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o terceiro homem, os guardiões do louvre
rosas
innersmile


O Terceiro Homem é uma novela que dá forma literária a um argumento cinematográfico da autoria do próprio Graham Greene. O filme, já agora, foi realizado em 1949 por Oliver Reed e conta com os desempenhos de Joseph Cotten e de Orson Welles nos principais papéis.

Rollo Martins é um escritor de livros de cowboys que inadvertidamente se vê perdido na selva política e policial da Viena nos tempos do final da segunda grande guerra, onde, entre outras desventuras, é confundido com um escritor sério que comunga do mesmo apelido do seu pseudónimo literário. Trata-se de um típico "herói" de GG: um loser que mantém um padrão moral quando tudo à sua volta se desmorona.

No fim deste texto, ponho um clip com uma das cenas mais famosas do filme, passada numa das cabines da roda gigante do Prater,e onde se pode constatar porque é que o Orson Welles era tão bom actor, com um esboço de sorriso onde aflorava o próprio sorriso do diabo.



Um dos meus livros preferidos do Mestre. Uma aventura solitária e contemplativa no museu mais famoso do mundo, onde a deriva fantasista e emocional nos conduz através das infindáveis salas estranhamente desertas.

Acho que apenas O Homem que Passeia, o primeiro livro que li de Jiro Taniguchi, me deu tanto ou mais prazer a ler do que este Os Guardiões do Museu.


selfie
rosas
innersmile
Comecei há uns dias a sentir vontade de publicar uma selfie mostrando a minha urostomia. Acho que esta vontade resulta de vários factores. Primeiro, por uma questão de identidade. É este que eu sou agora, é esta a realidade. E mostrar uma foto da urostomia ajuda-me, porque os outros são o nosso reflexo, a assumir que este é o que eu sou agora.

Por outro lado, há já duas semanas que não tenho infecções, e nasce a esperança de que possa estar a caminho de um nova normalidade. A minha vida nunca mais vai ser como era, mas vai haver uma outra maneira de viver a vida. E faz parte deste processo de encontrar uma nova normalidade assumir que, agora, sou uma pessoa ostomizada.

Contra publicar a foto, há sobretudo uma razão de pudor. A urostomia é uma coisa íntima, e tem limites a parte da minha intimidade que estou disponível para partilhar com os outros, sejam eles amigos mais chegados, meros conhecidos ou completos estranhos. Mas pudor por vezes pode-se confundir, e estou apenas a falar por mim, com vergonha, e vergonha é o que eu não quero sentir em relação à urostomia. Aliás, já tive sentimentos de vergonha na minha vida que chegaram, não preciso de mais.

De certo modo, mostrar uma foto da minha urostomia é como sair do armário. E também por isso dizia que mostrar uma selfie não é apenas um gesto destinado aos outros, é também, e sobretudo, uma maneira de me ajudar a construir uma nova imagem de mim próprio, a minha selfie mental. Tenho de atingir um ponto em que, quando penso em mim, penso-me como uma pessoa ostomizada. Da mesma maneira que quando penso em mim, estão presentes todos os outros aspectos da minha vida que constituem a minha identidade e até a minha maneira de ser.

Claro que não consigo por uma selfie com a urostomia no Facebook, aquilo é um antro de coscuvilhice. Apetecia-me publicá-la no Instagram, mas mesmo aí ia-me sentir muito exposto. Pelo menos neste momento, pode ser que mais tarde publique. Por isso só faz sentido por a foto aqui, nesta espécie de diário aberto, um lugar que me dá, ao mesmo tempo, o aconchego da intimidade e a liberdade do anonimato.


benjamin zarco, blake & mortimer
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Adorei este mais recente livro de Richard Zimler. Li-o com o coração, e muitas vezes com os olhos rasos de água. É impossível não amarmos a personagem de Benni,mas também Shelly, George ou Ewa. Aliás, a sequência narrada por Ewa, que conta como Benni conseguiu escapar aos nazis, foi a minha preferida.

Gostei do aspecto místico do livro. Apesar de não ser dado a misticismos, neste livro esse aspecto é sempre misterioso, nunca é claro se as coisas acontecem mesmo ou se são projecções emocionais das personagens, modos de lidar com realidades que nos ultrapassam.

Mas achei sobretudo um livro de uma ternura imensa, o que é tanto mais admirável quanto o livro aborda a questão tão dolorosa do holocausto e dos seus sobreviventes.



A primeira parte de uma nova aventura da dupla Blake & Mortimer. Yves Sente, o novo argumentista da série, consegue criar um ambiente muito próximo ao das histórias originais de E.P. Jacobs, de onde resulta um livro entusiasmante e divertido.

the fighter still remains
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innersmile
In the clearing stands a boxer
And a fighter by his trade
And he carries the reminders
Of every glove that laid him down
Or cut him till he cried out
In his anger and his shame
"I am leaving, I am leaving"
But the fighter still remains


Ontem à noite vi no Instagram do Paul Simon um clip de um concerto no Hyde Park, em 2012, com a última estrofe da canção The Boxer, que deve ser a minha canção preferida, já agora numa versão muito bonita, com um cheirinho a country (está neste link: https://www.instagram.com/p/Bqx3Y4JBVik/?utm_source=ig_share_sheet&igshid=15hcot7332lyy)

Já devo ter aqui escrito que o disco Bridge Over Troubled Water, onde aparece o original desta canção, da dupla Simon & Garfunkel, foi um dos meus primeiros LPs. Vem já do tempo de Moçambique, troquei-o pela minha bicicleta, com um miúdo da minha rua. Para além da música, este disco deu-me as minhas primeiras e mais eficazes lições de inglês, tanto mais que tinha um encarte com as letras das canções, o que na altura, acho eu, não era muito vulgar.

Não consigo expressar o quanto gosto desta canção, tudo o que ela me diz, e, é claro, a quantidade de vezes que a ouvi. Conheço versões fabulosas, mas prefiro sempre ouvi-la cantada pelo Paul Simon, com ou sem o Art Garfunkel, na versão original do disco ou numa das incontáveis versões ao vivo.

Mas ontem à noite, a ouvir quase em loop o clip com essa tremenda última estrofe, achei que era de mim que o Paul Simon estava a falar, e desatei a chorar.

biblioteca de alexandria
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"Quando eu tinha os meus cinco ou seis anos, disse-me que numa vida passada trabalhara na Biblioteca de Alexandria.
- E que trabalho fazias? - perguntei-lhe. Íamos de mãos dadas a caminho da escola.
- Nada de importante; limitava-me a manter tudo arrumado e limpo - respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo acreditar nisso.
- Gostavas de lá trabalhar?
O seu rosto iluminou-se.
- Céus, se gostava! Podia ler todos os pergaminhos que me apetecesse e era fluente em grego e egípcio. À hora do almoço ia nadar no Mediterrâneo. Água quente, mulheres bonitas, sol, cerveja, bons livros... Eu, eu tinha tudo o que queria!"


- Richard Zimler, OS DEZ ESPELHOS DE BENJAMIN ZARCO (Porto Editora)

bernardo bertolucci
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O primeiro filme de Bernardo Bertolucci que vi no cinema foi o díptico 1900, em duas sessões especiais, ao fim da tarde, no velhinho Teatro Avenida, na Avenida Sá da Bandeira. Nessa altura apenas conhecia o nome do realizador pela fama de dois dos seus filmes anteriores, A Estratégia da Aranha, e sobretudo O Último Tango em Paris, um filme que deu escândalo um pouco por todo o mundo, e nomeadamente em Portugal, onde apenas estreou depois do 25 de Abril, e que eu apenas vi alguns anos depois, em vídeo.

Depois de 1900 acho que vi quase todos os filmes de Bertolucci, desde o seguinte La Luna, que também deu um certo escândalo por abordar o tema do incesto, até ao recente The Dreamers, um filme que tentou recuperar para o realizador italiano uma certa aura subversiva.

Pelo meio, Bernardo Bertolucci fez alguns filmes que o tornaram num realizador mais popular, como o oscarizado O Último Imperador, Um Chá no Deserto ou O Pequeno Buda. Nesta fase, o realizador deixou de merecer os favores da crítica, mas eu continuei a gostar imenso dos seus filmes.

Gosto de um certo tom culto, diria mesmo literário, dos seus filmes. Aliás, Um Chá no Deserto foi mesmo a adaptação de um romance autobiográfico de Paul Bowles. Hoje já não há muitos cineastas assim, e Bertolucci aparece como um dos últimos representantes do grande cinema italiano de meados do século passado, o cinema que nos deu cineastas como Fellini, Antonioni, Visconti ou Pasolini.

Tenho ainda de confessar que outra das razões porque gosto muito dos seus filmes é porque vários deles têm bandas sonoras escritas pelo Ryuichi Sakamoto que é um dos meus compositores favoritos.

255
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Arrepiei-me verdadeiramente com as notícias, e as imagens, do desastre que aconteceu a semana passada com a derrocada da estrada que liga Vila Viçosa a Borba, junto à zona das pedreiras do famoso mármore de Vila Viçosa.

Há perto de um ano, passei, com duas amigas, a semana entre o Natal e o Ano Novo em Vila Viçosa, e foram inúmeras as vezes que passámos por essa estrada que agora caiu. E o que me arrepiou foi precisamente o facto de ter passado tantas vezes por essa estrada sem a mínima noção, nem digo do perigo, mas de que estava a passar pelo topo de um estreito muro que separava os poços vertiginosos de duas pedreiras.

Não sendo propriamente uma estrada interessante, tinha algumas características que a tornavam apelativa. Desde logo o facto de ficar junto à pousada onde ficámos instalados, no Paço Ducal de Vila Viçosa, poupando-nos a ter de atravessar toda a povoação para ir apanhar a variante. Depois, por essa estrada Borba ficava “logo ali”, uma cidade com o seu atractivo, nomeadamente em termos históricos. Finalmente, as próprias pedreiras emprestam um certo atractivo a esse percurso, com a sua imponência e sensação de estranheza quase lunar.

Por outro lado, durante esses dias não vi ou tomei conhecimento de qualquer alerta para a eventual perigosidade da estrada. Além disso posso garantir que quem nela transitava não tinha a mínima noção de como a plataforma da estrada era estreita e de como era vertiginosa a profundidade das pedreiras logo ali ao lado da estrada. Acredito que se alguma vez tivesse visto as imagens aéreas que agora foram divulgadas nunca teria transitado pela estrada. Ou, vá lá, tinha lá ido, sozinho, uma única vez, espreitar as pedreiras de mármore.
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aprender a cair
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Ontem uma amiga enviou-me por mensagem o link para o clip de uma canção recente da Márcia, que se intitula Tempestade. Gosto muito da Márcia, até já assisti a um concerto dela, apesar de não ser um ouvinte frequente da sua música. Mas acho que ela tem algumas características que me agradam bastante. Gosto de um tom sempre um pouco cool que ela imprime às canções e à sua maneira de cantar, gosto das letras das canções, que são sempre sérias e reflexivas, gosto da simplicidade do resultado dos seus trabalhos.

Na mensagem que escreveu a acompanhar o link, e pegando nas palavras da canção, a minha amiga diz que se arrepiou quando a ouviu porque se lembrou logo dos “azares” que tem tido, e também dos meus. De facto, esta minha amiga tem passado por tempos extremamente difíceis, que têm a ver com a sua condição de Mãe, e porque não há maior aflição nem maior angústia do que a de uma Mãe que tem um filho com graves problemas de saúde.

Comoveu-me muito que ela tenha partilhado comigo a canção da Márcia, e que tenha arranjado, no meio do seu próprio sofrimento, espaço e disponibilidade para pensar em mim e nos meus “azares”. A canção, como seria inevitável, agarrou-me à primeira, por várias razões, uma das principais, claro, por causa da letra, que fala da necessidade que temos de aprender a passar por maus momentos, de aprender a atravessar a tempestade.

É evidente que estas palavras da canção da Márcia me dizem muito, para mais cantadas no seu tom suave e descomprimido. Fica-me nos ouvidos e na mente, quase como um mantra, esta frase melódica do refrão: “e aprender a cair”. Acho que já aprendi há muitos anos a resistir, a aguentar-me de pé. Se calhar neste momento estou mesmo a aprender a cair.



Espera sempre dos momentos
Alguma coisa que ao passar
te leve mais além
A mais algum conhecimento
Mas não queiras salvamento
se faltar a alguém

Dança o teu azar
enterra-o por aí
Vem passar por dentro
da tempestade
Lança-te a voar
nada como abrir
as asas ao vento
e aprender a cair

Convence o próprio pensamento
a abrir as portas para passar
sem vetar ninguém
Cada Ser seu sentimento
e talvez o salvamento
nos salve a nós também

Dança o teu azar
enterra-o por aí
Vem passar por dentro
da tempestade
Lança-te a voar
nada como abrir
as asas ao vento
e aprender a cair

espaço para sonhar
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A principal originalidade deste livro é ser escrito a duas vozes. Cada capítulo estrutura-se, ainda que de forma um pouco flexível, à volta dos grandes projetos cinematográficos de David Lynch, e é constituído por duas partes.

Uma primeira, mais narrativa, escrita por Kristine McKenna, segue os trâmites da biografia clássica, quer no tocante as fontes de informação (familiares, colaboradores, amigos, bem como fontes documentais) quer quanto à quantidade e ao detalhe das informações.

A segunda parte de cada capítulo é da autoria do próprio David Lynch e constitui-se umas vezes essencialmente como um comentário ao texto precedente, outras como um verdadeiro registo memorialista.

No conjunto, Espaço para Sonhar não apenas traça o percurso pessoal e artístico de Lynch, como nos dá pistas e abre caminhos para conhecermos mais e melhor uma das mais fascinantes, originais, estranhas e misteriosas obras cinematográficas contemporâneas.

E, claro, é um regalo para os fãs do realizador. Pessoalmente, deu-me especial prazer ler os capítulos dedicados aos meus filmes preferidos de David Lynch: Blue Velvet, Wild at Heart, e The Straight Story, o meu preferido de todos.

tacto
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as paredes afastam-se
lentamente
do lugar a que chamam lar

os olhos ainda procuram
ávidos de beleza
a cor refulgente do sol a bater nos vidros

a mão tacteia, em vão
a imponderável expressão do sono

guarda-me, ao menos, na memória dos teus sonhos
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arturo, granta
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A segunda aventura de um novo herói criado por Arturo Pérez-Reverte, Lorenzo Falcó, um esbirro ao serviço das polícias secretas nacionalistas no tempo da guerra civil espanhola. Como o próprio autor definiu, Falcó é um verdadeiro f-d-p, mas tem um charme aventureiro que o torna irresistível.

Se o primeiro livro da série terminava em Portugal, este segundo começa com uma sequência alucinante nas ruas de Lisboa. Depois a acção muda-se para Tânger, e, pelo menos na minha opinião, vai perdendo algum fôlego narrativo.

Por outro lado, se Falcó e Eva se tornam um pouco estereótipos, o pistoleiro Paquito Arana é delicioso e uma nova personagem, Moira Nikolaos é mais uma belíssima personagem bem ao estilo das criadas pelo autor.

Além disso, a escrita de Perez-Reverte é sempre deliciosa e os pormenores de caracterização de ambientes, épocas e personagens têm a qualidade e o rigor habituais no autor.



Este segundo número da Granta em Língua Portuguesa ainda não me conseguiu convencer inteiramente das vantagens de reunir autores dos vários países lusófonos, tanto mais que apenas publica textos de autores brasileiros e portugueses, deixando de fora as riquíssimas literaturas africanas em língua portuguesa.

Entre os textos originais em português, gostei muito do da brasileira Vanessa Bárbara, e também dos da portuguesa Ana Cristina Leonardo e do veterano contista brasileiro Sérgio Sant'Anna. Com exceção do conto de Isabel Rio-Novo, que me fez recordar o tom um pouco gótico dos textos de Teresa Veiga, os restantes textos originais em língua portuguesa deixaram-me mais ou menos indiferente.

Como acontece habitualmente os meus textos preferidos são os traduzidos da edição original da Granta. Adorei o de Claire Messud, que me comoveu imenso, e também gostei bastante dos da canadiana Susana Ferreira, sobre o crescimento das religiões evangélicas no Haiti e a forma como têm contribuído para o desaparecimento da tradicional religião vudu, e da reportagem sobre O Prisioneiro da guerra santa, da autoria de Wendell Steavenson.

Este volume traz ainda dois ensaios fotográficos, que não me entusiasmaram por aí além, excelentes ilustrações de André da Loba, e uma capa fabulosa de André Carrilho, como de resto é habitual deste autor.

último caderno
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Um regresso, apesar de tudo inesperado, dos Cadernos de Lanzarote, os diários que José Saramago publicou ao longo dos anos 90.

E sauda-se o regresso do Autor, dos seus apontamentos, das cartas que escreveu, dos artigos e dos textos de conferências e apresentações, porque é sempre um prazer e uma lição podermos acompanhar o escritor fora do seu espaço nobre, ou seja a obra literária que pretende trazer a público.

Isto apesar de ser mais ou menos evidente que este volume tem uma razoável dose de decisão editorial, ou seja não se trata de um texto que vem a luz tal como o seu autor o projectou e realizou.

Esta em princípio derradeira edição dos Cadernos tem o chamariz de abranger o ano em que Saramago recebeu o Nobel, 1998.

um dia de ilusão
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Estive mais uns dias internado no hospital com nova infecção, e chegou-me, através das redes sociais, a notícia da morte de Maria Guinot. Há muitos anos, a participação de Guinot no festival da canção, e depois no festival da Eurovisão,foi tão inesperada quanto inesquecível. Praticamente sozinha em palco, acompanhando-se ao piano, Guinot cantou, de sua autoria, Silêncio e Tanta Gente, uma balada introspectiva, capaz de nos deixar, ao mesmo tempo, mansamente tristes e melancolicamente alegres.

O ano dessa arrebatadora canção foi um dos anos impossíveis da minha vida, tanto que assisti ao eurofestival em Londres, onde estava fazer tratamentos para o cancro, cujos efeitos, desses tratamentos, a longo prazo, são a causa dos problemas de saúde de que sofro actualmente.

Desde esses tempos longínquos, ouvi dezenas de vezes essa canção da Maria Guinot e se bem que nunca tenha deixado de ser uma das canções da minha vida, foi ficando arrumada na poeira das nossas memórias emocionais mais ou menos intensas.

Mas há uma frase, a do refrão, que continua a ser poderosíssima, tão verdadeira em todos os momentos da minha vida, aliás tão verdadeira quão cheia de sortilégio. É uma benção tanto quanto uma quase maldição, essa ideia de que todos os dias estamos dispostos, e fazêmo-lo deveras, a trocar as nossas vidas por um dia de ilusão.


tatul
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Uma destas noites estava a dar uma voltinha pelo facebook antes de me ir deitar, e dou com este clip no meu mural, publicado por uma das pessoas que eu sigo na rede social, ela própria uma artista que já tive oportunidade de assistir a um concerto que deu cá em Coimbra.



Fiquei de imediato encantado e fascinado pela música e pelo seu intérprete, pelo som do instrumento. Evocou-me o canto do muezin, ouvido nas ruas sinuosas do souk de Marraquexe ou nas margens tranquilas e misteriosas do Nilo. Evocou-me a cidade velha de Damasco ou a estrada que atravessa o deserto na Síria, quando chegamos a Palmira. Ou o céu profundo da noite num acampamento no Wadi Rum.

Um sentimento ao mesmo tempo de paz e exaltação, de uma solidão triste e tranquila, mas ao mesmo tempo de intensa comunhão com os meus irmãos humanos. A certeza aguda de que a minha vida é forte como tudo o que é humano e frágil como todo o transcendente, ou vice versa.

Encontrei outros clips no YouTube e apurei muito pouco, apenas que o miúdo se chama Tatul Hambardzumyan, terá sete anos de idade, à volta disso, e é considerado um menino prodígio a tocar o duduk, um instrumento de sopro tradicional da Arménia.

Mas nenhum dos outros clips que ouvi na net se igualam a este. É a música, sem dúvida, que nos chama a atenção para a leveza espessa do ar. É o sortilégio do som do instrumento, que parece apelar ao que trazemos dentro de nós. Mas é também o admirável contraste entre a fragilidade vertical de uma criança a tocar de olhos fechados, e todo o poder do mundo contido na música que ele executa.
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leituras
rosas
innersmile


Como tem acontecido ultimamente, muitas das minhas leituras são policiais. Lêem-se rapidamente, e sobretudo são envolventes, ajudam a que a leitura seja uma espécie de escape da vida real. Assim, li uma nova autora, C.J.Tudor, cujo O Homem de Giz tem sido um best-seller do género. Divertiu-me, mas achei um bocadinho aquela história da muita parra e pouca uva. O livro levanta muitas e intrigantes hipóteses de mistérios, mas depois tudo se resolve numa narrativa simplista.

Quanto a A Mulher Desaparecida, não há muito a dizer: sou fã da Sara Blaedel e da sua heroína Louise Rick, cujas aventuras a envolvem sempre de forma muito pessoal. Este volume tem o propósito de levantar a questão da eutanásia, que é o motor da narrativa, mas que se percebe bem que a autora queria pôr à discussão.



Continuo a descobrir e a maravilhar-me com a arte e as histórias de Jiro Taniguchi. A Zoo in Winter situa-se nos anos 60 e 70, e acompanha os primeiros passos de um jovem artista no universo da produção de mangás, a que não falta um cunho autobiográfico mais ou menos evidente.



Esplêndido.
Já tinha saudades de ler um livro assim, quase sumptuoso. A escrita é, não apenas irrepreensível, mas verdadeiramente magnífica (e a tradução de Tânia Ganho excelente). O fôlego é quase épico, uma história que atravessa várias décadas, desde o início da II guerra até à actualidade. A narrativa é daquelas que desafia o leitor, quase todos os acontecimentos determinantes se passam fora do texto, o que obriga o leitor a completar e preencher a informação que não é explicitada.

E os temas são determinantes: a passagem do tempo, e a forma como conseguimos viver em cada tempo, o envelhecimento, o amor e o sexo, as famílias, a que nos calha em razão do sangue e a que vamos conseguindo construir com os afectos.

Há muito que um livro não me enchia assim as medidas, todas elas de prazer. É difícil fazer comparações, mas, tanto quanto a minha memória emocional é capaz de recordar, o gozo e o entusiasmo que senti ao ler este The Sparsholt Affair apenas são comparaveis ao que senti quando li The Swimming-Pool Library, o primeiro livro que o Alan Hollinghust publicou nos finais dos anos 80.

resiliência
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innersmile
Mais duas estadias no hospital, mais cirurgias. No mês passado, fui internado para ser submetido a uma cistectomia radical, que foi, nos últimos anos, o meu maior medo. Ou seja, a remoção total da bexiga, por causa do carcinoma, enquanto ele não se lembrava de começar a disseminar. Agora tenho uma urostomia, e apesar de já ter passado mais de um mês, ainda não me habituei à ideia. Acho que a minha cabeça vai demorar algum tempo até incluir esta situação no mapa corporal que a nossa mente cria, apesar de, pelo menos uma vez,ter tido um sonho em que já estava urostomizado.

Já este mês novo internamento, curto, por causa de uma infecção. Felizmente desta vez não era uma bactéria multi-resistente, e a coisa está a resolver-se com alguma tranquilidade. Mas muito provavelmente a infecção teve a ver com a urostomia, o que me traz mais e novas preocupações quanto ao futuro. O estoma é uma via aberta para infecções, e eu, no estado em que estou, sou mais vulnerável e suscetível.

Como se tudo isto não bastasse, o temporal da semana passada causou estragos no telhado do meu prédio, e já me choveu no quarto, mesmo em cima da cama.

Dizer que estou saturado disto tudo, destes últimos meses, destes últimos anos, da forma como a minha saúde se deteriorou, é pouco. Na verdade estou desesperado, para além do limite do suportável. Por vezes penso se não estarei a lutar ingloriamente contra uma lenta e agónica inevitabilidade.

A vida tem-me tirado tudo, e não posso dizer que é aos poucos, pelo contrário tem sido à bruta. Perdi os meus pais, perdi o meu irmão, perdi a saúde, perdi o gosto e a energia para o trabalho, perdi autonomia ao ponto de ter de ter em casa ajudas de cuidadores, perdi a vontade e o gozo de ir ao cinema,ou aos concertos, ou ao teatro. Perdi amigos e companhias, nem digo que propositadamente se afastaram, mas simplesmente porque a vida, a ”normalidade”, a vida que corre lá fora de modo inexorável, não se compadece com quem cai e fica para trás.

Terminar este texto com uma nota positiva? Não sei, não sei se tenho promessas, esperanças, sonhos a que agarrar. Tenho uma certa resiliência, que nasceu comigo e me vai impedindo de cair. Vou-me aguentando.

au revoir
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innersmile
Numa das suas mais famosas canções, My Way, o Frank Sinatra cantava que “regrets I had a few, but then again too few to mention”. Bom, arrependimentos todos temos, mesmo que sejam “too few to mention”, e um dos meus maiores arrependimentos foi nunca ter visto o Charles Aznavour a cantar ao vivo, nomeadamente quando ele actuou em Lisboa, há cerca de dois anos. Agora que ele morreu, com a respeitabilissima idade de 94 anos, esse arrependimento ficará para sempre.

É impossível definir um tempo na minha vida em que eu não conhecesse as canções de Aznavour, tal como é absolutamente impossível enumerar as minhas canções preferidas de Aznavour. Acho que nunca o ouvi cantar uma canção, seja lá qual for, de que não tenha gostado, aliás, que não tenha amado. As canções do Aznavour são como o amor do célebre soneto de Vinícius de Moraes, infinitas enquanto duram.

Tenho por aí algures um cd que reúne algumas das suas canções, e que ouvi até à exaustão, acompanhando-me em quilómetros e quilómetros de viagens na auto-estrada, muitas delas noturnas, quando as canções do Aznavour me davam o entusiasmo e a energia para chegar a casa, com o volume do rádio bem alto de forma a tapar a minha berraria a acompanhar as canções.

Como disse é impossível dizer quais são as minhas favoritas mas há canções que sempre que as ouço despertam em mim as emoções de sempre, puras, ingénuas, intactas: Et Pourtant, Hier Encore, Que C’Est Triste Venise, Formidable, Emmenez Moi, e tantas tantas tantas outras.

Escolho para pôr aqui uma das canções do Aznavour que conheci tardiamente mas que foi um verdadeiro coup-de-foudre a primeira vez que a ouvi, Comme Ils Disent. Quem ma deu a conhecer foi o meu saudosíssimo Saint-Clair, que ainda por cima, por causa do meu francês enferrujado, me passou a letra da canção, que é tão poderosa e magnífica como a melodia e como a própria interpretação de Aznavour. Já a pus aqui uma vez, há muitos anos, ainda nos primórdios do you tube, assim que ela apareceu disponível, e quando o livejournal permitiu a publicação de clips de video.

Quando morrem certas pessoas, dizemos que o mundo ficou um lugar mais triste. Com o desaparecimento de Charles Aznavour, o mundo não fica só mais triste, fica também menos belo e exaltante.



J'habite seul avec maman
Dans un très vieil appartement rue Sarasate
J'ai pour me tenir compagnie
Une tortue deux canaris et une chatte.
Pour laisser maman reposer
Très souvent je fais le marché et la cuisine
Je range, je lave et j'essuie,
A l'occasion je pique aussi à la machine.
Le travail ne me fait pas peur
Je suis un peu décorateur un peu styliste
Mais mon vrai métier c'est la nuit.
Que je l'exerce travesti, je suis artiste.
Jai un numéro très spécial
Qui finit en nu intégral après strip-tease,
Et dans la salle je vois que
Les mâles n'en croient pas leurs yeux.
Je suis un homo comme ils disent.

Vers les trois heures du matin
On va manger entre copains de tous les sexes
Dans un quelconque bar-tabac
Et là on s'en donne à cœur joie et sans complexe
On déballe des vérités
Sur des gens qu'on a dans le nez, on les lapide.
Mais on le fait avec humour
Enrobés dans des calembours mouillés d'acide
On rencontre des attardés
Qui pour épater leurs tablées marchent et ondulent
Singeant ce qu'ils croient être nous
Et se couvrent, les pauvres fous, de ridicule
Ça gesticule et parle fort.
Ça joue les divas, les ténors de la bêtise.
Moi les lazzi, les quolibets
Me laissent froid puisque c'est vrai.
Je suis un homo comme ils disent.

A l'heure où naît un jour nouveau
Je rentre retrouver mon lot de solitude.
J'ôte mes cils et mes cheveux
Comme un pauvre clown malheureux de lassitude.
Je me couche mais je ne dors pas
Je pense à mes amours sans joie si dérisoires.
A ce garçon beau comme un Dieu
Qui sans rien faire a mis le feu à ma mémoire.
Ma bouche n'osera jamais
Lui avouer mon doux secret mon tendre drame
Car l'objet de tous mes tourments
Passe le plus clair de son temps au lit des femmes
Nul n'a le droit en vérité
De me blâmer de me juger et je précise
Que c'est bien la nature qui
Est seule responsable si
Je suis un "homme oh" comme ils disent.

flor do cacto
rosas
innersmile


Fiz nova cirurgia e estive perto de duas semanas no hospital. Há pouco mais de uma semana vim para casa, e desde então nem tenho posto o nariz fora da porta de casa. Hoje de manhã decidi ir lá baixo para ver o correio, e vi que o meu cacto tinha de novo dado flor.

A última vez que tinha acontecido foi há cerca de um ano, e falei disso aqui, em agosto do ano passado, e da intensa ligação emocional que me liga, por várias razões, alguma das quais nem às paredes confesso, a esta flor de cacto.

Vim para cima, peguei no telemóvel e fui fotografar a flor. Hoje descobri-lhe um certo simbolismo do que tem sido a minha vida nestes últimos tempos. A flor de cacto lá vai resistindo.

"Eu quero o amor da flor de cactus, ela não quis. Eu dei-lhe a flor de minha vida, vivo agitado. Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo. Eu só sei de mim, de nós, de todo o mundo." (João Ricardo, para a banda Secos & Molhados)

mapplethorpe
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Apesar de eu não poder, por razões que têm a ver com o meu estado de saúde, ir ao Porto ver a exposição retrospectiva que o Museu de Serralves dedicou a Robert Mapplethorpe, fiquei muito contente com esta oportunidade de as suas fotografias serem finalmente expostas num grande museu português. Contente e até um pouco excitado com o impacto que as suas obras teriam no público nacional que consegue ser simultaneamente conservador, por vezes até retrógrado, mas também aberto e tolerante.

Mapplethorpe é, na prateleira dos meus ídolos e heróis, uma das maiores referências. Nos anos 80, sobretudo depois que comecei a ir frequentemente a Londres, conheci o seu trabalho, e tudo me fascinou: o arrojo e a provocação, a falta de reserva que o fazia muitas vezes expor-se a si próprio em fotos íntimas e inquietantes, a representação da homossexualidade, a beleza rigorosa do preto e branco das suas fotografias, e até a sua biografia, a história da sua vida e particularmente a história da sua morte, vítima da SIDA quando esta era uma verdadeira calamidade, com um impacto impensável na comunidade gay.

Claro que eu já conhecia a Patti Smith desde os anos 70, quando era considerada uma das deusas do punk rock, e as fotos dos discos de Smith foram provavelmente as primeiras fotos de Mapplethorpe que eu vi na vida. Mas foi só depois de conhecer a estreita e poderosa ligação que havia entre os dois, que me dediquei de alma e coração à música da Patti Smith.

Como disse, fiquei contente com o facto de o público português se poder confrontar finalmente com as fotografias de um dos meus artistas preferidos. Antecipava algumas reações mais virulentas por parte dos mais ou menos habituais defensores da moral e dos bons costumes, e nomeadamente daqueles que vêm qualquer representação da homossexualidade como uma ameaça à moral burguesa.

Mas nunca me passou pela cabeça que pudessem ser o próprio museu e o curador da exposição a criarem uma trapalhada tão grande e tão infeliz acerca da exposição e de eventuais actos censórios, naquilo que me pareceu ser mais uma guerra de egos do que outra coisa. Somos sempre tão eficientes a ser medíocres que conseguimos transformar a exposição de Robert Mapplethorpe num escândalo maior do que as suas próprias fotografias.

leituras
rosas
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Apenas uma actualização das leituras, antes de nova interrupção das actividades.


Conheço e admiro o humor da Dawn French desde os anos oitenta, dos tempos da série French and Saunders. Como nunca tinha lido nada,estava à espera que Oh Dear Silvia fosse um livro de humor. Nada disso, muito longe disso até. Apesar de ter algum humor, trata-se de uma história até um pouco deprimente, pelo menos para o meu estado de espírito mais recente. A personagem principal é uma mulher que está em coma no hospital, e a sua história chega-nos através das pessoas das suas relações que a vão visitando. A ideia é interessante, a narrativa tem os seus momentos envolventes, mas também tem outros mais arrastados. Mas gostei de ler, e aprendi uma piada engraçada sobre os casamentos “bacon and eggs”.


Mulheres da Noite é mais um policial com a dupla Louise e Camilla, uma polícia e a outra jornalista, da autoria da escritora dinamarquesa Sara Blaendel. É já o terceiro livro que leio com esta dupla e acho que foi o meu preferido até agora.


Finalmente li Walking Through Walls, uma autobiografia memorialista da autoria da artista Marina Abramovic. Uma oportunidade especial de ficar a conhecer, na primeira pessoa do singular, a vida extraordinária de uma das mais extraordinárias artistas do mundo da arte contemporânea, uma das principais responsáveis por trazer a performance para o primeiro plano da relevância artística.

Abramovic narra, ou melhor: narra-se de forma implacável e humorada, confessa e confidencia, expõe-se e reflecte, mostra e conta, e, no processo, ficamos a perceber melhor como de facto, no seu caso, a arte é a vida e a vida é a arte

felice di stare lassú
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No passado domingo de manhã, regressava a casa a ouvir no rádio do carro o programa A Cena do Ódio, na Antena 1, cuja emissão era dedicada à cor azul.

Às tantas começa a ouvir-se o Domenico Modugno a cantar a famosa intro à ainda mais famosa canção Nel Blu Dipinto, que, creio eu, é mais conhecida por Volare, do refrão, e que deve ser das canções mais populares e com mais versões da música italiana.

«Penso que un sogno cosi non ritorní mai piú
Mi dipingevo le mani e la faccia di blu
Poi d’improvviso venivo dal vento rapito
E incominciavo a volare nel cielo infinito»

Veio-me logo à ideia o meu pai. Foi dele que ouvi pela primeira vez esta canção, aprendi-a com ele. Era uma das canções preferidas do meu pai. Ouvi-lo dizer estas frases do início da canção é das recordações mais vivas e intensas da minha vida.

Claro que o meu pai não sabia italiano e ‘aldrabava’ a maior parte das palavras. Cantava o primeiro verso, terminava com o ‘volare nel cielo infinito’, mas o resto era a fazer de conta, a seguir o som das palavras, a tentar imitar o sotaque. Mas mesmo essa aldrabice fazia parte da brincadeira, era um dos seus números para me divertir, mas penso que sobretudo se divertia a si mesmo. Uma das ocasiões, não muito frequentes, em que o meu pai, habitualmente sempre triste ou pelo menos tristonho, soltava o sentido de humor.

Ao ouvir a canção e ao lembrar-me do meu pai, pensei que gostaria de confirmar com o meu irmão se ele se lembrava desta rábula do meu pai, se também era capaz de, vividamente, o ouvir a cantar o Nel Blu Dipinto De Blu.

Numa manhã de um domingo passado quase sempre sozinho, num estado de espírito feito de melancolia e (muita) angústia, não foi muito bom confrontar-me, mais uma vez, com a ideia de que a ausência dos meus pais e do meu irmão, acentua o sentimento de profunda solidão com que vivo estes dias.


esperando
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Cada vez que olho para o gato comovo-me com a sua inocência, com a sua inconsciência do futuro, com o facto de ele não sofrer a angústia de saber que daqui a uns dias, estaremos separados mais uma vez.

Acho que essa ignorância faz dele um infeliz, alguém que não sabe o que está prestes a acontecer-lhe. Mas também sinto uma certa inveja dessa leveza de ser, que advém de não sabermos o que nos espera. Sinto inveja? Não sei, ou melhor, não sinto. Não me angustiar com o que me espera, não faz parte daquilo de que sou capaz.

Fui almoçar à livraria. Encontrei por acaso, e comprei de imediato, uma edição hardcover (da Penguin) do livro Walk Through Walls: A Memoir, da autoria da artista e performer Marina Abramovic.

Comecei logo a ler o primeiro capítulo, sobre a infância e a juventude de Abramovic em Belgrado, a capital da então Jugoslávia. Foi estranho. Esta leitura encheu-me de uma exaltante vontade de liberdade, muito contraditória com o meu estado de espírito. Uma contradição insanável, entre a presente falta de perspectivas e um intenso impulso criativo. Ou entre uma vontade de ir para casa, para junto do gato, um lugar onde sempre me senti livre, e a consciência de que voltar para casa é sempre um regresso à asfixiante situação actual.

Por momentos, vagos e subconscientes, tive a impressão de que estaria safo enquanto me mantivesse ali na livraria, a ler o livro da Marina Abramovic.

rufus gifford, o embaixador
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Passei o último mês e pouco, desde que tive alta em 20 de julho, quase sempre em casa, a recuperar da última cirurgia, e a preparar-me para a próxima, que será em breve. Saí pouco de casa, embora me tenha esforçado para sair todos os dias, mesmo que apenas para tomar um café ou comprar pão. Claro, li muito, e, fatalmente, vi mais televisão do que o habitual, que é quase nada.

Logo num dos primeiros dias em casa, a fazer zapping no comando da box, apanhei sem querer um documentário na RTP2 que me chamou a atenção. Era sobre o embaixador dos EUA em Copenhaga, chamado Rufus Gifford, de quem eu nunca tinha ouvido falar, e o que me chamou a atenção, para além do bom aspecto do cavalheiro, foram as referências à sua condição de homossexual.

Fui logo investigar. Rufus colaborou ativamente nas duas campanhas presidenciais de Barack Obama, nomeadamente como director financeiro, e, no início do seu segundo mandato, o presidente dos EUA nomeou-o de facto seu embaixador na Dinamarca, posto que serviu entre 2013 e 2017. Era, no tempo da presidência de Obama, considerado o embaixador informal do presidente para as questões LGBT.

Quanto ao documentário que eu apanhei por acaso, fazia parte de uma série, com duas temporadas, que Rufus Gifford aceitou fazer para a televisão dinamarquesa, seguindo o seu dia a dia enquanto embaixador, e com especial ênfase quer nas questões LGBT quer nos esforços de aproximação entre a Dinamarca e os EUA. A série, cujo título em inglês é I Am The Ambassador, é muito bem feita, e ganhou alguns prémios da televisão da Dinamarca. Não sei se já foi transmitida nos EUA, mas li algures que estava previsto ser transmitida na Netflix.

Naturalmente programei a box para gravar todos os episódios da série. Tive sorte, porque “apanhei” o primeiro. O que é estranho, por parte da RTP, é o carácter errático da programação: foram emitidos os 3 primeiros episódios, ainda no final de julho, depois voltou a ser transmitido um episódio, o oitavo se não em engano, no dia 18 de agosto, e mais dois no fim de semana passado. Não faço ideia do que aconteceu aos restantes episódios, em particular do quarto ao sétimo. Estive sempre atento, por isso penso que não me terá escapado nenhum, além de que, como já referi, tinha a box programada para gravar automaticamente todos os episódios transmitidos.

Também estranho um pouco não ter visto qualquer referência à série, ou ao próprio Rufus Gifford, nos canais da net que estão habitualmente atentos às questões LGBT. Pergunto-me se será apenas distração, agravada pelo facto de a sua transmissão pela RTP ter passado completamente despercebida.

Rufus Gifford, que casou com o seu companheiro enquanto servia no posto de embaixador, no edifício da Câmara Municipal de Copenhaga, é actualmente candidato a representante do estado do Massachusetts no Congresso dos EUA, nas eleições que terão lugar no próximo dia 6 de novembro.
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mais bd
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Este ano tem lido muitos livros de banda desenhada, nomeadamente aquilo a que normalmente se chama ‘novelas gráficas’, com algumas descobertas muito importantes, como já referi aqui. Uma dessas descobertas foi o desenhador de mangá Jiro Taniguchi, de quem mais dois livros, El Gourmet Solitario, e a sua continuação, Paseos de un Gourmet Solitario. Comprei, como se nota, edições espanholas, já que estes dois livros ainda não foram publicados em Portugal. Ao contrário dos outros livros que li de JT, em que ele era responsável quer pela arte quer pelo texto, no caso destes dois livros o argumento é da autoria de Masayuki Kusumi, mas o universo narrativo é sempre muito próprio de Taniguchi.

Li ainda Um Contrato com Deus, uma edição portuguesa da obra de Will Eisner, que é considerada um dos livros fundadores deste género de banda desenhada que são as novelas gráficas, e mais um livro de aventuras da dupla Blake & Mortimer, A Armadilha Diabólica, uma das obras originais desta série, da autoria de E.P. Jacobs.

Finalmente, estou ainda a ler A Agência de Viagens Lemming, do português José Carlos Fernandes, de quem tinha lido o ano passado ambos os volumes de A Pior Banda do Mundo. O universo de referências deste livro de viagens propostas é muito parecido com o da Pior Banda do Mundo, sendo directa e assumidamente inspirado no livro As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino.

missões impossíveis
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Já não ia ao cinema há séculos, fui confirmar e o último filme que tinha visto foi o Ready Player One, logo no início de abril. Ou seja quase cinco meses sem praticamente ver filmes, pois não tenho grande paciência para os ver no televisor, e no computador muito menos.

Mas hoje o dia começou angustiante, recebi o telefonema do hospital a marcar a data da próxima intervenção cirúrgica. Fiquei deprimido, e, o que é raro em mim, com um quase horror a estar sozinho, por isso decidi sair de casa e ir ao cinema.

Uma das coisas que me chateia é que, por causa das dificuldades de mobilidade que tenho, se vou sozinho ao cinema tenho de me sentar na primeira fila. Sempre ouvi as histórias que os meus pais contavam acerca do Piricas, uma figura de Lourenço Marques que ficava sempre na primeira fila do cinema para ver o filme primeiro do que os outros, e que foi imortalizado num poema de Rui Knopfli publicado no seu livro O Monhé das Cobras ("Na fila Z, rente à pantalha, gesticulante, o Piricas regia a partitura.”).

Fui ver o sexto “episódio” de Mission: Impossible, Fallout. Sou fã desta série de filmes, e este, realizado, tal como o anterior, por Christopher McQuarrie, foi um dos melhores dos seis, muito divertido e, claro, com cenas de acção espectaculares.

facas de caça
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Um dos contos de A Rapariga Que Inventou Um Sonho, o livro de Haruki Murakami que estou prestes a terminar, exemplifica bem algumas das razões pelas quais eu gosto tanto da ficção do autor. Como quase todas as 24 histórias que compõem o livro, passa-se muito pouco, as situações são quase banais, o enredo tem poucas peripécias. Nesta história, o narrador encontra-se, juntamente com a mulher, a passar férias num resort, e habituaram-se a ver um par de outros hóspedes, americanos, mãe e filho, este deslocando-se numa cadeira de rodas. Não há praticamente interacção entre os dois casais, até que, na véspera da partida, de madrugada, o narrador tem uma pequena crise de ansiedade, sai do quarto com uma garrafinha do minibar, procura uma das esplanadas dos bares do hotel, fechados àquela hora, para beber a sua bebida e relaxar um pouco. Sentado numa mesa, está o rapaz americano da cadeira de rodas, e desenrola-se entre ambos uma pequena conversa, em que um dos temas são as facas de caça, precisamente o título do conto.

Ao fim de poucas linhas, eu já estava completamente identificado com o narrador, quase como o conto se passasse comigo, e foi de tal ordem que passei a narrativa a projectar a paisagem num resort onde há uns anos, passei umas curtas férias, no Sinai. Qualquer descrição, um recanto do jardim, as esplanadas, a praia, as plataformas no mar de apoio aos banhistas, correspondia àquilo que me recordo desse hotel de que nem me lembro do nome.

Um dos aspectos que me fascinam na literatura de Murakami é como tudo é tão banal, é tão do dia a dia das pessoas, e no entanto há como que uma camada invisível, mais pressentida do que explícita, onde as coisas têm uma dimensão surreal. E é desta sobreposição entre o real e o surreal que nasce uma projecção emocional por parte do leitor. Passa-se como nos sonhos, em que o banal e o absurdo se misturam para nos ajudar a processar, não tanto os acontecimentos, mas sobretudo as emoções que dominam o nosso subconsciente.

Ainda por cima a escrita de Murakami é simples e directa, o que torna a leitura um exercício de prazer.


old photographs
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Faz hoje um mês. O tempo é implacável. Não sei se é angústia ou se é mais uma espécie de náusea, o que sinto quando penso que a vida continua, indiferente, mais ou menos na mesma, insensível, entretida com os seus pequenos dramas. Como se a tua ausência não tivesse peso. Por vezes, só parece haver sentido numa caixa de velhas fotografias.

rainhas
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Se eu tivesse de escolher uma única canção da Madonna, de entre as dezenas de excelentes canções que ela cantou, para levar para uma ilha deserta, seria esta, True Blue. Foi esta canção, e o álbum a que ela deu título, o terceiro da sua carreira, editado em 1986, que me fez apaixonar pela música da Madonna, e pela sua atitude artística, até hoje.

Happy 60 birthday, Madge (que, chama-na assim na Inglaterra, é o diminutivo de Your Majesty).


Já há uns dias que a notícia era esperada, mas mesmo assim é desolador percebemos que vivemos num mundo sem a Aretha Franklin. Para um cavalheiro de certa idade, como eu, a Aretha faz parte da ordem natural das coisas, a sua voz existe como o ar que respiramos, é essencial. E a sua voz poderosa e o seu canto cheio de energia, capaz de incendiar o dia mais cinzento e o coração mais empedernido, são uma presença constante, mas são também símbolos, quer de boa música pop ( ou soul, já que era unanimemente reconhecida como a Rainha da Soul Music), quer de activismo e compromisso político.

Por isso, por um lado parece triste dizer que a perdemos e que nunca mais a vamos ter. Mas a verdade é que sempre a teremos, a música e as canções e a energia de Aretha Franklin estarão sempre connosco.

alberto de lacerda, augusten, germano almeida
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É uma sensação um pouco estranha. Agosto é o mês de férias, e eu parece que estou de férias. Da vida, da minha vida. As minhas guerras vão continuar dentro de momentos, mas por enquanto as coisas parece que estão paradas.

Enntão, leio. Não tenho mais nada para fazer. Saio de casa, normalmente uma vez por dia, com o pretexto de tomar um café, mas aproveito para me mexer, para me levantar do sofá, para sair deste casulo que é a minha sala e que, como se dizia nos direitos (já não me lembro a propósito de quê), está fora do comércio. O resto do tempo, em casa, num longo período que começa por volta das seis e meia da manhã e termina à meia-noite, passo-o a ler. Não tenho paciência para ver filmes na TV, apenas ligo o televisor à hora das refeições e, por vezes, à tarde para ver transmissões desportivas. Snooker, ciclismo, natação, atletismo papo o que houver. Tenho poucas visitas e poucos telefonemas, a maior parte das pessoas estão fora da cidade nesta altura. Então, leio.


Leio uma colectânea de poemas de Alberto de Lacerda, antologia organizada por Pedro Mexia para a colecção (muito bonita) de livros de poesia da Tinta da China, e que, na minha opinião, não dispensa um contacto mais extenso com a poesia do autor, mas tem o mérito de resgatar o seu nome a um certo esquecimento.


Durante a segunda metade da primeira década do século, li, de enfiada, todos os livros do Augusten Burroughs a que consegui deitar a mão (a maior parte deles encomendados da net, e um deles comprado numa livraria em Singapura). Agora interrompi um longo intervalo de oito anos com Lust & Wonder, mais um volume das suas memórias, desta vez com o foco nas suas relações afectivas duradouras, desde que ficou sóbrio, ou seja, desde que terminou o período abrangido pelo livro Dry. Ou este Lust & Wonder não está tão bom como os anteriores, ou então fui eu que já estou longe desse sítio onde estava dez anos atrás, mas a verdade é que desta vez o Augusten entusiasmou-me menos do que costumava. Mas foi bom regressar a ele e à sua escrita, ao humor ácido e auto-depreciativo, e fiquei com vontade de ler outras das suas obras mais recentes.


Só tinha lido um livro de Germano Almeida, na esteira da minha ida a Cabo Verde, há mais de dois anos. Fiquei com vontade de conhecer mais da sua obra, e sobretudo da sua escrita muito rica e festiva, onde uma certa confusão verbal capta muito bem um certo espírito das ilhas. Decidi começar pelo princípio e li O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, o livro que tornou Germano um escritor lido e popular.

Também tenho lido banda desenhada, ou melhor: novelas gráficas, mas isso fica para outro dia.

sapiens, tempo de silencio
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Sapiens: Uma Breve História da Humanidade é um daqueles livros que, de forma mais ou menos surpreendente, se tornam best-sellers. Foi assim um pouco por todo o mundo, e é assim também em PT, pelo menos a avaliar pelo autocolante na capa do meu exemplar, que anuncia tratar-se da 13ª edição!

E de certo modo compreende-se o êxito. De uma forma clara, com sentido de humor, e com notável poder de síntese, Yuval Noah Harari, professor de história numa universidade israelita, traça o percurso do homo sapiens desde o seu aparecimento na evolução da vida da terra, procurando nas grandes ideias, nas tendências e nas linhas gerais, as principais causas e condições que transformaram um macaco insignificante no mais poderoso, criativo e destruidor ser vivo do planeta.

O aspecto que mais me interessou no livro é a forma como o autor liga a disciplina História com as outras áreas do conhecimento científico, em particular com a biologia, prestando particular atenção ao percurso histórico do homo sapiens enquanto um processo de suplantação dos limites da sua condição biológica, e como esse processo representa simultaneamente uma benção e uma maldição.


Tempo de Silêncio é, tanto quanto sei, a primeira edição em PT de um dos nomes maiores da literatura de viagens em língua inglesa. Um verdadeiro clássico. Trata-se de uma das obras mais conhecidas de Patrick Leigh Fermor, que reúne relatos de estadias do autor em mosteiros na zona francesa da Normandia, bem como da visita às ruínas de um mosteiro cristão na Capadócia, abandonado há cerca de mil anos.

A escrita de PLF é de uma qualidade extraordinária, a sua capacidade de descrever características artísticas e arquitectónicas, de contar a história e as histórias associadas aos lugares, de relatar as suas impressões e as suas experiências pessoais, tudo qualidades que tornam a leitura uma experiência de luxo.

Destaque para a tradução de Alda Rodrigues, que mantém o texto a um nível de qualidade literária muito elevado.