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papa-figos
rosas
innersmile


Vi um documentário sobre o Armistead Maupin e apeteceu-me tentar reler o livro Tales Of The City, tantos anos depois. Como é um livro que já tenho há muito tempo, desde antes de vir morar nesta casa, ainda é do tempo em que tinha as estantes arrumadas e foi fácil encontrá-lo.

Encontrei dentro do livro uns papéis. Um postal da Livraria Papa-Figos, que ficava no Redondo, no Alentejo, e que mandava vir livros do estrangeiro. Uma folha de fax com uma lista de livros de Michael Carson que a Papa-Figos me mandou. O recibo da venda do livro do Maupin, que custou 1.600 escudos, à volta de uns 8 euros. Comprei-o em Setembro de 1995.

Não foi o primeiro livro da famosa série de Maupin que li. Comecei pelo segundo volume, o More Tales of The City, que comprei em Dublin, numas férias, em Julho desse ano. Mas apaixonei-me de tal maneira que tentei logo ler os restantes livros que já tinham sido editados até então.

Foi na segunda metade dessa década de 90 que a loja Amazon se começou a expandir e que eu a descobri. E, claro, comecei logo comprar livros online, não só a oferta era maior como o circuito de entrega era mais abreviado e, por isso, mais rápido.

Mas houve ali uns bons anos em que fui um cliente assíduo e muito satisfeito da Livraria Papa-Figos. Eu ia a Londres frequentemente, e, além de vir carregado de livros, trazia muitas referências, quer de livrarias como a Gay's The Word, quer de revistas como a Time Out ou a Gay Times. E depois era através da Papa-Figos que ia fazendo as minhas encomendas.

Caramba, como as coisas mudaram, como o mundo mudou. A Papa-Figos com certeza acabou, ou pelo menos teve de se adaptar, porque dificilmente poderia sobreviver nesta era das compras online, e em que a Amazon se tornou num monstro, porém muito útil, que seca e destrói tudo à sua volta, no que toca a comércio livreiro.

Mas se a Papa-Figos morreu, não está esquecida, e aqui fica a minha homenagem a essas pessoas que nunca conheci, mas com quem falei ao telefone e troquei faxes, e que durante uns tempos resolveram as minhas necessidades de leitura.

la confession
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innersmile
Com a minha provecta idade, foram já muitos os artistas, músicos, actores e actrizes, escritores, etc, que eu admirei por me comoverem e inspirarem, por me darem horas de prazenteira fruição, e que já morreram.

Aliás, com 57 anos atrevo-me a dizer que é já maior a minha galeria de ídolos mortos do que a dos deuses vivos.

Além disso, há muitas pessoas, artistas em geral mas também, por exemplo, políticos ou pensadores, cuja morte senti como uma verdadeira perda, um empobrecimento, para o mundo mas também quase a um nível pessoal.

Mas não há assim muitas pessoas que já desapareceram, públicas evidentemente, de quem se possa dizer que tenha verdadeiras saudades, que me lembre delas com saudade, com uma vontade quase irreprimível de as ver ou ouvir ou ler de novo.

Assim de cabeça vêm-me à ideia umas quatro ou cinco. O Mário Viegas, as saudades que eu tenho de o ver trabalhar, seja no cinema ou no teatro, seja a dizer poesia seja na sua intervenção político-teatral.

Mas agora lembrei-me da Lhasa de Sela. Tenho saudades da Lhasa. De a ouvir, claro, mas acho que tenho saudades até da sua presença no mundo, da riqueza multicultural e do desejo de viajar que ela inspirava, de sonhar com viagens. A Lhasa fazia canções perfeitas, que contavam histórias, como As Mil e Uma Noites, canções musicalmente evocativas e com letras de grande profundidade e com um agudo sentido do humano.

Uma vez, no longínquo ano de 2004, assisti a um concerto da Lhasa, no Gil Vicente, que foi das noites mais especiais e mágicas da minha vida.

Apesar de conhecer razoavelmente a curta discografia da Lhasa de Sela, as suas canções são tão ricas que, de vez em quando, me lembro de uma delas com o prazer de uma descoberta, com o deslumbramento de quem ouve uma história de encantar.

Por estes dias tenho-me lembrado muito de La Confession, uma obra-prima de um disco cheio delas, The Living Road. Com um certo embalo de chanson, é uma canção que ilumina uma zona sombria da nossa alma.



Je n'ai pas peur
De dire que je t'ai trahi
Par pure paresse
Par pure mélancolie
Qu'entre toi
Et le Diable
J'ai choisi le plus
Confortable
Mais tout cela
N'est pas pourquoi
Je me sens coupable
Mon cher ami

Je n'ai pas peur de dire
Que tu me fais peur
Avec ton espoir
Et ton grand sens
De l'honneur
Tu me donnes envie
De tout détruire
De t'arracher
Le beau sourire
Et meme ça
N'est pas pourquoi
Je me sens coupable
C'est ça le pire

Je me sens coupable
Parce que j'ai l'habitude
C'est la seule chose
Que je peux faire
Avec une certaine
Certitude

C'est rassurant
De penser
Que je suis sûre
De ne pas me tromper
Quand il s'agit
De la question
De ma grande culpabilité

Je n'ai pas peur
De dire que j'ai triché
j'ai mis les plus pures
De mes pensées
Sur le marché
J'ai envie de laisser tomber
Toute cette idée
De "vérité"
Je garderais
Pour me guider
Plaisir et culpabilité
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mais filmes
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9. BOY ERASED, de Joe Edgerton. Com Nicole Kidman e Russell Crowe. O filme pretende ser uma denúncia dos programas de reorientação de identidade sexual,ou seja, de cura da homossexualidade. Mas onde eu achei que ele foi mais eficaz foi no retrato opressivo e sufocante que se vive no seio das famílias muito dominadas pela religiosidade. Quando se fala de fundamentalismo religioso, fala-se de qualquer coisa de muito parecida com aquilo que o filme nos mostra.****

10. JOHN MCENROE: In The Realm of Perfection, de Julien Faraut. Um filme muito interessante que nos fala de ténis, de desporto, e da condição humana. E que parte de um pressuposto muito cinematográfico, sendo por isso uma excelente reflexão sobre o cinema. O único senão é que passar praticamente uma hora e meia a ver o John McEnroe a servir, a jogar e a refilar com os árbitros, pode não ser o mais animado dos programas.****

11. THE FAVOURITE, de Yorgos Lanthimos. Com Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. O trabalho brilhante das três actrizes pode ofuscar o resto do filme, uma comédia estranha e perturbadora sobre o poder e a sua relação com os afectos.****

12. VICE, de Adam McKay. Com Christian Bale, Amy Adams e Sam Rockwell. Não fiquei muito convencido com o tom de farsa, apesar de haver duas ou três soluções muito bem esgalhadas e divertidas. Seja como for, o filme também funciona como uma espécie de “American politics for dummies”, além de que ficamos a saber o que já sabíamos: quem é que de facto mandava no tempo em que George W. foi POTUS.***

13. THE MULE, de Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper e Andy Garcia. Ah, que classe, que estilo, que cool. Aquele fio da navalha entre a fragilidade da idade e a dureza da vida, é assombroso. *****

14. THE HIGHWAYMEN, de John Lee Hancock. Com Kevin Costner, Woody Harrelson e Kathy Bates. Uma perspectiva diferente sobre a famosa dupla Bonnie & Clyde, a dos Texas Rangers que os perseguiram e abateram. O filme recupera uma certa secura western muito à Eastwood, e uma planura e vastidão que tínhamos saudades de ver no cinema.****

15. AINDA NÃO ACABÁMOS: COMO SE FOSSE UMA CARTA, de Jorge Silva Melo. Um comovente documentário que funciona como se fosse uma autobiografia cinematográfica do autor. Mas dizer isto assim parece artificial e solene ao pé da franqueza e da honestidade com que Jorge Silva Melo olha a câmara que ele próprio filma. *****

16. BLACKkKLANSMAN, de Spike Lee. Com John David Washington, Adam Drivers e Harry Belafonte. Já tinha saudades de ver “a joint by Spike Lee”, com o seu mix excitante de activismo político e liberdade narrativa. A história é um achado, um daqueles casos em que a realidade parece mais fantasiosa do que a ficção, e o realizador aproveita bem a ironia para dar o tom de comédia a um caso muito sério. Vale a pena prestar atenção à música de Terence Blanchard. E ver Harry Belafonte no ecrã é uma emoção.*****

17. A STAR IS BORN, de Bradley Cooper. Com Lady Gaga, Bradley Cooper e Sam Elliot. 1) A tearjerker is born. 2) Baby Jesus Loves Lady Gaga. ***
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fingir
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Estive três semanas internado no hospital, entre o dia 10 de abril e ontem, 1° de maio, de novo com uma infeção bacteriana. E desta vez foi a doer. A função renal ficou muito comprometida, passei muito mal, pelo menos nos primeiros dias, o cocktail de antibióticos era devastador, ao ponto de ter estado praticamente três semanas sem comer nada, alimentando-me apenas com suplementos de calorias e proteínas. E a situação actual é incerta, ao ponto de médico que me deu alta ter dito que corro o risco de dentro de poucos dias estar de volta ao hospital. Estive em modo off durante este mês no que toca a leituras, pois no hospital nem ler conseguia. E estive sempre muito ansioso e deprimido, começa a faltar a resiliência emocional para conseguir lidar com todas estas contrariedades. Não sei se a vida voltou ao normal, mas neste momento, e apenas por um momento, vou fingir que acredito que sim.

maps
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An old battered body is like a map in relief.

cordeiro
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Um cordeiro entrega-se ao sacrifício com mansidão. Há um ano. Se fosse outro, como seria? Guincharia como um porco na hora da matança? Rebelar-se-ia? Explodiria em revolta? Lutaria determinadamente para se manter à tona de água? Este, não. Aceita manso e conformado o seu destino. Chegará um dia em que o sacrifício será a vida toda do cordeiro. Aos poucos desfazer-se-á em poeira a memória de outra vida que não a do sacrifício. É assim que os cordeiros se entregam à vida mansamente, aceitando o sacrifício como um destino.

essencial
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hei-de recordar
o essencial
mãe
a acácia
tronco esguio
copa horizontal
a vastidão da savana
o céu azul infinito
ao alcance dos dedos
mãe
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leituras de março
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Foram as seguintes as leituras do mês de março.


Um thriller emocionante que nos leva ao coração do regime totalitário da Coreia do Norte, ou seja aos próprios Kim, os grandes, queridos e amados líderes. Um dos aspectos interessantes do livro é a forma como ele assenta não apenas na realidade da Coreia mas na sua própria história, o que contribui decisivamente para o efeito de suspensão da incredulidade.


Nova edição do volume que reúne toda a poesia de Fernando Assis Pacheco, aumentada com inéditos. Sou fã da escrita de FAP, seja a poética, seja a prosa, de ficção ou jornalística. Mas os seus poemas são verdadeiramente incontornáveis, entre muitas outras razões pelo conjunto de poemas que reflectem, e reflectem sobre, a sua experiência da guerra colonial. Mas o que verdadeiramente me prende na poesia de FAP é o modo como ela testemunha o olhar de quem vive os dias, de quem vive os outros, de quem vive o mundo.


Um thriller bem esgalhado, com excelente ritmo e uma grande capacidade de nos prender a atenção e fazer querer ler sempre mais uma página. Passa-se em Londres, o tempo está sempre húmido e gelado, tem um serial killer à solta, e uma detective policial sui generis.


A primeira aventura publicada por Edgar P. Jacobsen. Longe do apuro de Blake e Mortimer, mas já a prometer uma arte limpa e uma narrativa de aventuras.


Apesar de faltarem alguns aspectos habituais das histórias de Blake e Mortimer (como a ficção científica ou o mundo da espionagem), este Caso do Colar traz os dois heróis para as ruas e principalmente para os subterrâneos de Paris, num thriller policial puro.


Uma excelente biografia de uma das mais consagradas figuras da literatura portuguesa contemporânea. Mesmo para quem, como eu, não é grande leitor da obra de Agustina. Isabel Rio Novo escreve esta biografia, não apenas baseada em entrevistas e documentos históricos, mas principalmente numa close reading da obra agustiniana, e é esse aspecto que lhe confere uma marca de destacada qualidade.


A vantagem deste livro é a de que em duas tardes conseguimos ficar com uma ideia muito razoável, se não da história da Alemanha, pelo menos das linhas principais da sua evolução história, dos seus principais protagonistas, dos acontecimentos mais marcantes.
A desvantagem é que o livro tem, logo à partida, "uma tese" e limita-se a olhar a história da Alemanha, com o único e firme propósito de a confirmar.

abide my time
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O passado já passou mas há cicatrizes que, depois da queimadura da ferida, guardamos com um certo sentido de beleza.

Mesmo quando, entre o passado que passou e aquele que ainda está a passar, muita água tenha já corrido sob a ponte, água tumultuosa, escura e profunda, densa e dura.

Como uma canção que conhecemos e amamos desde sempre, e da qual, um dia, na primavera, de maneira inesperada, solar e precisa, descobrimos o verdadeiro sentido.

Como se sempre tivesse estado à nossa espera, aguardando o momento em que a canção e a nossa vida se encaixassem na perfeição.

E que de vez em quando ouvimos e nos lembramos, não da ferida magoada, mas da feliz cicatriz.


the crown
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Houve aí uma altura em que se dizia que o cinema tinha perdido vitalidade e que a sua capacidade de reflectir a vida se tinha passado para as séries de televisão. Hoje em dia, com o aparecimento e a diversificação das plataformas que disponibilizam conteúdos audiovisuais, por assinatura, já não tenho a certeza de que isso ainda seja verdade. A maior parte das séries que encontro nessas plataformas são pobres, quer do ponto de vista dos valores de produção quer do ponto de vista narrativo. Mas há exceções.

E uma delas, de que acabei de ver as duas temporadas já produzidas, é The Crown, cujo tema é, grosso modo, o reinado da Rainha Isabel II, de Inglaterra. A série foi escrita por Peter Morgan, o mesmo autor que escreveu, aqui há uns anos, o filme The Queen, que deu um Oscar a Helen Mirren precisamente no papel de Isabel II. Entre a equipa de realizadores está o Stephen Daldry, que tem no currículo filmes como Billy Elliot, As Horas ou O Leitor.

A série está de facto muito bem escrita, tentando ser o mais fiel possível à verdade da História, mas não desperdiçando as oportunidades de conflito. O retrato psicológico de Elizabeth tem densidade e, principalmente, ajuda a caracterizar não apenas a sua personalidade, mas o modo como encarou a responsabilidade que lhe calhou e a marca que quis imprimir ao seu reinado.

Para além de muito bem escrita, a série tem um elevado valor de produção, ou seja, teve grandes recursos e soube utilizá-los muito bem. Como se vê logo pelas escolhas do elenco, mas também por muitas outras razões: as escolhas dos sets, a qualidade dos cenários exteriores, a preocupação e o rigor das reconstituições dos interiores.

Para além de nos mostrar o que é a vida das realezas lá nos altos palácios onde habitam, a série traça de igual modo um retrato muito eficaz de como se fazia política em Inglaterra nos anos do pós-guerra (e que em muitos aspectos se mantém actual). E ainda, numa espécie de reflexo do reflexo, do que era vida da classe média inglesa, ainda que, na série, ela seja apenas entrevista, um pouco desfocada, através dos vidros nem sempre muito transparentes das janelas dos automóveis de luxo.
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ao volante pela cidade
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Chegou, pelas redes sociais, a notícia da morte do arquitecto Manuel Graça Dias. Nos anos 80 e 90, creio que nas páginas do jornal O Independente, o arquitecto escrevia crónicas que eu lia religiosamente. Foram esses textos que me ajudaram a criar e a alimentar um gosto pela arquitectura, e também um modo diferente de ver, e viver, as cidades. Nesses artigos de jornal, e também nos livros que Manuel Graça Dias publicou, um deles, Ao Volante pela Cidade, ainda o devo ter aqui por casa.

Não conseguimos evitar um sentimento de empobrecimento, e de tristeza, quando partem aqueles que, mesmo sem o saberem, tanto contribuíram para o nosso conhecimento, para a nossa cultura, para o enriquecimento das nossas vidas.

o limerick da bactéria
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Havia na Internet um chato de um bestunto
Que um dia desarvorou e deixou de ser assunto
Mas como uma bactéria
Que não deslarga a matéria
Volta e meia que não volta, reaparece o defunto


Há muitos anos que eu não escrevia um limerick. Este é, como todos os outros, um poema supostamente jocoso e com endereço, como devem ser os limericks.

Mas hesitei em pô-lo aqui. Eu sou supersticioso e acredito no karma. Ora, a vida já me tem feito tantas maldades, que eu não quero ser mauzinho e despertar mais bad vibes.

Quero ser bonzinho, e quero sê-lo com toda a gente. Mas há coisas, e situações, e pessoas, que nos fizeram mal e que por isso as deixámos lá atrás, exactamente no lugar onde nos magoaram e do qual nos afastámos em definitivo.

Por isso, sem karma, aqui fica o limerick da bactéria.

american crime story
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Vi de seguida as duas temporadas de American Crime Story, a série da autoria do Ryan Murphy, criador, produtor e realizador de séries de TV e de alguns filmes de que gostei muito.

Adorei a primeira temporada, The People v. O. J. Simpson, a recriação do julgamento de OJ por homicídio da sua ex-mulher e de um seu amigo, uma sucessão de eventos que dominou os media de todo o mundo, ali por meados dos anos 90. A recriação histórica, a capacidade de dar espessura e densidade psicológica às personagens, o constante movimento da acção, com as suas tendências e reviravoltas, são alguns dos vários factores que me puseram sempre ansioso por ver mais um episódio, mais uma sequência.

Já não achei tão interessante a segunda temporada, The Assassination of Gianni Versace, que se centra sobretudo em acompanhar a descida aos infernos da alma encetada por Andrew Cunanan, o assassino do célebre designer italiano. A própria estrutura e sequência dos episódios prejudica, acho eu, o sentido de progressão da narrativa. Além disso, a tentativa de reconstruir um quadro emocional ou mental em processo de desagregação, e que culminaria na série de crimes que o assassino perpetrou em pouco tempo, não me convenceu muito, achei-a superficial e artificial.
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ventre calmo da terra
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TRAVESSIA DO DESERTO

Que caminho tão longo
Que viagem tão comprida
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda
Ai que fome tão antiga
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga


Conheço esta canção do José Mário Branco há décadas, desde que o disco Ser Solidário foi editado, um dos melhores discos da música popular portuguesa de sempre. Já ouvi a canção dezenas de vezes, nomeadamente ao vivo. E, no entanto, as circunstâncias da vida fazem descobrir novos sentidos. Mais pessoais, mais íntimos. Mais dolorosos.


after life
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Gosto muito do Ricky Gervais. As séries The Office ou Extras estão entre as coisas mais geniais que eu já vi em termos de comédia. Mas há qualquer coisa que me incomoda nele, mais até na sua stand up, e que é uma certa implacabilidade, que por vezes chega a ser cruel. Às vezes a comédia do RG até me parecia conter um certo desprezo pela condição humana, pelas nossas fragilidades e fraquezas. A verdade é que eu achava o Ricky Gervais muito divertido, mas sentia um certo medo.

Até que comecei a ver, há poucos dias, a sua nova série, After Life. A princípio pareceu-me reconhecer a sua habitual crueldade, mas aos poucos fui percebendo melhor a série e o seu protagonista, Tony, bem como as restantes personagens. E o ponto é que cada episódio me divertiu imenso, mas também me comoveu muito, quase ao ponto das lágrimas nos olhos.

Por detrás do humor implacável de Gervais, descobre-se um olhar humano, demasiado humano, compassivo, cheio de uma ternura pelos nossos aspectos mais frágeis, que são precisamente os mais ridículos e risíveis. Acho que After Life, ao fim destes seis episódios, já é uma das minhas séries preferidas de sempre.
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notícias
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morreste, foste embora
trocou-se uma ausência
por outra

os dias lá foram andando
a vida vivida como
uma doença incurável

lembro-me de ti
vez em quando
uma hora por outra

mas vejo-te ao longe
como se o teu silêncio
fosse indolor

uma leve perturbação
incómoda e aguda:
não tenho notícias
não sei nada de ti
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filmes
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Graças à generosidade de terceiros tenho, nos últimos tempos, tido oportunidade de ver alguns filmes que têm estreado e que eu não tenho oportunidade de ir ver aos cinemas. Acho que vou fazer uma lista, só com umas notas muito breves.


1. GREEN BOOK, de Peter Farrelly. Com Viggo Mortensen e Mahershala Ali. É uma história irresistível, com dois actores num jogo muito bom.****

2. THE WIFE, de Björn Runge. Com Glenn Close, Jonathan Pryce e Christian Slater. Falta chama ao filme, mas a Glenn Close dá uma verdadeira masterclass.***

3. I'M NOT YOUR NEGRO, de Raoul Peck. Com base nos escritos de James Baldwin. Um olhar muito forte sobre a negritude numa sociedade racista, com especial enfoque no movimento dos direitos civis nos EUA, mas com um escopo universal. Explica muita coisa, nomeadamente os confrontos que ainda há poucas semanas varreram a sociedade portuguesa. *****

4. BOHEMIAN RHAPSODY, de Bryan Singer. Com Rami Malek. Não percebi muito bem se o objetivo era ajudar a criar o mito Freddy Mercury, tornando-o numa espécie de unicórnio pop, ou se faz parte do plano de marketing. Valeu pelas memórias do Live Aid. O que terá acontecido à minha t-shirt?***

5. FREE SOLO, de Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin. Sobre o escalador Alex Honnold. Entusiasmante mas também perturbador, sobretudo pelas coisas que não são explicáveis.*****

6. THEY FIRST MAN, de Damien Chazell. Com Ryan Gosling e Claire Foy. Uma perspectiva intima sobre o percurso do astronauta Neil Armstrong que o levaria a ser o primeiro homem na lua. Não se trata, longe disso, de uma fita de aventuras, como se nota pelo ritmo. ****

7. ROMA, de Alfonso Cuarón. Com Yalitza Aparicio. Uma câmara que se limita a olhar quase silenciosamente. Tudo o que o filme tem para dizer, é assim que o faz, mostra em vez de explicar. A fotografia é um esplendor, num preto e branco muito evocativo, lírico e implacável. *****

8. LOVE, SIMON, de Greg Berlanti. Uma típica comédia romântica sobre adolescentes a descobrirem o amor. Bom, quase típica. E é este quase que lhe dá todo o interesse. Porque apesar de tudo, ainda não são frequentes os filmes dirigidos ao grande público, sobretudo o adolescente, que apresentam um retrato mais ou menos real de alguns dos problemas que os jovens gay enfrentam na descoberta do amor, e o fazem de uma forma tão positiva.****
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ligeiramente
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Uma tarde a minha mãe chegou a casa e estava ansiosa por me contar. Nesse dia, à hora do almoço, no pequeno centro comercial ao lado do trabalho, onde ia tomar café, tinha visto o poeta Fernando Assis Pacheco em demorada e tranquila conversa com o Sr. Machado, que era o mais conhecido livreiro de Coimbra.

A minha mãe sabia que eu era fã da escrita de Assis, fosse enquanto jornalista, poeta ou escritor de romances, crónicas ou novelas.

Eram deste tipo as coisas importantes que tínhamos urgência e prazer em partilhar um com o outro. As coisas quotidianas, quase inúteis. As coisas que apenas nos faziam agitar ligeiramente o coração, num sobressalto manso e feliz.

não tem consolo
rosas
innersmile
R., 1992

Quando os anos passarem
sobre esse teu desgosto
vais ver que te curaste
não de vez mas um pouco

pois o que a gente busca
nas dobras do amor
é a cura para a morte
que não tem consolo

e por falar em f'ridas
até as que mais doem
acabam por fechar
só ela vence o corpo


- Fernando Assis Pacheco, RESPIRAÇÃO ASSISTIDA

Faz hoje quatro anos que a minha mãe morreu.

leituras de fevereiro
rosas
innersmile
Foram as seguintes as leituras durante o mês de fevereiro.



Gostei muito deste romance musical, como lhe chama o autor. Nascido da vontade de contar a história do kuduro, Também Os Brancos Sabem Dançar, num registo em que a ficção e as memórias reais se cruzam, traça um mapa, e mesmo uma árvore genealógica, da música pop que se ouve hoje em dia, em especial a que resulta do cruzamento entre as músicas africana, sobretudo angolana e cabo-verdiana, electrónica e de dança.

Noutro plano, o livro de Kalaf Epalanga, de uma forma sempre positiva e bem humorada, reflete sobre o racismo,sobre o convivio, nomeadamente cultural e artístico, entre as raças,sobretudo a negra e a branca, e, de uma forma que podemos dizer mais política, sobre a forma como a Europa olha os contingentes de emigrantes e refugiados que todos os dias tentam passar as suas fronteiras.

Finalmente, Também Os Brancos Sabem Dançar é ainda uma generosa homenagem a Lisboa, e por extensão a Portugal, como o lugar perfeito onde as diferentes culturas africanas e europeias se podem encontrar de forma criativa.

Um livro 5 estrelas, escrito de forma simples e escorreita, com sentido de humor. Num tempo em que o racismo e os conflitos raciais voltaram às agendas noticiosas, são libertadores e esperançosos o olhar e as reflexões de Kalaf Epalanga.



Que fantochada. Li este livro porque me veio parar às mãos, passei os olhos por curiosidade, e percebi que o conseguia ler numa tarde. O único vago interesse que o livro possa ter é clínico, e resulta de tentar perceber a personalidade do seu autor.



Demorei muito tempo até chegar a este livro, mas ainda bem que cheguei. É difícil dizer o que é mais impressivo, se a qualidade gráfica da narrativa, se a força da história de quem viveu a revolução iraniana por dentro e enquanto adolescente, se a franqueza implacável com que é contada na primeira pessoa do singular uma história coming-of-age.



A elegância e a perfeição da escrita, a subtileza, a erudição e o humor de Jan Morris, criam um travelogue muito sui generis.

Como o título indica, a ideia é, mais do que descrever, talvez recriar o que era a vida em Manhattan no ano em que terminou a Segunda Grande Guerra. Vários aspectos são abordados, da política às artes, da economia aos transportes, das comunidades aos bairros, entre outros.

O resultado é o que deve ser o de um livro de viagens: falar-nos dos lugares e das pessoas, mas sobretudo captar a energia de um momento único. Mais do que incitar-nos à viagem, ser ele próprio uma viagem vívida e inesquecível.

the place where lost things go
rosas
innersmile
Como apenas vi a cerimónia dos Oscar's em diferido e dois dias depois, e não vi nenhum nos filmes candidatos (mentira, vi um), a coisa não me despertou grande entusiasmo.

O meu momento preferido foi este. A Divine Miss M!

Pôs-me lágrimas nos olhos, a letra é linda e comovente, principalmente para quem já teve perdas sérias na vida. Sobretudo quando cantou "Maybe all you're missing lives inside of you".



Do you ever lie
Awake at night?
Just between the dark
And the morning light
Searching for the things
You used to know
Looking for the place
Where the lost things go

Do you ever dream
Or reminisce?
Wondering where to find
What you truly miss
Well maybe all those things
That you love so
Are waiting in the place
Where the lost things go

Memories you've shared
Gone for good you feared
They're all around you still
Though they've disappeared
Nothing's really left
Or lost without a trace
Nothing's gone forever
Only out of place

So maybe now the dish
And my best spoon
Are playing hide and seek
Just behind the moon
Waiting there until
It's time to show
Spring is like that now
Far beneath the snow
Hiding in the place
Where the lost things go

Time to close your eyes
So sleep can come around
For when you dream you'll find
All that's lost is found
Maybe on the moon
Or maybe somewhere new
Maybe all you're missing lives inside of you

So when you need her touch
And loving gaze
Gone but not forgotten
Is the perfect phrase
Smiling from a star
That she makes glow
Trust she's always there
Watching as you grow
Find her in the place
Where the lost things go

bruno ganz, patricia nell warren
rosas
innersmile
Chegou por estes dias a notícia da morte do actor Bruno Ganz. O actor alemão tornou-se conhecido sobretudo pela sua interpretação de Adolf Hitler no filme A Queda, do qual várias cenas se tornaram memes na internet.

Mas eu tenho a sorte de conhecer o seu trabalho já desde os anos 70, quando ele fez, com Wim Wenders, O Amigo Americano, uma adaptação muito livre de um livro que, anos depois, se tornaria num dos meus livros preferidos, O Talentoso Mr. Ripley, da Patricia Highsmith. Aliás, comprei a minha edição do livro em Londres, em 1984, precisamente por causa do filme de Wenders.

Mas de todos os papéis que o vi fazer (ainda recentemente vi dois filmes com ele, O Leitor e O Complexo de Bader-Meinhof), aquele que ficou e sempre ficará comigo foi o de Damiel, um dos anjos de As Asas do Desejo, novamente dirigido por Wim Wenders, papel que retomaria na sequela So Faraway, So Close.

Der Himmel über Berlin, o belíssimo título original de As Asas do Desejo, é um dos meus filmes favoritos, que revejo frequentemente, e muito por causa do trabalho de Bruno Ganz, no papel de um anjo que sofre demasiado por causa do sofrimento humano, e que escolhe tornar-se num ser mortal por amor a uma trapezista de circo. Há sequências e diálogos do filme tão belos e tão tristes que sempre me dão vontade de chorar. Como esta do clip que ponho a seguir.



Foi através dos meus amigos da Index eBooks que soube a notícia de outra morte pessoalmente significativa, a da escritora norte-americana Patricia Nell Warren. Aliás, a Index deu-me o privilégio verdadeiramente sublime de ter livros meus editados pela mesma editora que publicou a única tradução em português do mais conhecido livro da escritora, The Front Runner, que na edição da Index levou o título O Corredor de Fundo (e que pode ser comprado aqui: http://www.indexebooks.com/o-corredor-de-fundo.html).

Li o livro em 2002, encomendado da Amazon, numa fase em que lia muita literatura gay, e talvez por isso a sua leitura não tenha sido um coup-de-foudre. Mas quando o reli, anos depois, a propósito da edição da Index, aprendi a respeitar mais aquela história, surpreendentemente inédita na altura em que foi publicada, meados dos anos 70, por apresentar um olhar francamente positivo de uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo, para mais dois desportistas.

Talvez por isso, pelo olhar positivo e pela época em que foi publicado, o livro foi um enorme best-seller, estando semanas a fio nas listas dos mais vendidos. Lembro-me igualmente, na altura em que o li, de ter visto na net que ocupava o primeiro lugar nas listas de livros de temática gay preferidos pelos leitores.

Alguns anos depois, li a sequela Harlan's Race, que encontrei, numa edição em inglês, num livraria gay em Barcelona.


aperto libro, senhor sommer
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Passei metade do mês de janeiro no hospital, e tanto nesse período como nos dias que se seguiram à alta, sentia-me tão fraco que não tinha sequer a capacidade de concentração necessária para a leitura. Ainda assim terminei o livro que já estava a ler antes de ser internado, e retomei a leitura, de forma muito lenta, com um livro que me emprestaram quando estava internado mas que só consegui começar a ler já em casa.



Ao longo dos últimos anos, à medida de um livro por ano, Eugénio Lisboa publicou cinco volumes das suas memórias, um livro de viagens, um volume póstumo das memórias dedicado in memoriam da sua sua mulher, e, agora, o primeiro volume dos seus diários.

Muitas das passagens dos diários tenham sido utilizadas nas memórias e por isso Lisboa publica agora o que dê certo modo “sobrou”. O período abarcado neste primeiro volume vai de 1977 a 1990, apesar de haver muitos intervalos em branco, mais ou menos extensos.

Para além das peripécias do dia a dia, em que EL não é muito prolixo, constituem matéria mais substancial destes diários as reflexões e impressões do autor acerca da arte em geral e da literatura em especial. Quer sobre as suas preferências quer sobre as suas embirrações e mesmo pequenos ódios. E quem conhece os livros de Lisboa sabe que ele não tem papas na língua nem se poupa nas críticas, sendo francamente, e por vezes um pouco injustamente, negativa a sua opinião sobre o estado da arte da literatura portuguesa, e ainda pior no que respeita ao millieu literário nacional.



Como disse acima, fui retomando o gosto pela leitura com um livrinho muito breve, A História do Senhor Sommer, da autoria de Patrick Suskind, que além de ter poucas páginas, muitas delas são ocupadas com fantásticas ilustrações de Sempé. É uma narrativa muito simples,quase juvenil, que constitui uma memória de infância, desconheço se com alguma correspondência na realidade ou se absolutamente ficcionada.

Trata-se de uma obra ternurenta e bem-humorada, mas onde o humor não esconde a tristeza e o drama da vida, os seus mistérios e as suas inevitabilidades. Inspirado e inspirador.

birthday boy
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Fiz hoje 57 anos. Durante o último ano, foram vezes demais aquelas em que pensei que não chegaria a este dia. Mas não sinto que ter chegado aqui tenha sido vitorioso. Não me consigo sentir feliz, tenho a alma demasiado pesada com preocupação e angústia pelo mais que possa acontecer. E já esta semana que se aproxima traz-me mais motivos de preocupação.

Mas o dia de hoje correu bem,e depressa. Estive bem disposto e tranquilo. Tive muitos telefonemas, todos me souberam muito bem, e recebi imensas mensagens. Encomendei o almoço, um belo caril de gambas a fazer-me lembrar outros caris da minha vida, e tive a melhor companhia que poderia desejar. À tarde tive visitas, e até o meu gato me veio visitar, apesar de parecer que está amuado comigo e não me ter ligado nenhuma. Mas eu amo-o na mesma.

Tive ainda um bolo, que foi o meu bolo de aniversário, e que foi especial, primeiro porque estava óptimo, e principalmente porque foi feito por uma senhora com 92 anos, num acto de generosidade que me comoveu.

mundu nôbu
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Foi uma daquelas associações, no caso nem muito inesperada ou surpreendente. O livro que estou a ler agarrou-me ao Google e ao YouTube, comecei a cruzar várias vezes com o nome do Dino d’Santiago e fui ouvir o seu mais recente disco Mundu Nôbu, editado em finais do ano passado. Excelente.

Lembro-me relativamente bem do Dino num dos primeiros concursos de talentos que houve na TV portuguesa, creio que foi a Operação Triunfo. Ao longo dos anos fui cruzando vagamente o seu nome, sem prestar grande atenção à sua música, nomeadamente o seu encontro com as raízes familiares, que o fizeram assumir no nome artístico o nome da ilha cabo-verdiana de onde a sua família é original.

Num dos intervalos do festival da canção da Eurovisão deste ano, que se realizou em Lisboa no mês de Maio, o meu momento preferido foi a participação de um coletivo de cantores luso-africanos organizado pelo músico de electrónica e dj Branko, que ficou conhecido com o êxito global dos Buraka Som Sistema. Os cantores foram a Sara Tavares, Plutónio, a Mayra Andrade e o Dino d'Santiago. Assisti ao festival num televisor com imagem e som péssimos, internado no hospital, mas depois não me cansei de ver e rever, e ouvir principalmente, essa sequência no YouTube.



Depois disto, e ao longo do ano, o Dino d’Santiago foi aparecendo no Instagram da Madonna, como um dos seus guias na cena da música que se vai fazendo em Lisboa com a marca e autoria das comunidades e dos músicos cabo-verdianos, moçambicanos, angolanos, guineenses e até brasileiros.

Tudo isto para dizer que adorei o disco Mundu Nôbu do Dino. Um conjunto de 10 canções onde o ritmo e o tom da música africana, em especial a de Cabo Verde, é como que filtrado, ou tratado, pela electrónica, num registo muito contido, quase minimal, que faz sobressair a voz e os arranjos vocais.

Não tem momentos fracos o disco, os temas conseguem soar ao mesmo tempo muito globais mas sempre muito fiéis a uma raiz, seja ela a ilha de Santiago ou a cidade de Lisboa. Aliás, Nova Lisboa, com produção de Branko, é um dos temas mais fortes do disco (e que fez parte do set do eurofestival), tal como o mais recente single a ser lançado, a fantástica Como Seria. Escolhi para ilustrar este texto aquela que foi, acho eu, a canção de apresentação do disco, Nôs Funaná, só porque me fez lembrar com mais intensidade a minha ida a Cabo Verde.

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intorno a me girava il mondo como sempre
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O poder da música pop, desses três breves minutos de sonho e evasão, é fantástico.

Um tipo está triste e desanimado, a sentir-se a pessoa mais infeliz do 'mondo', num final de tarde do primeiro fim de semana do ano, na cama do hospital, com a máscara de oxigénio enfiada na cara, sem a qual a definição de respirar começa a ser um conceito muito indeterminado.

Na TV pendurada na parede da enfermaria, ao alto, em frente à cama, um filmezinho de final de tarde, uma comédia romântica, começa a prender-nos uma vaga atenção, dificultada pela falta dos óculos, que não encaixam na máscara de oxigénio.

Às tantas, numa sequência do filme alguém põe a tocar um disco com um antiquíssimo êxito da música italiana dos anos sessenta: Il Mondo, de Jimmy Fontana.

E por breves instantes o quarto de hospital desaparece, tudo parece desaparecer, e apenas apetece abrir os braços o mais possível, até conseguir tocar com os dedos o mundo que gira à nossa volta.

E este texto é para a Ana, que partilha comigo a capacidade de abrir os braços para tocar 'il mondo', mesmo nos momentos mais tristes.



No, stanotte amore
Non ho più pensato a te
Ho aperto gli occhi
Per guardare intorno a me
E intorno a me
Girava il mondo come sempre
Gira, il mondo gira
Nello spazio senza fine
Con gli amori appena nati
Con gli amori già finiti
Con la gioia e col dolore
Della gente come me
Oh mondo, soltanto adesso
Io ti guardo
Nel tuo silenzio io mi perdo
E sono niente accanto a te
Il mondo
Non si è fermato mai un momento
La notte insegue sempre il giorno
Ed il giorno verrà
No, stanotte amore
Non ho più pensato a te
Ho aperto gli occhi
Per guardare intorno a me
E intorno a me
Girava il mondo come sempre
Gira, il mondo gira
Nello spazio senza fine
Con gli amori appena nati
Con gli amori già finiti
Con la gioia e col dolore
Della gente come me
Oh mondo,…

same old same old
rosas
innersmile


Tinha pensado escrever uma espécie de balanço do que foi o ano de 2018, um verdadeiro annus horribilis, passado quase todo no hospital, com três intervenções cirúrgicas, duas delas major, e vários episódios de infecções bacterianas, alguns deles por bactérias hospitalares, muito resistentes, que só cedem a antibióticos muito agressivos. Cheguei ao fim do ano com um rim único, sem bexiga, e com uma urostomia cutânea.

Mas no fim de semana que antecedeu o Natal, foi-me diagnosticada mais uma pielonefrite. Passei o Natal no hospital a fazer antibiótico, depois fui para casa a fazer o tratamento em ambulatorio e em hospital de dia. Na véspera de Ano Novo, senti umas dores muito fortes no peito e vim ao hospital. Fiquei internado, julgo que com uma infecção pulmonar. Tenho imensa dificuldade em respirar, e qualquer pequeno esforço me deixa ofegante. Estou a fazer tratamento com outro antibiótico, juntamente com o que já estava a fazer.

Nunca tinha tido este tipo de infecção, e estou verdadeiramente à rasca e muito desanimado. Ano Novo? Nah. Same old same old. Assim não me apetece brincar mais...

inventário
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Como passei a maior parte do ano internado no hospital ou de baixa em casa, sem energia ou mesmo possibilidade de sair, este ano não há oportunidade para grandes balanços.

De qualquer forma, pelo menos no princípio do ano consegui ver uma excelente peça de teatro e uma mão cheia de filmes interessantes. Aqui fica lista.

Teatro

Actores, encenada por Marco Martins, e com o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes, o Miguel Guilherme, a Rita Cabaço e a Carolina Amaral. No TAGV.

Cinema

Star Wars, The Last Jedi, de Rian Johnson
The Greatest Showman, de Michael Gracy
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh
The Post, de Steven Spielberg
Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino
Phantom Thread,de Paul Thomas Anderson
Film Stars Don’t Die in Liverpool, de Paul McGuigan
The Florida Project, de Sean Bake
Lady Bird, de Greta Gerwig
Ready Player One, de Steven Spielberg
Mission: Impossible, Fallout,de Christopher McQuarrie

Por outro lado, tive muito tempo para ler, e, felizmente, não me faltou a disposição e a concentração necessárias para a leitura, tirando breves períodos em que não o conseguia mesmo fazer, como os pós-operatórios ou os momentos em que as infecções atacaram com mais força.

Não me lembro, em anos mais recentes, de ler tantos livros como neste que agora termina. Li livros de alguns dos meus autores preferidos (Rubem Fonseca ou Graham Greene, por exemplo), descobri uma nova escritora nórdica de policiais (a Sara Blaedel), fiz, ainda que poucas, releituras, li óptimas autobiografias.

Mas sobretudo li muitas bandas desenhadas e novelas gráficas. Não apenas porque era uma leitura que exigia menos compromisso nos momentos mais complicados, mas sobretudo porque descobri dois autores maravilhosos,que despertaram em mim a vontade de ler tudo o que escreveram e desenharam: Miguelanxo Prado e, principalmente, Jiro Taniguchi. Os livros do mestre japonês de mangá foram mesmo uma das poucas coisas boas que me aconteceram este ano, e muitas vezes a beleza das histórias, a sua natureza contemplativa e introspectiva, e uma espécie de sabedoria emocional profunda, me ajudaram a ultrapassar momentos verdadeiramente difíceis.

Público a seguir as capas dos meus cinco livros preferidos de 2018, e depois a lista completa dos livros lidos, agrupados por géneros, línguas, e afinidades afectivas.



Livros

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula - Epílogo
Afonso Cruz, Jalan Jalan
Pedro Rolo Duarte, Não Respire
Rita Ferro, A Menina É Filha de Quem? (no Kindle)
José Saramago, O Último Caderno de Lanzarote

Rubem Fonseca, O Selvagem da Ópera
Rubem Fonseca, O Seminarista (no Kindle)
Eduardo Pitta, Persona (releitura)
Isabela Figueiredo, O Meu Tio
Afonso Reis Cabral, Uma História de Pássaros
Mia Couto, Mulheres de Cinza
Mia Couto, A Espada e A Zagaia
Mia Couto, O Bebedor de Horizontes
José Eduardo Agualusa, Vendedor de Passados (no Kindle)
Mário de Carvalho, Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos
Carlos Ademar, Na Vertigem da Traição
Luís Rainha, Adeus.
Germano Almeida, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo
Nuno Oskar, Todo Teu - Aniversário (no Kindle)

Adília Lopes, Estar em Casa
Alberto de Lacerda, Labareda
Joaquim Manuel Magalhães, Para Comigo

John Boyne, The Heart's Invisible Furões (no Kindle)
Alan Bennett, The Complete Talking Heads
Jerome K. Jerome, Three Men On A Boat (releitura, no Kindle)
Haruki Murakami, Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida (no Kindle)
Haruki Murakami, A Rapariga Que Inventou Um Sonho
Dawn French, Oh Dear Sylvia
Melissa Pimentel, Procura-se Homem (Sem Compromisso)
ET Ville, Bump This (no Kindle)
Alan Hollinghurst, O Caso Sparsholt
Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco
Arturo Pérez-Reverte, Falcó
Arturo Pérez-Reverte, Eva

Graham Greene, O Terceiro Homem
Graham Greene, Ways of Escape
Robert Graves, Eu Cláudio
Yuval Noah Harari, Sapiens: História Breve da Humanidade
Paul Theroux, Sul Profundo
Patrick Leigh Fermor, Tempo de Silêncio
Felice Picano, Nights at Rizzoli (no Kindle)
Augusten Burroughs, Lust & Wonder (no Kindle)
Marina Abramovic, Walk Through Walls
David Lynch, Espaço Para Sonhar

Nelson DeMille, Vertigem Assassina
Sara Blaedel, As Raparigas Esquecidas
Sara Blaedel,O Trilho da Morte
Sara Blaedel, As Mulheres da Noite
Sara Blaedel, A Mulher Desaparecida
C.J. Tudor, O Homem de Giz
Lars Kepler, O Porto das Almas
Lars Kepler, O Caçador

Amedeo Balbi e Rossano Piccioni, Cosmicomix - A Descoberta do Big Bang
Miguelanxo Prado, Presas Fáceis
Miguelanxo Prado, Ardalén
Miguelanxo Prado, A Vida é Um Delírio
Miguelanxo Prado, Traço de Giz
Jiro Taniguchi, O Homem Que Passeia
Jiro Taniguchi, Terra de Sonhos
Jiro Taniguchi, O Diário do Meu Pai
Jiro Taniguchi, El Gourmet Solitario
Jiro Taniguchi, Paseos de Un Gourmet Solitario
Jiro Taniguchi, A Zoo in Winter
Jiro Taniguchi, Os Guardiões do Louvre
José Carlos Fernandes, A Agência de Viagens Lemming
Will Eisner, Um Contrato Com Deus
Edgar P. Jacobs, A Armadilha Diabólica
Yves Sente, O Julgamento dos Cinco Lords
Yves Sente, O Vale dos Imortais, Livro I

Granta 1, Fronteiras
Granta 2, Deuses

o selvagem, para comigo, o caçador
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Rubem Fonseca ensaia uma biografia pouco convencional e surpreendente do compositor e maestro brasileiro Carlos Gomes.

Hoje muito pouco conhecido, Gomes, o selvagem, caipira e caipora, foi, no século XIX, autor de várias óperas, algumas delas representadas no célebre Scala de Milão (e, já agora, no São Carlos de Lisboa), tendo vivido e trabalhado a maior parte da sua vida em Itália, mas sempre fiel à pátria e ao imperador.

Se o livro se distingue do que habitualmente encontramos na obra do autor, nem por isso foge à excelência da sua escrita e ao seu génio narrativo.


Em Para Comigo, Joaquim Manuel Magalhães revê, mais uma vez, a sua poesia, republicando dois livros, um deles que apenas conhecera edição de autor, e, o outro, o tão celebrado Toldo Vermelho.

Numa altura em que leio pouca poesia, os poemas de JMM atraem-me, primeiro pelo desafio, depois pelo mistério que vamos aprendendo a desvela a cada leitura.


O Caçador, da dupla sueca que assina com nome de Lars Kepler, traz-nos de volta Joona Linna. Podemos dizer que é mais do mesmo, mas para quem gosta, é eu gosto, isso é uma coisa boa.

consolo
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Faz hoje quatro anos levei a minha mãe para ser internada nos cuidados paliativos. Hoje, no culminar de um annus horribilis, qual cereja no topo do bolo, fiquei internado no hospital com mais uma infecção. Passo cá o natal, e, se as coisas não correrem de feição, posso ficar internado até ao ano novo, para poder fazer todo o curso do antibiótico.

Tive visitas, fiz a minha aula de italiano, li um pouco, e agora a única coisa que me fazia falta era poder ligar à minha mãe, ouvir a sua voz, sentir o seu consolo.