?

Log in

No account? Create an account

saturday morning
rosas
innersmile
já não haverá manhãs de sábado
isentas de morte
imaculadas manhãs
estiradas na cama ou no sofá
manhãs em forma de gato
uma playlist para embalar
os livros
torradas com marmelada e
chá preto com leite
o dia lá fora
pendurado à janela
luminoso e azul
manhãs de sábado sem medo
e sem promessas
Tags:

the eagle has landed
rosas
innersmile
Assinala-se hoje o cinquentenário da primeira alunagem, protagonizada pela nave Apollo 11 e os seus astronautas: "Tranquility Base here. The Eagle has landed." Eu tinha 7 anos de idade, e a odisseia espacial foi um dos meus fascínio de infância, e que perdurou para o resto da minha vida.

Em 2012, por ocasião da morte de Neil Armstrong, tripulante da Apollo e o primeiro homem a pisar o solo lunar ("That's one small step for [a] man, one giant leap for mankind."), a minha mãe escreveu um texto a recordar a forma como viveu a espantosa aventura da primeira ida do homem à Lua. Já aqui pus esse texto, mas hoje é um dia bom para o voltar a ler.

"27/08/2012
Como se pode verificar desde 2010 que não escrevo nada. Mas aparece alguma notícia inesperada e, de repente, lembranças de uma época vivida num 'mundo' diferente do actual, despertam todas as nossas energias e, sem darmos por isso, somos transportados ao passado. Um passado bonito, cheio de coisas bonitas, com muitas pessoas bonitas, de que temos muita saudade. O que veio transportar-me ao passado nem sequer foi uma notícia agradável. Morreu NEIL ARMSTRONG, o primeiro homem a pisar a Lua. E isto fez o meu pensamento recuar 43 anos. Na cidade de Nampula (Moçambique), o Pavilhão do Clube Ferroviário estava lotadíssimo porque a Diva do Fado AMÁLIA RODRIGUES iria cantar, numa noite há muito tempo esperada. Aliás, sempre que um artista visitava uma localidade afastada do centro cultural da cidade de Lourenço Marques, era recebido com o grande calor das pessoas sempre prontas a manifestarem o seu apreço. Mas voltemos ao assunto principal do recuo da minha memória e de ter invocado o nome de Amália. Líamos, falávamos, ouvíamos noticiários do Rádio Clube de Moçambique sobre a ida dos cosmonautas à Lua. O que verdadeiramente as pessoas presentes naquele inesquecível espectáculo não esperavam, seria alguém entrar no palco, falar ao ouvido de Amália e, esta Senhora anunciar o grande feito do Século XX. NEIL ARMSTRONG acabava de pisar a LUA! A ovação foi enorme. No lindíssimo palco estavam todos de pé, os milhares de pessoas presentes naquele Pavilhão transformado em grande sala de espectáculos, ovacionavam emocionados. Um assunto que não é relevante para pessoas que não viveram num mundo muito especial nem sequer tiveram conhecimento do que ali se passou naquela noite mágica. Quantas pessoas espalhadas pelo mundo ainda se lembrarão destes momentos emocionantes? Isto tudo que aqui escrevi foi um regresso ao passado que me deixa feliz por poder constatar que a minha memória ainda não me atraiçoa e viaja por lindos 'mundos' que durante muito tempo me fizeram viver o que de belo há na vida: ser jovem, ter amigos, estar inserida numa bela sociedade, uma família muito unida - um por todos e todos por um! Hoje, com 81 anos, tenho uma vida de acordo com a idade, com os achaques normais para a idade, mas esquecida pela grande parte das pessoas que conheci quando cheguei a Coimbra. No entanto, o nível de vida que tenho é superior ao normal nas pessoas na minha condição de 'refugiada'… A grande felicidade de ser cuidada por um filho que me enche de felicidade; o marido, com 83 anos mas já com muita falta de memória mas sempre um bom companheiro. Enfim, uma vida ainda com algo de interesse. É curioso como uma notícia do jornal veio despoletar o desejo de manifestar desta maneira as recordações que estavam muito arrumadinhas nas gavetas da minha memória. Oxalá o meu filho queira ler isto e possa entender quanto fui feliz nestes momentos. Voltarei com mais recordações se o Bom Deus me ajudar."
Tags:

há um ano
rosas
innersmile
O dia hoje começou muito cedo com uma ida ao hospital para tratar de procedimentos prévios à cirurgia. Foi aventada a possibilidade de eu ter de ser internado uns dias antes da intervenção, para fazer profilaxia com antibióticos. O cateter da minha urostomia entope com facilidade e de cada vez que isso acontece fico com febre, o que significa que se desencadeia ali um processo infeccioso.

Há um ano, estava internado no hospital, tinha feito a nefrectomia há uns dez dias e estava a recuperar. No dia 18 ao final da tarde tive a notícia de que o meu irmão, em Moçambique, estava muito mal. No dia 19, acordei com a notícia de que tinha morrido nessa noite.

Há dias na nossa vida que não conseguimos esquecer. Momentos em que a angústia atinge um paroxismo, e parece que ficam para sempre a vibrar na nossa mente como uma ferida aberta. Infelizmente nos últimos anos tenho vivido alguns momentos desses, mais do que aqueles que eu suporia que conseguisse aguentar. E tenho muito medo que o futuro próximo me guarde mais momentos desses.

Na noite que se seguiu não dormi nada, perturbado com a notícia da morte do meu irmão, e com alguns telefonemas aflitos que recebi de amigos, alguns muitos antigos e longínquos, que ouviram a notícia e me telefonaram sem fazerem ideia da situação em que eu estava. No dia seguinte tive alta, mas nas primeiras noites em casa continuei sem conseguir dormir, sempre a pensar no assunto.

A pensar na morte do meu irmão, na tristeza que a minha cunhada e os meus sobrinhos estariam a sentir. Mas também a pensar na minha forma de lidar com a morte do meu irmão. Sozinho, doente, afastado do resto dos familiares mais próximos, foi muito difícil fazer a catarse e o luto dessa perda. Ainda hoje sinto que me ficou a faltar alguma coisa, que houve uma vivência qualquer que me escapou, e que tivesse ajudado a sarar essa ferida e a reconciliar-se comigo mesmo. Por isso, ainda hoje sinto a morte do meu irmão como mais uma das perdas que a doença me infligiu. E talvez seja isso que me leva a, no meio do meu próprio sofrimento e da minha angústia, por vezes esquecer as saudades que eu tenho de ter um irmão, de ter o meu irmão.

breve
rosas
innersmile
Vou brevemente fazer mais uma cirurgia. Vai ser uma cirurgia muito radical, por ser uma cirurgia major, mas sobretudo porque vai significar uma alteração muito grande, desmesuradamente grande, na minha vida, tornando o meu futuro numa enorme, e um pouco assustadora, incógnita.

No passado dia 9 fez um ano que fui sujeito a uma nefrectomia, à esquerda, e agora vou fazer outra, ao rim direito. Ou seja, vou ficar sem rins, o que significa que vou ter de fazer hemodiálise. Estou preocupado com a cirurgia e com o período pós cirúrgico. Mas estou principalmente apreensivo com o que vai acontecer a seguir. Com a forma como me vou adaptar à diálise, como o meu corpo vai reagir aos tratamentos. E também com as alterações que o meu modo de vida vai ser condicionado pela necessidade de fazer diálise.

Agora que sei a data da cirurgia, a angústia e o medo são maiores, e mais concretos. Crescem a cada dia. É uma contagem decrescente em termos de tempo, mas crescente em termos de preocupação. Tenho de me esforçar por me distrair com outras coisas, porque quando começo a pensar muito no que se vai passar, o meu peito quase rebenta de angústia e de ansiedade.

I wanted to dance
rosas
innersmile
Há já algum tempo cruzei-me com um poema de Allen Ginsberg de que gostei muito, e que me ficou na memória. Há uns dias, a propósito de uma leitura, lembrei-me desse poema. Essa leitura estabelecia uma relação entre o poema e a Patti Smith e o Philip Glass.

Lembrei-me de que já tinha lido o poema de Ginsberg, que era uma espécie de elegia a um sacerdote indiano, que tinha ficado impressionado com o poema, mas não me conseguia lembrar de mais nada de concreto, nem do título nem de nenhum verso. Tentei pesquisar na Internet, procurei em sites com poemas do autor, mas não consegui encontrar o poema.

Hoje apareceu no mural a memória de um post do Facebook de 2010 com os versos finais desse poema. Claro que com essa ajuda encontrei logo o poema, bem como o clip com a gravação da PS com o PG, que infelizmente não tem grande qualidade técnica.

Quer o poema de Ginsberg quer a gravação são maravilhosos e guardo-os aqui para não os tornar a perder.



ON CREMATION OF CHÖGYAM TRUNGPA, VIDYADHARA

I noticed the grass, I noticed the hills, I noticed the highways,

I noticed the dirt road, I noticed car rows in the parking lot

I noticed ticket takers, I noticed the cash and checks & credit cards,

I noticed buses, noticed mourners, I noticed their children in red dresses,

I noticed the entrance sign, noticed retreat houses, noticed blue & yellow Flags—

noticed the devotees, their trucks & buses, guards in Khaki uniforms

I noticed crowds, noticed misty skies, noticed the all-pervading smiles & empty eyes—

I noticed pillows, colored red & yellow, square pillows and round—

I noticed the Tori Gate, passers-through bowing, a parade of men & women in formal dress—

noticed the procession, noticed the bagpipe, drum, horns, noticed high silk head crowns & saffron robes, noticed the three-piece suits,

I noticed the palanquin, an umbrella, the stupa painted with jewels the colors of the four directions—

amber for generosity, green for karmic works, noticed the white for Buddha, red for the heart—

thirteen worlds on the stupa hat, noticed the bell handle and umbrella, the empty head of the cement bell—

noticed the corpse to be set in the head of the bell—

noticed the monks chanting, horn plaint in our ears, smoke rising from atop the firebrick empty bell—

noticed the crowds quiet, noticed the Chilean poet, noticed a Rainbow,

I noticed the Guru was dead, I noticed his teacher bare breasted watching the corpse burn in the stupa,

noticed mourning students sat crosslegged before their books, chanting devotional mantras,

gesturing mysterious fingers, bells & brass thunderbolts in their hands

I noticed flame rising above flags & wires & umbrellas & painted orange poles

I noticed the sky, noticed the sun, a rainbow round the sun, light misty clouds drifting over the Sun—

I noticed my own heart beating, breath passing thru my nostrils

my feet walking, eyes seeing, noticing smoke above the corpse-fir’d monument

I noticed the path downhill, noticed the crowd moving toward buses

I noticed food, lettuce salad, I noticed the Teacher was absent,

I noticed my friends, noticed our car the blue Volvo, a young boy held my hand

our key in the motel door, noticed a dark room, noticed a dream

and forgot, noticed oranges lemons & caviar at breakfast,

I noticed the highway, sleepiness, homework thoughts, the boy’s nippled chest in the breeze

as the car rolled down hillsides past green woods to the water,

I noticed the houses, balconies overlooking a misted horizon, shore & old worn rocks in the sand

I noticed the sea, I noticed the music, I wanted to dance.


- Allen Ginsberg

mais filmes
rosas
innersmile
18. KING COBRA, de Justin Kelly. Com Christian Slater e James Franco. Quer ser um thriller “Sundance” , passado no meio da indústria da pornografia gay norte-americana, mas tem pouco ritmo e densidade. ***

19. ROLLING THUNDER REVUE: A Story of Bob Dylan, de Martin Scorsese. Baseado em filmagens reais feitas durante uma digressão de BD em 1975, Scorsese constrói uma espécie de falso documentário, misturando testemunhos reais co outros ficcionais. O melhor do filme são mesmo as sequências dos concertos e as canções de Dylan. ****

20. MISTERY MURDER, de Kyle Newacheck. Com Adam Sandler e Jennifer Aston. Fraco, muito fraquinho, apesar do mérito de recuperar um género que caiu em desuso, a comédia policial, de mistério, nomeadamente as versões para cinema dos livros de Agatha Christie. ***

21. DUMBO, de Tim Burton. Com Colin Farrell, Michael Keaton e Danny DeVito. Longe do Burton Vintage que conhecemos de antigamente, tem, todavia, as marcas autorais reconhecíveis, nomeadamente na forma e na perspectiva com que aborda uma das clássicas criações da Disney. ****

22. OUT OF AFRICA, de Sidney Polack. Com Meryl Streep e Robert Redford. Um dos meus filmes preferidos. Já vi dezenas de vezes e continuo sempre a sentir um nó na garganta quando, no final, Karen é convidada a beber um whisky no clube exclusivo. *****

23. RED JOAN, de Trevor Nunn. Com Judy Dench. Tanto desperdício, que pena. Uma história de espiões verdadeira fantástica. O talento imenso de Dame Judy Dench. Trevor Nunn é um dos encenadores ingleses de primeira classe, foi dirigida por ele a melhor versão que eu vi do musical My Fair Lady, mas esta sua incursão pelo cinema é desastrosamente aborrecida, conseguiu o que pareceria impossível, que foi estragar uma história excitante e interessante. Chato! ***

24. THE TERMINAL, de Steven Spielberg. Com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones. É sempre bom rever este que é um dos meus filmes preferidos de Spielberg. Tom Hanks é, como sempre, o mais James Stewart'iano dos actores actuais. Mas, para mim, a vedeta do filme é o próprio set, o terminal do aeroporto onde decorre praticamente toda narrativa, e que a câmara de Spielberg explora com agilidade e um incrível sentido do espaço.*****

25. BURLESQUE, de Steven Antin. Com Christina Aguilera e Cher. Não há nada pior do que um musical enfadonho. Os melhores momentos foram aqueles em que coreografia fazia lembrar o Bob Fosse. ***
Tags:

melhor do que o silêncio
rosas
innersmile
Ontem à noite, quando me ia deitar, vi nas redes sociais a notícia da morte de João Gilberto. Vieram-me logo à ideia dois versos de uma canção do Caetano Veloso: "melhor do que isso só mesmo o silêncio, melhor do que o silêncio só João". A canção chamava-se Pra Ninguém, e é de um dos melhores discos do Caetano, Livro. Se não me engano, é o tema que encerra o alinhamento do disco, o Caetano escolhia sempre umas canções muito especiais, muito delicadas, para fechar os álbuns.



João Gilberto foi um músico excepcional, quer como cantor, quer como executante do violão. Mas foi também, e sobretudo, um revolucionário da música. Conjuntamente com um grupo de outros músicos, entre eles o António Carlos Jobim, criou a Bossa Nova, um estilo musical que transformou a canção popular brasileira numa das mais perfeitas expressões mundiais da música popular.

O seu disco Chega de Saudade é o disco seminal por excelência da Bossa Nova. Mas quando ouço na minha mente o João Gilberto a cantar, e sempre nesta que foi, talvez, a primeira canção de João de que me lembro, lá no tempo já longínquo da infância.


crochet
rosas
innersmile


Quando penso na minha avó, a imagem que me vem imediatamente à ideia, é a dela sentada numa das cadeiras da sala de jantar, encostada à janela que ficava entre a sala de jantar e de visitas, a ler mas sobretudo a fazer crochet. A minha avó fazia crochet continuamente, trocava amostras, fazia naperons e outros trabalhos normalmente com uma linha Âncora absolutamente alva.

Ao pequeno-almoço a minha avó tomava bebidas de cevada com chicória, como o Mokambo ou o Pensal, que vinham em enormes frascos cilíndricos de vidro, que, depois de vazios, se usavam para guardar as coisas da despensa.

A minha avó lembrou-se de começar a fazer capas em crochet para forrar os frascos e eles ficarem mais bonitos. Quando esvaziei a casa dos meus pais, depois da morte da minha mãe e do meu pai ter ido para a casa de saúde, encontrei um desses frascos na despensa.

leituras
rosas
innersmile
Continuo a entrar e sair do hospital por causa das infecções. Desde a última vez que escrevi aqui, já tive alta e, ao fim de 6 dias em casa, voltei a ser internado, e hoje tive alta de novo. Claro que com isto tudo as leituras ficam para trás, tanto mais que, muitas vezes, nem sequer tenho disposição para ler. Assim, nos últimos meses apenas li os livros seguintes.


Um thriller jurídico que aborda a questão dos crimes de guerra e dos tribunais penais internacionais. Tem os seus momentos mas achei um bocadinho arrastado.


Uma colecção dos textos que JSM escreveu sobre teatro ao longo de toda uma vida dedicada ao texto e ao palco. Tratando-se, naturalmente, de uma perspectiva pessoal, e com a escrita culta e sedutora do autor, este volume é, no mínimo, um guia para o teatro que se fez e faz em Portugal e na Europa nos últimos sessenta anos.


Relido quase 25 anos depois de o ter lido pela primeira vez. O mesmo entusiasmo, e o mesmo poder de sedução da escrita de Armistead Maupin, do seu sentido de humor, da atenção aos detalhes, do tom ligeiro com que aborda os seus personagens em profundidade. Um livro muito divertido de ler, e que deu vontade de reler todos os volumes da série.


Mais do que uma História da literatura gay norte-americana na segunda metade do século XX, Eminent Outlaws é uma narrativa do que foi esse tipo de literatura, e do seu significado social, político, artístico e cultural no processo de reconhecimento civil dos direitos dos homossexuais.

A construção dessa narrativa baseia-se na análise das obras literárias que foram publicadas, mas entre os autores focados, e são bastantes, há dois que de certo modo constituem a espinha dorsal do livro, primeiro Gore Vidal, e depois Edmund White.

Gostei mais da primeira metade, ou dos primeiros dois terços, do livro, não tanto porque conheço melhor a obra dos autores aí abordados, mas porque achei essa narrativa mais coerente.

Pessoalmente, o livro agradou-me imenso. Porque me permitiu fazer uma síntese das minhas próprias leituras com esta temática, mas também porque enriqueceu e aprofundou essas minhas leituras.

vitae summa brevis
rosas
innersmile
Não me apetece escrever. Continuo com longos períodos de internamento no hospital. Agora estou no hospital há mais de três semanas. É deprimente, isto. Agora a solução parece passar por nova intervenção cirúrgica, e depois ficarei a fazer hemodiálise.

Quando tenho disposição, e a saúde deixa, tenho seguido na RTP 2 os episódios da série britânica The Durrells, que adoro. Baseia-se na trilogia que Gerald Durrell escreveu sobre os anos da sua infância, passados, com a mãe e os irmãos, na ilha grega de Corfu, nos anos 30. Um dos irmãos era o escritor Lawrence Durrell, o autor do célebre Quarteto de Alexandria.

No último episódio que vi, evocando o seu falecido marido, a matriarca da família, Louisa, lê um poema de Ernest Dowson, que me tocou porque parecia dialogar com estes meus dias.

O poema tem como epígrafe um conhecido verso do poeta Horácio: 'Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longam', o que quer mais ou menos dizer que a soma breve dos dias nos impede a esperança de durar muito tempo.

They are not long, the weeping and the laughter,
Love and desire and hate:
I think they have no portion in us after
We pass the gate.

They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.

papa-figos
rosas
innersmile


Vi um documentário sobre o Armistead Maupin e apeteceu-me tentar reler o livro Tales Of The City, tantos anos depois. Como é um livro que já tenho há muito tempo, desde antes de vir morar nesta casa, ainda é do tempo em que tinha as estantes arrumadas e foi fácil encontrá-lo.

Encontrei dentro do livro uns papéis. Um postal da Livraria Papa-Figos, que ficava no Redondo, no Alentejo, e que mandava vir livros do estrangeiro. Uma folha de fax com uma lista de livros de Michael Carson que a Papa-Figos me mandou. O recibo da venda do livro do Maupin, que custou 1.600 escudos, à volta de uns 8 euros. Comprei-o em Setembro de 1995.

Não foi o primeiro livro da famosa série de Maupin que li. Comecei pelo segundo volume, o More Tales of The City, que comprei em Dublin, numas férias, em Julho desse ano. Mas apaixonei-me de tal maneira que tentei logo ler os restantes livros que já tinham sido editados até então.

Foi na segunda metade dessa década de 90 que a loja Amazon se começou a expandir e que eu a descobri. E, claro, comecei logo comprar livros online, não só a oferta era maior como o circuito de entrega era mais abreviado e, por isso, mais rápido.

Mas houve ali uns bons anos em que fui um cliente assíduo e muito satisfeito da Livraria Papa-Figos. Eu ia a Londres frequentemente, e, além de vir carregado de livros, trazia muitas referências, quer de livrarias como a Gay's The Word, quer de revistas como a Time Out ou a Gay Times. E depois era através da Papa-Figos que ia fazendo as minhas encomendas.

Caramba, como as coisas mudaram, como o mundo mudou. A Papa-Figos com certeza acabou, ou pelo menos teve de se adaptar, porque dificilmente poderia sobreviver nesta era das compras online, e em que a Amazon se tornou num monstro, porém muito útil, que seca e destrói tudo à sua volta, no que toca a comércio livreiro.

Mas se a Papa-Figos morreu, não está esquecida, e aqui fica a minha homenagem a essas pessoas que nunca conheci, mas com quem falei ao telefone e troquei faxes, e que durante uns tempos resolveram as minhas necessidades de leitura.

la confession
rosas
innersmile
Com a minha provecta idade, foram já muitos os artistas, músicos, actores e actrizes, escritores, etc, que eu admirei por me comoverem e inspirarem, por me darem horas de prazenteira fruição, e que já morreram.

Aliás, com 57 anos atrevo-me a dizer que é já maior a minha galeria de ídolos mortos do que a dos deuses vivos.

Além disso, há muitas pessoas, artistas em geral mas também, por exemplo, políticos ou pensadores, cuja morte senti como uma verdadeira perda, um empobrecimento, para o mundo mas também quase a um nível pessoal.

Mas não há assim muitas pessoas que já desapareceram, públicas evidentemente, de quem se possa dizer que tenha verdadeiras saudades, que me lembre delas com saudade, com uma vontade quase irreprimível de as ver ou ouvir ou ler de novo.

Assim de cabeça vêm-me à ideia umas quatro ou cinco. O Mário Viegas, as saudades que eu tenho de o ver trabalhar, seja no cinema ou no teatro, seja a dizer poesia seja na sua intervenção político-teatral.

Mas agora lembrei-me da Lhasa de Sela. Tenho saudades da Lhasa. De a ouvir, claro, mas acho que tenho saudades até da sua presença no mundo, da riqueza multicultural e do desejo de viajar que ela inspirava, de sonhar com viagens. A Lhasa fazia canções perfeitas, que contavam histórias, como As Mil e Uma Noites, canções musicalmente evocativas e com letras de grande profundidade e com um agudo sentido do humano.

Uma vez, no longínquo ano de 2004, assisti a um concerto da Lhasa, no Gil Vicente, que foi das noites mais especiais e mágicas da minha vida.

Apesar de conhecer razoavelmente a curta discografia da Lhasa de Sela, as suas canções são tão ricas que, de vez em quando, me lembro de uma delas com o prazer de uma descoberta, com o deslumbramento de quem ouve uma história de encantar.

Por estes dias tenho-me lembrado muito de La Confession, uma obra-prima de um disco cheio delas, The Living Road. Com um certo embalo de chanson, é uma canção que ilumina uma zona sombria da nossa alma.



Je n'ai pas peur
De dire que je t'ai trahi
Par pure paresse
Par pure mélancolie
Qu'entre toi
Et le Diable
J'ai choisi le plus
Confortable
Mais tout cela
N'est pas pourquoi
Je me sens coupable
Mon cher ami

Je n'ai pas peur de dire
Que tu me fais peur
Avec ton espoir
Et ton grand sens
De l'honneur
Tu me donnes envie
De tout détruire
De t'arracher
Le beau sourire
Et meme ça
N'est pas pourquoi
Je me sens coupable
C'est ça le pire

Je me sens coupable
Parce que j'ai l'habitude
C'est la seule chose
Que je peux faire
Avec une certaine
Certitude

C'est rassurant
De penser
Que je suis sûre
De ne pas me tromper
Quand il s'agit
De la question
De ma grande culpabilité

Je n'ai pas peur
De dire que j'ai triché
j'ai mis les plus pures
De mes pensées
Sur le marché
J'ai envie de laisser tomber
Toute cette idée
De "vérité"
Je garderais
Pour me guider
Plaisir et culpabilité
Tags: ,

mais filmes
rosas
innersmile
9. BOY ERASED, de Joe Edgerton. Com Nicole Kidman e Russell Crowe. O filme pretende ser uma denúncia dos programas de reorientação de identidade sexual,ou seja, de cura da homossexualidade. Mas onde eu achei que ele foi mais eficaz foi no retrato opressivo e sufocante que se vive no seio das famílias muito dominadas pela religiosidade. Quando se fala de fundamentalismo religioso, fala-se de qualquer coisa de muito parecida com aquilo que o filme nos mostra.****

10. JOHN MCENROE: In The Realm of Perfection, de Julien Faraut. Um filme muito interessante que nos fala de ténis, de desporto, e da condição humana. E que parte de um pressuposto muito cinematográfico, sendo por isso uma excelente reflexão sobre o cinema. O único senão é que passar praticamente uma hora e meia a ver o John McEnroe a servir, a jogar e a refilar com os árbitros, pode não ser o mais animado dos programas.****

11. THE FAVOURITE, de Yorgos Lanthimos. Com Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. O trabalho brilhante das três actrizes pode ofuscar o resto do filme, uma comédia estranha e perturbadora sobre o poder e a sua relação com os afectos.****

12. VICE, de Adam McKay. Com Christian Bale, Amy Adams e Sam Rockwell. Não fiquei muito convencido com o tom de farsa, apesar de haver duas ou três soluções muito bem esgalhadas e divertidas. Seja como for, o filme também funciona como uma espécie de “American politics for dummies”, além de que ficamos a saber o que já sabíamos: quem é que de facto mandava no tempo em que George W. foi POTUS.***

13. THE MULE, de Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper e Andy Garcia. Ah, que classe, que estilo, que cool. Aquele fio da navalha entre a fragilidade da idade e a dureza da vida, é assombroso. *****

14. THE HIGHWAYMEN, de John Lee Hancock. Com Kevin Costner, Woody Harrelson e Kathy Bates. Uma perspectiva diferente sobre a famosa dupla Bonnie & Clyde, a dos Texas Rangers que os perseguiram e abateram. O filme recupera uma certa secura western muito à Eastwood, e uma planura e vastidão que tínhamos saudades de ver no cinema.****

15. AINDA NÃO ACABÁMOS: COMO SE FOSSE UMA CARTA, de Jorge Silva Melo. Um comovente documentário que funciona como se fosse uma autobiografia cinematográfica do autor. Mas dizer isto assim parece artificial e solene ao pé da franqueza e da honestidade com que Jorge Silva Melo olha a câmara que ele próprio filma. *****

16. BLACKkKLANSMAN, de Spike Lee. Com John David Washington, Adam Drivers e Harry Belafonte. Já tinha saudades de ver “a joint by Spike Lee”, com o seu mix excitante de activismo político e liberdade narrativa. A história é um achado, um daqueles casos em que a realidade parece mais fantasiosa do que a ficção, e o realizador aproveita bem a ironia para dar o tom de comédia a um caso muito sério. Vale a pena prestar atenção à música de Terence Blanchard. E ver Harry Belafonte no ecrã é uma emoção.*****

17. A STAR IS BORN, de Bradley Cooper. Com Lady Gaga, Bradley Cooper e Sam Elliot. 1) A tearjerker is born. 2) Baby Jesus Loves Lady Gaga. ***
Tags:

fingir
rosas
innersmile
Estive três semanas internado no hospital, entre o dia 10 de abril e ontem, 1° de maio, de novo com uma infeção bacteriana. E desta vez foi a doer. A função renal ficou muito comprometida, passei muito mal, pelo menos nos primeiros dias, o cocktail de antibióticos era devastador, ao ponto de ter estado praticamente três semanas sem comer nada, alimentando-me apenas com suplementos de calorias e proteínas. E a situação actual é incerta, ao ponto de médico que me deu alta ter dito que corro o risco de dentro de poucos dias estar de volta ao hospital. Estive em modo off durante este mês no que toca a leituras, pois no hospital nem ler conseguia. E estive sempre muito ansioso e deprimido, começa a faltar a resiliência emocional para conseguir lidar com todas estas contrariedades. Não sei se a vida voltou ao normal, mas neste momento, e apenas por um momento, vou fingir que acredito que sim.

maps
rosas
innersmile


An old battered body is like a map in relief.

cordeiro
rosas
innersmile
Um cordeiro entrega-se ao sacrifício com mansidão. Há um ano. Se fosse outro, como seria? Guincharia como um porco na hora da matança? Rebelar-se-ia? Explodiria em revolta? Lutaria determinadamente para se manter à tona de água? Este, não. Aceita manso e conformado o seu destino. Chegará um dia em que o sacrifício será a vida toda do cordeiro. Aos poucos desfazer-se-á em poeira a memória de outra vida que não a do sacrifício. É assim que os cordeiros se entregam à vida mansamente, aceitando o sacrifício como um destino.

essencial
rosas
innersmile
hei-de recordar
o essencial
mãe
a acácia
tronco esguio
copa horizontal
a vastidão da savana
o céu azul infinito
ao alcance dos dedos
mãe
Tags:

leituras de março
rosas
innersmile
Foram as seguintes as leituras do mês de março.


Um thriller emocionante que nos leva ao coração do regime totalitário da Coreia do Norte, ou seja aos próprios Kim, os grandes, queridos e amados líderes. Um dos aspectos interessantes do livro é a forma como ele assenta não apenas na realidade da Coreia mas na sua própria história, o que contribui decisivamente para o efeito de suspensão da incredulidade.


Nova edição do volume que reúne toda a poesia de Fernando Assis Pacheco, aumentada com inéditos. Sou fã da escrita de FAP, seja a poética, seja a prosa, de ficção ou jornalística. Mas os seus poemas são verdadeiramente incontornáveis, entre muitas outras razões pelo conjunto de poemas que reflectem, e reflectem sobre, a sua experiência da guerra colonial. Mas o que verdadeiramente me prende na poesia de FAP é o modo como ela testemunha o olhar de quem vive os dias, de quem vive os outros, de quem vive o mundo.


Um thriller bem esgalhado, com excelente ritmo e uma grande capacidade de nos prender a atenção e fazer querer ler sempre mais uma página. Passa-se em Londres, o tempo está sempre húmido e gelado, tem um serial killer à solta, e uma detective policial sui generis.


A primeira aventura publicada por Edgar P. Jacobsen. Longe do apuro de Blake e Mortimer, mas já a prometer uma arte limpa e uma narrativa de aventuras.


Apesar de faltarem alguns aspectos habituais das histórias de Blake e Mortimer (como a ficção científica ou o mundo da espionagem), este Caso do Colar traz os dois heróis para as ruas e principalmente para os subterrâneos de Paris, num thriller policial puro.


Uma excelente biografia de uma das mais consagradas figuras da literatura portuguesa contemporânea. Mesmo para quem, como eu, não é grande leitor da obra de Agustina. Isabel Rio Novo escreve esta biografia, não apenas baseada em entrevistas e documentos históricos, mas principalmente numa close reading da obra agustiniana, e é esse aspecto que lhe confere uma marca de destacada qualidade.


A vantagem deste livro é a de que em duas tardes conseguimos ficar com uma ideia muito razoável, se não da história da Alemanha, pelo menos das linhas principais da sua evolução história, dos seus principais protagonistas, dos acontecimentos mais marcantes.
A desvantagem é que o livro tem, logo à partida, "uma tese" e limita-se a olhar a história da Alemanha, com o único e firme propósito de a confirmar.

abide my time
rosas
innersmile
O passado já passou mas há cicatrizes que, depois da queimadura da ferida, guardamos com um certo sentido de beleza.

Mesmo quando, entre o passado que passou e aquele que ainda está a passar, muita água tenha já corrido sob a ponte, água tumultuosa, escura e profunda, densa e dura.

Como uma canção que conhecemos e amamos desde sempre, e da qual, um dia, na primavera, de maneira inesperada, solar e precisa, descobrimos o verdadeiro sentido.

Como se sempre tivesse estado à nossa espera, aguardando o momento em que a canção e a nossa vida se encaixassem na perfeição.

E que de vez em quando ouvimos e nos lembramos, não da ferida magoada, mas da feliz cicatriz.


the crown
rosas
innersmile
Houve aí uma altura em que se dizia que o cinema tinha perdido vitalidade e que a sua capacidade de reflectir a vida se tinha passado para as séries de televisão. Hoje em dia, com o aparecimento e a diversificação das plataformas que disponibilizam conteúdos audiovisuais, por assinatura, já não tenho a certeza de que isso ainda seja verdade. A maior parte das séries que encontro nessas plataformas são pobres, quer do ponto de vista dos valores de produção quer do ponto de vista narrativo. Mas há exceções.

E uma delas, de que acabei de ver as duas temporadas já produzidas, é The Crown, cujo tema é, grosso modo, o reinado da Rainha Isabel II, de Inglaterra. A série foi escrita por Peter Morgan, o mesmo autor que escreveu, aqui há uns anos, o filme The Queen, que deu um Oscar a Helen Mirren precisamente no papel de Isabel II. Entre a equipa de realizadores está o Stephen Daldry, que tem no currículo filmes como Billy Elliot, As Horas ou O Leitor.

A série está de facto muito bem escrita, tentando ser o mais fiel possível à verdade da História, mas não desperdiçando as oportunidades de conflito. O retrato psicológico de Elizabeth tem densidade e, principalmente, ajuda a caracterizar não apenas a sua personalidade, mas o modo como encarou a responsabilidade que lhe calhou e a marca que quis imprimir ao seu reinado.

Para além de muito bem escrita, a série tem um elevado valor de produção, ou seja, teve grandes recursos e soube utilizá-los muito bem. Como se vê logo pelas escolhas do elenco, mas também por muitas outras razões: as escolhas dos sets, a qualidade dos cenários exteriores, a preocupação e o rigor das reconstituições dos interiores.

Para além de nos mostrar o que é a vida das realezas lá nos altos palácios onde habitam, a série traça de igual modo um retrato muito eficaz de como se fazia política em Inglaterra nos anos do pós-guerra (e que em muitos aspectos se mantém actual). E ainda, numa espécie de reflexo do reflexo, do que era vida da classe média inglesa, ainda que, na série, ela seja apenas entrevista, um pouco desfocada, através dos vidros nem sempre muito transparentes das janelas dos automóveis de luxo.
Tags:

ao volante pela cidade
rosas
innersmile
Chegou, pelas redes sociais, a notícia da morte do arquitecto Manuel Graça Dias. Nos anos 80 e 90, creio que nas páginas do jornal O Independente, o arquitecto escrevia crónicas que eu lia religiosamente. Foram esses textos que me ajudaram a criar e a alimentar um gosto pela arquitectura, e também um modo diferente de ver, e viver, as cidades. Nesses artigos de jornal, e também nos livros que Manuel Graça Dias publicou, um deles, Ao Volante pela Cidade, ainda o devo ter aqui por casa.

Não conseguimos evitar um sentimento de empobrecimento, e de tristeza, quando partem aqueles que, mesmo sem o saberem, tanto contribuíram para o nosso conhecimento, para a nossa cultura, para o enriquecimento das nossas vidas.

o limerick da bactéria
rosas
innersmile
Havia na Internet um chato de um bestunto
Que um dia desarvorou e deixou de ser assunto
Mas como uma bactéria
Que não deslarga a matéria
Volta e meia que não volta, reaparece o defunto


Há muitos anos que eu não escrevia um limerick. Este é, como todos os outros, um poema supostamente jocoso e com endereço, como devem ser os limericks.

Mas hesitei em pô-lo aqui. Eu sou supersticioso e acredito no karma. Ora, a vida já me tem feito tantas maldades, que eu não quero ser mauzinho e despertar mais bad vibes.

Quero ser bonzinho, e quero sê-lo com toda a gente. Mas há coisas, e situações, e pessoas, que nos fizeram mal e que por isso as deixámos lá atrás, exactamente no lugar onde nos magoaram e do qual nos afastámos em definitivo.

Por isso, sem karma, aqui fica o limerick da bactéria.

american crime story
rosas
innersmile
Vi de seguida as duas temporadas de American Crime Story, a série da autoria do Ryan Murphy, criador, produtor e realizador de séries de TV e de alguns filmes de que gostei muito.

Adorei a primeira temporada, The People v. O. J. Simpson, a recriação do julgamento de OJ por homicídio da sua ex-mulher e de um seu amigo, uma sucessão de eventos que dominou os media de todo o mundo, ali por meados dos anos 90. A recriação histórica, a capacidade de dar espessura e densidade psicológica às personagens, o constante movimento da acção, com as suas tendências e reviravoltas, são alguns dos vários factores que me puseram sempre ansioso por ver mais um episódio, mais uma sequência.

Já não achei tão interessante a segunda temporada, The Assassination of Gianni Versace, que se centra sobretudo em acompanhar a descida aos infernos da alma encetada por Andrew Cunanan, o assassino do célebre designer italiano. A própria estrutura e sequência dos episódios prejudica, acho eu, o sentido de progressão da narrativa. Além disso, a tentativa de reconstruir um quadro emocional ou mental em processo de desagregação, e que culminaria na série de crimes que o assassino perpetrou em pouco tempo, não me convenceu muito, achei-a superficial e artificial.
Tags:

ventre calmo da terra
rosas
innersmile
TRAVESSIA DO DESERTO

Que caminho tão longo
Que viagem tão comprida
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda
Ai que fome tão antiga
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga


Conheço esta canção do José Mário Branco há décadas, desde que o disco Ser Solidário foi editado, um dos melhores discos da música popular portuguesa de sempre. Já ouvi a canção dezenas de vezes, nomeadamente ao vivo. E, no entanto, as circunstâncias da vida fazem descobrir novos sentidos. Mais pessoais, mais íntimos. Mais dolorosos.


after life
rosas
innersmile
Gosto muito do Ricky Gervais. As séries The Office ou Extras estão entre as coisas mais geniais que eu já vi em termos de comédia. Mas há qualquer coisa que me incomoda nele, mais até na sua stand up, e que é uma certa implacabilidade, que por vezes chega a ser cruel. Às vezes a comédia do RG até me parecia conter um certo desprezo pela condição humana, pelas nossas fragilidades e fraquezas. A verdade é que eu achava o Ricky Gervais muito divertido, mas sentia um certo medo.

Até que comecei a ver, há poucos dias, a sua nova série, After Life. A princípio pareceu-me reconhecer a sua habitual crueldade, mas aos poucos fui percebendo melhor a série e o seu protagonista, Tony, bem como as restantes personagens. E o ponto é que cada episódio me divertiu imenso, mas também me comoveu muito, quase ao ponto das lágrimas nos olhos.

Por detrás do humor implacável de Gervais, descobre-se um olhar humano, demasiado humano, compassivo, cheio de uma ternura pelos nossos aspectos mais frágeis, que são precisamente os mais ridículos e risíveis. Acho que After Life, ao fim destes seis episódios, já é uma das minhas séries preferidas de sempre.
Tags:

notícias
rosas
innersmile
morreste, foste embora
trocou-se uma ausência
por outra

os dias lá foram andando
a vida vivida como
uma doença incurável

lembro-me de ti
vez em quando
uma hora por outra

mas vejo-te ao longe
como se o teu silêncio
fosse indolor

uma leve perturbação
incómoda e aguda:
não tenho notícias
não sei nada de ti
Tags:

filmes
rosas
innersmile
Graças à generosidade de terceiros tenho, nos últimos tempos, tido oportunidade de ver alguns filmes que têm estreado e que eu não tenho oportunidade de ir ver aos cinemas. Acho que vou fazer uma lista, só com umas notas muito breves.


1. GREEN BOOK, de Peter Farrelly. Com Viggo Mortensen e Mahershala Ali. É uma história irresistível, com dois actores num jogo muito bom.****

2. THE WIFE, de Björn Runge. Com Glenn Close, Jonathan Pryce e Christian Slater. Falta chama ao filme, mas a Glenn Close dá uma verdadeira masterclass.***

3. I'M NOT YOUR NEGRO, de Raoul Peck. Com base nos escritos de James Baldwin. Um olhar muito forte sobre a negritude numa sociedade racista, com especial enfoque no movimento dos direitos civis nos EUA, mas com um escopo universal. Explica muita coisa, nomeadamente os confrontos que ainda há poucas semanas varreram a sociedade portuguesa. *****

4. BOHEMIAN RHAPSODY, de Bryan Singer. Com Rami Malek. Não percebi muito bem se o objetivo era ajudar a criar o mito Freddy Mercury, tornando-o numa espécie de unicórnio pop, ou se faz parte do plano de marketing. Valeu pelas memórias do Live Aid. O que terá acontecido à minha t-shirt?***

5. FREE SOLO, de Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin. Sobre o escalador Alex Honnold. Entusiasmante mas também perturbador, sobretudo pelas coisas que não são explicáveis.*****

6. THEY FIRST MAN, de Damien Chazell. Com Ryan Gosling e Claire Foy. Uma perspectiva intima sobre o percurso do astronauta Neil Armstrong que o levaria a ser o primeiro homem na lua. Não se trata, longe disso, de uma fita de aventuras, como se nota pelo ritmo. ****

7. ROMA, de Alfonso Cuarón. Com Yalitza Aparicio. Uma câmara que se limita a olhar quase silenciosamente. Tudo o que o filme tem para dizer, é assim que o faz, mostra em vez de explicar. A fotografia é um esplendor, num preto e branco muito evocativo, lírico e implacável. *****

8. LOVE, SIMON, de Greg Berlanti. Uma típica comédia romântica sobre adolescentes a descobrirem o amor. Bom, quase típica. E é este quase que lhe dá todo o interesse. Porque apesar de tudo, ainda não são frequentes os filmes dirigidos ao grande público, sobretudo o adolescente, que apresentam um retrato mais ou menos real de alguns dos problemas que os jovens gay enfrentam na descoberta do amor, e o fazem de uma forma tão positiva.****
Tags:

ligeiramente
rosas
innersmile
Uma tarde a minha mãe chegou a casa e estava ansiosa por me contar. Nesse dia, à hora do almoço, no pequeno centro comercial ao lado do trabalho, onde ia tomar café, tinha visto o poeta Fernando Assis Pacheco em demorada e tranquila conversa com o Sr. Machado, que era o mais conhecido livreiro de Coimbra.

A minha mãe sabia que eu era fã da escrita de Assis, fosse enquanto jornalista, poeta ou escritor de romances, crónicas ou novelas.

Eram deste tipo as coisas importantes que tínhamos urgência e prazer em partilhar um com o outro. As coisas quotidianas, quase inúteis. As coisas que apenas nos faziam agitar ligeiramente o coração, num sobressalto manso e feliz.

não tem consolo
rosas
innersmile
R., 1992

Quando os anos passarem
sobre esse teu desgosto
vais ver que te curaste
não de vez mas um pouco

pois o que a gente busca
nas dobras do amor
é a cura para a morte
que não tem consolo

e por falar em f'ridas
até as que mais doem
acabam por fechar
só ela vence o corpo


- Fernando Assis Pacheco, RESPIRAÇÃO ASSISTIDA

Faz hoje quatro anos que a minha mãe morreu.

leituras de fevereiro
rosas
innersmile
Foram as seguintes as leituras durante o mês de fevereiro.



Gostei muito deste romance musical, como lhe chama o autor. Nascido da vontade de contar a história do kuduro, Também Os Brancos Sabem Dançar, num registo em que a ficção e as memórias reais se cruzam, traça um mapa, e mesmo uma árvore genealógica, da música pop que se ouve hoje em dia, em especial a que resulta do cruzamento entre as músicas africana, sobretudo angolana e cabo-verdiana, electrónica e de dança.

Noutro plano, o livro de Kalaf Epalanga, de uma forma sempre positiva e bem humorada, reflete sobre o racismo,sobre o convivio, nomeadamente cultural e artístico, entre as raças,sobretudo a negra e a branca, e, de uma forma que podemos dizer mais política, sobre a forma como a Europa olha os contingentes de emigrantes e refugiados que todos os dias tentam passar as suas fronteiras.

Finalmente, Também Os Brancos Sabem Dançar é ainda uma generosa homenagem a Lisboa, e por extensão a Portugal, como o lugar perfeito onde as diferentes culturas africanas e europeias se podem encontrar de forma criativa.

Um livro 5 estrelas, escrito de forma simples e escorreita, com sentido de humor. Num tempo em que o racismo e os conflitos raciais voltaram às agendas noticiosas, são libertadores e esperançosos o olhar e as reflexões de Kalaf Epalanga.



Que fantochada. Li este livro porque me veio parar às mãos, passei os olhos por curiosidade, e percebi que o conseguia ler numa tarde. O único vago interesse que o livro possa ter é clínico, e resulta de tentar perceber a personalidade do seu autor.



Demorei muito tempo até chegar a este livro, mas ainda bem que cheguei. É difícil dizer o que é mais impressivo, se a qualidade gráfica da narrativa, se a força da história de quem viveu a revolução iraniana por dentro e enquanto adolescente, se a franqueza implacável com que é contada na primeira pessoa do singular uma história coming-of-age.



A elegância e a perfeição da escrita, a subtileza, a erudição e o humor de Jan Morris, criam um travelogue muito sui generis.

Como o título indica, a ideia é, mais do que descrever, talvez recriar o que era a vida em Manhattan no ano em que terminou a Segunda Grande Guerra. Vários aspectos são abordados, da política às artes, da economia aos transportes, das comunidades aos bairros, entre outros.

O resultado é o que deve ser o de um livro de viagens: falar-nos dos lugares e das pessoas, mas sobretudo captar a energia de um momento único. Mais do que incitar-nos à viagem, ser ele próprio uma viagem vívida e inesquecível.