muito pouco ou nada
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No mercado da vida, somos um produto que vai desvalorizando com o tempo. Comprometemo-nos com cada vez menos. O nosso preço é cada vez mais baixo.

O número de coisas que pertencem ao grupo daquilo que nos é essencial, é cada vez mais reduzido. À medida que vamos perdendo aquilo que antes nos parecia tão importante, percebemos que somos cada vez mais reduzidos, mais curtos. E também menos altivos, mais humildes. Já não exigimos grande coisa da vida. Pedimos-lhe com jeitinho que nos dê qualquer coisinha.

Estou novamente internado no hospital, desde há dois dias e sem saber bem o que vai acontecer ou quanto tempo vou ter de ficar. Mais uma situação bastante grave mas que, três depois, parece começar a evoluir mais favoravelmente.

Uma pessoa que me veio visitar hoje comentou que neste momento o objetivo é eu voltar àquilo que era há uma ou duas semanas.

E realmente... Aquilo parecia pouco, nomeadamente em termos de qualidade de vida, ainda mais se comparado com o que tinha há dez anos. Mas, caraças, visto daqui esse pouco parece tanto!

Ele nunca virá a sabê-lo, mas este texto é dedicado ao meu gato.

trilho da morte, porto das almas
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Desde a última vez que actualizei aqui o meu registo de leituras, li apenas dois livros policiais: O Trilho da Morte, de Sara Blaedel, e O Porto das Almas, de Lars Kepler.



Foi a segunda obra que li da Sara Blaedel, um autora de literatura policial dinamarquesa, que, não sendo propriamente uma continuação, se move no mesmo contexto (de personagens, geográfico, de acontecimentos) da obra dela que li anteriormente, As Raparigas Esquecidas. Apesar de não haver razões muito objectivas para o justificar, acho que este livro me divertiu mais do que anterior.



Creio que os leitores e fãs de todo o mundo ficaram desapontados com o livro de Kepler, O POrto das Almas, e a razão principal tem a ver com o facto de não se tratar de mais um episódio das aventuras de Joona Linna, mas do início de uma nova série, com um contexto de fantástico e sobrenatural, o que foi bastante surpreendente.

Confesso que também a mim me causou irritação este novo universo, até porque não sou grande admirador da literatura do sobrenatural. E causa-me mesmo algum incómodo esta coisa da transmigração das almas entre o reino dos mortos e o dos vivos. Talvez agora ainda mais, por causa da situação de saúde que estou a viver, mas sempre me incomodou, e nem é tanto porque eu seja impressionável, mas é mais porque sou supersticioso, e acho que dá azar falar de determinadas coisas para fins relativamente superficiais, como seja escrever best-sellers.

Mas o talento da dupla de escritores suecos que estão por trás do pseudónimo, mantém-se absolutamente incólume, sobretudo a sua capacidade de “agarrar” o leitor, e obrigá-lo a virar sempre mais uma página, a ler mais um capítulo.

milos forman
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Chegou, este fim de semana, a notícia triste da morte de Milos Forman, o realizador norte-americano de origem checoslovaca. Há alguns anos que não dirigia, o seu último filme tendo sido os Fantasmas de Goya, de 2006. E apesar de não ter sido um realizador muito prolixo (menos de vinte filmes numa carreira de director que começou em inícios dos anos sessenta, ainda na Checoslováquia), Forman realizou uma mão-cheia de grandes filmes, alguns deles grandes exitos populares e da crítica.

De resto, acho que nunca vi um filme de Forman de que não tenha gostado, a começar dos ainda da fase checa, Os Amores de Uma Loira e O Baile dos Bombeiros. Voando Sobre Um Ninho de Cucos e Amadeus serão porventura os seus filmes mais conhecidos, tendo o primeiro sido um dos três únicos filmes a ganhar os cinco principais oscars da Academia: melhor filme, melhor realizador, melhor argumento, melhor actor e melhor actriz.

Estive a pensar naquele que seria o meu Top 5 dos filmes de Milos Forman. Acho que em primeiro lugar poria, ex-aequo, O Amadeus e o Man On The Moon, que é um filme que eu adoro. Em terceiro, também ex-aequo, o Voando Sobre Um Ninho de Cucos e o Hair, um filme ainda dos anos 70, e que me marcou imenso. Para o quinto lugar, hesito muito entre o Valmont e o Ragtime, mas acho que escolho o primeiro. Apesar de contar com a Annette Benning no papel de Marquesa de Merteuil, o filme estreou na ressaca do grande êxito que tinha sido Dangerous Liaisons, do Stephen Frears, e que tinha um cast electrizante: John Malkovich, Glenn Close e Michelle Pfeiffer.

Para além dos filmes que adorei, tenho ainda uma outra dívida pessoal para com o Milos Forman: numa das minhas idas a Londres, tentei ir ver Amadeus, acabado de estrear. Apesar de ter ido várias vezes à porta do cinema tentar arranjar bilhete, as sessões estavam sempre esgotadas. Acabei por só ver o filme já em Coimbra, mas ainda nessas férias comprei a banda sonora do filme e foi um coup-de-foudre. Agradeço pois a Forman esta paixão pela música de Mozart, que ficou para sempre.

these are the days of our lives
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Continuo a comover-me com esta canção dos Queen e com este clip, como da primeira vez que lhe percebi o sentido.

Todos conhecemos o seu contexto e percebemos o sentido que ela ganhou: a canção incluída no último disco de originais que os Queen gravaram e editaram com Freddie Mercury ganhou a reverberação de ser uma espécie de despedida dos fãs da banda e sobretudo do seu frontman.

O vídeo clip é muito expressivo neste contexto: gravado poucos meses antes de Freddie morrer, o cantor aparece sem makeup ou outros artifícios que pudessem disfarçar a gravidade do seu estado de saúde, e a sua irreversibilidade. O olhar de Freddie várias vezes atravessa o ecrã, e dirige-se a nós, como se FM se estivesse a despedir de cada um de nós individualmente. As últimas palavras que pronuncia, quase em murmúrio, soam a uma magoada mas estranhamente doce, despedida, é verdade, mas também a uma espécie de famous last words definitivas.

Mas como todas as boas canções pop, também esta nos permite descobrir nela ressonâncias pessoais, ficando a vibrar como uma homenagem à nossa juventude e aos melhores anos das nossas vidas, mas olhadas com o olhar apaziguado e tranquilo de quem continua a gozar cada minuto da sua vida.

E é também uma canção e um clip que nos dizem muito acerca de Freddie Mercury. Nomeadamente, o modo como um artista, mesmo estando muito doente e consciente do fim iminente, não deixa de estar em completo domínio do seu jogo, da sua performance. É espantosa, e muito comovente, a maneira como Freddie Mercury se despede (dos fãs, dos amigos, de cada um de nós), mas ao mesmo tempo o show must go on, e ele brinca e seduz e faz o seu ofício, para cumprir aquilo que sempre todos esperamos dele como de qualquer outro artista: que nos faça reconciliar com a vida, que nos acrescente a possibilidade de sermos mais felizes.

Sometimes I get to feelin'
I was back in the old days - long ago
When we were kids when we were young
Thing seemed so perfect - you know
The days were endless we were crazy we were young
The sun was always shinin' - we just lived for fun
Sometimes it seems like lately - I just don't know
The rest of my life's been just a show

Those were the days of our lives
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing is true
When I look and I find I still love you

You can't turn back the clock you can't turn back the tide
Ain't that a shame
I'd like to go back one time on a roller coaster ride
When life was just a game
No use in sitting and thinkin' on what you did
When you can lay back and enjoy it through your kids
Sometimes it seems like lately - I just don't know
Better sit back and go with the flow

Cos these are the days of our lives
They've flown in the swiftness of time
These days are all gone now but some things remain
When I look and I find no change

Those were the days of our lives - yeah
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing's still true
When I look and I find
I still love you

I still love you

news
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Ontem nasceu um sobrinho-neto novo. E vão três. Ainda não sei o nome, mas já vi fotos e é lindo. Foi a única coisa boa (maravilhosa, claro), de uma semana muito difícil.

Na segunda-feira, comuniquei ao médico que ia fazer o tratamentos e o seguimento noutro hospital. Na terça, fiz uma cintigrafia que não correu bem. Por causa da dificuldade dos meus acessos venosos, foram duas horas a tentar puncionar a veia, e no fim o radiofármaco perdeu-se e o exame não pode ser concluído. Na quarta-feira fui submetido ao primeira de uma longa série de tratamentos. Para já são seis, depois repetem-se a intervalos regulares. Serão dois anos de tratamentos. Na quinta, fiz análises ao sangue, e tenho a hemoglobina baixa e creatinina elevada. Hoje, finalmente, consegui fazer a cintigrafia, mas sempre com uma dose razoável de desconforto por causa dos acessos venosos.

A luta continua, pois claro, Mas o problema é que já ando nisto há seis anos, e começo a ficar com pouca resiliência. Além de que já vivi este filme todo uma vez, e sinto um enorme desânimo por já saber exactamente de que maneira a nossa vida fica transformada. E falta-me quem, da outra vez, me conduziu através dos tempos difíceis, sem me deixar sucumbir.

Mas tenho um sobrinho-neto novo, ele é lindo, e por isso hoje é dia de pensar em coisas bonitas e positivas.

slow motion
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“Já à chegada a (Cidade de) Guatemala houve um incidente mesmo à frente do nosso autocarro: dois cães completamente desorientados meteram-se no meio do tráfego infernal da auto-estrada e, claro, um deles foi atropelado e provocou um acidente entre o carro que o atropelou e uma motocicleta. O condutor da motocicleta deu uma cambalhota mas não pareceu ter-se magoado muito. O carro desapareceu, mesmo sem pára-choques traseiro. Claro que eu não olhei, para não ver e ficar marcado pela imagem do acidente, mas mesmo assim impressionou-me olhar para os cães e perceber que iam morrer logo a seguir.”

Escrevi este texto aqui há muitos anos, este incidente que descrevo passou-se faz amanhã exactamente 9 anos. Recordo muitas coisas das minhas viagens, mas este episódio nunca me saiu da mente, nunca esqueci por completo o sentimento de angústia que senti. Sei que soa a clichê, mas de facto há momentos, alguns bem recuados no tempo, que continuamos a rever na nossa mente como que em câmara lenta. E que normalmente se referem a situações de angústia alheia a que assistimos, em que o tempo parece suspender-se e tudo à nossa volta desaparece, quase como se, de repente, tivéssemos acesso às grandes dores do mundo, dos outros, sejam eles uma pessoa ou um animal.

Um dia, não sei se já falei disso aqui, ia a sair da megastore da Virgin, em Oxford Street quando, mesmo à minha frente, estacionou um carro. Um ciclista, que seguia velozmente atrás do automóvel, começou a ultrapassá-lo no preciso momento em que o condutor do automóvel abriu a porta para sair. A bicicleta embateu na porta, e o ciclista foi projecto por cima do capot do carro e estatelou-se no chão, batendo com a cabeça na esquina do lancil. Isto tudo passou-se mesmo diante dos meus olhos, eu fiquei parado a olhar, completamente absorvido por aquela sequência de acontecimentos. Poucos momentos depois de embater com a cabeça no lancil, e ainda antes de haver tempo para outras pessoas que assistiram à cena acorrerem ao ciclista, um fino fio de sangue começou a escorrer-lhe do ouvido. Eu desviei o olhar, aliás deixei sequer de conseguir ver, tapado pelas pessoas que se acercaram, e afastei-me rapidamente, sem qualquer curiosidade em saber o que se passou a seguir.

maria de jesus costa
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Em 1962 assinalaram-se os 75 anos da elevação de Lourenço Marques à condição de cidade (substituiria a Ilha de Moçambique enquanto capital de Moçambique em 1898). Na altura as autoridades locais (não sei se provinciais ou apenas municipais) decidiram distribuir medalhas ao mais antigos residentes da cidade.

A minha bisavó Maria, com quem convivi nos primeiros 5 anos de vida, residia ininterruptamente na cidade desde 1896, depois de uma primeira estadia em 1894. E nunca mais dela haveria de sair, nem de férias, até ter morrido, em 1967, creio que no mês de agosto. Recebeu, por isso, uma medalha, assinalando que era residente de Lourenço Marques há mais de sessenta anos.

ready player one
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Ready Player One faz lembrar o melhor que Steven Spielberg fez no campo do cinema de aventuras, em especial em finais dos anos 70 e no anos 80, desde logo porque recupera o espírito de pura aventura desses tempos, em que o próprio plot do filme nos oferecia a leitura de que a aventura, e por decorrência o cinema desse género, nos oferecem a possibilidade de escapar das nossas vidas medianas e complicadas, quando a família ia perdendo o estatuto de lugar de refúgio e harmonia do ser humano.

Mas RPO não só recupera por inteiro esse espírito e esse tom, como o faz ambientando o filme a um universo de referências da cultura pop dessa época, da música ao próprio cinema, com destaque para o mundo dos jogos electrónicos que começou a ser criado e a crescer precisamente nessa época. Alguns desses jogos iniciais são mesmo a chave que desvenda os passos decisivos desta aventura.

Mas se Spielberg pretende recuperar um certo conceito de cinema de aventuras (precisamente aquele que ele próprio ajudou a criar, três ou quatro décadas atrás), RPO, ao investir-se quase completamente no ambiente vertiginoso da realidade virtual, perde, por outro lado, uma característica essencial desse cinema, e que era o seu lado humano. Com efeito, em RPO os avatares do jogo sobrepõem-se quase inteiramente aos personagens do filme, e um filme sem personagens desenvolvidas e credíveis corre sempre o risco de se transformar menos numa narrativa e mais… num jogo de computador.

Outra coisa que se perde dos filmes desses gloriosos tempos do aparecimento do moderno cinema de aventuras, é um certo carácter artesanal (o cartão pintado e a cola) dos efeitos especiais, que vivia sobretudo da habilidade da câmara e do plano. Claro que agora o jogo (trocadilho intencional) é outro, mas nem por isso há razões de queixa: como sempre acontece nos filmes de Spielberg, nunca os efeitos especiais são a atração principal, antes estão sempre submetidos à lógica e ao desenvolvimento da narrativa. Aliás, eu vi o filme em versão 2D e um tipo fica ali cheiinho de vontade de ver aquela vertigem toda em 3D.

ao menos lê-se
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Aproveitei o período da hospitalização e depois o tempo que estive em casa a recuperar, para ler. Concluí alguns livros que tinha começado a ler ( Jalan Jalan, de Afonso Cruz, por exemplo), “devorei” dois livros de Miguelanxo Prado (o fabuloso Ardalén e as short stories de Os Delírios do Quotidiano), completei a trilogia que Mia Couto dedicou à figura do último imperador de Gaza (A Espada e a Azagaia, o meu preferido da série, e O Bebedor de Horizontes), descobri uma nova escritora de policiais dinamarqueses (Sara Blaedel, de quem li As Raparigas Esquecidas, e já tenho outro dela para ler), e li Estar Em Casa, o mais recente volume de Adília Lopes.Transcrevo para aqui as curtas recenções que fiz a dois destes livros, começando precisamente pelo da Adília.



Na sequência de Manhã e Bandolim, Estar em Casa traz-nos de volta os poemas e textos curtos em que Adília Lopes brinca com a sua autobiografia e as suas memórias.

Agora que praticamente deixei de ler poesia, estes livros da AL levam-me a sítios onde poucos outros me conseguem levar.

Um lugar raro de onde podemos contemplar a beleza do mundo, que está sempre nos olhos de quem contempla. A beleza simples e pura, frágil e desamparada.

Só o choro parece ser resposta à altura a que estes textos nos elevam.



Deslumbrante, o álbum Ardalén, de Miguelanxo Prado, que nos conta uma história sobre a memória e as recordações, mas também sobre o fascínio do mar, da viagem e dos mapas, mas sobretudo sobre a fantasia e a capacidade de efabulação.

MP é exímio no grafismo mas também na escrita, na força do argumento. Cinco estrelas, só porque não há mais.


decisões inadiáveis
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Não sei se me apetece muito escrever sobre o assunto, mas vai chegar um dia em que vou procurar uma referência aqui no blog, e por isso, mais não seja para memória futura, é melhor deixar registo.

Nas últimas semanas tenho andado, mais uma vez, às voltas com a minha saúde. Fui de novo operado a recidiva de carcinoma urotelial, no passado dia 13 de março. Foi a quarta recidiva, o que, contando com a primeira intervenção em maio de 2012, e outra, em setembro de 2016, para fazer uma meatotomia, perfaz um total de seis intervenções cirúrgicas num período de tempo inferior a seis anos.

Desta vez, as lesões não só tinham uma localização diferente das anteriores, como tinham características morfológicas diferentes. Ainda não percebi se isso é só mau, se é muito mau, ou se não é nem uma coisa nem outra. Seja como for, vou ter de fazer um tratamento, que durará cerca de um ano, e se deve iniciar nas próximas semanas. Tanto quanto sei, e apesar de ter alguns efeitos secundários, este tratamento não é tão agressivo nem provoca tantos “danos colaterais” como a quimioterapia sistémica.

Há outras questões relacionadas com este problema e com o tratamento e o controlo e vigilância que vai ser necessário fazer, que ainda estão em curso, e que implicam decisões importantes, que são difíceis de tomar mas penso que inadiáveis.

Mas pelo menos acho que consegui resolver, ou pelo menos encontrar uma solução para o meu problema de mobilidade, e que me possibilita continuar a viver num apartamento que fica num terceiro andar num prédio sem elevador. Não só, para mim, para a minha disposição anímica, era muito difícil o processo de ter de mudar de casa, como ainda por cima eu gosto muito da minha casa, que tem muita luz, apesar de ser fria no inverno e quente no verão, talvez por ficar no último andar.

antes quebrar que torcer?
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A propósito de um comentário que fiz na página do facebook de um amigo, lembrei-me daquele ditado que diz "antes quebrar que torcer".

Isto é dito em tom de elogio, como se fosse uma qualidade, mas parece-me que não estou muito de acordo. Acho até que é uma fraca característica, essa de alguém que quebra, e não se consegue adaptar às circunstâncias, não tem flexibilidade o suficiente para aguentar uma ventania mais forte sem se partir.

Nesse aspecto prefiro ser como o choupo: parece frágil, ali torcendo-se todo, muito agitado, mas passada a tempestade, no meio de tanto ramo e tronco quebrado de outras árvores mais fortes e possantes, volta ao manso ondular da brisa.

Prefiro ceder. Prefiro torcer-me todo, tocar o chão se for preciso, mas depois regressar à tranquilidade possível, continuar a ser eu, e mais ou menos inteiro.

A vida deu-me sempre várias oportunidades de quebrar, e começou cedo. Nos últimos anos, então, tem sido demais, e os prognósticos para o futuro mais próximo não são assim muito animadores. Mas espero que, mais torcedela menos torcedura, a coisa vá permanecendo inquebrável.

ar condicionado
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"Ainda sou do tempo em que a FNAC apenas se dedicava à comercialização de aparelhos de ar condicionado. Era a Fábrica Nacional de Ar Condicionado. Mais tarde, a marca radicalizou de forma agressiva a sua estratégia empresarial, passando a abrir lojas em centros comerciais, e alargando a gama de equipamentos eléctricos e electrónicos para o lar que comercializa. Uma espécie de Worten para os segmentos A e B. Incidentalmente também vende livros, filmes e discos, mas só por uma questão de prestígio."

Escrevi este texto no facebook durante uma insónia que me deu esta madrugada, e hoje de manhã decidi po-lo aqui, porque me pareceu bem escrito e divertido.

Entretanto, lá no facebook, uma amiga comentou que eu estava nostálgico, e um amigo de longuíssima data e muito próximo, comentou que eu estava a confundir as duas fnacs, a fábrica nacional de ar condicionado, que faliu há muitos anos, e a multinacional francesa de produtos culturais.

Já aqui escrevi que fazer ironia é como deslizar numa superfície de gelo fina e quebradiça. Também se confirma que não é nada boa ideia pormo-nos a escrever coisas no facebook às quatro da manhã.
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ar de além
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Estou a ler um livro (maravilhoso, já agora), de Miguelanxo Prado, Ardalén, que é sobre a memória e as recordações. A páginas tantas, evoca-se a infância de um velho lobo do mar, que é uma das personagens principais. Foi uma criança solitária, que folheava o Atlas Universal, sonhando com mapas e viagens. O Atlas também foi um dos meus objectos preferidos na infância e na juventude, e ainda guardo dois ou três, desses tempos. Hoje, o meu fascínio pelos mapas resulta em horas e horas de passeios pelo Google Earth.

Ao virar uma das folhas do Atlas, a prancha de Miguelanxo fixa um mapa de Madagáscar e das Ilhas Comores, onde ainda se vê, a fugir já para a margem do papel, a costa africana, e distinguem-se claramente dois nomes: Mozambique, a Ilha de Moçambique, e Baie de Conducia, a baía da Condúcia, onde ficava a Praia das Chocas da minha infância. Lugares maiores da minha memória, e que revisitei em janeiro de 2003, quando regressei pela primeira vez a Moçambique.

Mas ainda mais, é também o lugar onde o meu irmão vive actualmente, onde ele está neste preciso momento. O lugar que ele escolheu para viver, e que eu poderia ter visitado, de novo, o ano passado, quando os meus sobrinhos lá foram, se não fosse a minha condição de saúde.

São também estas as qualidades da literatura: ajudar-nos a viajar pela nossa memória, e levar-nos aos lugares que a vida tornou inacessíveis.

é mais ou menos isto
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No meio destes dias de intempérie plúmbea e furiosa, lembro-me de comermos talhadas de melancia ao pequeno-almoço: a casca de um verde forte e luminoso, as pevides negras e duras, a polpa carnuda e vermelha, doce e rija, a água a escorrer-nos pelas mãos e pelos braços. Pronto, é mais ou menos isto.

Ou um final de tarde, no meio da selva, na Guatemala. Os outros foram, na sua maioria, para as ruínas da cidade maia, para verem o pôr do sol do alto das pirâmides. Ficámos, dois ou três, na esplanada ao lado da piscina, a beber gins e a ouvir os macacos rugir como leões.

lady bird
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Lady Bird, escrito e realizado por Greta Gerwig, é muito eficaz a traduzir-nos essa espécie de doença, trágica e ridícula, mas felizmente curável, que é a adolescência. Mas onde o filme é mais eficaz e fascinante, julgo eu, é na teia complexa e subtil que vai tecendo sobre as relações, afectivas, de poder e autoridade, emocionais, no seio da família McPherson, com particular enfoque no binómio mãe e filha, mas sem desprezar todos os restantes, e todos mais ou menos secretos, membros da família. A Saorsie Ronan confirma-se como uma actriz irresistível, mas nem sempre acreditamos que é uma adolescente de 18 anos. Só porque é mais bonita.
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(no subject)
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Só uma actualização rapidinha para registar duas leituras, antes que fiquem irremediavelmente lá para trás. Entretanto, comecei a ler dois livros e provavelmente este fds começarei um terceiro. Espero depois ter ânimo e disponibilidade para os terminar a todos.



Grande livro, adorei. Miguelanxo Prado conta-nos uma história infelizmente muito próxima de nós, e que tem a ver com a crise financeira, e com o assalto perpetrado, ou ao menos tolerado, pelo Estado à classe média e às pensões e poupanças dos idosos, para benefício dos bancos que foram, em primeiro lugar, responsáveis pela própria crise. Essa história é apresentada sob forma de um thriller policiário bem esgalhado, e com um domínio total, quer do desenho, quer da narrativa. Já encomendei na livraria todas as obras do autor que se encontram disponíveis.



Como é que eu me apanho a ler uma obra de 'chick lit', um género totalmente lateral ao meu target (que é relativamente amplo, apesar de tudo)? Exactamente, foi essa a pergunta que eu também fiz a mim próprio durante os breves dias que demorei a ler este "Procura-se Homem". Mas ofereceram-me o livro, e eu achei que devia ler, no pressuposto de que ia ser uma leitura rápida, leve e divertido. E foi, pelo menos q.b., no que toca ao divertimento.

1111
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No texto que publiquei ontem, falei incidentalmente da canção Uma Nova Maneira de Encarar O Mundo, do Quarteto 1111, e, claro, fiquei o resto do tempo com a canção a rodar na minha jukebox mental. Acho que é das canções mais bonitas que Zé Cid e o Tozé Brito escreveram, e só não digo que é das mais bonitas dos 1111, porque a carreira da banda, sobretudo o primeiro disco, homónimo, está cheio de canções fantásticas, tão bonitas como essa.

Tenho uma relação muito antiga e intensa com a música do Quarteto 1111. Devo-a exclusivamente ao meu irmão, pois aprendi as canções, e ainda sei a maior parte delas de cor, com o meu irmão a cantá-las e a tocar viola. A Lenda de El Rei D. Sebastião e a Balada para D. Inês, naturalmente, mas também o Domingo em Bidonville, Nas Terras do Fim do Mundo, Meu Irmão, ou uma das minhas preferidas, João Nada, a quem fui roubar o avatar que usei muito tempo nas redes sociais. E apesar de já ter ouvido muitas vezes as gravações destas canções, não preciso de fazer um grande esforço de concentração da memória para conseguir recordar-me do meu irmão a cantá-las.

Quando, nos inícios do anos 70, o José Cid e o Tozé Brito fundaram o projecto paralelo Green Windows, tornaram a gravar o tema. As duas versões são muito coincidentes, mas na gravação dos GW é mais reconhecível a voz do Tozé Brito, nomeadamente no pequeno texto falado, logo na introdução da canção. Não se pode dizer que eu prefira qualquer uma delas, e só escolho por aqui a versão original, porque quando penso na canção, associo-a sempre aos 1111.


uma nova maneira de encarar o mundo
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Comecei há dias a ler o livro Jalan Jalan, da autoria de Afonso Cruz. Já aqui há uns anos tinha feito uma tentativa de ler um livro do autor, mas desconsegui, como se diz na minha terra. Desta vez, atraíram-me os temas e a própria estrutura do livro: textos curtos, reflexões despoletadas por leituras ou por pequenos episódios da vida real, quase sempre dominados pelo signo da viagem. Talvez o que me tenha atraído é o facto de, assim descritos, remeterem para os textos de um blog, que é aquilo que eu gosto de escrever.

Logo nas páginas iniciais do livro, Afonso Cruz explica que Jalan Jalan, na Indonésia, sugere a ideia de passeio. Jalan significa andar, e a repetição traduzirá a ideia de andar para andar. Jalan também significa rua, e eu lembrei-me de que tem esse mesmo significado na Malásia, e até tenho uma fotografia tirada no bairro da chamada comunidade portuguesa de Malaca, à placa toponímica da Jalan D’Albuquerque.



Ontem uma passagem do livro fez-me pensar que, do ponto de vista dos acontecimentos do mundo, os dois acontecimentos que mais me marcaram pessoalmente, foram a Queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e o ataque ao World Trade Center de Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001. A nossa visão do mundo vai-se construindo aos poucos, à medida das nossas vivências diárias, dos acontecimentos políticos e sociais que se vão sucedendo no quotidiano. Os dois acontecimentos que referi tiveram o efeito de destruir em minutos, essa visão do mundo que tinha levado uma vida a construir, e obrigaram-me a, entre o perplexo e o desnorteado, tentar perceber “uma nova maneira de encarar o mundo” (para roubar uma frase feliz de uma canção tão notável quanto antiga, do Quarteto 1111).

De sentido contrário, houve dois acontecimentos que marcaram muito positivamente a minha vida, embora tenham sido de natureza exclusivamente pessoal: os três meses, de abril a junho de 1998, que vivi numa pequena cidade do Wisconsin, no midwest dos Estados Unidos, e as três semanas de janeiro de 2003 que assinalaram o meu regresso a Moçambique, depois de uma ausência de 27 anos. Com o primeiro, aprendi a conhecer e a amar a América e os americanos (é impossível amar sem conhecer, ao contrário do que acontece com o ódio), e cresci muito do ponto de vista pessoal, descobri que conseguia funcionar sozinho no mundo, aprendi a identificar e nomear os meus medos, quase com a clareza de um taxonomista. O regresso a Moçambique, por outro lado, parece que ainda foi mais importante para mim, porque me permitiu reencontrar uma parte de mim que eu nem sabia que tinha perdido, e que só quando a encontrei percebi a dimensão da falta que me fazia e quão importante era para mim. Acho que posso dizer que aquele eu que voltou de Moçambique era já, passadas escassas três semanas, uma pessoa diferente do eu da viagem de ida.

A nível afetivo houve duas pessoas, ou melhor duas relações que me marcaram de forma indelével:a primeira vez que verdadeiramente amei uma mulher, que me apaixonei perdidamente, teria uns 25 anos, mais ou menos. Essa mulher tornou-me uma pessoa melhor, mais sabedora, mais voltada para fora e para o mundo, mais culta. Não porque ela fosse isso tudo, mas porque me levava a ser. E a primeira vez que me apaixonei, tinha 37 anos, por um homem, e vivi a mais alucinante história de amor que me aconteceu, cheia de aventuras e experiências. Foi um amor breve, mas que demorei anos a processar e a digerir, e deu-me muito do que tenho hoje, até a vontade e o gosto de escrever.

Deixei de fora a doença. A doença grave que tive, quando tinha 21 anos, e que ocupou dois anos da minha vida, e a que nos últimos 6 anos domina toda a minha vida actual. A doença, quando é grave, é a coisa mais devastadora que pode acontecer numa vida. Aprendemos a viver com uma nuvem de chumbo a pesar-nos a alma, com o frio do cano do revólver permanentemente encostado à nuca. É como um buraco negro, que absorve toda a energia que nos anima, e nos deixa pouca margem para conseguir fazer coisas fora do seu domínio. Escrever, como ler, são como que um exercício de rebelião, uma tentativa de encontrar um ainda que minúsculo espaço de liberdade.

oscars e canções
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Longe vão os tempos em que eu metia um dia de férias na segunda-feira para poder ver em direto na TV a cerimónia de entrega dos Oscars. Agora, mal aguento ficar acordado depois das onze da noite, quanto mais… Mas deixei a gravar na box, e logo conto visionar a cerimónia com esse instrumento maravilhoso que é o botão de fast forward do comando.

Talvez por isso não me comoveram as premiações. Aliás, nem vi o grande vencedor, porque, francamente, achei que me faltava paciência para ver o filme. Tal como não vi o filme que deu ao Gary Oldman o oscar de melhor actor. Mas, por mim, qualquer prémio que se dê ao actor é bem atribuído, “for old times sake”. É que há coisas que a gente não esquece, e eu não me esqueço de, totalmente fascinado, ter descoberto o Gary Oldman a fazer de Joe Orton no filme Prick Up Your Ears, do Stephen Frears (um filme de 1987), e ainda sinto um arrepio quando me lembro do seu Dracula, no filme de Francis Coppola, de 1992.

Claro que o prémio de melhor interpretação feminina foi bem entregue à Frances McDormand. Pelo filme Three Billboard..., mas também por tudo o resto. Mas a minha paixão recente, foi a Annette Bening a fazer de Gloria Grahame, mas acho que ela nem sequer estava nomeada.


Não vi os oscars, mas vi o Festival da Canção e até votei e tudo. Só uma vez e na canção do Júlio Resende cantada por uma rapariga que no final dizia, em êxtase e muito afogueada, que tinha uma namorada. Não é todos os dias que vemos um statement tão alegre e excitado, para mais cantado com uma canção tão perfeita que só pode ter sido composta por um grande músico.

Mas ganhou outra canção, cantada por uma rapariga que entrou no último The Voice, e que tinha uma letra um bocadinho mórbida (ou então sou eu que li mal), mas tinha um som muito hipster. Eu gostei da canção, mas não achei grande ideia a autora da canção, que se chama Isaura que é um nome bonito e faz lembrar vagamente a kd lang (ponto a favor), passar o tempo quase todo sentada, de costas, com uma camisa que vista assim de repente parecia uma camisa de forças.

O que detestei no festival da canção é esta história do voto do público, que é facilmente manipulável, é permeável a todo o tipo de viés e distorções, e de facto só serve, única e exclusivamente, para dar dinheiro a ganhar às televisões. Aceitaria que o voto do público tivesse um peso relativo no resultado geral, mas fazer depender metade da pontuação do voto telefónico é quase ofensivo para o trabalho de todas as pessoas, na sua grande maioria profissionais da música e da canção, que aceitam integrar os diversos jurados. As duas canções, a da moça lesbiana e a da rapariga sáfica, terminaram com o mesmo número de pontos, tendo ganho a que teve mais tele-votos, quando, pelo resultado da votação dos júris regionais, teria ganho a outra com uma diferença pontual considerável. Acho estúpido. Aliás, todos sabemos que graças ao tele-voto, se as coisas tivesse corrido como planeado, tinha ganho um rapaz chamado Diogo Piçarra. Infelizmente, tratou-se de mais um caso de crianças raptadas pela IURD...

um dia de cada vez
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Estava programado eu ser internado ontem para ser, hoje, submetido a nova intervenção cirúrgica. Alertado por uma amiga, liguei para o serviço do hospital e informaram-me de que a cirurgia tinha sido adiada. Suponho que se não tivesse tido a iniciativa de ligar, tinha-me apresentado ontem de manhã, em vão, apenas para perder tempo e testar os níveis de stress.

Mas só ontem à tarde, depois de já saber que a cirurgia tinha sido adiada, é que me bateu que faz hoje, dia 2, três anos que a minha Mãe morreu. Não é que seja supersticioso (só um bocadinho, mas é a outro nível), mas perturba-me um pouco essa possibilidade de poder ser operado num dia tão triste para mim, tal como me perturba não ter, logo quando me marcaram a intervenção, associado a data.

Acho que ao longo destes anos, tenho confirmado que a data do falecimento dos meus pais diz-me pouco. Fico angustiado se começo a rebobinar mentalmente os filmes desses dias, mas não são datas que fiquem marcadas a negro o meu espírito. Ao contrário, continuo, nos dias dos seus aniversários, a sentir uma grande alegria, uma vontade de comemorar, de dar a esses dias um carácter fora de comum.

Esta semana foi terrível, e a minha resistência emocional tem sido submetida a duras provas. Logo na segunda-feira fui a uma consulta num centro clínico privado e foi uma experiência difícil. Vim de lá com poucas respostas e com um cenário muito negro. Tenho esperança de que tenha havido na coisa uma certa inabilidade do médico que me atendeu. Safou-se o almoço, gostei muito de almoçar na cafetaria, tem um nível de serviço que eu não me importaria nada de ver replicado na instituição onde trabalho.

Depois meteram-se as confusões, que infelizmente já se vão tornando habituais, com a minha cirurgia, porque nunca tenho certo que vou ser operado pelo cirurgião certo, e há alterações de última hora, que também não são inéditas.

Quando um tipo se prepara para fazer uma cirurgia, e para mais esta que se apresenta mais complicada do que as anteriores, precisa de tranquilidade e confiança, e, infelizmente, o hospital e o serviço onde sou tratado não me dão nem uma nem outra. De qualquer forma, tenho aqui uns dias de intervalo para respirar fundo e tentar reganhar um certo equilíbrio.

Já devo ter escrito isto aqui, mas quando temos um problema de saúde com alguma seriedade e com uma frequência muito desgastante, aprendemos o verdadeiro significado do velho lugar comum de que “é preciso viver um dia de cada vez”. E hoje é dia de sentir e de viver essa espécie de presença que é a ausência da minha Mãe. Mas isso, claro, é hoje e nos outros dias todos.

notícias do desporto e da vida
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Hoje há notícias do desporto. Ou serão da vida?

1

Na última jornada do campeonato português de futebol, num jogo contra o Moreirense, o sportinguista Gelson marcou o golo da vitória e, nos festejos, tirou a camisola, exibindo uma outra onde tinha escrito: “Cu bo ti fim de mundo”. Era uma forma de homenagear, dedicando-lhe o golo, um seu grande amigo, colega de profissão e que foi igualmente jogador no mesmo clube, e que está preso preventivamente em Espanha acusado de ter cometido crimes muito graves.

O árbitro castigou-o com o cartão amarelo, e, por acumulação de cartões, recebeu um vermelho e foi expulso. O treinador, um burgesso, ironizou com a situação, criticando o jogador pelo seu ímpeto irrefletido.

Eu, no seu gesto, apenas vi uma reacção emotiva e emocionada. Os nossos amigos precisam de nós quando estão em baixo, para não se sentirem tão sós no seu infortúnio, ainda que ele seja fruto da sua própria irresponsabilidade ou falta de juízo.

Entendo que o árbitro tenha tomado a única decisão que os regulamentos lhe permitiam. Teria preferido ver o seu clube e os seus colegas a apoiá-lo por um gesto que mostrou que é um homem grande, com o coração no sítio certo.

2

Um outro desportista, um judoca olímpico que esteve presente nos jogos do Rio, deu uma entrevista a um jornal desportivo. Nela, confessa que não soube lidar com o insucesso dessa participação, entrou numa espiral sombria, marcada por uma doença mental. Esteve retirado, e agora voltou a treinar, preparando-se para as qualificações para a próxima olimpíada.

Não consegui ler a entrevista, porque não está disponível online, pelo menos na sua integralidade, mas leio que, entre outras revelações, refere, por exemplo, que fez tentativas de suicídio, ou que é homossexual.

Como nunca tinha ouvido falar no seu nome, fui pesquisar na net informações sobre o atleta. Uma das conclusões a que cheguei é que é um campeão, sob todas as perspectivas. E os campeões têm tanto mais valor quanto a maior dificuldade das lutas que travam.

Também cheguei a conclusão que é um homem lindíssimo e, OMG, incrivelmente sexy. Tanto que, inclusivamente, já teve experiências como modelo de desfiles de moda.

Espero que a vida o trate bem, que lhe dê muita saúde e muitas oportunidades de lutar e vencer. O Célio Dias é daqueles tipos que só pelo facto de conhecermos a sua história, de acompanharmos o seu percurso, nos deixa, a todos nós, seres humanos, portugueses, orgulhosos e felizes.
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A LINHA DA VIDA
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calado e taciturno
o gato à janela
na praia um dia glorioso
e limonadas
o sol na areia
o sol no pelo do gato
esgotaram os jornais do dia
(aconteceu alguma coisa lá fora?)
135/77/71 às sete da manhã
a linha da vida
um rumor surdo e tumultuoso
o gato à janela
o sol
sábado
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the florida project
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Sentimentos misto em relação a The Florida Project, o filme que Sean Baker escreveu e realizou e que toma como tema e motor narrativo a vida num motel de renda barata nas traseiras agradáveis de um parque de diversões da Disney.

O filme é de grande eficácia na demonstração de que há vidas difíceis paredes meias com uma das faces mais alegres e exuberantes do capitalismo (do entretenimento), e consegue-o sem nunca resvalar para o confronto ideológico. Percebemos, pelos gestos que preenchem o quotidiano daquelas pessoas, que a vida é um beco sem saída, pintado de cores berrantes.

Muito conseguida é também a personagem de Bobby, o gerente do motel (grande trabalho de representação de William Dafoe, praticamente sem safety net), que carrega muita da ambivalência do próprio espectador. Longe de ser uma personagem neutra, ou neutral, Bobby sabe que trabalha com as margens mais disfuncionais da sociedade (ou da cidade?), e gere essa relação com doses de implacável disciplina mas também de complacência solidária.

O facto de o olhar do filme ser quase completamente focado das crianças, e além disso adoptar o próprio olhar das crianças, é outro dos factores positivos do filme, que o tornam tão irresistível como um conto de fadas, os contos de fadas que de facto alimentam os visitantes do parque vizinho. Dizer que passamos o tempo todo do filme completamente fascinados com Moonee, e a actriz que lhe dá corpo, Brooklynn Prince, dá bem a medida do impacto que uma e outra têm.

Por outro lado, achei o filme um pouco frágil do ponto de vista dramático. Dada a ausência de um conflito que nos conduza (num filme onde o conflito faz parte do programa), o argumento faz um esforço enorme para manter uma cadeia de peripécias e episódios que mantenha o espectador interessado. Nem o final surpreendente e radical consegue aquietar a necessidade de drama que o espectador tem, ao contrário aumenta-lhe a perplexidade.
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film stars don’t die in liverpool
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Acho que é difícil não gostar de Film Stars Don’t Die in Liverpool (desde logo pelo próprio título do filme), realizado por Paul McGuigan. Primeiro pela Annette Bening que é soberba. É delicioso ver o seu jogo, mas também é fantástico o desenho da personagem que ela entrega. Depois pela mistura de drama e comédia romântica tendo como pano de fundo o ambiente típico dos filmes ingleses que se passam nas working classes, e aqui a presença da Julie Walters é preciosa. Apesar de secundária, muito do tom do filme, da comédia e da seriedade e do compromisso, deve-se à sua personagem e ao seu trabalho. Outra razão para gostar do filme é a banda sonora, a começar com os acordes iniciais de Song for Guy, do Elton John, e a terminar na canção que Elvis Costello escreveu propositadamente para o filme.

Mas a glória do filme (trocadilho intencional) é a Bening, a forma como ela se dá fisicamente ao papel, o modo como seduz, quer o Peter Turner, quer todos nós espectadores. E a maneira crua, mas mantendo essa centelha de sedução, como vive a degradação física que acompanha os últimos momentos da vida de Gloria Grahame.
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mulheres de cinza, o meu tio, uma história de pássaros
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Lido o primeiro volume, Mulheres de Cinza, de uma trilogia que Mia Couto dedicou aos últimos dias do Império de Gaza, o grande reino que dominava todo o sul de Moçambique, e que os portugueses conquistaram no primeiro esforço sério feito para penetrar no interior do território moçambicano, já quem até aí, a ocupação se resumia a uma fraca presença em algumas localidades do litoral. Na última década do século XIX a capital portuguesa em Moçambique ainda era a Ilha de Moçambique, e só a partir destas campanhas de de ocupação de terrotório, com a transferência da capital para Lourenço marques, se pode dizer que verdadeiramente começa a ocupação colonial em Moçambique.

A minha infância foi povoada de histórias do Gungunhana, como o chamávamos em português, e do seu captor, o oficial Mouzinho de Albuquerque, que tinha uma estátua equestre na principal praça da cidade de LM. A minha bisavó Maria, que eu ainda conheci e com quem convivi diariamente, foi ver o Mouzinho a desfilar vitorioso pelas ruas da cidade, uma história que sempre ouvi contar a minha mãe.

O livro de Mia Couto conta a história desses últimos dias do império nGuni a partir de dois relatos alternados: o de uma rapariga de 15 anos residente de uma aldeia ocupada pelos portugueses, e o de Germano, sargento português, de facto o único ocupante do improvisado quartel da aldeia, através de correspondência que vai acentuando o desespero e a paranóia de quem está em estado de solidão total e se apercebe da inutilidade da campanha face à dimensão e à força da cultura local.

Mia Couto escreve, como já está estabelecido há muito, magistralmente, e o que mais apreciei no livro foi a sua capacidade de tornar inteligível para nós o universo de referências e valores de culturas que nos são muito distantes. Há uma maneira de ler o mundo e a vida que não entendemos e Mia Couto abre-nos a porta para essa leitura.



Dois contos muito bons, uma edição distribuída gratuitamente que me levou a comprar o jornal Expresso da semana passada (isso e a magnífica entrevista com Adolfo Mesquita Nunes, o vice-presidente do CDS).

O de Isabela Figueiredo, O Meu Tio, confirma a grande escritora que a autora é, e o seu talento para desenhar perfis psicológicos e sociológicos sempre com sentido de humor e a mais terna das ironias em relação às personagens.

O conto de Afonso Reis Cabral, Uma História de Pássaros, foi uma revelação, não conhecia o autor e gostei bastante da sua prosa escorreita, e do sentido de humor subtil.

cada dia
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No sábado passado, fiz anos, 56. Começo a sentir cada ano que completo como uma conquista. Esteve um lindo dia de sol e céu azul, e eu fui almoçar com a minha tia, comer um belo de um caril à goesa, o meu preferido. Passei o dia bem disposto, animado.

Confesso que fico um bocadinho chocado quando falo com algumas pessoas e elas parecem não valorizar os problemas de saúde que tenho, e que são cada vez maiores, e acham que há aqui uma componente de medo ou depressão. Faço um grande esforço para manter a cabeça à tona da água, para não me desesperar, para não pensar muito no futuro e naquilo que eu posso esperar dele, em termos de saúde. Continuo a trabalhar, apesar de na maior parte dos dias isso me deixar exausto, mas o trabalho dá um certo sentido de normalidade à minha vida, obriga-me a sair dos meus problemas e das minhas angústias.

Acho que tento seriamente não ser um “drama queen”, sempre centrado nos seus problemas de saúde e que não fala de outras coisas. Mas tenho receio de que me esteja a tornar cada vez mais naquele tipo de gajo que a gente vê ao fundo da rua e passa cautelosamente para o outro passeio e a quem acenamos vivamente com a mão mas sem nos atrevermos a parar. Um chato. O tipo de pessoa a quem perguntamos um simples “estás bom?” e nos arriscamos a estar meia-hora a ouvi-lo despejar o processo clínico.

Por estes dias, nasceu um bebé, com 28 semanas e pouco mais de 1 quilo de peso. No meio de um pesadelo arrepiante, feito de dúvidas e contradições, o bébé resolveu sair cá para fora, espontaneamente, à procura das melhores condições de viabilidade. O futuro para ele ainda permanece uma grande incógnita, mas ele cá está, a lutar tenazmente por cada dia. Como todos nós, afinal. Neste momento, este bebé é o meu herói, tento, humildemente, aprender com ele.

eu cláudio, vertigem assassina
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Há anos que tenho cá em casa o livro Eu, Cláudio, da autoria do inglês Robert Graves. Trata-se, como o título deixa adivinhar, de um romance histórico, passado na época imperial de Roma, e que se organiza como uma autobiografia escrita por Cláudio, quarto imperador da dinastia júlio-claudiana. Portador de evidentes deficiências físicas, e por isso olhado com desprezo pelos restantes membros da família, Cláudio conseguiu, precisamente por causa delas, sobreviver a conjuras e atentados e tornar-se imperador, contra as suas próprias expectativas.
O livro de Graves serviu base a uma série televisiva, creio que ainda nos anos 70, com Derek Jacobi no protagonista. Vi-a na altura (e revi-a, mais tarde) e desde então que tenho vontade de ler o livro. Comprei-o já há uns poucos de anos, mas só agora o li, e é um livro deveras fascinante pela vivacidade do relato e pela riqueza dos pormenores, pela quantidade de informação histórica que consegue transmitir, mas sem nunca perder o interesse romanesco desta história exemplar de política e de família, de poder e de moral.


Já tinha lido dois thrillers de Nelson DeMille, sempre com o John Corey, o narrador e protagonista desta Vertigem Assassina. Foi, se bem me lembro dos anteriores, o volume mais fraquito. A concentração da acção num período de tempo relativamente curto, em que o narrador nos vai mantendo a par e passo das peripécias da acção, exigem um nervo de escrita que nem sempre está presente, e há trechos do livro que são um pouco aborrecidos.

phantom thread
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Gosto muito dos filmes de Paul Thomas Anderson e, se bem que Boogie Nights e Magnolia tenham sido marcantes, acho que os filmes mais recentes do realizador têm uma gravidade, um peso, que os torna particularmente interessantes.

Por um lado, é a meticulosidade rigorosa da sua câmara, uma atenção obsessiva ao detalhe, uma composição perfeita do plano. Isso é particularmente notável em Phantom Thread, já que o filme se centra na figura de um costureiro inglês de meados do século XX, ele próprio um obsessivo pela delicadeza das texturas e pela subtileza dos pormenores.

Outro aspecto fascinante dos filmes de Anderson é complexidade das personagens, a sua densidade. São normalmente personagens que reunem em si o melhor o pior, transportam em si a capacidade de se sublimarem, de subirem acima da fasquia, de gestos da maior grandeza, mas trazem igualmente uma centelha malévola, uma certa capacidade de destruição, deles próprios e daqueles que estão à sua volta.

Phantom Thread tem ainda a mais valia de contar com três trabalhos de interpretação excepcionais. Dane Day Lewis, claro, é um actor fora de série, e anunciou que este é o seu último trabalho no cinema, para nossa grande perda. Mas a excelência da interpretação de Lewis é igualada pelas suas colegas de cena, Vickie Krips e em especial a Lesley Manville, um desempenho tenso e afinado como uma corda de violino.
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actores
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Fui ver no fim de semana ao TAGV a peça Actores, encenada por Marco Martins (o realizador de Alice e de São Jorge), e com o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes, o Miguel Guilherme, a Rita Cabaço e a Carolina Amaral. Gostei muito da peça, mas confesso que fiquei perturbado com a recepção do público: as pessoas riam-se efusivamente com aquilo que me pareceu ser um drama, achavam cómico aquilo que a mim me pareceu frágil e angustiante. Não percebi, a sério, se fui eu que me enganei, e o espectáculo era de facto uma comédia, ou se, ao contrário, essa reacção mostra que a generalidade das pessoas já nem está disponível para ver e ouvir aquilo que se está a passar à sua frente, e reage em função de uma ideia pré-concebida.

A dramaturgia da peça assenta numa ideia muito rica e também ela um pouco perturbadora: trabalhar com um leque de actores, co-criadores do espectáculo no sentido em que este assenta nas suas próprias memórias dos momentos mais difíceis e angustiantes das suas carreiras, dos seus percursos enquanto actores. Não é um best of, nem sequer uma espécie de revisão de carreira. É mesmo um mergulho aos momentos mais difíceis dos seus percursos profissionais, quando, por exemplo, tiveram de lidar com a frágil exposição das audições ou com o embaraço do insucesso e de trabalhos de recurso para assegurar a sobrevivência.

Para incrementar o sentimento de imersão, dando maior veracidade ao jogo entre o que é real e o que ficção, o encenador opta por organizar o espectáculo como se ele fosse uma sala de ensaios, onde a estrutura da peça e a sua construção estão ali expostas ao nosso olhar. Assim, vê-se ao fundo uma série de folhas A4 que contêm a estrutura da peça e o seu desenvolvimento. Um ecrã em plano superior mostra-nos, com uma preocupação quase documentarista, a identificação dos diferentes espectáculos que cada um dos actores vai convocando, bem como o seu contexto cronológico nas respectivas carreiras. No segmento inicial, o das audições, um letreiro luminoso mostra, em letras vermelhas, uma espécie de didascálias das emoções que se esperam dos candidatos. Mas o exemplo mais flagrante deste jogo é talvez o facto de o próprio encenador participar na peça, dando, a partir do fundo da sala onde estamos, indicações de cena aos actores em palco.

O segmento final do espectáculo é, na minha opinião, o mais forte do ponto de vista emocional, e talvez aquele em que o equívoco do público se torna mais embaraçoso: cada actor conta um sonho ou um pesadelo que tenham tido relacionado com a sua profissão ou com determinado trabalho. Um deles sonha que acabou de assassinar todos os espectadores presentes numa determinada récita quando lhe vêm dizer que os seus pais também estavam na plateia. Outro sonha que está a fazer um monólogo shakespeareano e lhe começam a cair os dentes, um por um, mas ele persiste na representação tentando disfarçar a falta dos dentes.São momentos em que a vulnerabilidade e a fragilidade dos actores se torna muito emocional, quase arrepiante.
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manchester e outras histórias
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É amanhã, dia 5 de fevereiro, posto à venda mais um pequenino volume de contos, que tenho escrito ao longo dos anos. Leva o título de um dos contos do livro, Manchester, precisamente a história mais antiga que escrevi, ainda nos anos oitenta, na ressaca da minha experiência com o cancro num hospital de Londres. A razão pela qual uma história passada num hospital de Londres se chama Manchester não é explicada no texto, e acho que também não o será aqui. Basta dizer que, neste caso, o nome tanto se refere à cidade no nordeste da Inglaterra como ao seu clube mais emblemático, o Man United.

Este conto dá o mote ao que poderá ser a temática aglutinadora destas histórias. São, em geral, histórias sobre a doença, o envelhecimento, e a degradação física. Acho que estão aqui alguns dos contos mais tristes que eu escrevi, e quase todos têm, porque não sei escrever de outra maneira, um fundo muito pessoal, mesmo que não sejam propriamente, ou exclusivamente, histórias de teor autobiográfico.

Claro que a edição deste livro, como o de todos os que publiquei anteriormente, se deve unica e inteiramente à generosidade e à disponibilidade dos meus amigos João e Luís, através da sua editora Index Ebooks. E por razões muito fortes, no caso deste livrinho a gratidão que me vincula a estes amigos é ainda maior. De facto, a edição do livro, depois de um ano em que andei dolorosamente à volta dele, deve-se apenas a eles e à sua amizade. Ainda que, neste caso ainda mais do que nos outros, os seus defeitos e as suas fragilidades sejam exclusivamente da minha responsabilidade.

Todas as informações sobre o livro e as formas alternativas de o adquirir, quer em formato digital quer em edição impressa, podem ser encontradas no site da Index Ebooks, em especial no link seguinte: http://www.indexebooks.com/manchester.html

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