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resiliência
rosas
innersmile
Mais duas estadias no hospital, mais cirurgias. No mês passado, fui internado para ser submetido a uma cistectomia radical, que foi, nos últimos anos, o meu maior medo. Ou seja, a remoção total da bexiga, por causa do carcinoma, enquanto ele não se lembrava de começar a disseminar. Agora tenho uma urostomia, e apesar de já ter passado mais de um mês, ainda não me habituei à ideia. Acho que a minha cabeça vai demorar algum tempo até incluir esta situação no mapa corporal que a nossa mente cria, apesar de, pelo menos uma vez,ter tido um sonho em que já estava urostomizado.

Já este mês novo internamento, curto, por causa de uma infecção. Felizmente desta vez não era uma bactéria multi-resistente, e a coisa está a resolver-se com alguma tranquilidade. Mas muito provavelmente a infecção teve a ver com a urostomia, o que me traz mais e novas preocupações quanto ao futuro. O estoma é uma via aberta para infecções, e eu, no estado em que estou, sou mais vulnerável e suscetível.

Como se tudo isto não bastasse, o temporal da semana passada causou estragos no telhado do meu prédio, e já me choveu no quarto, mesmo em cima da cama.

Dizer que estou saturado disto tudo, destes últimos meses, destes últimos anos, da forma como a minha saúde se deteriorou, é pouco. Na verdade estou desesperado, para além do limite do suportável. Por vezes penso se não estarei a lutar ingloriamente contra uma lenta e agónica inevitabilidade.

A vida tem-me tirado tudo, e não posso dizer que é aos poucos, pelo contrário tem sido à bruta. Perdi os meus pais, perdi o meu irmão, perdi a saúde, perdi o gosto e a energia para o trabalho, perdi autonomia ao ponto de ter de ter em casa ajudas de cuidadores, perdi a vontade e o gozo de ir ao cinema,ou aos concertos, ou ao teatro. Perdi amigos e companhias, nem digo que propositadamente se afastaram, mas simplesmente porque a vida, a ”normalidade”, a vida que corre lá fora de modo inexorável, não se compadece com quem cai e fica para trás.

Terminar este texto com uma nota positiva? Não sei, não sei se tenho promessas, esperanças, sonhos a que agarrar. Tenho uma certa resiliência, que nasceu comigo e me vai impedindo de cair. Vou-me aguentando.

au revoir
rosas
innersmile
Numa das suas mais famosas canções, My Way, o Frank Sinatra cantava que “regrets I had a few, but then again too few to mention”. Bom, arrependimentos todos temos, mesmo que sejam “too few to mention”, e um dos meus maiores arrependimentos foi nunca ter visto o Charles Aznavour a cantar ao vivo, nomeadamente quando ele actuou em Lisboa, há cerca de dois anos. Agora que ele morreu, com a respeitabilissima idade de 94 anos, esse arrependimento ficará para sempre.

É impossível definir um tempo na minha vida em que eu não conhecesse as canções de Aznavour, tal como é absolutamente impossível enumerar as minhas canções preferidas de Aznavour. Acho que nunca o ouvi cantar uma canção, seja lá qual for, de que não tenha gostado, aliás, que não tenha amado. As canções do Aznavour são como o amor do célebre soneto de Vinícius de Moraes, infinitas enquanto duram.

Tenho por aí algures um cd que reúne algumas das suas canções, e que ouvi até à exaustão, acompanhando-me em quilómetros e quilómetros de viagens na auto-estrada, muitas delas noturnas, quando as canções do Aznavour me davam o entusiasmo e a energia para chegar a casa, com o volume do rádio bem alto de forma a tapar a minha berraria a acompanhar as canções.

Como disse é impossível dizer quais são as minhas favoritas mas há canções que sempre que as ouço despertam em mim as emoções de sempre, puras, ingénuas, intactas: Et Pourtant, Hier Encore, Que C’Est Triste Venise, Formidable, Emmenez Moi, e tantas tantas tantas outras.

Escolho para pôr aqui uma das canções do Aznavour que conheci tardiamente mas que foi um verdadeiro coup-de-foudre a primeira vez que a ouvi, Comme Ils Disent. Quem ma deu a conhecer foi o meu saudosíssimo Saint-Clair, que ainda por cima, por causa do meu francês enferrujado, me passou a letra da canção, que é tão poderosa e magnífica como a melodia e como a própria interpretação de Aznavour. Já a pus aqui uma vez, há muitos anos, ainda nos primórdios do you tube, assim que ela apareceu disponível, e quando o livejournal permitiu a publicação de clips de video.

Quando morrem certas pessoas, dizemos que o mundo ficou um lugar mais triste. Com o desaparecimento de Charles Aznavour, o mundo não fica só mais triste, fica também menos belo e exaltante.



J'habite seul avec maman
Dans un très vieil appartement rue Sarasate
J'ai pour me tenir compagnie
Une tortue deux canaris et une chatte.
Pour laisser maman reposer
Très souvent je fais le marché et la cuisine
Je range, je lave et j'essuie,
A l'occasion je pique aussi à la machine.
Le travail ne me fait pas peur
Je suis un peu décorateur un peu styliste
Mais mon vrai métier c'est la nuit.
Que je l'exerce travesti, je suis artiste.
Jai un numéro très spécial
Qui finit en nu intégral après strip-tease,
Et dans la salle je vois que
Les mâles n'en croient pas leurs yeux.
Je suis un homo comme ils disent.

Vers les trois heures du matin
On va manger entre copains de tous les sexes
Dans un quelconque bar-tabac
Et là on s'en donne à cœur joie et sans complexe
On déballe des vérités
Sur des gens qu'on a dans le nez, on les lapide.
Mais on le fait avec humour
Enrobés dans des calembours mouillés d'acide
On rencontre des attardés
Qui pour épater leurs tablées marchent et ondulent
Singeant ce qu'ils croient être nous
Et se couvrent, les pauvres fous, de ridicule
Ça gesticule et parle fort.
Ça joue les divas, les ténors de la bêtise.
Moi les lazzi, les quolibets
Me laissent froid puisque c'est vrai.
Je suis un homo comme ils disent.

A l'heure où naît un jour nouveau
Je rentre retrouver mon lot de solitude.
J'ôte mes cils et mes cheveux
Comme un pauvre clown malheureux de lassitude.
Je me couche mais je ne dors pas
Je pense à mes amours sans joie si dérisoires.
A ce garçon beau comme un Dieu
Qui sans rien faire a mis le feu à ma mémoire.
Ma bouche n'osera jamais
Lui avouer mon doux secret mon tendre drame
Car l'objet de tous mes tourments
Passe le plus clair de son temps au lit des femmes
Nul n'a le droit en vérité
De me blâmer de me juger et je précise
Que c'est bien la nature qui
Est seule responsable si
Je suis un "homme oh" comme ils disent.

flor do cacto
rosas
innersmile


Fiz nova cirurgia e estive perto de duas semanas no hospital. Há pouco mais de uma semana vim para casa, e desde então nem tenho posto o nariz fora da porta de casa. Hoje de manhã decidi ir lá baixo para ver o correio, e vi que o meu cacto tinha de novo dado flor.

A última vez que tinha acontecido foi há cerca de um ano, e falei disso aqui, em agosto do ano passado, e da intensa ligação emocional que me liga, por várias razões, alguma das quais nem às paredes confesso, a esta flor de cacto.

Vim para cima, peguei no telemóvel e fui fotografar a flor. Hoje descobri-lhe um certo simbolismo do que tem sido a minha vida nestes últimos tempos. A flor de cacto lá vai resistindo.

"Eu quero o amor da flor de cactus, ela não quis. Eu dei-lhe a flor de minha vida, vivo agitado. Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo. Eu só sei de mim, de nós, de todo o mundo." (João Ricardo, para a banda Secos & Molhados)

mapplethorpe
rosas
innersmile
Apesar de eu não poder, por razões que têm a ver com o meu estado de saúde, ir ao Porto ver a exposição retrospectiva que o Museu de Serralves dedicou a Robert Mapplethorpe, fiquei muito contente com esta oportunidade de as suas fotografias serem finalmente expostas num grande museu português. Contente e até um pouco excitado com o impacto que as suas obras teriam no público nacional que consegue ser simultaneamente conservador, por vezes até retrógrado, mas também aberto e tolerante.

Mapplethorpe é, na prateleira dos meus ídolos e heróis, uma das maiores referências. Nos anos 80, sobretudo depois que comecei a ir frequentemente a Londres, conheci o seu trabalho, e tudo me fascinou: o arrojo e a provocação, a falta de reserva que o fazia muitas vezes expor-se a si próprio em fotos íntimas e inquietantes, a representação da homossexualidade, a beleza rigorosa do preto e branco das suas fotografias, e até a sua biografia, a história da sua vida e particularmente a história da sua morte, vítima da SIDA quando esta era uma verdadeira calamidade, com um impacto impensável na comunidade gay.

Claro que eu já conhecia a Patti Smith desde os anos 70, quando era considerada uma das deusas do punk rock, e as fotos dos discos de Smith foram provavelmente as primeiras fotos de Mapplethorpe que eu vi na vida. Mas foi só depois de conhecer a estreita e poderosa ligação que havia entre os dois, que me dediquei de alma e coração à música da Patti Smith.

Como disse, fiquei contente com o facto de o público português se poder confrontar finalmente com as fotografias de um dos meus artistas preferidos. Antecipava algumas reações mais virulentas por parte dos mais ou menos habituais defensores da moral e dos bons costumes, e nomeadamente daqueles que vêm qualquer representação da homossexualidade como uma ameaça à moral burguesa.

Mas nunca me passou pela cabeça que pudessem ser o próprio museu e o curador da exposição a criarem uma trapalhada tão grande e tão infeliz acerca da exposição e de eventuais actos censórios, naquilo que me pareceu ser mais uma guerra de egos do que outra coisa. Somos sempre tão eficientes a ser medíocres que conseguimos transformar a exposição de Robert Mapplethorpe num escândalo maior do que as suas próprias fotografias.

leituras
rosas
innersmile
Apenas uma actualização das leituras, antes de nova interrupção das actividades.


Conheço e admiro o humor da Dawn French desde os anos oitenta, dos tempos da série French and Saunders. Como nunca tinha lido nada,estava à espera que Oh Dear Silvia fosse um livro de humor. Nada disso, muito longe disso até. Apesar de ter algum humor, trata-se de uma história até um pouco deprimente, pelo menos para o meu estado de espírito mais recente. A personagem principal é uma mulher que está em coma no hospital, e a sua história chega-nos através das pessoas das suas relações que a vão visitando. A ideia é interessante, a narrativa tem os seus momentos envolventes, mas também tem outros mais arrastados. Mas gostei de ler, e aprendi uma piada engraçada sobre os casamentos “bacon and eggs”.


Mulheres da Noite é mais um policial com a dupla Louise e Camilla, uma polícia e a outra jornalista, da autoria da escritora dinamarquesa Sara Blaendel. É já o terceiro livro que leio com esta dupla e acho que foi o meu preferido até agora.


Finalmente li Walking Through Walls, uma autobiografia memorialista da autoria da artista Marina Abramovic. Uma oportunidade especial de ficar a conhecer, na primeira pessoa do singular, a vida extraordinária de uma das mais extraordinárias artistas do mundo da arte contemporânea, uma das principais responsáveis por trazer a performance para o primeiro plano da relevância artística.

Abramovic narra, ou melhor: narra-se de forma implacável e humorada, confessa e confidencia, expõe-se e reflecte, mostra e conta, e, no processo, ficamos a perceber melhor como de facto, no seu caso, a arte é a vida e a vida é a arte

felice di stare lassú
rosas
innersmile
No passado domingo de manhã, regressava a casa a ouvir no rádio do carro o programa A Cena do Ódio, na Antena 1, cuja emissão era dedicada à cor azul.

Às tantas começa a ouvir-se o Domenico Modugno a cantar a famosa intro à ainda mais famosa canção Nel Blu Dipinto, que, creio eu, é mais conhecida por Volare, do refrão, e que deve ser das canções mais populares e com mais versões da música italiana.

«Penso que un sogno cosi non ritorní mai piú
Mi dipingevo le mani e la faccia di blu
Poi d’improvviso venivo dal vento rapito
E incominciavo a volare nel cielo infinito»

Veio-me logo à ideia o meu pai. Foi dele que ouvi pela primeira vez esta canção, aprendi-a com ele. Era uma das canções preferidas do meu pai. Ouvi-lo dizer estas frases do início da canção é das recordações mais vivas e intensas da minha vida.

Claro que o meu pai não sabia italiano e ‘aldrabava’ a maior parte das palavras. Cantava o primeiro verso, terminava com o ‘volare nel cielo infinito’, mas o resto era a fazer de conta, a seguir o som das palavras, a tentar imitar o sotaque. Mas mesmo essa aldrabice fazia parte da brincadeira, era um dos seus números para me divertir, mas penso que sobretudo se divertia a si mesmo. Uma das ocasiões, não muito frequentes, em que o meu pai, habitualmente sempre triste ou pelo menos tristonho, soltava o sentido de humor.

Ao ouvir a canção e ao lembrar-me do meu pai, pensei que gostaria de confirmar com o meu irmão se ele se lembrava desta rábula do meu pai, se também era capaz de, vividamente, o ouvir a cantar o Nel Blu Dipinto De Blu.

Numa manhã de um domingo passado quase sempre sozinho, num estado de espírito feito de melancolia e (muita) angústia, não foi muito bom confrontar-me, mais uma vez, com a ideia de que a ausência dos meus pais e do meu irmão, acentua o sentimento de profunda solidão com que vivo estes dias.


esperando
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Cada vez que olho para o gato comovo-me com a sua inocência, com a sua inconsciência do futuro, com o facto de ele não sofrer a angústia de saber que daqui a uns dias, estaremos separados mais uma vez.

Acho que essa ignorância faz dele um infeliz, alguém que não sabe o que está prestes a acontecer-lhe. Mas também sinto uma certa inveja dessa leveza de ser, que advém de não sabermos o que nos espera. Sinto inveja? Não sei, ou melhor, não sinto. Não me angustiar com o que me espera, não faz parte daquilo de que sou capaz.

Fui almoçar à livraria. Encontrei por acaso, e comprei de imediato, uma edição hardcover (da Penguin) do livro Walk Through Walls: A Memoir, da autoria da artista e performer Marina Abramovic.

Comecei logo a ler o primeiro capítulo, sobre a infância e a juventude de Abramovic em Belgrado, a capital da então Jugoslávia. Foi estranho. Esta leitura encheu-me de uma exaltante vontade de liberdade, muito contraditória com o meu estado de espírito. Uma contradição insanável, entre a presente falta de perspectivas e um intenso impulso criativo. Ou entre uma vontade de ir para casa, para junto do gato, um lugar onde sempre me senti livre, e a consciência de que voltar para casa é sempre um regresso à asfixiante situação actual.

Por momentos, vagos e subconscientes, tive a impressão de que estaria safo enquanto me mantivesse ali na livraria, a ler o livro da Marina Abramovic.

rufus gifford, o embaixador
rosas
innersmile
Passei o último mês e pouco, desde que tive alta em 20 de julho, quase sempre em casa, a recuperar da última cirurgia, e a preparar-me para a próxima, que será em breve. Saí pouco de casa, embora me tenha esforçado para sair todos os dias, mesmo que apenas para tomar um café ou comprar pão. Claro, li muito, e, fatalmente, vi mais televisão do que o habitual, que é quase nada.

Logo num dos primeiros dias em casa, a fazer zapping no comando da box, apanhei sem querer um documentário na RTP2 que me chamou a atenção. Era sobre o embaixador dos EUA em Copenhaga, chamado Rufus Gifford, de quem eu nunca tinha ouvido falar, e o que me chamou a atenção, para além do bom aspecto do cavalheiro, foram as referências à sua condição de homossexual.

Fui logo investigar. Rufus colaborou ativamente nas duas campanhas presidenciais de Barack Obama, nomeadamente como director financeiro, e, no início do seu segundo mandato, o presidente dos EUA nomeou-o de facto seu embaixador na Dinamarca, posto que serviu entre 2013 e 2017. Era, no tempo da presidência de Obama, considerado o embaixador informal do presidente para as questões LGBT.

Quanto ao documentário que eu apanhei por acaso, fazia parte de uma série, com duas temporadas, que Rufus Gifford aceitou fazer para a televisão dinamarquesa, seguindo o seu dia a dia enquanto embaixador, e com especial ênfase quer nas questões LGBT quer nos esforços de aproximação entre a Dinamarca e os EUA. A série, cujo título em inglês é I Am The Ambassador, é muito bem feita, e ganhou alguns prémios da televisão da Dinamarca. Não sei se já foi transmitida nos EUA, mas li algures que estava previsto ser transmitida na Netflix.

Naturalmente programei a box para gravar todos os episódios da série. Tive sorte, porque “apanhei” o primeiro. O que é estranho, por parte da RTP, é o carácter errático da programação: foram emitidos os 3 primeiros episódios, ainda no final de julho, depois voltou a ser transmitido um episódio, o oitavo se não em engano, no dia 18 de agosto, e mais dois no fim de semana passado. Não faço ideia do que aconteceu aos restantes episódios, em particular do quarto ao sétimo. Estive sempre atento, por isso penso que não me terá escapado nenhum, além de que, como já referi, tinha a box programada para gravar automaticamente todos os episódios transmitidos.

Também estranho um pouco não ter visto qualquer referência à série, ou ao próprio Rufus Gifford, nos canais da net que estão habitualmente atentos às questões LGBT. Pergunto-me se será apenas distração, agravada pelo facto de a sua transmissão pela RTP ter passado completamente despercebida.

Rufus Gifford, que casou com o seu companheiro enquanto servia no posto de embaixador, no edifício da Câmara Municipal de Copenhaga, é actualmente candidato a representante do estado do Massachusetts no Congresso dos EUA, nas eleições que terão lugar no próximo dia 6 de novembro.
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mais bd
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innersmile


Este ano tem lido muitos livros de banda desenhada, nomeadamente aquilo a que normalmente se chama ‘novelas gráficas’, com algumas descobertas muito importantes, como já referi aqui. Uma dessas descobertas foi o desenhador de mangá Jiro Taniguchi, de quem mais dois livros, El Gourmet Solitario, e a sua continuação, Paseos de un Gourmet Solitario. Comprei, como se nota, edições espanholas, já que estes dois livros ainda não foram publicados em Portugal. Ao contrário dos outros livros que li de JT, em que ele era responsável quer pela arte quer pelo texto, no caso destes dois livros o argumento é da autoria de Masayuki Kusumi, mas o universo narrativo é sempre muito próprio de Taniguchi.

Li ainda Um Contrato com Deus, uma edição portuguesa da obra de Will Eisner, que é considerada um dos livros fundadores deste género de banda desenhada que são as novelas gráficas, e mais um livro de aventuras da dupla Blake & Mortimer, A Armadilha Diabólica, uma das obras originais desta série, da autoria de E.P. Jacobs.

Finalmente, estou ainda a ler A Agência de Viagens Lemming, do português José Carlos Fernandes, de quem tinha lido o ano passado ambos os volumes de A Pior Banda do Mundo. O universo de referências deste livro de viagens propostas é muito parecido com o da Pior Banda do Mundo, sendo directa e assumidamente inspirado no livro As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino.

missões impossíveis
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Já não ia ao cinema há séculos, fui confirmar e o último filme que tinha visto foi o Ready Player One, logo no início de abril. Ou seja quase cinco meses sem praticamente ver filmes, pois não tenho grande paciência para os ver no televisor, e no computador muito menos.

Mas hoje o dia começou angustiante, recebi o telefonema do hospital a marcar a data da próxima intervenção cirúrgica. Fiquei deprimido, e, o que é raro em mim, com um quase horror a estar sozinho, por isso decidi sair de casa e ir ao cinema.

Uma das coisas que me chateia é que, por causa das dificuldades de mobilidade que tenho, se vou sozinho ao cinema tenho de me sentar na primeira fila. Sempre ouvi as histórias que os meus pais contavam acerca do Piricas, uma figura de Lourenço Marques que ficava sempre na primeira fila do cinema para ver o filme primeiro do que os outros, e que foi imortalizado num poema de Rui Knopfli publicado no seu livro O Monhé das Cobras ("Na fila Z, rente à pantalha, gesticulante, o Piricas regia a partitura.”).

Fui ver o sexto “episódio” de Mission: Impossible, Fallout. Sou fã desta série de filmes, e este, realizado, tal como o anterior, por Christopher McQuarrie, foi um dos melhores dos seis, muito divertido e, claro, com cenas de acção espectaculares.

facas de caça
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Um dos contos de A Rapariga Que Inventou Um Sonho, o livro de Haruki Murakami que estou prestes a terminar, exemplifica bem algumas das razões pelas quais eu gosto tanto da ficção do autor. Como quase todas as 24 histórias que compõem o livro, passa-se muito pouco, as situações são quase banais, o enredo tem poucas peripécias. Nesta história, o narrador encontra-se, juntamente com a mulher, a passar férias num resort, e habituaram-se a ver um par de outros hóspedes, americanos, mãe e filho, este deslocando-se numa cadeira de rodas. Não há praticamente interacção entre os dois casais, até que, na véspera da partida, de madrugada, o narrador tem uma pequena crise de ansiedade, sai do quarto com uma garrafinha do minibar, procura uma das esplanadas dos bares do hotel, fechados àquela hora, para beber a sua bebida e relaxar um pouco. Sentado numa mesa, está o rapaz americano da cadeira de rodas, e desenrola-se entre ambos uma pequena conversa, em que um dos temas são as facas de caça, precisamente o título do conto.

Ao fim de poucas linhas, eu já estava completamente identificado com o narrador, quase como o conto se passasse comigo, e foi de tal ordem que passei a narrativa a projectar a paisagem num resort onde há uns anos, passei umas curtas férias, no Sinai. Qualquer descrição, um recanto do jardim, as esplanadas, a praia, as plataformas no mar de apoio aos banhistas, correspondia àquilo que me recordo desse hotel de que nem me lembro do nome.

Um dos aspectos que me fascinam na literatura de Murakami é como tudo é tão banal, é tão do dia a dia das pessoas, e no entanto há como que uma camada invisível, mais pressentida do que explícita, onde as coisas têm uma dimensão surreal. E é desta sobreposição entre o real e o surreal que nasce uma projecção emocional por parte do leitor. Passa-se como nos sonhos, em que o banal e o absurdo se misturam para nos ajudar a processar, não tanto os acontecimentos, mas sobretudo as emoções que dominam o nosso subconsciente.

Ainda por cima a escrita de Murakami é simples e directa, o que torna a leitura um exercício de prazer.


old photographs
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Faz hoje um mês. O tempo é implacável. Não sei se é angústia ou se é mais uma espécie de náusea, o que sinto quando penso que a vida continua, indiferente, mais ou menos na mesma, insensível, entretida com os seus pequenos dramas. Como se a tua ausência não tivesse peso. Por vezes, só parece haver sentido numa caixa de velhas fotografias.

rainhas
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Se eu tivesse de escolher uma única canção da Madonna, de entre as dezenas de excelentes canções que ela cantou, para levar para uma ilha deserta, seria esta, True Blue. Foi esta canção, e o álbum a que ela deu título, o terceiro da sua carreira, editado em 1986, que me fez apaixonar pela música da Madonna, e pela sua atitude artística, até hoje.

Happy 60 birthday, Madge (que, chama-na assim na Inglaterra, é o diminutivo de Your Majesty).


Já há uns dias que a notícia era esperada, mas mesmo assim é desolador percebemos que vivemos num mundo sem a Aretha Franklin. Para um cavalheiro de certa idade, como eu, a Aretha faz parte da ordem natural das coisas, a sua voz existe como o ar que respiramos, é essencial. E a sua voz poderosa e o seu canto cheio de energia, capaz de incendiar o dia mais cinzento e o coração mais empedernido, são uma presença constante, mas são também símbolos, quer de boa música pop ( ou soul, já que era unanimemente reconhecida como a Rainha da Soul Music), quer de activismo e compromisso político.

Por isso, por um lado parece triste dizer que a perdemos e que nunca mais a vamos ter. Mas a verdade é que sempre a teremos, a música e as canções e a energia de Aretha Franklin estarão sempre connosco.

alberto de lacerda, augusten, germano almeida
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innersmile
É uma sensação um pouco estranha. Agosto é o mês de férias, e eu parece que estou de férias. Da vida, da minha vida. As minhas guerras vão continuar dentro de momentos, mas por enquanto as coisas parece que estão paradas.

Enntão, leio. Não tenho mais nada para fazer. Saio de casa, normalmente uma vez por dia, com o pretexto de tomar um café, mas aproveito para me mexer, para me levantar do sofá, para sair deste casulo que é a minha sala e que, como se dizia nos direitos (já não me lembro a propósito de quê), está fora do comércio. O resto do tempo, em casa, num longo período que começa por volta das seis e meia da manhã e termina à meia-noite, passo-o a ler. Não tenho paciência para ver filmes na TV, apenas ligo o televisor à hora das refeições e, por vezes, à tarde para ver transmissões desportivas. Snooker, ciclismo, natação, atletismo papo o que houver. Tenho poucas visitas e poucos telefonemas, a maior parte das pessoas estão fora da cidade nesta altura. Então, leio.


Leio uma colectânea de poemas de Alberto de Lacerda, antologia organizada por Pedro Mexia para a colecção (muito bonita) de livros de poesia da Tinta da China, e que, na minha opinião, não dispensa um contacto mais extenso com a poesia do autor, mas tem o mérito de resgatar o seu nome a um certo esquecimento.


Durante a segunda metade da primeira década do século, li, de enfiada, todos os livros do Augusten Burroughs a que consegui deitar a mão (a maior parte deles encomendados da net, e um deles comprado numa livraria em Singapura). Agora interrompi um longo intervalo de oito anos com Lust & Wonder, mais um volume das suas memórias, desta vez com o foco nas suas relações afectivas duradouras, desde que ficou sóbrio, ou seja, desde que terminou o período abrangido pelo livro Dry. Ou este Lust & Wonder não está tão bom como os anteriores, ou então fui eu que já estou longe desse sítio onde estava dez anos atrás, mas a verdade é que desta vez o Augusten entusiasmou-me menos do que costumava. Mas foi bom regressar a ele e à sua escrita, ao humor ácido e auto-depreciativo, e fiquei com vontade de ler outras das suas obras mais recentes.


Só tinha lido um livro de Germano Almeida, na esteira da minha ida a Cabo Verde, há mais de dois anos. Fiquei com vontade de conhecer mais da sua obra, e sobretudo da sua escrita muito rica e festiva, onde uma certa confusão verbal capta muito bem um certo espírito das ilhas. Decidi começar pelo princípio e li O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, o livro que tornou Germano um escritor lido e popular.

Também tenho lido banda desenhada, ou melhor: novelas gráficas, mas isso fica para outro dia.

sapiens, tempo de silencio
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innersmile

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade é um daqueles livros que, de forma mais ou menos surpreendente, se tornam best-sellers. Foi assim um pouco por todo o mundo, e é assim também em PT, pelo menos a avaliar pelo autocolante na capa do meu exemplar, que anuncia tratar-se da 13ª edição!

E de certo modo compreende-se o êxito. De uma forma clara, com sentido de humor, e com notável poder de síntese, Yuval Noah Harari, professor de história numa universidade israelita, traça o percurso do homo sapiens desde o seu aparecimento na evolução da vida da terra, procurando nas grandes ideias, nas tendências e nas linhas gerais, as principais causas e condições que transformaram um macaco insignificante no mais poderoso, criativo e destruidor ser vivo do planeta.

O aspecto que mais me interessou no livro é a forma como o autor liga a disciplina História com as outras áreas do conhecimento científico, em particular com a biologia, prestando particular atenção ao percurso histórico do homo sapiens enquanto um processo de suplantação dos limites da sua condição biológica, e como esse processo representa simultaneamente uma benção e uma maldição.


Tempo de Silêncio é, tanto quanto sei, a primeira edição em PT de um dos nomes maiores da literatura de viagens em língua inglesa. Um verdadeiro clássico. Trata-se de uma das obras mais conhecidas de Patrick Leigh Fermor, que reúne relatos de estadias do autor em mosteiros na zona francesa da Normandia, bem como da visita às ruínas de um mosteiro cristão na Capadócia, abandonado há cerca de mil anos.

A escrita de PLF é de uma qualidade extraordinária, a sua capacidade de descrever características artísticas e arquitectónicas, de contar a história e as histórias associadas aos lugares, de relatar as suas impressões e as suas experiências pessoais, tudo qualidades que tornam a leitura uma experiência de luxo.

Destaque para a tradução de Alda Rodrigues, que mantém o texto a um nível de qualidade literária muito elevado.

adeus, murakami
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innersmile

Adeus., da autoria de Luís Rainha, reúne mais de vinte textos, todos sob o tema da despedida, ou melhor, da circunstância de termos de dizer adeus a alguém ou a alguma coisa. O número de textos espelha uma grande variedade de recursos e estilos narrativos, movendo-se todos no campo da ficção, do conto, ainda que nuns isso seja mais evidente do que noutros. Lê-se bem, mas não me entusiasmou.


Há muito tempo que não lia nada do Haruki Murakami, depois de uma fase em que, quase de seguida, li uma mão cheia de livros do autor, entre eles essa pérola que é Kafka à Beira Mar. Já tinha experimentado ler um livro de não ficção, Underground, se não me engano foi mesmo o primeiro livro de Murakami que li. Como tinha cá em casa o ebook, decidi ler agora Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida, um ensaio memorialístico que o autor dedicou à sua carreira de corredor, maratonista em particular, e foi um bom reencontro com o autor e o seu estilo simples e directo. Sem nunca perder o foco da corrida, Murakami invoca neste livro, igualmente, a sua carreira de escritor, ao ponto de por vezes termos dúvidas se este tema não será aquele que verdadeiramente interessará ao autor abordar.

11-livros-11
rosas
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O melhor que me aconteceu nos últimos dois meses, em termos de leituras, foi a descoberta do autor japonês de novelas gráficas Jiro Taniguchi. Li três livros deslumbrantes: Terra de Sonhos, O Diário do Meu Pai e, o meu preferido, O Homem que Passeia.


Ainda na área da banda desenhada, li mais um livro de Miguelanxo Prado, Traço de Giz, um dos clássicos do autor, e mais uma aventura de Blake & Mortimer pós E.P. Jacobs, O Juramento dos Cinco Lords.


A lista de 'hospital reading’ contemplou a releitura do clássico do humor Three Men On A Boat, de Jerome K. Jerome (a minha primeira experiência de audio book, não muito bem sucedida, por isso tive de acompanhar com o ebook), o romance autobiográfico de Rita Ferro A Menina É Filha de Quem?, que me deu um bocado de seca, e um devaneio homo, Bump This, de LT Ville, que também não foi muito feliz.

Muito bom mesmo foi o regresso a Arturo Perez Reverte, com uma aventura de guerra e espionagem, Falcó, que adorei (destes, foi o único que li em formato físico).


Nos intervalos li ainda Sul Profundo,o mais recente travelogue do Paul Theroux, que depois de correr mundo, se fixa nos estados do sul da pátria americana do autor. O ponto do livro parece ser o de tentar chamar a atenção para os graves problemas que marcam a região, nomeadamente a pobreza extrema, que tanto abrange negros e brancos. Theroux tem um olhar benevolente, não só em relação às comunidades negras como mesmo em relação a certo white trash. Esta sua mais recente obra confirma, para além da habitual resmunguice do autor, uma certa reaccionarite perante a política e os grandes responsáveis pela gestão e distribuição de recursos dentro das comunidades nacionais e internacionais. Mas mesmo com todos os defeitos, Theroux continua a ser um excelente escritor de viagens, deixando bem claras as diferenças entre a literatura de viagem e os meros relatos de viagens.


Finalmente li Na Vertigem da Traição, da autoria de Carlos Ademar, um romance que nos devolve uma história real, a do assassinato, em inícios dos anos 50, de um dirigente do Partido Comunista caído em desgraça. Na altura da sua publicação, a obra mereceu as críticas das estruturas do partido, o que é sempre bom sinal. O grande interesse do livro e da sua história não é, na minha opinião, melhor servido pela narrativa, que, por vezes, atrasa e mitiga o interesse da leitura. Não obstante, o agente Guimarães, da PJ, é uma excelente personagem, e é ele o responsável pelas partes mais envolventes do livro.

#livinlavidaloca
rosas
innersmile


Primeira vez que conduzo em dois meses, no dia em que faz três semanas que fiz a cirurgia.

limite
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Há uma cruel ironia na circunstância de termos passado os nossos últimos tempos juntos sob o signo da minha doença, e subitamente teres sido tu a morrer.
Quantas vezes me disseste, nessas últimas semanas a que tivemos direito, que eu era rijo, resistente, mais forte do que eu próprio me julgava capaz de ser. E num desalinho de dois ou três dias, tão estranho e confuso, teres morrido.
Talvez seja a verdade das coisas, eu ser da doença, toda a minha vida ter sido marcada e resgatada pela doença. Tu eras da vida. E quando ela tropeçou num limite improvável, tu morreste.
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humor
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O teu sentido de humor. Na última vez que falámos ao telefone, poucos dias antes do mundo se tornar um lugar mais impossivelmente incompreensível, mal a minha imagem apareceu no ecrã, o meu rosto desfigurado pela sonda nasogástrica, tu perguntaste por que raio é que tinha enfiado o carregador do telemóvel no nariz.
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a intocada curiosidade
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As primeiras recordações de infância, as mais remotas e vagas, aquelas que subsistem na memória quase como excertos fragmentados de mensagens que nos chegam de galáxias longínquas. O wagon lit de um comboio nocturno, nós de pijama, eu a brincar no chão com um brinquedo novo.

Sempre admirei o teu génio inventor, que me fascinava e deslumbrava na infância. Os livros sobre as grandes génios da ciência, sobre Thomas Edison ou Madame Curie, que foram algumas das minhas primeiras leituras, eram teus. Os teus brinquedos científicos. O Meccano com as suas placas perfuradas e os parafusos e as porcas, ou a tábua onde criavas ligações eléctricas, lâmpadas que acendiam, campainhas que tocavam, pequenos motores que faziam girar hélices. Ou as enormes pistas de carros de corrida scalextric que montavas no quartinho do quintal

Muitas vezes discutiámos sobre qual dos dois era o mais inteligente, e éramos sempre generosos nas nossas opiniões. A minha inteligência sempre foi um pouco mentirosa, resultava da muita informação que eu fui respigando na minha condição de leitor compulsivo. Mas sempre me fascinou a tua inteligência pura, a tua intocada curiosidade em conhecer as leis que estabelecem o modo de funcionamento de mundo.

chumbo
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Enquanto estive no hospital, estava ao serviço da doença. Agora que estou em casa, cada minuto declina as vogais do teu nome, a estupefacção do que fica para além do que pode ser nomeado, a incerteza das inevitabilidades de chumbo.
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Os animais
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A inequívoca pureza do olhar dos animais. Foram animais alguns dos teus melhores amigos. Geralmente cães. Mas eu que tenho o privilégio único de ser teu irmão desde sempre, lembro-me de o quarto que partilhávamos na infância ser o lar de várias espécies de animais. Todos eles te amavam, mesmo aqueles que passavam os dias escondidos nas sanefas dos cortinados, e apenas os ouvíamos de noite, os que que voavam ao teu assobio até te pousarem no ombro, ou os que, com perseverança lenta, iam furando o seu esconderijo por debaixo do cimento do acesso à garagem. Todos te amavam, e alguns de forma agressivamente exclusiva, o que me fazia guinchar de medo e ciúme.
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24 de julho
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Publiquei esta foto ontem no Instagram. Dois passepartouts que estão há anos em lugar central na sala da minha casa.

Hoje, 24 de julho, marca o aniversário de casamento dos meus pais, em 1954, na cidade de Lourenço Marques, feriado por ser assinalado o dia da cidade.

A foto tem tudo a ver com esse dia. No passepartout da esquerda, na fotografia a cores estamos o meu irmão e eu, e foi tirada no dia em que comemorámos as bodas de ouro desse casamento, em 2004, com um almoço ali junto à Mata de Vale de Canas. Ainda não há muito tempo fui, pela primeira vez, revisitar esse lugar. Pareceu-me, muito simbolicamente, abandonado.

A foto da direita, a preto e branco, e desfocada, é do próprio casamento. É uma foto que eu adoro, e, por ocasião de um 24 de julho qualquer, há muitos anos, roubei-a do álbum de fotografias do casamento dos meus pais para lhes oferecer de forma a poderem terem-na exposta lá em casa.

Desde quinta-feira da semana passada, destas fotografias apenas resto eu.

causa mortis
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Causa de morte: desejo sôfrego e aventureiro de viver.
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a shadow of the man I used to be
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Nos últimos quatro ou cinco meses devo ter passado, por junto e de maneira fragmentada, um mês em casa. O resto do tempo passei-o em hospitais, a fazer tratamentos prolongados com antibióticos muito potentes, culminando com uma intervenção cirúrgica tecnicamente complicada, nas últimas duas semanas. E o percurso não vai ficar por aqui.

Esta semana, apanhou-me na cama do hospital a notícia da morte do meu irmão, a milhares e milhares de quilómetros de distância, e que me deixou vazio, mas também perturbado com os efeitos cruelmente complexos que uma notícia devastadora tem quando nos debatemos, num esforço de gestão de recursos escassíssimos, com a nossa própria auto sobrevivência.

Tenho a impressão de que sou, eu próprio e também esse outro que aqui se vai escrevendo, apenas a memória, a sombra, de quem fui até há sete ou doze meses atrás. E sinto, além disso, uma estranha distância de todos aqueles que nem suspeitam de que há de facto um inferno pessoal. Um inferno mesmo, a sério, longe daquela estreita nesga através da qual espreitamos angustiados o espelho do mundo.

E no entanto confio ainda, quem sabe de maneira inconsciente ou alienada, na expectante alegria dos recomeços.

um irmão
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NA MORTE DE UM IRMÃO

Sempre fomos, um para o outro, o princípio ou o final de alguma coisa.
Aprendemo-nos na imponderabilidade desse desencontro
e, no entanto, só uma certeza aguda, ainda que incerta,
ajudava a explicar o mundo e as suas coisas.
Agora que tão inoportunamente deslocaste a tua sombra em direcção à saída
cabe-me a mim tomar conta da solidão que nos vai continuar a unir.

she sings
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O clip é já de 2016 mas só há poucos dias é que o descobri, creio que através do facebook. Nos Estados Unidos há uma organização não lucrativa, a USO, que se dedica ao apoio às forças armadas, nomeadamente levando músicos e outros artistas a actuar para as tropas que estão deslocadas em teatros de guerra. São icónicas as imagens dessas actuações durante a guerra do Vietnam, e protagonizam uma sequência alucinante no filme Apocalypse Now, o filme de Coppola.

Este clip terá sido filmado numa base militar algures no Afeganistão, e regista o momento em que o músico country Craig Campbell (que o carregou, na sua página do YouTube) e a actriz Scarlett Johansson, de forma espontânea e completamente informal, fazem uma versão do clássico da pop These Boots Are Made for Walking. Estão sentados em cadeiras desmontáveis, ao fundo vêem-se militares a conversar, e essa informalidade é acentuada pela troca de palavras entre ambos, o esforço para se lembrarem da letra, e até a brevidade amadora do clip, que dura menos de um minuto e quarenta e cinco.

Mas para além de nos tocar a espontaneidade do clip, o que verdadeira impressiona é a Scarlett Johansson. Não é só dizer que ela é muito bonita, é também a atitude descontraída, mas sem perder o toque de sedução. É o swing, são os ombros a gingar ao ritmo da música.

Os tempos são outros, claro, mas a SJ é a única actriz da actualidade que me faz evocar a classe da Audrey Hepburn. Também já se sabia que ela de vez em quando gosta de fazer incursões no mundo da música. Como referimos numa troca de mensagens entre o meu sobrinho e eu, neste clip “she sings, she swings, she shines”.
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8-livros-8
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Para além do livro de memórias de Pedro Rolo Duarte de que já falei aqui anteriormente, aproveito para deixar registo de todos os outros livros que li durante o período em que estive ausente. Grande parte deles li-os em formato electrónico, pois coincidiu com os períodos de internamento hospitalar, e por uma questão de comodidade levei o kindle para o hospital. A propósito, o facebook lembrou-me hoje uma fotografia que lá pus há 6 anos, precisamente no dia que recebi a encomenda com o leitor electrónico. Têm sido 6 anos de bons e leais serviços, e o kindle merecia por isso uma condecoração: a leitura torna-se mais cómoda, mais flexível, mais rápida. O kindle permitiu-me ler livros que na versão impressa dificilmente leria, quer pela sua extensão quer pelo tamanho da letra.


Já tinha esta edição completa das Talking Heads, do Alan Bennett, há muitos anos, mas só agora li este conjunto de monólogos escritos para televisão. Gosto muito deste autor, tem uma maneira única de falar sobre as pessoas, apanhando-lhes o lado mais frágil mas também o mais risível. Com um humor subtil mas muito afiado e implacável, Bennett fala de pessoas que, por várias razões, são ou estão pouco apetrechadas para a vida que hoje se vive. Para além deste profundo sentido da humanidade, Bennett capta como ninguém os tiques e as misérias que habitualmente identificamos como características dos ingleses.


Burgueses Somos Nós Todos é uma antologia de contos da autoria de Mário de Carvalho. O autor é um dos grandes mestres da literatura que se faz em língua portuguesa, que ele domina com classe e com estilo inimitáveis. MdC é, seguramente, um dos grandes prosadores da actual literatura em língua portuguesa, e em Portugal é talvez o meu favorito. Neste conjunto de contos, o autor faz o retrato, bem irónico, da actual burguesia urbana portuguesa, em especial a lisboeta, e não há maneira de, de uma maneira ou de outra, não nos revermos enquanto colectivo nesta descrição.


The Heart’s Invisible Furies, de John Boyne, foi uma gentil oferta, em formato electrónico, do meu amigo e editor João Máximo. Trata-se de uma obra de grande fôlego, escrita por um autor bastante popular (sobretudo por causa de uma outra obra sua, O Rapaz do Pijama às Riscas, que foi best-seller e deu direito a um filme), e que é um fresco, com o seu quê de épico, sobre uma vida passada na República da Irlanda, sob a forte e altamente repressiva autoridade da igreja católica, desde os anos do pós-guerra (a história inicia-se em 1945, com o nascimento do protagonista) até à actualidade.


As histórias de Agualusa assentam sempre em ideias brilhantes e originais, em personagens de mistério e fascínio, numa escrita leve e com o seu quê de sensual, e num fundo de preocupação política e social. Este Vendedor de Passados é mais um prodigioso exemplo da estatura de Agualusa enquanto escritor e contador de histórias.


Ways of Escape foi o primeiro livro de não ficção que li da autoria de Graham Greene, um dos meus escritores favoritos. Na realidade, trata-se de uma autobiografia, mas com um caráter muito singular: em vez de relatar a sua vida, ou pedaços dela, Greene percorre a sua obra, livro a livro, evocando as circunstâncias da sua vida em que os livros nasceram (enquanto ideias literárias) e foram escritos. Pelo meio há alguns relatos mais demorados e minuciosos, nomeadamente aqueles respeitam a circunstâncias fora de vulgar, como foram as suas passagens por África, pelo Sudeste Asiático, ou pelo Caribe.


Foi recentemente publicado o primeiro número da nova edição da Granta em Língua Portuguesa, que veio substituir a anterior Granta Portugal, bem como a Granta em Português, que se publicava no Brasil. Apesar da linhagem, a Granta deverá publicar textos de outros autores de países lusófonos. Neste primeiro número, isso acontece com o angolano José Eduardo Agualusa, mas este caso não conta, pois o autor já tinha aparecido noutras edições da versão nacional da revista. No geral gostei deste primeiro número, mas, tal como já acontecia anteriormente, continuo a preferir os textos traduzidos da edição da revista em inglês: são textos mais amadurecidos, mais trabalhados, com outro calibre e alcance.


A Index, minha editora, publicou mais um volume, o sétimo, da série Todo Teu, da autoria de Nuno Oskar, desta vez dedicado ao aniversário de Nuno, um dos protagonistas. Parece-me que gostei mais deste volume do que dos anteriores, em especial porque desta vez a narrativa tem conflito, nomeadamente na primeira parte onde, em circunstâncias de certa turbulência, tem lugar o coming out de Nuno em relação aos seus familiares. Atenção, que quando falo em conflito não me estou a referir a situações em que as personagens desatem todas à batatada umas às outras, mas sim a peripécias que obrigam o leitor a experimentar sentimentos diversos e mesmo conflitantes, que o impeçam de aderir de forma mais ou menos imediata a um dos personagens, mas que o obriguem a reflectir, a ponderar e por fim, eventualmente, a tomar partido, não tanto por um dos lados, mas mais por uma determinada atitude ou maneira de estar. O conflito não é o da narrativa, mas antes aquele que o leitor experimenta ao reagir emocionalmente àquilo que lhe é contado.


Finalmente, li Nights at Rizzoli, uma brilhante autobiografia da autoria de Felice Picano, um dos nomes máximos da literatura gay (foi um dos fundadores do famoso Velvet Quilt, juntamente com, entre outros, o Edmund White). Não foi a primeira obra que eu li do autor, já tinha lido anteriormente o seu mais famoso Like People in History, e ainda The New York Years: Stories, e um volume autobiográfico, Ambidextrous, apontado à infância do escritor. Ler Felice Picano é, naturalmente, o prazer da leitura de um grande escritor, mas é igualmente a possibilidade de assistir a momentos determinantes da vida dos homossexuais na segunda metade do século XX pelos olhos e pela pena de um dos seus grandes protagonistas. Neste Nights at Rizzoli o ponto de partida da narrativa são os anos em que Picano trabalhou numa das mais famosas livrarias de Manhattan, no horário noturno. Desse modo, ganhava os dias livres para poder dedicar-se à escrita (na altura ainda não tinha qualquer livro publicado), e sobravam-lhe as madrugadas para se poder perder na descoberta hedonista da grande liberdade sexual que os homossexuais nova-iorquinos conheceram no decurso da década de 70 do século passado.

vai correr tudo bem
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Como referi anteriormente, é impossível não experimentar um sentimento de identificação com muitas das coisas de que Pedro Rolo Duarte fala, no seu livro Não Respire, escrito durante o último ano de vida do jornalista, quando estava doente, vítima de cancro.

Precisava de mostrar este trecho que aqui ponho, a todas as pessoas que me dizem que “vai tudo correr bem”, como se isso servisse de algum consolo.

Porque uma coisa é desejar que corra tudo bem, expressar solidariedade ou preocupação. Outra é esse falso optimismo do “vai tudo correr bem”, que soa, pelo menos para quem ouve, como uma saída fácil para a conversa, uma maneira airosa de pôr fim a um incómodo. Do género “não te preocupes que vai correr tudo bem, e agora vamos falar de outra coisa”.

Como refere o PRD, as coisas vão correr como tiverem de correr, o resultado vai ser o que for, e não é por sermos ligeiros e optimistas que a situação se resolve.

Esta expressão é particularmente irritante quando andamos há muito tempo a debatermo-nos com a doença, e as coisas, de facto, não têm corrido bem, nada bem mesmo. Confesso que quando a oiço, e estou particularmente em baixo, a única coisa que me apetece fazer é esbofetear quem a diz. Como não o posso fazer, e se tenho uma certa relação de confiança com a pessoa, já tenho respondido que se fosse com ela iria correr bem de certeza, agora como é comigo, continuo na mesma, receoso e preocupado.

É como quando me dizem ”vais ver que isso não é nada”. Normalmente respondo logo que “não era nada se fosse contigo, agora como é comigo, é uma grande merda”! Caramba, já basta o que basta, tenho direito a ser um bocado bruto, para quem fala comigo sem fazer o mínimo esforço para tentar perceber aquilo por que estou a passar.