Não sou um especialista, nem sequer um amador à séria, mas diria que raras vezes a música jazz feita em Portugal conheceu tantos músicos, e tantas possibilidades de chegar ao público, através dos discos e dos concertos. Hoje em dia é possível criar uma discoteca razoável feita apenas com músicos nacionais, cobrindo diversas correntes e os diferentes instrumentos.
Porque gosto muito de piano jazz, chamam-me particularmente a atenção os pianistas, e em Portugal há muitos e bons. Tantos, que os nomes, mesmo daqueles que já tivemos oportunidade de assistir ao vivo, nos vão escapando. Ainda um dia destes, no concerto da Amélia Muge, a descoberta do Filipe Raposo. Aqui há uns meses, o Luís Barrigas, a acompanhar a Marta Plantier. O Rui Caetano, que eu ouvi a acompanhar a Jacinta. O Filipe Melo, que tem um disco, e que eu ouvi tocar ao vivo num 'celeiro' em Pereira do Campo. O Ruben Alves, mais conhecido das andanças televisivas, mas que tem um disco muito bonito, Súbito. E isto, claro, para já não falar nos incontornabilíssimos (a palavra não existe, mas é para isto que passa a existir) Laginha e Sassetti ou no galáctico Pinho Vargas.
Vem tudo isto a propósito de um cd que comprei no fim de semana, White Works, do João Paulo Esteves da Silva, de quem já tinha o anterior Memórias de Quem. Partilha com este o facto de serem ambos discos de piano solo, mas enquanto o disco anterior era de improvisação pura, este White Works é composto quase integralmente (e o quase é porque há três improvisações) por temas da autoria do contrabaixista Carlos Bica (outro nome muito muito grande do jazz nacional), que o João Paulo recria e transforma.
Estou absolutamente apaixonado por este disco, que é de uma beleza intensa e subtil, aproveitando da música de Carlos Bica um certo lirismo mais contemplativo do que introspectivo.
É impossível ficar indiferente no momento da morte de Michael Jackson. Para o melhor e para o pior, pelas melhores e pelas piores razões, ele marcou o nosso tempo. Em relação à personagem mediática, ao media monster freak (monstro em todos os sentidos da palavra), há pouco a dizer. Lembro-me de uma entrada bem velhinha do innersmile (do dia 21 de Fevereiro de 2003) em que disse tudo o que, para mim, faz sentido dizer sobre o assunto. Seja como for, parece-me de assinalar a forma como a notícia da sua morte tomou conta desse magma ruidoso em que vivemos, que é o espaçõ mediático, o que diz menos da sua importância enquanto músico do que sobre a sua qualidade de pop icon, e diz mais ainda acerca do modo como é feito e se alimenta esse espaço mediático.
Do ponto de vista musical, é impossível não prestar tributo ao criador de algumas canções pop perfeitas. É certo que há anos que o Michael Jackson tinha perdido relevância musical, mas de algum modo ele foi o precursor, o primeiro, de um estilo de pop que de alguma maneira ainda é a que domina. E do ponto de vista da pop, e da indústria da pop, deve-se a Michael Jackson pelo menos um momento definidor: há de facto um tempo antes e um tempo depois de 'Thriller', o video-clip (realizado por um enorme realizador, John Landis) que transformou a pop num fenómeno visual tanto quanto musical.
Quando vi a notícia, no twitter, e fui à procura dela, não me senti muito triste. Mas passado um bocado, a fazer zapping pelas televisões e a navegar pelos sites, dei por mim a cantarolar, de cabeça, aquela que é, se não a minha canção preferida, pelo menos a que me vem automaticamente à cabeça quando me lembro do Michael Jackson. Fui ouvir a canção e fiquei triste. Nem consigo bem racionalizar porquê, nem interessa.
You Are Not Alone é uma balada já tardia na carreira do Michael Jackson, do álbum HiStory, creio que da autoria do R. Kelly. Estará longe das suas canções de maior sucesso, e, na verdade, este que foi o seu penúltimo disco, é já claramente um disco da decadência criativa do cantor. O clip é um bocado weird, registando a participação da Lisa Marie Presley, filha do Elvis, e que ao tempo era casada com Michael. Um casamento, claro, demasiado bom para ser verdade, a filha do king of rock'n'roll casada com o king of pop! Como disse, não sei se é a minha canção preferida do Michael Jackson, mas é aquela que automaticamente associo ao Michael. E, além do mais, parece-me uma canção tão apropriada para homenagear o Michael Jackson.
Another day has gone I'm still all alone How could this be You're not here with me You never said goodbye Someone tell me why Did you have to go And leave my world so cold
Everyday I sit and ask myself How did love slip away Something whispers in my ear and says That you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
But you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart But you are not alone
Just the other night I thought I heard you cry Asking me to come And hold you in my arms I can hear your prayers Your burdens I will bear But first I need your hand Then forever can begin
Everyday I sit and ask myself How did love slip away Something whispers in my ear and says That you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart For you are not alone
Whisper three words and I'll come runnin' And girl you know that I'll be there I'll be there
You are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart
For you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart
quando uma tarde azul e luminosa, e nós estamos no chiado ou no bairro alto e chegamos a uma varanda ou a uma janela, atrás de nós os lençóis brancos da cama por fazer, e à nossa frente, do outro lado do vale que é a baixa, as colinas de Lisboa, claras e misteriosas, caóticas e rigorosas, brancas à procura de todas as cores, iluminadas pelo sol que começa a descer para lá do bugio e bate-lhes de chapa, e a respiração suspende-se por um momento, enquanto recuperamos de tanta luz e tanta beleza, a luz e a beleza de todos os amores que tivemos e mais daquele que ainda dorme sobre os lençóis desfeitos. estão a ver como é? é assim o disco da carminho.
Este texto começa em dois tempos distintos. O primeiro foi a semana passada quando o Saint-Clair (sempre meu mestre) me mandou um mail com um link para um artigo sobre o cantor pop brasileiro, dos anos 60, Wilson Simonal, nomeadamente sobre um documentário que foi feito sobre o cantor e sobre os acontecimentos que precipitaram o fim da sua carreira de ídolo popular, e aceleraram a sua decadência pessoal. Eu conhecia bem o nome de Wilson Simonal, mas apenas muito vagamente as suas canções, e por isso arranjei modo de deitar os ouvidos a discos antigos do cantor. Uma pop leve e deliciosa, bem assente na Bossa Nova, servida por uma voz com um domínio extraordinário sobre a melodia e o tempo, a fazer lembrar, sem exagero e apenas para dar uma ideia (até porque a voz não é nada parecida), aquele registo swingado e muito livre do Frank Sinatra. É curioso como a Bossa Nova suportava registos tão diversificados e quase opostos, cabendo nela a concisão altamente elaborada de um João Gilberto, e o instinto quase preguiçoso da maneira de cantar de Simonal.
O outro tempo de que falei foi há 40 anos, mais coisa menos coisa. Eu era uma criança mimada pelos fulgores coloniais de Nampula (mal sabendo que eram os últimos), e os meus pais costumavam-me comprar discos de 45 rpm com histórias infantis gravadas. Suponho que esses discos ainda estejam guardados na casa dos meus pais, num álbum de plástico com capas azuis, do tipo dos que havia antigamente para guardar os discos. Algumas dessas histórias eram em português (histórias, se bem me lembro, da Odette de Saint Maurice, narradas pelo João Perry) mas a maior parte eram edições brasileiras. Lembro-me muito nitidamente de um deles, o Macaco e a Velha, de que ainda sei de cor alguns trechos.
Um outro, de que já não me recordo muito bem, era uma variação da história de João e o pé de feijão: a mãe pobrezinha do João manda-o à feira vender qualquer coisa (as galinhas ou a vaca, não sei) e ele troca a mercadoria por um punhado de feijões que, ao chegar a casa, a mãe deita fora pela janela. O pé de feijão cresce, até ao céu, e um dia o João trepa por ele até chegar a um sítio onde havia um gigante muito mau e comilão que quer caçar o João, já não sei se para o meter no caldeirão da comida. O João foge, traz umas traquitanas de oiro que rouba no palácio do gigante, que a mãe vende para ter dinheiro. Depois de muitas peripécias, pé de feijão acima pé de feijão abaixo, a coisa acaba com o João a cortar com um machado o pé de feijão precipitando a queda, e o fim inglório, do gigante. Se não era bem isto, era mais ou menos. Apenas tenho na memória auditiva pedaços muito breves da gravação, como o gigante a dizer com o seu melhor sotaque brasileiro: 'mulher, hoje estou sem apetite. Quero apenas um boi assado'!
Pois bem, acho que era nesta história do João (mas não garanto, pois a memória é muito ténue), que quando o rapaz chegava lá acima do pé de feijão, se ouvia um coro, que eu já não me lembro se era o gigante a cantar, ou se eram os prisioneiros no palácio, que cantava:
«Escravos de Jó, jogavam caxangá Tira, bota, deixa o cão guerreiro entrar Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá»
Para falar com franqueza eu nunca percebi muito bem quais eram as palavras iniciais da cantoria, apenas tinha fixados os sons, qualquer coisa do género 'estava onde estava, jogando caxangá', mas do resto lembro-me muito bem. E o que é que isto tem a ver com o Wilson Simonal? É que estava eu a ouvir o álbum quando começou a tocar uma faixa intitulada Escravos de Jó, cujo refrão corresponde quase ipsis verbis, e apenas com uma ligeira alteração, mais do ritmo do que da própria melodia, à velhinha canção do disco de histórias:
«Escravos de Jó jogavam caxangá Tira, bota, deixa ficar, deixa cair Deixa ficar, deixa cair Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za»
Fiquei completamente embasbacado a ouvir aquilo, uma coisa que eu não ouvia há tantos e tantos anos. Uma pesquisazinha ligeira na net disse-me que Escravos de Jó é uma cantiga de roda, uma cantilena para acompanhar um jogo infantil. E é, aparentemente, uma cantiga muito conhecida e popular. Não há certezas quanto à sua origem e as interpretações são as mais diversas quanto ao seu significado, até porque, concerteza, a versão actual será o resultado de muitas adulterações na sua transmissão oral através das gerações. Mas basta ler a letra com atenção para perceber que a sua origem está intimamente ligada à história do Brasil, e que terá surgido no seio dos escravos. Uma das interpretações que li (a mais etnográfica, digamos) considera jó uma alteração da palavra bantu ndjo, que denominava os escravos domésticos, os escravos da casa.
Não tenho ideia nenhuma de alguma vez a ter ouvido em Portugal, aliás tanto quanto me lembro, apenas a ouvi nos dois contextos que referi, mas há outro aspecto interessante: numa das variantes que encontrei, o segundo verso era assim: 'Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar'. Não digo que haja relação, mas é muito curioso que em Portugal uma das figuras mais populares das festas, feiras e romarias, sejam os Zés Pereiras, os bonecos cabeçudos e gigantones que correm as ruas das vilas e aldeias, ao som dos bombos e das gaitas de foles, a anunciar que a festa começou. Acho uma pena que sejam tão pouco estudadas as histórias das culturas populares portuguesa e africana, sobretudo angolana, que vão fundar a riquíssima cultura popular brasileira, onde, por ser tão recente, são ainda muito legíveis os seus processos de génese e desenvolvimento.
Já aqui devo ter falado do primeiro disco dos Secos & Molhados, o grupo que trouxe ao mundo o Ney Matogrosso, editado em 1973. Esse disco encantou-me há mais de 30 anos, quando o conheci e ouvi intensamente (o meu irmão tinha o LP), e continua a encantar-me sempre. Acho que não houve altura da minha vida em que eu tenha estado muito longe dele.
Para além do seu papel revelador e mesmo pioneiro (a vários títulos), trata-se de uma formidável colecção de canções, clássicos absolutos, canções de uma modernidade a toda a prova, que fazem a ponte entre a capacidade da MPB de explorar o sentimento de ser brasileiro e a explosão de energia emocional do rock. Basta referir, para ilustrar a resistência ao desgaste destas canções e o seu classicismo, a Rosa de Hiroshima que é uma canção que marcou a carreira toda do Ney. Mas não é, pelo menos na minha opinião, a melhor canção do disco, no sentido de que se destaca das restantes. Não porque haja outras melhores, mas porque são todas verdadeiramente extraordinárias, e não há pinga de exagero nisto que digo.
Como disse, não houve altura da minha vida que este disco tenha parado de me encantar, e acho que já passei por todas as canções, ou seja já houve fases da minha vida, da minha vida emocional, que invocaram várias, se não todas, as canções do disco. Por estes dias tenho andado com uma delas a tocar quase em loop no meu player mental, a Rondó do Capitão, cuja letra é um poema de Manuel Bandeira (pergunto-me se foi com esta canção que pela primeira vez contactei com a poesia de Bandeira, imensa e grandiosa). Talvez por me transmitir um sentimento de magoada esperança, talvez por ser quase uma canção de embalar e eu andar muito precisado que me ninem.
Como não encontrei nenhum clip da canção no YouTube, fiz um do-it-yourself muito elementar só para a poder pôr aqui. Fica também a transcrição do poemazinho de Manuel Bandeira. E se alguém quiser aproveitar a oportunidade de deitar o dente e os ouvidos a este disco extraordinário, aí fica o link do blog Um Que Tenha, que é o melhor serviço público para quem é amante da música e da cultura brasileira.
Bão Balalão Senhor Capitão Tirai este peso Do meu coração. Não é de tristeza, Não é de aflição. É só de esperança, Senhor capitão! A leve esperança, A aérea esperança... Aérea, pois não! - Peso mais pesado Não existe não Ah,livrai-me dele, Senhor capitão!
Como referi ontem, além do disco do Caetano Veloso, comprei mais dois cd’s que tenho estado a ouvir.
Um deles é do guitarrista português André Fernandes. Há cerca de um ano comprei o seu cd anterior, Cubo, um disco muito inovador e criativo, com uma escrita muito livre, um jazz surpreendente e estimulante. A formação desse disco era o quarteto, com Mário Laginha, no piano, Alexandre Frazão, na bateria, e Nelson Cascais, no contrabaixo, além, claro, do guitarrista. Uma formação de luxo, e o disco evidenciava isso muito bem. Agora em Imaginário, o novo álbum, a formação desse quarteto mantém-se em 4 faixas (uma delas com a participação de um DJ a fazer scratch). Em duas faixas funciona um outro quarteto, com Bernardo Sassetti, piano, Demian Cabaud, contrabaixo, e Marcos Cavaleiro na bateria. Mais uma faixa, em terceto, com o mesmo Marcos Cavaleiro, e Bernardo Moreira, no contrabaixo. Como se vê, alguns do melhores instrumentistas do jazz nacional, num disco que parece desenvolver e aprofundar algumas das premissas abertas em Cubo, mas em que os temas são de certa forma mais envolventes.
O outro disco que comprei foi uma surpresa admirável. Quer dizer, eu arranjei maneira de ouvir o disco mas gostei tanto que fui comprá-lo. Trata-se do projecto Amália Hoje, concebido e realizado pelo Nuno Gonçalves, dos The Gift, com a participação de três vocalistas, a extraordinária Sónia Tavares, também dos The Gift, o Fernando Ribeiro, dos Moonspell, e o Paulo Praça, que eu não conhecia, e que recria, em sonoridades pop, 9 canções que Amália Rodrigues cantou, entre elas alguns dos fados mais emblemáticos da cantadeira nacional.
Confesso que o que não cessa de me espantar no disco é precisamente o facto de Nuno Gonçalves e os seus colaboradores terem conseguido despir estas canções das entoações fadistas que são não tanto a sua imagem de marca, mas sobretudo a marca com que se inscrevem no nosso consciente, na nossa memória e até na nossa imaginação. Reconhecemos as canções, as palavras, as melodias, mas há assim uma espécie de desamparo por nos faltar o tom fadista. Mas se num primeiro momento nos faz falta o fado para nos dar uma referência emocional, estas canções são investidas de uma grande densidade dramática, nalguns momentos mesmo épica, que nos envolve e exalta e nos leva a experimentar outras emoções e outros sentimentos.
Não sei se estou a exagerar, mas parece-me um disco verdadeiramente extraordinário, uma daquelas obras que nos surpreendem e que ao mesmo tempo se tornam clássicas. E depois há dois ou três momentos verdadeiramente sublimes, em que a voz da Sónia Tavares se ultrapassa e nos esmaga por completo.
Ultimamente tenho comprado poucos cd’s, mas entre a semana passada e esta comprei três, que tenho estado a ouvir quase em loop.
O primeiro que comprei é o mais recente do Caetano Veloso, Zii e Zie. Este disco tem uma característica peculiar, que foi podermos ir acompanhando a sua feitoria através do site obraemprogresso.com.br, onde Caetano, ou alguém por ele, ia dando conta… do progresso da obra. Outra característica importante foi o disco ter nascido, por assim dizer, de uma série de concertos que Caetano Veloso fez ao longo do ano passado, com a banda Cê. Algumas das canções deste disco nasceram e foram trabalhadas nesses concertos (de que o já referido site foi dando conta). A meio desses concertos, Caetano fez uma mini-digressão europeia, a solo. Num concerto fabuloso em Aveiro, na praça Marquês de Pombal, Caetano prometeu fazer uma canção dedicada à Menina da Ria, e essa canção aparece no Zii e Zie. O que de certa forma é a prova do modo como o disco foi sendo feito, como uma verdadeira ‘obra em progresso’.
Talvez isso explique igualmente porque é que este disco é relativamente fracassado. Surgindo como uma espécie de corolário do trabalho iniciado com Cê, é um disco falhado, ainda que apenas relativamente. Por exemplo em termos de arranjos, utilizando os mesmos músicos, as mesmas estruturas, mas sobretudo as mesmas ideias de Cê, Zii e Zie é um disco mais livre, mais conseguido, mais imaginativo e mais realizado do que o que o seu antecessor. Onde Zii e Zie me parece falhar é ao nível das composições, que parecem sempre ser mais conceitos, mais ideias construídas e postas em acção, do que propriamente de canções, de canções populares. Falta-lhes, não sei bem definir, talvez uma certa vocação para serem assobiadas, no sentido de que quando assobiamos uma canção é sinal de que nos estamos a apropriar dela, a torná-la nossa.
E apesar de estarmos longe do luxo criativo de Circuladô ou de Livro ou mesmo de Noites do Norte, há, ainda assim, três ou quatro canções que são belíssimos exemplares do Caetano Songbook: A base de Guantánamo, Perdeu ou Falso Leblon, por exemplo. Há ainda duas versões deliciosas, como sempre acontece nos discos de Caetano. E se é verdade que Menina da Ria não fará parte exactamente do lote das canções mais inspiradas deste disco, não deixa de ser uma memória simpática, alegre e muito carinhosa dessa noite especialíssima em que assistimos ao nascimento de uma canção.
A ideia era falar sobre os três discos que tenho estado a ouvir, mas alonguei-me tanto que os outros dois ficam para a próxima.
Comecei a ler, e tenciono levar para férias, Beautiful Shadow, a biografia de Patricia Highsmith escrita por Andrew Wilson. Ainda não passei da introdução, mas cito já este pedacinho, a propósito de uma entrevista feita por Janet Watts para o jornal The Guardian em 1990, quando a escritora tinha quase 70 anos:
”When Watts quizzed her about the inspiration for Carol and her relashionship with women, Highsmith responded, ‘I don’t want to say. People’s emotional life… I think it’s all accidental, and not planned. It is very hard to talk about.”
~ Continuo a ouvir obsessivamente discos antigos do Milton Nascimento. Adoro esta canção, Coração Civil, e decidi fazer um clipzinho com fotos que tirei nas últimas férias, em Porto Seguro. Aí fica a fazer companhia, enquanto eu vou ali uma semana à Guatemala passear um bocado, e já volto. Hasta.
Quero a utopia, quero tudo e mais Quero a felicidade nos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade, quero o vinho e o pão Quero ser amizade, quero amor, prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder, eu quero ver São José da Costa Rica, coração civil Me inspire no meu sonho de amor Brasil Se o poeta é o que sonha o que vai ser real Bom sonhar coisas boas que o homem faz E esperar pelos frutos no quintal Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ? Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida Eu vou viver bem melhor Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar
Na Pública de hoje uma série de retratos sobre aspectos concretos do Portugal de hoje , a propósito do ano eleitoral que está prestes a começar. Num dos artigos aborda-se a utilização das novas tecnologias: os jovens e os telemóveis, um criador de gado (caprino? escrevo de cor) que criou um programa para gerir os seus rebanhos, e… a Theo, a propósito da net e da sua utilização como meio de estabelecer redes e relações sociais e familiares.
Há oito dias foram o Zé e o Paulo numa belíssima entrevista, hoje a Theo com uma fotografia lindíssima tirada no Príncipe Real (privilégio da amizade, este o de saber o lugar onde a fotografia foi feita), e a falar sobre os seus blogs, o Grand Torino e os hmongs, e sobre os seus amigos moçambicanos. É um orgulho.
A substituir o beijo que eu gostava de lhe dar pessoalmente, deixo aqui para a Theo, e inspirado na sua foto, uma das minhas canções preferidas da Amélia Muge, 'Parece Maio'.
PS: se alguém me souber dizer um meio de pôr aqui música sem ser através da grande volta que é pô-los no YouTube (para mais com o ecrã todo negro), já sabe, a minha eterna gratidão se me ensinar devagarinho e por palavras simples.
«E assim chegar e partir são só dois lados da mesma viagem O trem que chega é o mesmo trem da partida A hora do encontro é também despedida»
Sempre que oiço a canção ‘Encontros e Despedidas’, do Milton Nascimento, o Bituca (composta em co-autoria com Fernando Brant), fico muito comovido. E a verdade é que não percebo bem se é uma comoção feliz e aconchegante, ou se, pelo contrário, é feita de angústia e melancolia. Acho que são as duas coisas ao mesmo tempo.
Claro que lemos numa canção, não tanto aquilo que ela quer dizer, mas aquilo que queremos que ela nos diga. E há quem veja nesta canção de Bituca uma referência à reencarnação. Eu prefiro ler nela uma referência ao facto de a vida ser feita de ganhos e perdas constantes. Como diz o ditado, quando deus fecha uma porta abre sempre uma janela, e é desta coisa de estarmos sempre a nascer e a morrer em cada segundo, que tão bem fala a canção de Milton.
Mas não é só a letra que fala disso, é a própria melodia, que consegue ser ao mesmo tempo triste e celebratória. Há na voz do cantor uma tristeza feita de perdas, mas uma esperança feliz feita das promessas que o futuro, ou melhor que o presente sempre nos traz.
Para além de Milton, esta canção teve pelo menos mais duas interpretações definitivas, a da Simone, e a da Maria Rita, creio que no seu primeiro disco. Aliás é curioso ver como na net o maior número de referências associa-a precisamente à filha de Elis e César Mariano. Por isso, por estas três versões serem tão absolutas, não consigo escolher um clip para a pôr aqui. Fica por isso apenas com a letra, para nos lembrar que «a plataforma dessa estação, é a vida desse meu lugar. É a vida.»
"Mande notícias do mundo de lá Diz quem fica Me dê um abraço Venha me apertar Tô chegando
Coisa que gosto É poder partir Sem ter plano Melhor ainda É poder voltar Quando quero
Todos os dias É um vai-e-vem A vida se repete Na estação Tem gente que chega Pra ficar Tem gente que vai Pra nunca mais Tem gente que vem E quer voltar Tem gente que vai Querer ficar Tem gente que veio Só olhar Tem gente a sorrir E a chorar
E assim chegar E partir São só dois lados da mesma viagem O trem que chega É o mesmo trem da partida
A hora do encontro É também despedida A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar É a vida desse meu lugar É a vida"
Há aquela canção do Caetano Veloso, do cd Livro (maravilhoso), Onde O Rio É Mais Baiano, onde ele cantava: "E agora estamos aqui Do outro lado do espelho Com o coração na mão Pensando em Jamelão no Rio Vermelho"
E há também aquela canção ainda mais antiga de um disco Ney Matogrosso, Espinha De Bacalhau (da autoria de Severino Araújo, e escrita na década de 30), onde o Ney e a Gal Costa cantavam: "Saxofone ou Satanás me intoxica com teu gás O lado bom do coração que nos separa dos metais Se a vida é cara, gigolô, só meu amor conhece a cor Das harmonias da Orquestra Tabajara"
A aventura da música popular é também essa de ouvir os nomes e guardá-los, esperando que eles se revelem no momento certo. Um dia destes tropecei num disco de 1972, que junta Jamelão e a Orquestra Tabajara. Jamelão é um dos nomes míticos do samba carioca, durante muitos anos o intérprete do samba enredo da escola Estação Primeira de Mangueira (e que morreu há menos de um ano, com a idade de 95 anos, tendo gravado o samba enredo de 1949 até 2006, ano em que sofreu um AVC). A Orquestra Tabajara é uma das orquestras de salão mais famosas do Brasil, existindo há mais de 70 anos, a maior parte deles dirigida por Severino Araújo de Oliveira, que continua a ser o maestro da orquestra.
O disco que junta Jamelão e a Orquestra Tabajara, da qual foi crooner habitual, é todo composto por sambas-canção da autoria de Lupicínio Rodrigues, um dos grandes compositores populares brasileiros, sobretudo de canções muito sentimentais, de amores traídos ou não correspondidos, ao que se diz inspirados na própria vida de Lupicínio, que vivia para a boémia, a música e as mulheres. Diz a lenda que foi Lupicínio quem inventou a expressão ‘dor de cotovelo’ para significar, não o sentimento de inveja a que normalmente está associada, mas a verdadeira dor de corno, a dor daqueles que se sentam no bar, em frente a um copo de whiskey, a carpir desgostos amorosos com os cotovelos bem fincados na madeira dura do balcão.
Num dia de Junho de 1977 (talvez no dia 12… ou no dia 20… não sei) apanhei um autocarro de carreira na madrugada da cidade de Mirandela, em Trás-os-montes, para vir para Lisboa ter com a minha família, os meus pais e o meu irmão. A viagem durou o dia todo e a chegada a Lisboa foi já ao fim da tarde. Quando o autocarro chegou à praça do Marquês de Pombal, o trânsito estava cortado porque havia uma manifestação política. Parou numa das ruas ali à volta do Marquês, não sei qual, e eu fui a um café tentar telefonar para casa, em vão, como eu já sabia, pois os meus pais e irmão deviam estar um pouco mais abaixo, à espera do autocarro. Nessa altura eu estava já a morrer de angústia de nunca mais ver a minha família na vida. Sentia, acho eu, que estava a ser vítima da mais cruel partida do destino: perder-me definitivamente da minha família precisamente no dia em que a ia reencontrar.
A manifestação acabou por descer do Marquês para a Avenida, alguém me foi chamar ao café onde eu ainda tentava desesperadamente telefonar não sei para quem, o autocarro veio para o ponto do términos da viagem, encostado ao Parque Eduardo VII, e eu chorei de alívio e emoção abraçado à minha mãe.
Esse dia foi o primeiro dia de um verão passado entre Lisboa e a Amadora, antes de, em Novembro, os meus pais arranjarem emprego em Coimbra e mudarmos para nos instalarmos definitivamente por cá. Entre esse dia de Junho e o início do ano lectivo, em meados de Outubro, quando comecei a frequentar as aulas no liceu nacional da Amadora, passei um verão muito solitário, sem conhecer ninguém, sem outros amigos que não fossem os amigos de Nampula que viviam ao pé de nós, na Reboleira, e que foram responsáveis por os meus pais se terem instalado na Amadora.
Entre tardes de passeio pela Baixa e pelo Chiado, e sessões de cinema numa sala de projecção que havia ao lado das piscinas do Algés e Dafundo (onde me lembro de ver um filme sobre a equipa de futebol uruguaia que se despenhou nos Andes e que ficou conhecida por os sobreviventes terem praticado canibalismo para conseguirem sobreviver, e ainda um filme documentário sobre os jogos olímpicos de Montreal, que tinham sido no ano anterior), devorei os livros que havia numa pequena biblioteca da parte de casa mobilada que os meus pais arrendaram na Rua Elias Garcia, perto da estação de comboios da Amadora (lembro-me de ter lido Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro, sem fazer a mais pálida ideia do que estava a ler), e ouvi discos, long plays, numa aparelhagem que o meu irmão comprou e que estava no aparador da sala de jantar.
E era precisamente aqui que este texto me queria trazer, aos discos que eu ouvi nesse verão de 1977, na parte de casa mobilada da Rua Elias Garcia que tinha, coisa que eu nunca tinha visto, estores que se afastavam da parede para deixar entrar luz protegendo dos raios solares. Que me lembre eu só tinha um disco, o Even In The Quietest Moments, dos Supertramp, que ganhei num concurso da revista Música & Som (a minha única extravagância consumista num tempo de vacas escanzeladas). Os outros meus discos estavam, juntamente com a aparelhagem dos meus pais, em trânsito de contentores de amigos que se dispuseram a trazer coisas da minha casa – os meus pais não puderam trazer mais do que a roupa do corpo. Mas lembro-me , do meu irmão, de ouvir muito três discos dos Kraftwerk, o Autobhan, o Radio Activity e o Trans Europe Express. Lembro-me do disco ‘Juntos e Ao Vivo’ de Caetano Veloso e Chico Buarque. E lembro-me de mais dois discos que ouvi muito na casa dos tais amigos que viviam na Reboleira: o Spanish Train and Other Stories, do Chris de Burgh, e o The Kick Inside, da Kate Bush. Dos discos dos Kraftwerk e do Caetano e Chico ao vivo, nunca me separei, nunca houve um período da minha vida mais ou menos prolongado que não os tenha ouvido. Da Kate Bush também nunca me afastei, e o Wuthering Heights é, ainda e sempre, uma das minhas canções preferidas. O Chris de Burgh e os Supertramp deixei de os ouvir há muitos muitos anos, por nenhuma razão especial, nem sequer o facto de me ter cansado ou de ter avançado. Pura e simplesmente deixei de ouvir.
Mas no fim de semana passado dediquei-me a ouvir, quase em loop, esses três discos: o Spanish Train, o Kick Inside e o Even in The Quietest Moments. E agora escrevi este texto que não é sobre outra coisa que não seja o fim de semana que passei a ouvir os discos que marcaram o verão de 1977, o verão dos meus quinze anos.
Sou fã da Alison Krauss desde 'way back when', que no caso foi desde que ela editou a colectânea Now That I’ve Found You, lá pelos idos de 1995. Foi durante a minha fase country, que me apaixonei pelo seu bluegrass muito limpinho e rigoroso, acústico e descarnado, simples e contido. Tenho, para além dessa colectânea, e editados antes ou depois dela, mais uma meia dúzia de cd’s dela, uns com a sua banda regular, os Union Station, outros feitos em colaboração com outros artistas, para além de participações em bandas sonoras, como a do filme dos irmãos Coen, O Brother, Where Art Thou.
Há muito tempo que não tinha novidades dela, mais por desatenção da minha parte, que tenho um gosto musical muito diversificado e em constante estado de mutação. Mas recentemente ouvi as notícias de que a Alison Krauss tinha ganho uma série de prémios na mais recente edição dos Grammys, e fiquei muito curioso, sobretudo porque o disco vencedor, intitulado Raising Sand, foi feito a meias com o Robert Plant, sim, o do grande culto Led Zeppelin.
Por estranha que pareça a associação entre os dois, a verdade é que a carreira de Robert Plant pós-Zeppelin tem sido muito rica e surpreendente, parecendo obedecer puramente a um 'pleasure principle', resultando em colaborações e associações sempre muito estimulantes.
Finalmente consegui ouvir Raising Sand, e é das coisas mais bonitas que já ouvi em toda a minha vida, um disco tão lindo que parece que nem é deste mundo. Pode-se dizer que de alguma forma orbita na zona do country e do bluegrass, mas é muito muito mais do que isso, um conjunto de canções raras, arranjos superlativamente belos e simples, mas muito imaginativos e de um bom-gosto (seja lá isso o que for) a toda a prova.
Deve ser dito que parte do sucesso deste disco (falo de sucesso em termos de resultado) se deve à produção de T-Bone Burnett, um verdadeiro wizard da música da América.
Apesar deste disco ter passado completamente despercebido por cá, pelo menos para mim que nem sequer tinha ouvido falar nele, a net está cheia de referência e no you-tube encontram-se umas coisas interessantes. Há uma site da colaboração (http://www.robertplantalisonkrauss.com/site.php) que pode ser um bom ponto de partida para se descobrirem coisas acerca do disco e dos seus dois (ou três) fabulosos criadores. Só para abrir a apetite, ponho aqui um clip de imagens avulsas, mas que serve para ouvir uma das canções mais bonitas do disco, uma daquelas coisas tão lindas que só dá vontade de chorar por no mundo haver coisas tão bonitas e serem feitas pelo homem. Só a título de curiosidade, esta canção, Sister Rosetta Goes Before Us, é da autoria de um outro nome determinante da música da América, a Sam Phillips, que é casada com o T-Bone. Que família abençoada!
Há muito tempo que não ouvia um cd do Bruce Springsteen, e ontem atravessou-se um no caminho, e voltei a ouvir, Devils and Dust. E voltei a ser tocado por aquela melancolia cheia de raiva e de desespero que caracteriza as canções do BS no seu melhor. Pareceu-me que muitas das canções (não sei se são todas, não estava com muita paciência para fazer exegeses e estudos comparativos) falam sobre mães e filhos, se calhar até mais sobre mães. Que é um tema que me comove sempre muito. A mais bonita das canções do álbum, uma canção lindíssima a todos os níveis, talvez das mais bonitas que o Bruce Springsteen escreveu, era esta, JESUS WAS AN ONLY SON. É daquelas que é tão bonita que até dói, quase que temos vontade de chorar por não haver no mundo beleza que se compare à da canção. Não tive paciência para procurar um clip decente no YouTube, por isso fica aqui apenas a letra, linda e poderosa:
« Well Jesus was an only son As he walked up Calvary Hill His mother Mary walking beside him In the path where his blood spilled
Jesus was an only son In the hills of Nazareth As he lay reading the Psalms of David At his mother's feet
A mother prays, "Sleep tight, my child, sleep well For I'll be at your side That no shadow, no darkness, no tolling bell, Shall pierce your dreams this night."
In the garden at Gethsemane He prayed for the life he'd never live He beseeched his Heavenly Father to remove The cup of death from his lips
Now there's a loss that can never be replaced A destination that can never be reached A light you'll never find in another's face A sea whose distance cannot be breached
Well Jesus kissed his mother's hands Whispered, "Mother, still your tears, For remember the soul of the universe Willed a world and it appeared."»
~*~
Na véspera, ou seja na quarta-feira à noite, vim da piscina e pus-me a escutar um disco muito antigo, White Mansions, um álbum de 1978 (e que eu tinha em vinil, comprado nessa altura), de musica country. É um disco fabuloso, intemporal, um 'concept album' que conta uma história da guerra da secessão norte-americana, toda vista pelo lado sulista, dos derrotados. Ainda aqui hei-de falar mais deste disco (se a tanto me ajudar etc etc), mas o que hoje aqui quero relatar é a experiência que foi voltar a ouvir uma coisa muito antiga. Deitei-me no meu sofá, cansado da natação, e estive ali, de olhos fechados, embalado pelo sono, a ouvir o disco e a sentir-me por dentro como me sentia quando tinha 16 ou 17 anos e ouvia o White Mansions tantas e tantas vezes, deitado no sofá da sala da casa dos meus pais, auscultadores nos ouvidos, olhos fechados para decorar as canções (e não apenas as letras, mas as canções todas). A música (e acho que só ela) tem esta capacidade de me fazer regressar no tempo e ouvir músicas da mesma maneira, com a mesma sensibilidade, com as mesmas emoções e as mesmas sensações, de quando as ouvia com mais frequência, de quando elas entraram na minha vida. São pequenas viagens no tempo, através de um túnel mental, capaz de fazer disparar memórias que são puramente sensoriais. Não me lembro do que eu estava a fazer, do que pensava, nada disso; apenas me recordo exactamente daquilo que sentia quando as ouvia, nessas longas sessões de sofá, em que a música, tal como o cinema, eram o meu meio preferido de perceber e aprender o mundo.
Como acontece com as obras de todos os grandes compositores (com a obra de todos os grandes artistas), também com os grandes criadores da música popular estamos sempre a descobrir novas canções ou, ainda mais subtil, novas emoções nas canções que sempre conhecemos.
Mesmo quando temos a pretensão, e eu não a tenho, longe disso, de conhecer razoavelmente a obra de António Carlos Jobim, estamos sempre a ser surpreendidos, as descobertas e as aventuras são inesgotáveis.
Tenho estado a ouvir muito um cd com uma gravação ao vivo de Caetano Veloso e Roberto Carlos, em homenagem aos 50 anos da bossa nova, a interpretarem canções de Tom Jobim. Eu tenho uma paixão avassaladora pelo Caetano e gosto muito do Roberto, que é um grande cantor, mesmo quando anda ali no fio que separa a música popular da música brega (ou mesmo pimba). Uma das coisas que aprendi com a música popular brasileira foi precisamente que parte da sua riqueza também vem da sua capacidade de se misturar, da intercomunicabilidade das coisas e dos nomes que à partida pareciam estar em pontos antagónicos. Ouvir sem preconceito e não ter medo de gostar. Além disso, a amizade entre Caetano e Roberto vem de longe, e uma das mais belas canções que Caetano canta (nomeadamente no álbum Circuladô Vivo), Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, foi escrita em sua homenagem por Roberto, quando Caetano estava exilado em Londres, no início dos anos 70.
Quanto ao cd, ele está mais ou menos dividido a meio, primeiro Caetano depois Roberto, e a abrir e fechar dois pares de duetos. Naturalmente prefiro a metade de Caetano (com acompanhamento onde pontifica o piano de Daniel Jobim), onde se descobre a faceta de crooner de Caetano, mas um crooner mais lírico do que sentimental, sempre à procura dos lugares que as canções podem ocupar na sua voz e sobretudo no seu canto.
Mas foi na metade Roberto do disco que desta vez fui apanhado de surpresa. A certa altura ouve-se a voz do próprio Tom Jobim a cantar um dos seus maiores êxitos, Lígia, extraído precisamente de um dos especiais televisivos de Roberto Carlos. Já tinha ouvido esta canção dezenas de vezes, mesmo neste cd, que já ando a ouvir no carro há uns dias. Mas de repente há qualquer coisa que nos toca, que nos agarra e arrasta para dentro da canção. E se a música de Tom Jobim é sempre mágica e arrebatadora, desta vez o que me conquistou foram as palavras. Assim:
Eu nunca sonhei com você Nunca fui ao cinema Não gosto de samba não vou a Ipanema Não gosto de chuva nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano O seu nome não sei Esqueci no piano as bobagens de amor Que eu iria dizer, não… Lígia Lígia
Eu nunca quis tê-la ao meu lado Num fim de semana Um chope gelado em Copacabana Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei Não passou de ilusão, o seu nome rasguei Fiz um samba canção das mentiras de amor Que aprendi com você É… Lígia Lígia
A letra continua mas o essencial está dito. Um admirável poema de Chico Buarque, a que a música de Tom dá um tom (trocadilho semi-intencional) quase impressionista, e que faz derramar sobre o Rio de Janeiro, sobre a memória verdadeira ou inventada que guardamos do Rio, um manto melancólico, como a luz cinzenta e húmida das ruas quando mal acabou de chover.
Acho que estes foram os cd's que mais ouvi durante este ano:
- Seu Jorge, América Brasil - Maré, Adriana Calcanhotto - Lusitânia Playboys, Dead Combo - Brad Mehldau Trio, Live at the Village Vanguard - João Paulo, Memórias de Quem - António Pinho Vargas, Solo - Neco Novellas, New Dawn, Ku Khata - Antony and The Johnsons, Another World - Maria João e Mário Laginha, Chocolate - Rui Reininho, Companhia das Índias - Patricia Barber, The Cole Porter Mix - Lila Downs, Shake Away. Ojos de Culebra - The Magnetic Fields, 69 Love Songs - Deolinda, Canção ao Lado
Para além destes cd's, ouvi muita música através da internet, nomeadamente muitas canções interpretadas pela Carmen Miranda. O site carmen.miranda.nom.br tem, na página da discografia, uma colecção impressionante das gravações de Carmen, com informação sobre as canções, gravação, letras além, é claro, das próprias canções.
Outra fonte inesgotável de muito tempo e muito prazer a ouvir música e a descobrir sons e músicos, foi o site last.fm
Nestes últimos dias tenho ouvido muito o disco de Rui Reininho, Companhia das Índias, o seu primeiro a solo, ou melhor, sem os GNR. O Reininho é um daqueles tipos de quem se gosta ou se detesta, e eu faço parte do contingente dos fãs. Apesar de consentir que ele não tem grande voz, a verdade é que sabe usar a que tem, tendo encontrado um registo feliz, porque assume uma certa fragilidade que dá à sua prestação um toquezinho de drama, de cinema, que serve às mil maravilhas a música que faz. E depois é um letrista superior, que brinca com a língua portuguesa de uma forma criativa que é simultaneamente poética e pop.
Neste disco Reininho liga-se a uma série de músicos de uma geração mais jovem do que a sua, o que veio trazer um novo fôlego à música que faz. Os GNR mantiveram sempre a capacidade de fazer boas canções, mas têm passado por fases de crise criativa que têm tornado os albúns mais recentes pouco interessantes. Por outro lado, a Armando Teixeira, o produtor e director musical deste projecto, também fez muito bem esta associação com Reininho, porque veio trazer consistência e substância à sua pop leve e jovial. Em suma, um projecto bem conseguido, que coroa um ano interessante para a música pop feita em Portugal.
Entre as onze faixas originais do disco, há letras que se situam ao nível do melhor que Reininho já escreveu, nomeadamente Morremos a Rir (destinada a ser um hit, se não for é porque alguma coisa foi muito mal feita pela editora) e Dr. Optimista. Ambas são comentários apurados e com um humor ácido q.b. ao estado da arte do Portugal versão Sócrates 2008. Pegando num conceito já ultrapassado, estas duas canções são aquilo que se pode chamar verdadeiras canções de intervenção, com a vantagem, relativamente às genuínas, de que se podem dançar.
Para além das canções originais, Companhia das Índias inclui ainda duas surpreendentes (ou não) versões, uma delas o famoso Bem Bom, das Doce, que foi escolhido para single de apresentação e cujo clip roda em tudo o que é computador. A outra versão é de uma das canções mais bonitas de Cazuza, Faz Parte do Meu Show, e só por esta ideia de pegar na canção do Cazuza o disco de Reininho já valeu a pena (já no último disco dos GNR Reininho tinha pegado num sucesso da pop brasileira, o clássico de Roberto Carlos, versão Jovem Guarda, Quero Que Tudo Vá Para o Inferno.
A versão de Reininho de Faz Parte do Meu Show começa com uma bossa nova e evolui para um bolero, e como que distingue a componente romântica e lírica da canção. Mas apesar de ser uma versão muito bem conseguida, não consegue (e ainda bem) sombrear o original de Cazuza, que tinha, a acrescentar ao lirismo, um lado agreste e áspero que, ao invés de nos embalar, nos possuía.
E como hoje é Domingo, temos direito a dose dupla. E eis como um texto sobre o disco novo de Rui Reininho se transforma numa celebração de Cazuza. No clip de Faz Parte do Meu Show, retirado de um programa de televisão do final de 1988, são já visíveis os sinais da doença que vitimaria o cantor menos de dois anos depois, em Julho de 90. Mas neste outro, uns anos anteriores (talvez dois, a avaliar pela ficha do clip no You Tube), Cazuza ainda nos aparece em todo o esplendor da sua juventude e beleza, com um ligeiro arranho de rouquidão na voz e a atitude de quem desafia e conquista o mundo e a vida. E ainda por cima a cantar uma canção superlativamente bonita, uma das minhas preferidas. Foram esta canção e este clip que me fizeram (como dizem os franceses e o Saint-Clair) 'tombar loucamente amoroso' por Cazuza.
Melhor do que chorar com lágrimas o desaparecimento da cantora, é mesmo chorar com a música, com o ritmo, e com aquele requebro que se dá às ancas enquanto se roda. Pata Pata foi indubitavelmente o maior êxito de Miriam Makeba, o que lhe deu nome e projecção internacional. Foi uma canção que fez a travessia para o mainstream da música popular no 'primeiro mundo', antes de ter sido inventado o conceito de world music. Aliás, provavelmente Pata Pata foi o primeiro grande êxito da world music! Portugal também teve direito à sua versão de Pata Pata, com o Duo Ouro Negro (o nosso contributo para a world music avant-la-lettre).
O que é incrível é que tantos anos depois, e depois de tantos milhares de audições, ouve-se Pata Pata, nesta versão original, a de Miriam Makeba, e o corpo parece que se incendeia com vontade de dançar. E é assim, também assim, que Mama Africa ficará sempre conosco. A rir, a cantar e a dançar.
Reparem nos estalinhos que a Miriam dá quando pronuncia aquele som que é parecido com o 'G' no princípio da frase «Sat wuguga sat ju benga sat si pata pata». Lindo
Acordei hoje de manhã com a rádio a dar a funesta notícia de que morreu a Miriam Makeba. Contava 76 anos. Aparentemente de ataque cardíaco, depois de participar, em Itália, num concerto de solidariedade para com Roberto Saviano, o autor que denunciou a Camorra e agora se encontra ameaçado de morte. Ou seja, sempre solidária, Miriam, até ao fim.
Não sei se o nome diz alguma coisa às pessoas, neste tempo e neste lugar. Mas Miriam foi uma verdadeira diva revolucionária sul-africana, militante na luta contra o apartheid (e vítima da sua repressão). A cidadania sul-africana foi-lhe retirada e apenas pode regressar ao país depois de Nelson Mandela ter sido libertado e ter chegado a presidente. Foi casada com Hugh Masekela, um dos nomes geniais da música sul-africana (com forte influências jazzísticas), e com Stokely Carmichael, um activista dos Black Panthers norte-americanos, e estes dois casamentos de algum modo simbolizam o que foram as duas grandes causas da vida de Miriam Makeba, a música e o activismo político.
Quando vivi, em criança, os acontecimentos relacionados com a independência de Moçambique, o nome de Miriam Makeba era declinado como o de uma das maiores heroínas das independências africanas, merecedor de admiração e respeito. Vem desse tempo uma versão da canção A Luta Continua que Miriam dedicou específicamente à independência de Moçambique e ao seu primeiro presidente, Samora Machel. Pus um clip dessa canção (em que Miriam conta a sua história) numa entrada aqui do innersmile, e que está neste link.
Outro momento em que o nome de Miriam Makeba voltou a ser falado no ocidente, foi quando Paul Simon a convidou a participar na digressão de Graceland, o seu disco (absolutamente genial) feito com base nas sonoridades da música da África do Sul.
Não tenho bem a certeza, porque tudo repousa numa certa névoa lá no muito antigamente da memória, mas tenho a ideia de ter assistido a uma actuação ao vivo de Miriam Makeba, no pavilhão do Ferroviário de Nampula, lá nesses idos revolucionários de 70. Seja ou não desse concerto ao vivo, uma daquelas músicas que eu tenho inscrita no meu cérebro, e que assoma frequentemente, é o hino Nkosi Sikeleli Africa, que viria a ser adoptado como o hino nacional da África do Sul, cantado pela Miriam Makeba. De todo o modo, o nome de Miriam é daqueles que fazem parte integrante da minha memória e, mais não fosse por isso, da minha identidade.
So long, Mama Africa. Por todas as razões, a luta continua.
A amiga te-amo-azul chamou-me a atenção para um documentário sobre a vida da Carmen Miranda, intitulado CM: Bananas Is My Business, realizado em 1995 por Helena Solberg e por David Meyer, sendo a primeira uma brasileira residente nos Estados Unidos, tal como a própria Carmen.
O filme é muito interessante sobretudo porque tenta raspar um pouco para além dos clichés superficiais que rodeiam a imagem e até a biografia de Carmen, mostrando como de certa forma ela ficou um pouco prisioneira dessa imagem, e como, pelo menos na fase final da sua vida (essencialmente depois do final da segunda guerra mundial), as coisas nem sempre se passaram com o glamour que pareciam ter. Mas fá-lo sem pôr em causa a importância de Carmen Miranda no eclodir da música popular brasileira, e o seu papel de estrelíssima de Hollywood, antes tentando perceber o que é que em Carmen e no seu percurso de vida levaram a esses lugares tão preponderantes na história da cultura popular.
Para além disso o filme é riquíssimo em acervo documental, nos clips de imagens de arquivo (fotografias e filme), nas trilhas sonoras, e sobretudo nos depoimentos que apresenta, que são todos de primeiríssimo nível, quer pela sua importância quer pelo interesse que revestem, quer até pela oportunidade. Destaco, de cor, os de Mário Cunha, que foi o primeiro (e dizem que o maior) amor de Carmen, de Aloysio de Oliveira, seu companheiro musical e na aventura de Hollywood (e também nos amores) ou de Aurora Miranda, a irmã de Carmen que chegou a ter uma carreira de cantora quase tão promissora como a dela (para quem não saiba, Carmen e Aurora eram as famosas Cantoras da Rádio, uma canção e um número musical com estatuto de mito na história da música popular brasileira).
O meu testemunho preferido, todavia, é o de Synval Silva, sambista emérito, um dos compositores favoritos de Carmen, cuja profissão era mecânico de automóveis e que fazia muitas vezes de motorista de Carmen. É um testemunho muito comovente, que nos dá a exacta medida da importância de Carmen neste tempo, e neste lugar, o Rio de Janeiro, fundador da música popular no Brasil.
Só mais uma nota a propósito de Bananas Is My Business. O filme de Helena Solberg, entre imagens de arquivo e depoimentos, tem ainda peças de reportagem (uma delas em Portugal, a propósito das origens de Carmen) e pequenos apontamentos fílmicos que pretendem apresentar, sob a forma de fantasias, momentos marcantes da vida de Carmen Miranda. E curiosamente nestes apontamentos quem dá corpo e rosto a Carmen é Erik Barreto, um famoso artista de travesti (transformismo, como se diz no Brasil) que vem da década de oitenta, o eldorado do travestismo no Brasil.
O filme Carmen Miranda: Bananas Is My Business está disponível no YouTube, dividido em 10 partes. Para não carregar muito aqui a página com os próprios clips, aí ficam os links para as páginas respectivas.
É um poema, 'Alexandre', de Mário Jorge Bonito, com o qual o José Mário Branco fez uma canção, 1900 (Carta a Anton Tchekov).
Ouço cada vez menos música, quer dizer com cada vez menos atenção. Mas se calha um dia (ou uma noite, ou uma hora) tropeçar na música, numa canção, no Zé Mário Branco, depois fico em loop, sem conseguir sair. Sem conseguir. Hoje tropecei na canção Inquietação, do José Mário Branco, mas cantada pelo J.P. Simões. Um cd raro, edição da Fnac, que não sei como é que apareceu na casa dos meus pais. Devo ter sido eu a trazê-lo, mas não me lembro nada. Ou então veio com o jornal, não sei. Foi a minha mãe que o encontrou e deu-mo, espantada com as canções. Versões fantásticas, feitas por músicos portugueses, de algumas canções, se não clássicas pelo menos incontornáveis. Olhando para o line up do cd parece não ter havido outro critério a não ser tratarem-se todas de versões surpreendentes, espantosas (e algumas também espantadas). O disco chama-se Uma Outra História, e é uma jóia, suponho que escondida. Ora esguardai:
01. José Mário Branco + Canto Nono - O Que Será (À Flor da Pele) (Chico Buarque) 02. Margarida Pinto (Coldfinger) + Tó Trips - Capitão Romance (Ornatos Violeta) 03. Ricardo Rocha - Saudade (Love & Rockets) 04. Ana Deus + Carlos Zíngaro + Regina Guimarães + The Zany Dyslexic Band - Venus In Furs (Velvet Underground) 05. Old Jerusalem - For What It's Worth (Buffalo Springfield) 06. Carlos Bica - Paris, Texas (Ry Cooder) 07. Anabela Duarte + Mário Delgado + Alexandre Frazão + Zé Nabo - Baby (Os Mutantes) 08. JP Simões + Miguel Nogueira - Inquietação (José Mário Branco) 09. Kalaf + António Olaio + Marco Franco - Procissão (João Villaret) 10. Zé Pedro + Alexandre Soares + Gui + Pedro Gonçalves + Jorge Coelho + Fred - Call Up (The Clash)
Esta canção do Zé Mário Branco é das minhas preferidas dele, o que é uma coisa assinalável, pois eu acho que o Zé Mário escreveu muitas canções geniais. Inquietação apareceu, se não estou em erro, no cd Ser Solid/tário. Uma canção fortíssima, como todas as do compositor, intensa, arrancada das profundezas. E que eu sempre associo ao gesto do Zé Mário, ao cantá-la ao vivo, de levar a mão à cabeça, com a voz quase a tremer, quando, no final, vai repetindo o refrão.
Mas como o seu a seu dono, deixo aqui o clip de Inquietação cantada pelo J.P. Simões, porque hoje o dono desta inquietação foi o J.P. Que dá uma certa mansidão à canção, mas nem por isso a torna menos inquieta.
«A contas com o bem que tu me fazes A contas com o mal por que passei Com tantas guerras que travei Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas Meu peito feito campo de batalha Cada alvorada que me ensinas Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Ensinas-me fazer tantas perguntas Na volta das respostas que eu trazia Quantas promessas eu faria Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho Pois falta sempre pouco para chegar Eu não meti o barco ao mar Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Mas sei É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer Qualquer coisa que eu devia resolver Porquê, não sei Mas sei Que essa coisa é que é linda
Ainda a propósito das palavras deliciosas que Ruy Castro utiliza no livro Era No Tempo do Rei, uma delas, inzoneiro, conheci-a da famosa canção Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Talvez o mais famoso samba-exaltação, foi levado do Brasil para os Estados Unidos por Walt Disney, que criou de propósito a personagem de Zé Carioca para fazer um desenho animado com o Pato Donald sob o mote da canção de Barroso.
Mas se foi esta a versão, cantada por Aloysio de Oliveira, que lhe deu fama mundial (juntamente com a de Carmen Miranda), a versão definitiva de Aquarela do Brasil só pode ser a de João Gilberto. Que, como sempre fez com todos os grandes temas do cancioneiro popular brasileiro que tocou e cantou, recebeu um tratamento quase refundador. Ou seja, João Gilberto como que compõe uma nova canção por cima das canções já existentes. No seu violão e na sua voz, Aquarela do Brasil é ainda a canção de Ary mas também já é definitivamente a canção de João.
A magia única da música popular brasileira é permitir, quase no mesmo passo, no mesmo acorde, no mesmo requebrado, que estas duas versões de uma canção magnífica convivam em absoluta e perfeita harmonia.
Vinte e cinco anos depois de My Life in The Bush of Ghosts e dos Talking Heads, o Brian Eno e o David Byrne voltam a fazer um disco juntos. Vai chamar-se Everything That Happens Will Happen Today (tão oblique strategies, este título) e vai estar disponível a partir de 18 de Agosto (pelo que percebi, vai poder ser ouvido em streaming gratuitamente, ou poderá ser comprado o download ou o cd físico). Entretanto no site do disco já está disponibilizada para downloading gratuito uma das faixas, Strange Overtones. Que, desde que fiz o download na passada segunda-feira, quando foi disponibilizado, ainda não parei de ouvir. Que saudades. O som é completamente Eno, com aquelas camadas de instrumentos e vozes muito típicas das suas canções, e que lhes dão um ambiente cósmico e circular, mas o David Byrne, que fez as letras e dá a voz, traz à colaboração frescura e uma certa irreverência muito cerebral e divertida. E além disso é muito funky e dançável, o que é sempre um plus. Vai ser, a julgar por esta amostra, um cd excitante. Claro que no youtube já rodam versões da canção feitas com clips caseiros. Escolhi este porque me pareceu o que menos interfere com a música. Há um outro com uma curta-metragem muito interessante, mas que, acho eu, interfere um pouco nesta coisa de receber com alguma pureza a canção. Também foi a este clip que fui roubar a versão da letra que me parece estar bastante fiel ao texto do Byrne (e à qual só fiz uma alteração: 'mittens' em vez de 'knee things' no primeiro verso da quarta estrofe).
I wake up every morning I hear your feet on the stairs You're in the next apartment I hear you singing over there
This groove is out of fashion These beats are twenty years old I saw you lend a hand to The ones out standing in the cold
Strange overtones In the music you are playing I'll harmonize It is strong and you are tough but a heart is not enough
Put on your socks and mittens It's getting colder tonight A snowball in my kitchen I watched it melt before my eyes
Your song still needs a chorus I know you'll figure it out The rising of the verses A 'change in Key' will let you out
Strange overtones Though they're finely out of fashion I'll harmonize Seen the music in your faith That your words cannot explain
Strange overtones In the music you are playing When on a note It is strong and you are tough But a heart is not enough
Esta foto da Asha Bhosle foi tirada pelo meu amigo Mário Pires (e espero que ele não se importe de eu a pôr aqui sem autorização prévia), que é o fotógrafo do Festival Músicas do Mundo, durante o concerto que a diva das filmi sangeet deu ontem à noite em Porto Covo. A foto está lindíssima (o sari é fabuloso), faz apetecer dar beijinhos na Asha, ouvir o seu coração, mergulhar nos seus segredos, nos mistérios das mil personagens que vivem na sua voz.
Eu adoro a Asha e só de ver as fotos fico cheio de inveja, ou melhor, fico até com brotoeja de tanta inveja (ou então é mesmo das melgas que entram pela janela aberta). Como já tenho falado muitas vezes da Asha aqui no innersmile, não vale a pena chover no molhado, mesmo tendo em consideração que já não falta muito para começar o tempo das monções. Se alguém tiver curiosidade, escrevo sobre a Asha (e sobre a sua didi, a Lata Mangeshkar), nomeadamente sobre um disco fabuloso que o Kronos Quartet gravou com ela, em textos que estão nestes links: 1, 2, 3, e 4.
Claro que vale a pena espreitar as belíssimas fotos que o Mário tem feito no FMM. As do concerto da Asha estão neste link, e depois é só seguir os links para os restantes sets.
Para abrir o apetite, aí fica um clip de um dos temas mais conhecidos da Asha, Dum Maro Dum, que de certeza que ela cantou no concerto de ontem. Ok, não é a versão que ela gravou com o Kronos, mas dá para sossegar o desgosto de não a ter ouvido ao vivo.
A canção é, inevitavelmente, de um filme, Hare Rama Hare Krishna, de 1971, e o compositor é R. D. Burman, que foi um dos maiores escritores de canções para Bollywood, e que foi marido da Asha. E se alguém quiser fazer o karaoke, aqui fica a letra (o letrista de serviço foi Anand Bakshi). Prometo traduzi-la num dia em que tenha mais disponibilidade. Ou não, claro.
dam maaro dam mit jaaye gam bolo subah shaam hare kariashnaa, hare raam
duniyaa ne hum ko diyaa kyaa ? duniyaa se hum ne liyaa kyaa ? hum sab kee pawraa kare kyon ? sab ne humaaraa kiyaa kyaa ?
chaahe jiyenge, marenge hum naa kisee se darenge hum ko naa roke jamaanaa jo chaahenge hum karenge
[Bem, esta entrada tem tanta tecnologia! Caraças, estou para aí há uma hora a pôr links e a fazer copy paste e outras operações igualmente delicadas e complexas. Que falta de pachorra, não há nada como aqueles textozinhos lisinhos, sem bonecada a atrapalhar.]
Já Cá Não Está Quem Falou é uma colectânea de crónicas publicadas em jornal por Alexandre O'Neill ao longo de várias décadas. Dada a natureza da recolha, o livro é naturalmente desigual, mas a capacidade de O'Neill de brincar com a linguagem, o seu sentido de humor, e um sentido de observação sempre muito acutilante, tornam-no, como sempre acontece com as obras do escritor, indispensável. De resto, o proverbial sentido de humor, contaminado por uma ironia tão corrosiva que por vezes toca a crueldade, começa no próprio título do livro. Segundo li, trata-se de um título encontrado nos escritos de O'Neill precisamente para um possível livro póstumo.
A Mãe de Todas as Histórias é o título do mais recente livro de poemas de António José Almeida, de quem eu já conhecia o anterior O Rei de Sodoma. Há uma nota importante que tem a ver com o facto de uma parte substancial desta poesia ter um carácter assumidamente homossexual, muitas vezes mesmo homo-erótico. Muitos dos poemas de AJA como que procuram os sinais, ou as marcas, ou mesmo apenas a possibilidade, de uma poética da vivência homossexual, quer no aspecto afectivo e da relação amorosa, quer no contexto do tráfego erótico. Quanto a este mais recente livro, a história a que o título se refere é a de Adão e Eva, e muito do universo desta poesia vive de uma certa busca em procurar os lugares da actualidade, do quotidiano, onde se possa inscrever o misticismo do cristianismo.
OS SODOMITAS
Em itálico grafados noutras palavras mais duras, com mofa são observados de viés por essas ruas.
Como hienas na pintura de bestiários passados, em velhas lendas perduram os varões assinalados.
E já que estou com a mão na massa aproveito para registar aqui o cd que tem andado a rodar no meu carro, e que se chama New Dawn, Ku Khata, do músico moçambicano, radicado na Holanda, Neco Novellas (tem página no MySpace). O grande mérito deste disco é também a sua maior fragilidade, nomeadamente a sua vontade de mantendo embora firmes as ruas raízes étnicas, misturá-las e mesmo dilui-las com outros sons, nomeadamente com o jazz, o samba, o reggae ou mesmo o pop-rock anglo-saxónico, quer na sua vertente americana quer na sul-africana. Esta vontade de misturar deixa por vezes demasiado à mostra as influências de NN, e algumas faixas não chegam sequer a descolar dos seus modelos. Por isso, mais do que um resultado satisfatório, este cd é sobretudo uma bela promessa do que ainda pode vir a fazer um músico muito talentoso, quer como intérprete quer como compositor, oriundo de uma família de tradições musicais e com uma experiência grande e muito variada.
Por vezes a beleza é triste e assim explica-se mais facilmente. Mas outras vezes não, é só uma beleza intensa, lírica, derramada como a luz do sol nos passeios de calçada deste Junho português. E deve ser por isso, por essa intensidade impossível, por ser uma nesga de felicidade que entrevemos e sabemos nunca conseguir segurar nas mãos, deve ser, sim, essa improvável e intocável saudade que sabemos que vamos sentir de alguma coisa que nunca provámos, deve ser isso tudo que nos provoca uma imensa vontade de chorar quando nos encontramos, tão desprevenidos e desamparados, perante a beleza. Deve ser por isso tudo (ou não, diria a menina) que estou aqui a ouvir o disco novo do António Pinho Vargas, Solo, e a sentir que a única coisa decente que um tipo pode fazer perante música assim é romper em choro, lágrimas silenciosas e ternas como passarinhos. É um álbum duplo, os discos têm nome, Imperfeições 1 e Imperfeições 2, e então talvez seja a forma tão perfeita como estas imperfeições nos retratam. As músicas umas são novas, quase todas não, são canções, sim canções antigas, que já conhecíamos de discos anteriores do António Pinho Vargas, mas recriadas como se fossem um hino qualquer à solidão, um apelo à paz, a ânsia da cabeça em desalinho em repousar na serenidade de uma almofada branca. Que fazer perante um disco assim? Vale chorar?
Não é costume pôr aqui no innersmile fotos sacadas da net, mas esta, que surripiei do blog sound + vision é total e absolutamente fabulosa. Só o Morrisey tem a dose certa de ousadia pop star e de sentido de auto-ironia para fazer a foto resultar na perfeição. Com qualquer outro soava sempre a vaidade auto-complacente ou a brincadeira ingénua apalermada. Com Moz não, ela diz exactamente aquilo que nela está inscrita. É a foto do ano, seja qual for o ano em que foi tirada.
Ainda andava às voltas do cd do trio de Brad Mehldau quando me caiu na gavetinha do cd o disco Memórias de Quem (selo da Clan Feed/Trem Azul), do pianista português João Paulo, aka João Paulo Esteves da Silva, um músico com um currículo vastíssimo que basicamente já tocou com tudo o que é nome das áreas do jazz e da música popular. Eu já tinha visto um concerto do João Paulo, há três anos, numa edição do festival de jazz de Coimbra (o JACC, que não sei se este ano se realiza), e este cd está muito na linha desse concerto: piano solo, improvisações absolutas, com temas (em três faixas) da música popular. O piano solo do João Paulo é muito original, e tem muito pouco a ver com as referências habituais neste tipo de prestação, não fazendo muito sentido compará-lo nomeadamente com outros nomes do jazz nacional que se dedicam ao jazz nacional. Uma coisa é certa, juntamente com o Mário Laginha e o Bernardo Sassetti, formam um triângulo absolutamente luminar do piano jazz em Portugal.
estou a ouvir o disco mais recente do trio de brad mehldau, um duplo gravado ao vivo no village vanguard, um clube de jazz em nova iorque cujas escadas desci numa noite feérica e só me lembro da cor vermelha e ao fundo uma sala escura, e então brad mehldau e os seus companheiros larry grenadier e jeff ballard, o primeiro um velho companheiro dos discos em trio de mehldau, começam a tocar uma versão de o que será do chico buarque, que estou agora a ouvir novamente enquanto escrevo isto, e então eu parei de fazer o que estava a fazer, que era ler, e comecei a cantar baixinho ao som da melodia tocada em pianíssimo por brad mehldau o que será que será que andam suspirando pelas alcovas, mas de repente paro e percebo que a voz que oiço não é a de chico buarque mas sim a de milton nascimento, bituca, carrego no botão para regressar ao início da faixa e, sim, é de milton nascimento a voz que ouço a cantar no pianíssimo de brad mehldau:
O que será que me dá Que me engole por dentro O que será que me dá? Que brota à flor da pele O que será que me dá? E que me sobe às faces E me faz corar E que me salta aos olhos A me atraiçoar E que me aperta o peito E me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular E que nem é direito ninguém recusar E que me faz mendigo Me faz suplicar O que não tem medida, nem nunca terá. O que não tem remédio, nem nunca terá. O que não tem receita.