensa nos conduz por uma viagem pelas memórias de infância conduzida pelo poder narrativo da ficção, Miles: The Autobiography, uma das raras autobiografias de um músico que nos revela, não apenas a sua vida mas sobretudo a sua obra, a matéria de que é feita a sua música, Logical Family: a Memoir, porque Armistead Maupin fala da sua vida com a mesma alegria narrativa e a mesma intacta emoção com que nos contava as histórias dos moradores do número 28 de Barbay Lane, e O Fator Humano, porque Maurice Castle somos nós.


enquanto a inglaterra dorme
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A reler Enquanto a Inglaterra Dorme, um dos primeiros romances do David Leavitt e que li, a calcular pela data da assinatura que apus nas primeiras páginas, há mais de 20 anos, em 1996! Talvez por isso, não me lembrava nada do livro, a não ser a grande polémica que rodeou o seu lançamento. Leavitt foi acusado, em tribunal, por Stephen Spender, de lhe ter “roubado” a vida, e de ter plagiado o seu livro World Within World. A primeira edição norte-americana do livro, de 1993, foi pura e simplesmente guilhotinada, e o livro saiu, finalmente, em 1995, depois de um acordo judicial e com alguns cortes e alterações.

Como nunca li a autobiografia de Spender (dele só li O Templo, e há muito tempo), não sei avaliar a questão. E recordo que, anos mais tarde, Leavitt também se “inspirou” em vidas reais, as de Srinivasa Ramanujan e do matemático inglês G.H. Hardy, para escrever um outro romance, The Indian Clerk (além de que escreveu igualmente uma biografia de Alan Turing, muito antes de Turing se ter tornado na espécie de ícone gay que é hoje).

O ponto é que estou a gostar imenso de Enquanto a Inglaterra Dorme, acho que o Leavitt tinha uma grande dinâmica narrativa, e uma maneira, ao mesmo tempo abrupta e suave, de apresentar e resolver os conflitos, e que depois, em sucessivos romances, se veio a tornar uma das marcas da sua escrita.

E talvez por se tratar dos seus primeiros romances, ou por, nessa altura, ainda não ser muito vulgar uma narrativa da relação afectiva homossexual, os livros do David Leavitt, quer os romances quer os contos, abordavam e desenvolviam muito este tema, eram verdadeiramente obras de “literatura gay” (a um nível do qual, por exemplo, o seu último romance The Two Hotel Francforts, passado em Lisboa, está bastante longe). Foi esse o caso de The Lost Language of Cranes, e é igualmente o de Enquanto a Inglaterra Dorme.

Nestes romances, a questão da vida secreta, no armário, não assumida, é sempre o pano de fundo das histórias, não o motor do drama, esse é sempre a relação afetiva, mas o contexto em que as personagens se movimentam. Mas, como disse, é no relacionamento afetivo, na descoberta da sexualidade, ou de uma sexualidade descoberta no seio da relação amorosa, e quais os contornos que essa descoberta assume quando se trata de duas pessoas do mesmo sexo, que o livro de Leavitt mais nos envolve e entusiasma.

wonder wheel
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Gostei imenso do novo filme do Woody Allen, Roda Gigante (Wonder Wheel), mais uma variação daquele que tem sido um dos temas recorrentes da filmografia mais recente do realizador (pelo menos depois de Matching Point): o sacrifício dos inocentes. Numa história de gente atormentada, dissimulada ou mesmo mal-intencionada (até a criança é pirómana, caramba) só a pobrezinha da ingénua (ou não tão ingénua como isso, mas pelo menos pura e transparente) é verdadeiramente sacrificada de modo a que a vida possa continuar a ser o que era antes dela aparecer.

De entre todas as qualidades do filme (e a menor delas não será o desempenho fabuloso da Kate Winslet, na sua estreia com Allen e a mostrar que ele continua a ser um grande director de actrizes), a maior delas todas é a fabulosa fotografia de Vittorio Storaro. Parece magia, aquilo que ele faz com a iluminação e as cores, parece um termómetro que vai tomando a temperatura ao enredo e às personagens, e ilumina-as de acordo com ela. Através das alterações da luz, grande parte das vezes no decurso da mesma sequência ou até do mesmo plano, o grande mestre italiano da cinematografia vai nos dando um insight para o estado emocional das personagens.
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