old photographs
rosas
innersmile


Faz hoje um mês. O tempo é implacável. Não sei se é angústia ou se é mais uma espécie de náusea, o que sinto quando penso que a vida continua, indiferente, mais ou menos na mesma, insensível, entretida com os seus pequenos dramas. Como se a tua ausência não tivesse peso. Por vezes, só parece haver sentido numa caixa de velhas fotografias.

rainhas
rosas
innersmile

Se eu tivesse de escolher uma única canção da Madonna, de entre as dezenas de excelentes canções que ela cantou, para levar para uma ilha deserta, seria esta, True Blue. Foi esta canção, e o álbum a que ela deu título, o terceiro da sua carreira, editado em 1986, que me fez apaixonar pela música da Madonna, e pela sua atitude artística, até hoje.

Happy 60 birthday, Madge (que, chama-na assim na Inglaterra, é o diminutivo de Your Majesty).


Já há uns dias que a notícia era esperada, mas mesmo assim é desolador percebemos que vivemos num mundo sem a Aretha Franklin. Para um cavalheiro de certa idade, como eu, a Aretha faz parte da ordem natural das coisas, a sua voz existe como o ar que respiramos, é essencial. E a sua voz poderosa e o seu canto cheio de energia, capaz de incendiar o dia mais cinzento e o coração mais empedernido, são uma presença constante, mas são também símbolos, quer de boa música pop ( ou soul, já que era unanimemente reconhecida como a Rainha da Soul Music), quer de activismo e compromisso político.

Por isso, por um lado parece triste dizer que a perdemos e que nunca mais a vamos ter. Mas a verdade é que sempre a teremos, a música e as canções e a energia de Aretha Franklin estarão sempre connosco.

alberto de lacerda, augusten, germano almeida
rosas
innersmile
É uma sensação um pouco estranha. Agosto é o mês de férias, e eu parece que estou de férias. Da vida, da minha vida. As minhas guerras vão continuar dentro de momentos, mas por enquanto as coisas parece que estão paradas.

Enntão, leio. Não tenho mais nada para fazer. Saio de casa, normalmente uma vez por dia, com o pretexto de tomar um café, mas aproveito para me mexer, para me levantar do sofá, para sair deste casulo que é a minha sala e que, como se dizia nos direitos (já não me lembro a propósito de quê), está fora do comércio. O resto do tempo, em casa, num longo período que começa por volta das seis e meia da manhã e termina à meia-noite, passo-o a ler. Não tenho paciência para ver filmes na TV, apenas ligo o televisor à hora das refeições e, por vezes, à tarde para ver transmissões desportivas. Snooker, ciclismo, natação, atletismo papo o que houver. Tenho poucas visitas e poucos telefonemas, a maior parte das pessoas estão fora da cidade nesta altura. Então, leio.


Leio uma colectânea de poemas de Alberto de Lacerda, antologia organizada por Pedro Mexia para a colecção (muito bonita) de livros de poesia da Tinta da China, e que, na minha opinião, não dispensa um contacto mais extenso com a poesia do autor, mas tem o mérito de resgatar o seu nome a um certo esquecimento.


Durante a segunda metade da primeira década do século, li, de enfiada, todos os livros do Augusten Burroughs a que consegui deitar a mão (a maior parte deles encomendados da net, e um deles comprado numa livraria em Singapura). Agora interrompi um longo intervalo de oito anos com Lust & Wonder, mais um volume das suas memórias, desta vez com o foco nas suas relações afectivas duradouras, desde que ficou sóbrio, ou seja, desde que terminou o período abrangido pelo livro Dry. Ou este Lust & Wonder não está tão bom como os anteriores, ou então fui eu que já estou longe desse sítio onde estava dez anos atrás, mas a verdade é que desta vez o Augusten entusiasmou-me menos do que costumava. Mas foi bom regressar a ele e à sua escrita, ao humor ácido e auto-depreciativo, e fiquei com vontade de ler outras das suas obras mais recentes.


Só tinha lido um livro de Germano Almeida, na esteira da minha ida a Cabo Verde, há mais de dois anos. Fiquei com vontade de conhecer mais da sua obra, e sobretudo da sua escrita muito rica e festiva, onde uma certa confusão verbal capta muito bem um certo espírito das ilhas. Decidi começar pelo princípio e li O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, o livro que tornou Germano um escritor lido e popular.

Também tenho lido banda desenhada, ou melhor: novelas gráficas, mas isso fica para outro dia.

sapiens, tempo de silencio
rosas
innersmile

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade é um daqueles livros que, de forma mais ou menos surpreendente, se tornam best-sellers. Foi assim um pouco por todo o mundo, e é assim também em PT, pelo menos a avaliar pelo autocolante na capa do meu exemplar, que anuncia tratar-se da 13ª edição!

E de certo modo compreende-se o êxito. De uma forma clara, com sentido de humor, e com notável poder de síntese, Yuval Noah Harari, professor de história numa universidade israelita, traça o percurso do homo sapiens desde o seu aparecimento na evolução da vida da terra, procurando nas grandes ideias, nas tendências e nas linhas gerais, as principais causas e condições que transformaram um macaco insignificante no mais poderoso, criativo e destruidor ser vivo do planeta.

O aspecto que mais me interessou no livro é a forma como o autor liga a disciplina História com as outras áreas do conhecimento científico, em particular com a biologia, prestando particular atenção ao percurso histórico do homo sapiens enquanto um processo de suplantação dos limites da sua condição biológica, e como esse processo representa simultaneamente uma benção e uma maldição.


Tempo de Silêncio é, tanto quanto sei, a primeira edição em PT de um dos nomes maiores da literatura de viagens em língua inglesa. Um verdadeiro clássico. Trata-se de uma das obras mais conhecidas de Patrick Leigh Fermor, que reúne relatos de estadias do autor em mosteiros na zona francesa da Normandia, bem como da visita às ruínas de um mosteiro cristão na Capadócia, abandonado há cerca de mil anos.

A escrita de PLF é de uma qualidade extraordinária, a sua capacidade de descrever características artísticas e arquitectónicas, de contar a história e as histórias associadas aos lugares, de relatar as suas impressões e as suas experiências pessoais, tudo qualidades que tornam a leitura uma experiência de luxo.

Destaque para a tradução de Alda Rodrigues, que mantém o texto a um nível de qualidade literária muito elevado.

adeus, murakami
rosas
innersmile

Adeus., da autoria de Luís Rainha, reúne mais de vinte textos, todos sob o tema da despedida, ou melhor, da circunstância de termos de dizer adeus a alguém ou a alguma coisa. O número de textos espelha uma grande variedade de recursos e estilos narrativos, movendo-se todos no campo da ficção, do conto, ainda que nuns isso seja mais evidente do que noutros. Lê-se bem, mas não me entusiasmou.


Há muito tempo que não lia nada do Haruki Murakami, depois de uma fase em que, quase de seguida, li uma mão cheia de livros do autor, entre eles essa pérola que é Kafka à Beira Mar. Já tinha experimentado ler um livro de não ficção, Underground, se não me engano foi mesmo o primeiro livro de Murakami que li. Como tinha cá em casa o ebook, decidi ler agora Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida, um ensaio memorialístico que o autor dedicou à sua carreira de corredor, maratonista em particular, e foi um bom reencontro com o autor e o seu estilo simples e directo. Sem nunca perder o foco da corrida, Murakami invoca neste livro, igualmente, a sua carreira de escritor, ao ponto de por vezes termos dúvidas se este tema não será aquele que verdadeiramente interessará ao autor abordar.

11-livros-11
rosas
innersmile

O melhor que me aconteceu nos últimos dois meses, em termos de leituras, foi a descoberta do autor japonês de novelas gráficas Jiro Taniguchi. Li três livros deslumbrantes: Terra de Sonhos, O Diário do Meu Pai e, o meu preferido, O Homem que Passeia.


Ainda na área da banda desenhada, li mais um livro de Miguelanxo Prado, Traço de Giz, um dos clássicos do autor, e mais uma aventura de Blake & Mortimer pós E.P. Jacobs, O Juramento dos Cinco Lords.


A lista de 'hospital reading’ contemplou a releitura do clássico do humor Three Men On A Boat, de Jerome K. Jerome (a minha primeira experiência de audio book, não muito bem sucedida, por isso tive de acompanhar com o ebook), o romance autobiográfico de Rita Ferro A Menina É Filha de Quem?, que me deu um bocado de seca, e um devaneio homo, Bump This, de LT Ville, que também não foi muito feliz.

Muito bom mesmo foi o regresso a Arturo Perez Reverte, com uma aventura de guerra e espionagem, Falcó, que adorei (destes, foi o único que li em formato físico).


Nos intervalos li ainda Sul Profundo,o mais recente travelogue do Paul Theroux, que depois de correr mundo, se fixa nos estados do sul da pátria americana do autor. O ponto do livro parece ser o de tentar chamar a atenção para os graves problemas que marcam a região, nomeadamente a pobreza extrema, que tanto abrange negros e brancos. Theroux tem um olhar benevolente, não só em relação às comunidades negras como mesmo em relação a certo white trash. Esta sua mais recente obra confirma, para além da habitual resmunguice do autor, uma certa reaccionarite perante a política e os grandes responsáveis pela gestão e distribuição de recursos dentro das comunidades nacionais e internacionais. Mas mesmo com todos os defeitos, Theroux continua a ser um excelente escritor de viagens, deixando bem claras as diferenças entre a literatura de viagem e os meros relatos de viagens.


Finalmente li Na Vertigem da Traição, da autoria de Carlos Ademar, um romance que nos devolve uma história real, a do assassinato, em inícios dos anos 50, de um dirigente do Partido Comunista caído em desgraça. Na altura da sua publicação, a obra mereceu as críticas das estruturas do partido, o que é sempre bom sinal. O grande interesse do livro e da sua história não é, na minha opinião, melhor servido pela narrativa, que, por vezes, atrasa e mitiga o interesse da leitura. Não obstante, o agente Guimarães, da PJ, é uma excelente personagem, e é ele o responsável pelas partes mais envolventes do livro.

#livinlavidaloca
rosas
innersmile


Primeira vez que conduzo em dois meses, no dia em que faz três semanas que fiz a cirurgia.

limite
rosas
innersmile
Há uma cruel ironia na circunstância de termos passado os nossos últimos tempos juntos sob o signo da minha doença, e subitamente teres sido tu a morrer.
Quantas vezes me disseste, nessas últimas semanas a que tivemos direito, que eu era rijo, resistente, mais forte do que eu próprio me julgava capaz de ser. E num desalinho de dois ou três dias, tão estranho e confuso, teres morrido.
Talvez seja a verdade das coisas, eu ser da doença, toda a minha vida ter sido marcada e resgatada pela doença. Tu eras da vida. E quando ela tropeçou num limite improvável, tu morreste.
Tags:

humor
rosas
innersmile
O teu sentido de humor. Na última vez que falámos ao telefone, poucos dias antes do mundo se tornar um lugar mais impossivelmente incompreensível, mal a minha imagem apareceu no ecrã, o meu rosto desfigurado pela sonda nasogástrica, tu perguntaste por que raio é que tinha enfiado o carregador do telemóvel no nariz.
Tags:

a intocada curiosidade
rosas
innersmile
As primeiras recordações de infância, as mais remotas e vagas, aquelas que subsistem na memória quase como excertos fragmentados de mensagens que nos chegam de galáxias longínquas. O wagon lit de um comboio nocturno, nós de pijama, eu a brincar no chão com um brinquedo novo.

Sempre admirei o teu génio inventor, que me fascinava e deslumbrava na infância. Os livros sobre as grandes génios da ciência, sobre Thomas Edison ou Madame Curie, que foram algumas das minhas primeiras leituras, eram teus. Os teus brinquedos científicos. O Meccano com as suas placas perfuradas e os parafusos e as porcas, ou a tábua onde criavas ligações eléctricas, lâmpadas que acendiam, campainhas que tocavam, pequenos motores que faziam girar hélices. Ou as enormes pistas de carros de corrida scalextric que montavas no quartinho do quintal

Muitas vezes discutiámos sobre qual dos dois era o mais inteligente, e éramos sempre generosos nas nossas opiniões. A minha inteligência sempre foi um pouco mentirosa, resultava da muita informação que eu fui respigando na minha condição de leitor compulsivo. Mas sempre me fascinou a tua inteligência pura, a tua intocada curiosidade em conhecer as leis que estabelecem o modo de funcionamento de mundo.

chumbo
rosas
innersmile
Enquanto estive no hospital, estava ao serviço da doença. Agora que estou em casa, cada minuto declina as vogais do teu nome, a estupefacção do que fica para além do que pode ser nomeado, a incerteza das inevitabilidades de chumbo.
Tags:

Os animais
rosas
innersmile
A inequívoca pureza do olhar dos animais. Foram animais alguns dos teus melhores amigos. Geralmente cães. Mas eu que tenho o privilégio único de ser teu irmão desde sempre, lembro-me de o quarto que partilhávamos na infância ser o lar de várias espécies de animais. Todos eles te amavam, mesmo aqueles que passavam os dias escondidos nas sanefas dos cortinados, e apenas os ouvíamos de noite, os que que voavam ao teu assobio até te pousarem no ombro, ou os que, com perseverança lenta, iam furando o seu esconderijo por debaixo do cimento do acesso à garagem. Todos te amavam, e alguns de forma agressivamente exclusiva, o que me fazia guinchar de medo e ciúme.
Tags:

24 de julho
rosas
innersmile


Publiquei esta foto ontem no Instagram. Dois passepartouts que estão há anos em lugar central na sala da minha casa.

Hoje, 24 de julho, marca o aniversário de casamento dos meus pais, em 1954, na cidade de Lourenço Marques, feriado por ser assinalado o dia da cidade.

A foto tem tudo a ver com esse dia. No passepartout da esquerda, na fotografia a cores estamos o meu irmão e eu, e foi tirada no dia em que comemorámos as bodas de ouro desse casamento, em 2004, com um almoço ali junto à Mata de Vale de Canas. Ainda não há muito tempo fui, pela primeira vez, revisitar esse lugar. Pareceu-me, muito simbolicamente, abandonado.

A foto da direita, a preto e branco, e desfocada, é do próprio casamento. É uma foto que eu adoro, e, por ocasião de um 24 de julho qualquer, há muitos anos, roubei-a do álbum de fotografias do casamento dos meus pais para lhes oferecer de forma a poderem terem-na exposta lá em casa.

Desde quinta-feira da semana passada, destas fotografias apenas resto eu.

causa mortis
rosas
innersmile
Causa de morte: desejo sôfrego e aventureiro de viver.
Tags:

a shadow of the man I used to be
rosas
innersmile
Nos últimos quatro ou cinco meses devo ter passado, por junto e de maneira fragmentada, um mês em casa. O resto do tempo passei-o em hospitais, a fazer tratamentos prolongados com antibióticos muito potentes, culminando com uma intervenção cirúrgica tecnicamente complicada, nas últimas duas semanas. E o percurso não vai ficar por aqui.

Esta semana, apanhou-me na cama do hospital a notícia da morte do meu irmão, a milhares e milhares de quilómetros de distância, e que me deixou vazio, mas também perturbado com os efeitos cruelmente complexos que uma notícia devastadora tem quando nos debatemos, num esforço de gestão de recursos escassíssimos, com a nossa própria auto sobrevivência.

Tenho a impressão de que sou, eu próprio e também esse outro que aqui se vai escrevendo, apenas a memória, a sombra, de quem fui até há sete ou doze meses atrás. E sinto, além disso, uma estranha distância de todos aqueles que nem suspeitam de que há de facto um inferno pessoal. Um inferno mesmo, a sério, longe daquela estreita nesga através da qual espreitamos angustiados o espelho do mundo.

E no entanto confio ainda, quem sabe de maneira inconsciente ou alienada, na expectante alegria dos recomeços.

um irmão
rosas
innersmile
NA MORTE DE UM IRMÃO

Sempre fomos, um para o outro, o princípio ou o final de alguma coisa.
Aprendemo-nos na imponderabilidade desse desencontro
e, no entanto, só uma certeza aguda, ainda que incerta,
ajudava a explicar o mundo e as suas coisas.
Agora que tão inoportunamente deslocaste a tua sombra em direcção à saída
cabe-me a mim tomar conta da solidão que nos vai continuar a unir.

she sings
rosas
innersmile


O clip é já de 2016 mas só há poucos dias é que o descobri, creio que através do facebook. Nos Estados Unidos há uma organização não lucrativa, a USO, que se dedica ao apoio às forças armadas, nomeadamente levando músicos e outros artistas a actuar para as tropas que estão deslocadas em teatros de guerra. São icónicas as imagens dessas actuações durante a guerra do Vietnam, e protagonizam uma sequência alucinante no filme Apocalypse Now, o filme de Coppola.

Este clip terá sido filmado numa base militar algures no Afeganistão, e regista o momento em que o músico country Craig Campbell (que o carregou, na sua página do YouTube) e a actriz Scarlett Johansson, de forma espontânea e completamente informal, fazem uma versão do clássico da pop These Boots Are Made for Walking. Estão sentados em cadeiras desmontáveis, ao fundo vêem-se militares a conversar, e essa informalidade é acentuada pela troca de palavras entre ambos, o esforço para se lembrarem da letra, e até a brevidade amadora do clip, que dura menos de um minuto e quarenta e cinco.

Mas para além de nos tocar a espontaneidade do clip, o que verdadeira impressiona é a Scarlett Johansson. Não é só dizer que ela é muito bonita, é também a atitude descontraída, mas sem perder o toque de sedução. É o swing, são os ombros a gingar ao ritmo da música.

Os tempos são outros, claro, mas a SJ é a única actriz da actualidade que me faz evocar a classe da Audrey Hepburn. Também já se sabia que ela de vez em quando gosta de fazer incursões no mundo da música. Como referimos numa troca de mensagens entre o meu sobrinho e eu, neste clip “she sings, she swings, she shines”.
Tags: ,

8-livros-8
rosas
innersmile
Para além do livro de memórias de Pedro Rolo Duarte de que já falei aqui anteriormente, aproveito para deixar registo de todos os outros livros que li durante o período em que estive ausente. Grande parte deles li-os em formato electrónico, pois coincidiu com os períodos de internamento hospitalar, e por uma questão de comodidade levei o kindle para o hospital. A propósito, o facebook lembrou-me hoje uma fotografia que lá pus há 6 anos, precisamente no dia que recebi a encomenda com o leitor electrónico. Têm sido 6 anos de bons e leais serviços, e o kindle merecia por isso uma condecoração: a leitura torna-se mais cómoda, mais flexível, mais rápida. O kindle permitiu-me ler livros que na versão impressa dificilmente leria, quer pela sua extensão quer pelo tamanho da letra.


Já tinha esta edição completa das Talking Heads, do Alan Bennett, há muitos anos, mas só agora li este conjunto de monólogos escritos para televisão. Gosto muito deste autor, tem uma maneira única de falar sobre as pessoas, apanhando-lhes o lado mais frágil mas também o mais risível. Com um humor subtil mas muito afiado e implacável, Bennett fala de pessoas que, por várias razões, são ou estão pouco apetrechadas para a vida que hoje se vive. Para além deste profundo sentido da humanidade, Bennett capta como ninguém os tiques e as misérias que habitualmente identificamos como características dos ingleses.


Burgueses Somos Nós Todos é uma antologia de contos da autoria de Mário de Carvalho. O autor é um dos grandes mestres da literatura que se faz em língua portuguesa, que ele domina com classe e com estilo inimitáveis. MdC é, seguramente, um dos grandes prosadores da actual literatura em língua portuguesa, e em Portugal é talvez o meu favorito. Neste conjunto de contos, o autor faz o retrato, bem irónico, da actual burguesia urbana portuguesa, em especial a lisboeta, e não há maneira de, de uma maneira ou de outra, não nos revermos enquanto colectivo nesta descrição.


The Heart’s Invisible Furies, de John Boyne, foi uma gentil oferta, em formato electrónico, do meu amigo e editor João Máximo. Trata-se de uma obra de grande fôlego, escrita por um autor bastante popular (sobretudo por causa de uma outra obra sua, O Rapaz do Pijama às Riscas, que foi best-seller e deu direito a um filme), e que é um fresco, com o seu quê de épico, sobre uma vida passada na República da Irlanda, sob a forte e altamente repressiva autoridade da igreja católica, desde os anos do pós-guerra (a história inicia-se em 1945, com o nascimento do protagonista) até à actualidade.


As histórias de Agualusa assentam sempre em ideias brilhantes e originais, em personagens de mistério e fascínio, numa escrita leve e com o seu quê de sensual, e num fundo de preocupação política e social. Este Vendedor de Passados é mais um prodigioso exemplo da estatura de Agualusa enquanto escritor e contador de histórias.


Ways of Escape foi o primeiro livro de não ficção que li da autoria de Graham Greene, um dos meus escritores favoritos. Na realidade, trata-se de uma autobiografia, mas com um caráter muito singular: em vez de relatar a sua vida, ou pedaços dela, Greene percorre a sua obra, livro a livro, evocando as circunstâncias da sua vida em que os livros nasceram (enquanto ideias literárias) e foram escritos. Pelo meio há alguns relatos mais demorados e minuciosos, nomeadamente aqueles respeitam a circunstâncias fora de vulgar, como foram as suas passagens por África, pelo Sudeste Asiático, ou pelo Caribe.


Foi recentemente publicado o primeiro número da nova edição da Granta em Língua Portuguesa, que veio substituir a anterior Granta Portugal, bem como a Granta em Português, que se publicava no Brasil. Apesar da linhagem, a Granta deverá publicar textos de outros autores de países lusófonos. Neste primeiro número, isso acontece com o angolano José Eduardo Agualusa, mas este caso não conta, pois o autor já tinha aparecido noutras edições da versão nacional da revista. No geral gostei deste primeiro número, mas, tal como já acontecia anteriormente, continuo a preferir os textos traduzidos da edição da revista em inglês: são textos mais amadurecidos, mais trabalhados, com outro calibre e alcance.


A Index, minha editora, publicou mais um volume, o sétimo, da série Todo Teu, da autoria de Nuno Oskar, desta vez dedicado ao aniversário de Nuno, um dos protagonistas. Parece-me que gostei mais deste volume do que dos anteriores, em especial porque desta vez a narrativa tem conflito, nomeadamente na primeira parte onde, em circunstâncias de certa turbulência, tem lugar o coming out de Nuno em relação aos seus familiares. Atenção, que quando falo em conflito não me estou a referir a situações em que as personagens desatem todas à batatada umas às outras, mas sim a peripécias que obrigam o leitor a experimentar sentimentos diversos e mesmo conflitantes, que o impeçam de aderir de forma mais ou menos imediata a um dos personagens, mas que o obriguem a reflectir, a ponderar e por fim, eventualmente, a tomar partido, não tanto por um dos lados, mas mais por uma determinada atitude ou maneira de estar. O conflito não é o da narrativa, mas antes aquele que o leitor experimenta ao reagir emocionalmente àquilo que lhe é contado.


Finalmente, li Nights at Rizzoli, uma brilhante autobiografia da autoria de Felice Picano, um dos nomes máximos da literatura gay (foi um dos fundadores do famoso Velvet Quilt, juntamente com, entre outros, o Edmund White). Não foi a primeira obra que eu li do autor, já tinha lido anteriormente o seu mais famoso Like People in History, e ainda The New York Years: Stories, e um volume autobiográfico, Ambidextrous, apontado à infância do escritor. Ler Felice Picano é, naturalmente, o prazer da leitura de um grande escritor, mas é igualmente a possibilidade de assistir a momentos determinantes da vida dos homossexuais na segunda metade do século XX pelos olhos e pela pena de um dos seus grandes protagonistas. Neste Nights at Rizzoli o ponto de partida da narrativa são os anos em que Picano trabalhou numa das mais famosas livrarias de Manhattan, no horário noturno. Desse modo, ganhava os dias livres para poder dedicar-se à escrita (na altura ainda não tinha qualquer livro publicado), e sobravam-lhe as madrugadas para se poder perder na descoberta hedonista da grande liberdade sexual que os homossexuais nova-iorquinos conheceram no decurso da década de 70 do século passado.

vai correr tudo bem
rosas
innersmile


Como referi anteriormente, é impossível não experimentar um sentimento de identificação com muitas das coisas de que Pedro Rolo Duarte fala, no seu livro Não Respire, escrito durante o último ano de vida do jornalista, quando estava doente, vítima de cancro.

Precisava de mostrar este trecho que aqui ponho, a todas as pessoas que me dizem que “vai tudo correr bem”, como se isso servisse de algum consolo.

Porque uma coisa é desejar que corra tudo bem, expressar solidariedade ou preocupação. Outra é esse falso optimismo do “vai tudo correr bem”, que soa, pelo menos para quem ouve, como uma saída fácil para a conversa, uma maneira airosa de pôr fim a um incómodo. Do género “não te preocupes que vai correr tudo bem, e agora vamos falar de outra coisa”.

Como refere o PRD, as coisas vão correr como tiverem de correr, o resultado vai ser o que for, e não é por sermos ligeiros e optimistas que a situação se resolve.

Esta expressão é particularmente irritante quando andamos há muito tempo a debatermo-nos com a doença, e as coisas, de facto, não têm corrido bem, nada bem mesmo. Confesso que quando a oiço, e estou particularmente em baixo, a única coisa que me apetece fazer é esbofetear quem a diz. Como não o posso fazer, e se tenho uma certa relação de confiança com a pessoa, já tenho respondido que se fosse com ela iria correr bem de certeza, agora como é comigo, continuo na mesma, receoso e preocupado.

É como quando me dizem ”vais ver que isso não é nada”. Normalmente respondo logo que “não era nada se fosse contigo, agora como é comigo, é uma grande merda”! Caramba, já basta o que basta, tenho direito a ser um bocado bruto, para quem fala comigo sem fazer o mínimo esforço para tentar perceber aquilo por que estou a passar.

não respire
rosas
innersmile


Na sexta-feira à tarde saí de casa pela primeira vez desde que tive alta do hospital. Como ainda me sentia inseguro, fui com os meus primos à livraria beber um café. Claro que aproveitei e comprei um livro, o volume de memórias Não Respire, da autoria de Pedro Rolo Duarte, publicado poucos meses depois da morte do jornalista.

Cheguei a casa e, pondo em pausa o livro que estava a ler, comecei a lê-lo. Parei quase cinquenta páginas depois, em grande parte delas com as lágrimas a assomarem-me aos olhos. Pensei que se calhar esta fase não seria a melhor, em termos anímicos, para ler um livro que evoca sentimentos de tristeza. Mas é evidente que não, possivelmente não poderia haver melhor altura para o ler, em que encontro nalgumas das suas páginas um inevitável sentimento de identificação.

Mas, é claro, o livro é mais, e já seria muito, do que o relato de uma pessoa que está a lutar contra uma doença oncológica. Organizando o texto em pequenos capítulos, PRD, em prosa simples e directa, mas sempre competente, vai evocando episódios da sua vida profissional, relembrando, esclarecendo, analisando, contando histórias de bastidores. Mas sempre com respeito, e até um certo pudor em entrar em esferas mais íntimas ou privadas.

Pelo caminho, recordamos alguns dos mais entusiásticos projectos mediáticos que se fizeram em Portugal. Mas PRD não se coíbe, igualmente, de falar nos seus projectos que não tiveram grande sucesso, ou foram mesmo fracassados.

No prefácio do livro, escrito em forma de carta dirigida ao filho de PRD, João Gobern refere que a leitura do livro fê-lo sentir, se não se desse o caso de se conhecerem há muitos anos, vontade de conversar com o jornalista. A honestidade, em relação a si próprio, que PRD usa a falar da sua carreira e dos projectos em que se envolveu, desperta em todos nós leitores essa vontade imensa de o conhecer ainda melhor, de o encontrar e conversar com ele durante muitas horas.

and breathe normally
rosas
innersmile
Não quero ser pretensioso, citando as “famous last words” de Fernando Pessoa, mas a verdade é que I know not what tomorrow will bring. Claro, esta frase aplica-se a toda a gente, ninguém sabe o dia de amanhã, costuma dizer-se. Na verdade, ninguém sabe o que vai acontecer no momento seguinte ao presente.

Mas há circunstâncias nas quais, de facto, o futuro é uma grande incógnita, e não no melhor sentido, ou seja naquele em que antecipamos uma experiência aventurosa. Em que, ao invés, somos consumidos pela angústia de não sabermos se o túnel em que entrámos tem saída, em que, aflitos, tentamos divisar alguma luz que nos dê a esperança de que, sim, há uma luz ao fundo do túnel, haverá, esperamos, queremos acreditar, uma saída.

Desde o dia 18 de abril, com excepção de uma semana, tenho estado hospitalizado. Apanhei uma infecção com uma bactéria multirresistente, daquelas que não cedem aos antibióticos. Tem sido uma guerra. Neste momento, há a esperança de que esta situação esteja ultrapassada, mas só o futuro o dirá. Essa infecção tornou premente a questão do meu rim esquerdo, cuja função está excluída, ou seja, se ele que está a provocar estas infecções e se deverei fazer uma nefrectomia, para o tirar.

Depois subsiste o problema do carcinoma na bexiga. Muito provavelmente, poderá ter sido a primeira instilação de BCG que fiz, que desencadeou o processo inflamatório, e por isso é necessário avaliar a oportunidade de retomar estes tratamentos. Além disso, e como as características do tumor estão a evoluir, é preciso começar a ponderar a possibilidade de ter de recorrer a outras medidas mais radicais, nomeadamente de natureza cirúrgica.

Como creio que já referi, um dos males da doença, em particular quando é oncológica, é a forma como ela ocupa a nossa vida toda. Sobra-nos pouca vida, para além do tempo e da energia que somos obrigados a despender com a tarefa de nos mantermos vivos e minimamente “funcionais”. Todo o nosso esforço é dedicado à elementar tarefa de tentarmos conseguir manter a cabeça à tona da água e continuar a respirar.

ways to escape
rosas
innersmile


"I felt like a rider who has dropped the reins and left the direction to his horse or like a dreamer who watches his dream unfold without power to alter its course."

- Graham Greene, WAYS OF ESCAPE (no Kindle)

silent pain and happiness
rosas
innersmile
Já aqui devo ter falado no assunto, mas tenho uma relação com a música do Caetano Veloso desde o verão de 1977, quando vivemos todos juntos na Amadora, e o meu irmão tinha uma pequena coleção de discos (em vinil, claro) que ouvíamos continuamente, e um desses LP’s era a mítica gravação de um concerto do Caetano e do Chico, de 1972. Pouco depois de vir para Coimbra comprei o álbum Bicho (sim, sou fã do Leãozinho desde que a canção foi lançada) e a partir daí foi sempre mais e mais Caetano.

Essa relação adquiriu uma nova dimensão quando, já depois de ter tido cancro e de ter estado em Londres a fazer tratamentos, redescobri a canção London London, que eu tinha num LP duplo, numa coleção de colectâneas intitulada “A Arte De”. Essa canção, a sua letra mas também a toada melancólica, traduzia na perfeição o que tinha sido e continuava a ser a minha relação emocional com a cidade, a minha experiência de ter sido um doente de cancro que esteve em Londres durante muitos meses a fazer tratamentos. A sensação de conforto e bem estar que a cidade proporcionava, de segurança e tranquilidade. De estarmos num sítio onde as coisas eram bem mais interessantes e divertidas, do que naquele outro sítio de onde provínhamos. E no entanto os nossos olhos sempre fugiam para o céu à procura do que não havia, daquilo que a cidade e a nossa vida nela, não eram capazes de nos dar.

Durante toda a minha vida, London London deu-me essa sensação de tristeza mansa, de “silent pain and happiness”. Uma destas tardes lembrei-me de a ouvir e mal chegou ao primeiro refrão eu já estava chorar copiosamente. O gato a dormir ao meu colo, o livro pousado no peito, interrompido, e eu agarrado ao tablet a chorar. A sentir outra vez a tristeza e o desânimo imensos de estar de novo doente, convivendo com uma necessidade de me sentir apaziguado e feliz, que faz parte da minha maneira de ser. A sentir-me sozinho: "I'm lonely in London", em casa, na canção, na minha vida. E desta vez ainda mais, pois falta-me quem também me ajudava a dar sentido à canção.

Naturalmente, a versão da canção do Caetano que sempre me acompanhou foi a gravação original, dos anos de exílio em Londres, e que pode ser escutada neste link: https://youtu.be/v3Xngs4VuoU. Mas escolhi para pôr aqui uma versão bem mais recente, gravada ao vivo, da série de discos, inaugurada com Cê, que Caetano gravou com um trio de bateria, baixo e guitarras elétricas.



I'm wandering round and round nowhere to go
I'm lonely in London London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know, I know no one here to say hello
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I'm wandering round and round here nowhere to go
While my eyes
Go looking for flying saucers in the sky
Oh Sunday, Monday, Autumm pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approaches a policeman
He seems so pleased to please them
It's good at least to live and I agree
He seems so pleased at least
And it's so good to live in peace and
Sunday, Monday, years and I agree
While my eyes
Go looking for flying saucers in the sky
I choose no face to look at
Choose no way
I just happen to be here
And it's ok
Green grass, blue eyes, grey sky, God bless
Silent pain and happiness
I came around to say yes, and I say
But my eyes
Go looking for flying saucers in the sky

muito pouco ou nada
rosas
innersmile
No mercado da vida, somos um produto que vai desvalorizando com o tempo. Comprometemo-nos com cada vez menos. O nosso preço é cada vez mais baixo.

O número de coisas que pertencem ao grupo daquilo que nos é essencial, é cada vez mais reduzido. À medida que vamos perdendo aquilo que antes nos parecia tão importante, percebemos que somos cada vez mais reduzidos, mais curtos. E também menos altivos, mais humildes. Já não exigimos grande coisa da vida. Pedimos-lhe com jeitinho que nos dê qualquer coisinha.

Estou novamente internado no hospital, desde há dois dias e sem saber bem o que vai acontecer ou quanto tempo vou ter de ficar. Mais uma situação bastante grave mas que, três depois, parece começar a evoluir mais favoravelmente.

Uma pessoa que me veio visitar hoje comentou que neste momento o objetivo é eu voltar àquilo que era há uma ou duas semanas.

E realmente... Aquilo parecia pouco, nomeadamente em termos de qualidade de vida, ainda mais se comparado com o que tinha há dez anos. Mas, caraças, visto daqui esse pouco parece tanto!

Ele nunca virá a sabê-lo, mas este texto é dedicado ao meu gato.

trilho da morte, porto das almas
rosas
innersmile
Desde a última vez que actualizei aqui o meu registo de leituras, li apenas dois livros policiais: O Trilho da Morte, de Sara Blaedel, e O Porto das Almas, de Lars Kepler.



Foi a segunda obra que li da Sara Blaedel, um autora de literatura policial dinamarquesa, que, não sendo propriamente uma continuação, se move no mesmo contexto (de personagens, geográfico, de acontecimentos) da obra dela que li anteriormente, As Raparigas Esquecidas. Apesar de não haver razões muito objectivas para o justificar, acho que este livro me divertiu mais do que anterior.



Creio que os leitores e fãs de todo o mundo ficaram desapontados com o livro de Kepler, O POrto das Almas, e a razão principal tem a ver com o facto de não se tratar de mais um episódio das aventuras de Joona Linna, mas do início de uma nova série, com um contexto de fantástico e sobrenatural, o que foi bastante surpreendente.

Confesso que também a mim me causou irritação este novo universo, até porque não sou grande admirador da literatura do sobrenatural. E causa-me mesmo algum incómodo esta coisa da transmigração das almas entre o reino dos mortos e o dos vivos. Talvez agora ainda mais, por causa da situação de saúde que estou a viver, mas sempre me incomodou, e nem é tanto porque eu seja impressionável, mas é mais porque sou supersticioso, e acho que dá azar falar de determinadas coisas para fins relativamente superficiais, como seja escrever best-sellers.

Mas o talento da dupla de escritores suecos que estão por trás do pseudónimo, mantém-se absolutamente incólume, sobretudo a sua capacidade de “agarrar” o leitor, e obrigá-lo a virar sempre mais uma página, a ler mais um capítulo.

milos forman
rosas
innersmile
Chegou, este fim de semana, a notícia triste da morte de Milos Forman, o realizador norte-americano de origem checoslovaca. Há alguns anos que não dirigia, o seu último filme tendo sido os Fantasmas de Goya, de 2006. E apesar de não ter sido um realizador muito prolixo (menos de vinte filmes numa carreira de director que começou em inícios dos anos sessenta, ainda na Checoslováquia), Forman realizou uma mão-cheia de grandes filmes, alguns deles grandes exitos populares e da crítica.

De resto, acho que nunca vi um filme de Forman de que não tenha gostado, a começar dos ainda da fase checa, Os Amores de Uma Loira e O Baile dos Bombeiros. Voando Sobre Um Ninho de Cucos e Amadeus serão porventura os seus filmes mais conhecidos, tendo o primeiro sido um dos três únicos filmes a ganhar os cinco principais oscars da Academia: melhor filme, melhor realizador, melhor argumento, melhor actor e melhor actriz.

Estive a pensar naquele que seria o meu Top 5 dos filmes de Milos Forman. Acho que em primeiro lugar poria, ex-aequo, O Amadeus e o Man On The Moon, que é um filme que eu adoro. Em terceiro, também ex-aequo, o Voando Sobre Um Ninho de Cucos e o Hair, um filme ainda dos anos 70, e que me marcou imenso. Para o quinto lugar, hesito muito entre o Valmont e o Ragtime, mas acho que escolho o primeiro. Apesar de contar com a Annette Benning no papel de Marquesa de Merteuil, o filme estreou na ressaca do grande êxito que tinha sido Dangerous Liaisons, do Stephen Frears, e que tinha um cast electrizante: John Malkovich, Glenn Close e Michelle Pfeiffer.

Para além dos filmes que adorei, tenho ainda uma outra dívida pessoal para com o Milos Forman: numa das minhas idas a Londres, tentei ir ver Amadeus, acabado de estrear. Apesar de ter ido várias vezes à porta do cinema tentar arranjar bilhete, as sessões estavam sempre esgotadas. Acabei por só ver o filme já em Coimbra, mas ainda nessas férias comprei a banda sonora do filme e foi um coup-de-foudre. Agradeço pois a Forman esta paixão pela música de Mozart, que ficou para sempre.

these are the days of our lives
rosas
innersmile


Continuo a comover-me com esta canção dos Queen e com este clip, como da primeira vez que lhe percebi o sentido.

Todos conhecemos o seu contexto e percebemos o sentido que ela ganhou: a canção incluída no último disco de originais que os Queen gravaram e editaram com Freddie Mercury ganhou a reverberação de ser uma espécie de despedida dos fãs da banda e sobretudo do seu frontman.

O vídeo clip é muito expressivo neste contexto: gravado poucos meses antes de Freddie morrer, o cantor aparece sem makeup ou outros artifícios que pudessem disfarçar a gravidade do seu estado de saúde, e a sua irreversibilidade. O olhar de Freddie várias vezes atravessa o ecrã, e dirige-se a nós, como se FM se estivesse a despedir de cada um de nós individualmente. As últimas palavras que pronuncia, quase em murmúrio, soam a uma magoada mas estranhamente doce, despedida, é verdade, mas também a uma espécie de famous last words definitivas.

Mas como todas as boas canções pop, também esta nos permite descobrir nela ressonâncias pessoais, ficando a vibrar como uma homenagem à nossa juventude e aos melhores anos das nossas vidas, mas olhadas com o olhar apaziguado e tranquilo de quem continua a gozar cada minuto da sua vida.

E é também uma canção e um clip que nos dizem muito acerca de Freddie Mercury. Nomeadamente, o modo como um artista, mesmo estando muito doente e consciente do fim iminente, não deixa de estar em completo domínio do seu jogo, da sua performance. É espantosa, e muito comovente, a maneira como Freddie Mercury se despede (dos fãs, dos amigos, de cada um de nós), mas ao mesmo tempo o show must go on, e ele brinca e seduz e faz o seu ofício, para cumprir aquilo que sempre todos esperamos dele como de qualquer outro artista: que nos faça reconciliar com a vida, que nos acrescente a possibilidade de sermos mais felizes.

Sometimes I get to feelin'
I was back in the old days - long ago
When we were kids when we were young
Thing seemed so perfect - you know
The days were endless we were crazy we were young
The sun was always shinin' - we just lived for fun
Sometimes it seems like lately - I just don't know
The rest of my life's been just a show

Those were the days of our lives
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing is true
When I look and I find I still love you

You can't turn back the clock you can't turn back the tide
Ain't that a shame
I'd like to go back one time on a roller coaster ride
When life was just a game
No use in sitting and thinkin' on what you did
When you can lay back and enjoy it through your kids
Sometimes it seems like lately - I just don't know
Better sit back and go with the flow

Cos these are the days of our lives
They've flown in the swiftness of time
These days are all gone now but some things remain
When I look and I find no change

Those were the days of our lives - yeah
The bad things in life were so few
Those days are all gone now but one thing's still true
When I look and I find
I still love you

I still love you

news
rosas
innersmile
Ontem nasceu um sobrinho-neto novo. E vão três. Ainda não sei o nome, mas já vi fotos e é lindo. Foi a única coisa boa (maravilhosa, claro), de uma semana muito difícil.

Na segunda-feira, comuniquei ao médico que ia fazer o tratamentos e o seguimento noutro hospital. Na terça, fiz uma cintigrafia que não correu bem. Por causa da dificuldade dos meus acessos venosos, foram duas horas a tentar puncionar a veia, e no fim o radiofármaco perdeu-se e o exame não pode ser concluído. Na quarta-feira fui submetido ao primeira de uma longa série de tratamentos. Para já são seis, depois repetem-se a intervalos regulares. Serão dois anos de tratamentos. Na quinta, fiz análises ao sangue, e tenho a hemoglobina baixa e creatinina elevada. Hoje, finalmente, consegui fazer a cintigrafia, mas sempre com uma dose razoável de desconforto por causa dos acessos venosos.

A luta continua, pois claro, Mas o problema é que já ando nisto há seis anos, e começo a ficar com pouca resiliência. Além de que já vivi este filme todo uma vez, e sinto um enorme desânimo por já saber exactamente de que maneira a nossa vida fica transformada. E falta-me quem, da outra vez, me conduziu através dos tempos difíceis, sem me deixar sucumbir.

Mas tenho um sobrinho-neto novo, ele é lindo, e por isso hoje é dia de pensar em coisas bonitas e positivas.

slow motion
rosas
innersmile
“Já à chegada a (Cidade de) Guatemala houve um incidente mesmo à frente do nosso autocarro: dois cães completamente desorientados meteram-se no meio do tráfego infernal da auto-estrada e, claro, um deles foi atropelado e provocou um acidente entre o carro que o atropelou e uma motocicleta. O condutor da motocicleta deu uma cambalhota mas não pareceu ter-se magoado muito. O carro desapareceu, mesmo sem pára-choques traseiro. Claro que eu não olhei, para não ver e ficar marcado pela imagem do acidente, mas mesmo assim impressionou-me olhar para os cães e perceber que iam morrer logo a seguir.”

Escrevi este texto aqui há muitos anos, este incidente que descrevo passou-se faz amanhã exactamente 9 anos. Recordo muitas coisas das minhas viagens, mas este episódio nunca me saiu da mente, nunca esqueci por completo o sentimento de angústia que senti. Sei que soa a clichê, mas de facto há momentos, alguns bem recuados no tempo, que continuamos a rever na nossa mente como que em câmara lenta. E que normalmente se referem a situações de angústia alheia a que assistimos, em que o tempo parece suspender-se e tudo à nossa volta desaparece, quase como se, de repente, tivéssemos acesso às grandes dores do mundo, dos outros, sejam eles uma pessoa ou um animal.

Um dia, não sei se já falei disso aqui, ia a sair da megastore da Virgin, em Oxford Street quando, mesmo à minha frente, estacionou um carro. Um ciclista, que seguia velozmente atrás do automóvel, começou a ultrapassá-lo no preciso momento em que o condutor do automóvel abriu a porta para sair. A bicicleta embateu na porta, e o ciclista foi projecto por cima do capot do carro e estatelou-se no chão, batendo com a cabeça na esquina do lancil. Isto tudo passou-se mesmo diante dos meus olhos, eu fiquei parado a olhar, completamente absorvido por aquela sequência de acontecimentos. Poucos momentos depois de embater com a cabeça no lancil, e ainda antes de haver tempo para outras pessoas que assistiram à cena acorrerem ao ciclista, um fino fio de sangue começou a escorrer-lhe do ouvido. Eu desviei o olhar, aliás deixei sequer de conseguir ver, tapado pelas pessoas que se acercaram, e afastei-me rapidamente, sem qualquer curiosidade em saber o que se passou a seguir.

maria de jesus costa
rosas
innersmile



Em 1962 assinalaram-se os 75 anos da elevação de Lourenço Marques à condição de cidade (substituiria a Ilha de Moçambique enquanto capital de Moçambique em 1898). Na altura as autoridades locais (não sei se provinciais ou apenas municipais) decidiram distribuir medalhas ao mais antigos residentes da cidade.

A minha bisavó Maria, com quem convivi nos primeiros 5 anos de vida, residia ininterruptamente na cidade desde 1896, depois de uma primeira estadia em 1894. E nunca mais dela haveria de sair, nem de férias, até ter morrido, em 1967, creio que no mês de agosto. Recebeu, por isso, uma medalha, assinalando que era residente de Lourenço Marques há mais de sessenta anos.

?

Log in

No account? Create an account