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[icon] um voo cego a nada
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Subject:o outro
Time:11:58 am
Retardo-me nas últimas páginas do livro. Não tenho vontade de o terminar, pelo contrário apetece-me atrasar o momento da derradeira página. Leio e releio o capítulo dedicado ao encontro com Borges. É irrepreensível. Em todo o capítulo há apenas uma palavra de que não gosto. Tento, sem sucesso, fixar os trechos dos poemas citados. Levanto-me e vou olhar os livros de Borges que tenho na minha estante, e que li há tantos anos.
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Subject:o velho expresso da patagónia
Time:07:55 pm


Por vezes, quando estou fascinado com um livro, só me apetece lê-lo, de seguida, quase sem levantar a cabeça, completamente absorvido. Outras vezes a maneira de um livro me fascinar é brincar com ele, entreter-me, tomar notas, recortar e fazer colagens. Ok, não propriamente em sentido literal, pelo menos os recortes e as colagens.

É o que me está a acontecer com o livro que estou de momento a ler, O Velho Expresso da Patagónia, de Paul Theroux. É um clássico da literatura de viagens, publicado pela primeira vez há quase 30 anos, e que se conta em duas penadas: um dia o Paul Theroux apanhou o comboio suburbano que o levou da cidade de Medford até Boston, e foi mudando sucessivamente de comboios até chegar à Patagónia. Ao contrário do que é habitual na literatura de viagens, que nos fala dos lugares visitados, o objecto do livro de Theroux é a viagem em si. Não o lugar, mas o modo como se chegou lá.

Se a ideia já de si é fascinante, o estilo de Theroux torna-o irresistível. Não sendo propriamente uma personagem muito simpática, é o seu humor, as suas idiossincrasias, as suas observações sempre pouco complacentes. Mas, atenção, Theroux não chega exactamente a ser arrogante, e se o seu olhar nunca deixa de ser o do estrangeiro, do forasteiro de passagem, essa é também a sua maior honestidade, a sua razão.

Até ao ponto do livro onde estou, pouco menos de meio, quando Theroux acabou de fazer aquela que creio ter sido a única viagem de avião que fez (ele não fala sequer disso, não gosta de viagens de avião e por isso não se rebaixa a falar deste ponto fraco da viagem), entre El Salvador e a Costa Rica, uma vez que não teve autorização para atravessar a Nicarágua, então a viver o período final da ditadura dos Somoza e a revolução sandinista.

O livro compõe-se essencialmente das peripécias relativas à própria viagem, às linhas férreas, aos comboios; de apontamentos sobre as paisagens e os lugares; e dos encontros que Theroux vai tendo ao longo da viagem, e que compôem uma galeria de personagens notável.

Estou a companhar o evoluir da viagem de Theroux através das Américas nos mapas do Google Earth, tentando reconstituir todos os percursos, as linhas férreas utilizadas, os pontos de fornteira atravessados. Estou, além disso, a apontar todas as cidades (enfim, quase todas) que Theroux vai referindo ao longo da prosa, e também os livros que ele vai lendo (e que são igualmente uma parte importante da viagem). Apetecia-me ir pondo aqui estas listas de lugares e de livros, e se calhar ainda o faço. Também tentei desenhar no mapa todo o percurso do Theroux, mas por um lado há pedaços do texto que são demasiado imprecisos para conseguir reconstruir o trajecto, e por outro há linhas férreas que não se conseguem ver no Earth. Seja como for, ler um livro destes, e partilhar a aventura de Theroux, é só por si uma pequena aventura.

Para quem esteja eventualmente interessado, o blog da editora Quetzal tem o primeiro capítulo do livro disponível para download, e o Books.Google tem a edição integral do livro, em inglês.
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Subject:um lobo à mesa
Time:11:31 pm


O Augusten Burroughs é autor de um romance, Sellevision, o único que não li, dois volumes de histórias autobiográficas, Magical Thinking e Possible Side Effects, e os que lhe granjearam maior popularidade, os volumes de memórias Running With Scissors e Dry, ambos editados em Portugal, relatos na primeira pessoa do singular de situações disfuncionais levadas ao limite, salvas pelo humor do Augusten, que é feito da mais ácida auto-ironia que se possa imaginar.

Acabei de ler agora o mais recente volume destas memórias, A Wolf At The Table, dedicada à figura do pai de Augusten, e centrada sobretudo na sua infância (Scissors era sobre a adolescência e Dry sobre os twenties). É de longe o meu livro preferido do Augusten, e isto é dizer muito porque eu já era um fã da sua escrita. É um livro negríssimo, de uma crueldade que chega a ser chocante, de um sofrimento que só não leva às lágrimas porque ficamos absolutamente secos e mudos. Não consigo bem apontar o que é que é diferente neste livro que o torna mais poderoso do que os anteriores, mas tem a ver, talvez, com o facto de Augusten ter posto candura onde antes punha humor. Ou também com uma certa tranquilidade que emana do livro, e que pode parecer paradoxal face à sua crueza. Pode ter a ver, enfim, com o facto de enquanto os livros anteriores serem relatos de disfuncionalidades, este é quase apenas sobre um sofrimento que é tão incompreensível que se torna manso, mudo. Quase como se tivéssemos uma ferida que nos alimenta tanto quanto nos consome e destrói.

Os livros anteriores do Augusten, sobretudo o Running With Scissors, que foi um fenómeno brutal de vendas nos EUA, estiveram sempre rodeados de alguma polémica, nomeadamente no que toca à exactidão e ao rigor dos relatos memorialistas. Houve sempre, nomeadamente da parte de algumas pessoas envolvidas (mesmo com o disfarce dos nomes alterados), uma forte contestação quanto à sua veracidade, acusando o autor, não de dourar, mas de enegrecer a pílula. Não sei se o mesmo aconteceu em relação a A Wolf At The Table. Mas garanto que se o que lá está é verdade, todas as infâncias difíceis vão parecer brincadeiras de crianças ao pé do deserto espinhoso de medo e solidão emocional que foi a infância de Augusten.


Escrevi este texto há dois ou três dias, no momento em que terminei a leitura do mais recente livro de Augusten Burroughs. Não o publiquei de imediato, porque precisava que acalmasse a comoção que foi a sua leitura. Precisava de arrefecer, de ganhar distância. Percebi que nestes dias o livro continua comigo, e que é um livro que me marcou profunda e intensamente.

Há livros, e autores, de que gostamos muito, e este era o caso, comigo, do Augusten Burroughs e dos seus livros. Mas de vez em quando aparece um livro que nos toca de maneira especial. Nem sequer é o caso de dizer que o livro me falou de modo particular, longe disso, não tive uma infância difícil, antes pelo contrário, fui sempre muito amado e, enfim, a minha família sempre este ali dentro da curva de Gauss da funcionalidade normal. De modo que não é uma questão de identificação. Acho que é mesmo o caso de o livro estar tão bem escrito que é impossível não nos deixarmos invadir pela sua história, mais até do que nos emocionarmos com o facto de se tratar de uma memória de infância do autor. Todo o livro é negro, sombrio, há nele uma ânsia, uma sede, e ao mesmo tempo uma ausência, um vazio; isso tudo que nos transporta creio ao que de mais elementar e essencial existe no sentimento humano. De algum modo, a essência do amor, e por isso do humano, está presente, na sua forma mais dolorosa e pungente, em cada página deste livro.
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Subject:cidades
Time:10:45 pm
Não é que tenha um interesse especial, mas é engraçado ter começado a ler um livro esta noite, e logo no primeiro capítulo se referirem duas das cidades onde é passado o livro que acabei de ler ontem à noite. Ficam no estado de Massachusets, nos EUA, e são as cidades de Springfield e Amherst.
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Current Music:Brian Eno - Regiment | Powered by Last.fm
Subject:barroco tropical
Time:10:36 pm


É uma coisa assim aparentada da euforia: começo a ler os livros do José Eduardo Agualusa e fico logo num estado de espírito um tanto ou quanto excessivo, transbordante. Talvez por conterem tão justamente a medida da vida, os romances de Agualusa parecem sempre maiores do que ela. Foi isto, mais uma vez, que me aconteceu com a leitura de Barroco Tropical, o seu mais recente livro.

Assumidamente com pretensões a ser uma distopia, a acção do romance passa-se em 2020, o que permite ao autor traçar um retrato negro da sociedade actual angolana, se não ainda exactamente como ela é, muito mais como ela está a caminho de se tornar. Agualusa é, como se sabe, um crítico do regime de Angola, o que lhe tem valido alguns dissabores. E neste livro essa crítica é particularmente impiedosa, tanto mais que Agualusa autor põe muito da sua experiência, das suas experiências, nas desventuras por que passa Bartolomeu Falcato, o protagonista.

Mas se o quadro é sombrio, a escrita de Agualusa é sempre humorada, luminosa, e o livro lê-se numa fervurinha, com as sua galeria de personagens a bordejar o inverosímil, e uma sucessão de peripécias, em tom de thriller político, que tornam difícil interromper a leitura. Depois, o jogo da autobiografia, a que já me referi, acrescenta humor e desafio à narrativa, tornando-a especialmente instigante.

Em notas no final do texto, Agualusa explica que o título do romance corresponde a um termo utilizado pelo poeta moçambicano (no sentido geográfico do termo) Virgílio de Lemos. Barroco Tropical é uma expressão feliz, e que assenta na perfeição à escrita de Agualusa, mas onde cabe toda uma corrente e uma influência que as literaturas dos Palops vieram trazer à língua portuguesa.
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Current Music:Classical Jazz Quartet - Piano Concerto No. 2 in C Minor/Movement 2. Part 1. | Powered by Last.fm
Subject:noite dentro
Time:06:36 pm


«O almirante estava de boca aberta. Demorou algum tempo a emergir da estupefacção. Quando Fernando desdobrara as toalhas, parecera-lhe ridículo: um desejo irrisório de conservar o que não pode perdurar. Mas, agora, debruçava-se sobre as toalhas, percorria-as com o olhar, o dedo, e a emoção apoderava-se dele. O que tinha à sua frente era uma espécie de cartografia da amizade. As manchas de vinho. A posição dos pratos. Tornava-se possível imaginar quem se sentara em que lugar. Relembrava os gestos das mãos por cima das toalhas. Um copo que se entorna e interrompe momentaneamente a conversa. Uma migalha de pão amassada na ponta dos dedos. Era a marca mais comovedora que poderia restar dos seus encontros. Um grande número de toalhas.»

É um excerto de Noite Dentro, Moçambique, o conto final e que dá o título a este livro da autoria de Laurent Gaudé. Quatro narrativas breves, muito atmosféricas, carregadas de uma enorme sensibilidade e que se desenrolam em ambientes muito masculinos, no sentido mais violento da palavra. Em todas elas, personagens confrontam-se com os seus fantasmas, com um rasto de sangue e de violência, com a presença, mais do que o mero cheiro, da morte.

Noite Dentro, Moçambique foi o conto que me levou ao livro, e cujo tema se revelou absolutamente surpreendente, mas se tiver de escolher um como eleito, prefiro o primeiro, Sangue Negreiro, em que um capitão é verdadeiramente assombrado por mais do que a simples memória maldita de um massacre perpetrado a um grupo de escravos em fuga.

Laurent Gaudé escreve com elegância, os textos são muito evocativos de ambientes e de lugares, mesmo para quem não os conheça, os capítulos são curtos, e cada parágrafo quase que pode ser lido como uma narrativa por si só. Em suma, um livro breve e intenso, que deixa um tom amargo mas ao mesmo tempo melancólico.


PS: [info]labrax, lembrei-me de ti ao ler o livro, acho que irias gostar muito de o ler. Foi editado pela Asa, para o caso de estares interessado.
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Current Music:Wilson Simonal - Os Escravos de Jó | Powered by Last.fm
Subject:smooth swiftness
Time:10:51 am


Lembrei-me de começar a passar para aqui as primeiras frases, ou os primeiros parágrafos dos livros que leio. E lembrei-me de fazer isso precisamente quando li o primeiro parágrafo de A Damsel in Distress, do P.G. Wodehouse. Que é assim:

«In as much as the scene of this story is that historic pile, Belpher Castle, in the county of Hampshire, it would be an agreeable task to open it with a leisurely description of the place, followed by some notes on the history of the Earls of Marshmoreton, who have owned it since the fifteenth century. Unfortunately, in these days of hush and hurry, a novelist works at a disadvantage. He must leap into the middle of his tale with as little delay as he would employ in boarding a moving tramcar. He must get off the mark with the smooth swiftness of a jack-rabbit surprised while lunching. Otherwise, people throw him aside and go out to picture palaces.»

Li o ano passado dois livros do Wodehouse traduzidos e publicados por cá, ambos da série Wooster e Jeeves (acerca de quem, descobri agora, foi feita uma série cómica com o Hugh Laurie e o Stephen Frey, com muitos clips no YouTube). Mas quando comecei a ler este, no original inglês, é que percebi o poder humorístico da escrita de Wodehouse, e que é a essência dos seus livros, muito mais do que o cómico das situações retratadas (que, neste como nos outros, é uma variação do humor típico do autor: pôr a ridículo a luta de classes inglesa, com os upper class tolos e excêntricos e os downstairs matreiros ou simplórios, com trocas de identidade e enganos amorosos).

Aquela primeira frase que transcrevi é verdadeiramente prodigiosa. É complexa do ponto de vista sintáctico, e no entanto lê-se de forma cristalina. Segura-nos um bocadinho sem nos deixar entrar directamente na narrativa, mas enunciando que isso é coisa que não se pode fazer. E sobretudo marca o tom do tipo de humor que vai ser praticado, em que o narrador não é uma entidade presciente, mas emana da própria linguagem. Enfim, não sei explicar isto muito bem, mas seja como for é humor em pólvora.
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Current Music:Geoffrey Burgon - Sebastian's Summer | Powered by Last.fm
Time:07:31 pm


Há séculos, ou pelo menos desde o século passado, provavelmente desde a década de oitenta, que eu não lia um livro de Eça de Queirós. A Eça pode ser imputada grande parte da responsabilidade de eu gostar de ler: quando fui obrigado, pelo programa escolar, a ler Os Maias, no liceu, adorei. E durante uma certa altura, foi a minha leitura mais consistente. Aproveitei agora o facto de a colecção de bolso Biblioteca de Editores Independentes ter editado A Correspondência de Fradique Mendes para voltar a ler. Não sendo provavelmente a melhor 'joy ride' (constitui blasfémia usar expressões estrangeiras quando se fala sobre Eça de Queirós?) em termos de aventura narrativa, o livro proporciona, para além da escrita sublime do escritor, um retrato do que era a modernidade em finais do século XIX, e, por contraste, o que era a sociedade portuguesa nessa época (e que, para nossa desgraça, continua a ser).



Quando morreu António Alçada Baptista, aqui há uns meses, senti saudades dos livros dele que li, das histórias, do humor, da ternura e da bondade que sempre se desprende das suas páginas. Aproveitei um intervalinho entre leituras para regressar ao autor e ler o primeiro volume da sua Peregrinação Interior, Reflexões Sobre Deus. Apesar de o livro expressar reflexões e dúvidas que se calhar o tempo, ou pelo menos o meu tempo, resolveu, é interessante, e chega a ser comovente, assistir, e participar, no processo profundo e intenso (e mesmo violento, se bem que esta palavra não vá nada com o autor) que António Alçada travou para dar um sentido à presença de Deus, não tanto na sua vida, mas sobretudo na sua intelectualidade, na sua maneira de olhar e perceber o mundo, a vida e os homens.

Este texto teve o elevado patrocínio do chá Porto Formoso (variedade orange pekoe) e da banda sonora que Geoffrey Burgon escreveu para a série Brideshead Revisited. Um e outra, dois assomos de lirismo nesta tarde tão sem graça.
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Subject:livros
Time:06:30 pm

A editora Bico de Pena publicou Os Anjos Maus, mais um livro da colecção Pena de Pavão, especialmente dedicada à literatura de temática homossexual. O seu autor, Éric Jourdan, escreveu-o quando tinha 17 anos e a primeira edição do livro, em 1955 foi escandalosa e originou a sua censura durante mais de trinta anos. Trata-se do relato de um amor adolescente, ou melhor de dois relatos, já que o livro se divide em duas partes, correspondendo a cada uma delas o relato de cada um dos protagonistas, em tons diversos, e mesmo contraditórios, e que correspondem aos temperamentos e ao modo como cada um deles vive a paixão. Num estilo lírico, que celebra a beleza da juventude e a juventude da beleza, ousando a crueza quando ela faz sentido, a história de Pierre e Gérard assenta em três pilares: o amor, a sexualidade e uma pulsão auto-destrutiva, que pode ser particularmente violenta. É, para o meu gosto, um livro mais interessante do que propriamente envolvente, apesar das passagens sobre a beleza física dos protagonistas ter passagens muito belas.


Confesso que me entusiasmou bastante mais o livro O Pico da Micaia, da autoria de Luís Amorim de Sousa (editado pela Assírio & Alvim). Apesar de primeiro o ter enquanto poeta, com o livro Ultramarino, este é já o terceiro livro de memórias do autor que leio, depois de dois volumes dedicados à sua vivência londrina, Crónica dos Dias Tesos e Londres e Companhia. O Pico da Micaia, como o título deixa perceber, dedica-se às memórias africanas, nomeadamente à infância e juventude do autor, passada em Moçambique. Uma das coisas que contribui para o prazer de ler estes relatos auto-biográficos, é a própria escrita do autor, muito simples e cuidada, num registo destituído de qualquer afectação literária, e que é especialmente indicado para o estilo memorialista.
Estou a gostar bastante do livro, não só pela escrita, que é deliciosa, mas também porque é dos livros onde vejo com mais rigor retratada o que foi uma certa vivência colonial. Apesar do tempo do autor ser muito diferente do meu, há muitas coisas que reconheço, quer pelas minhas próprias memórias, quer por histórias de família que fui aprendendo. Mais do que as experiências em concreto, os episódios, as peripécias, resulta do livro um modo de viver que era muito típico do tempo em que Moçambique era uma colónia portuguesa.
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Subject:beautiful shadow
Time:05:30 pm


Terminei finalmente a leitura de Beautiful Shadow, A Life of Patricia Highsmith, uma biografia da autoria de Andrew Wilson sobre a criadora de Tom Ripley. Chateia-me ler livros muito grandes, porque leio muito devagar e demoro muito tempo a lê-los. Este, com mais de 500 páginas e uma mancha de texto muito densa e um tipo pequeno, demorou mais de um mês!

Trata-se de uma obra admirável, e dificilmente poderá surgir uma outra que atinja o mesmo nível de acutilância e profundidade na análise que faz da vida de Patricia Highsmith tendo como referência a sua obra literária. Wilson teve algumas condições extraordinárias na feitura do livro, nomeadamente pelo acesso a todo o espólio literário de Highsmith. Durante toda a sua vida, a escritora manteve cadernos de notas onde assentava, diariamente, as suas experiências, o seu dia a dia, as suas reflexões, as leituras; tudo, desde o mais prosaico, como o rótulo de uma garrafa de vinho, até complexas reflexões sobre filosofia, ou profundas sessões de auto-análise. Além disso, manteve ainda cadernos (os seus 'cahiers') que serviam para anotar e organizar as suas ideia literárias, sendo que muitas delas se transformaram em romances ou contos publicados, muitas deram em obras que se mantiveram inéditas, e muitas outras não passaram de esboços, projectos, ideias que nunca encontraram concretização.

Como se imagina, trata-se de um material riquíssimo, que permite a Andrew Wilson fazer uma close reading de toda a obra literária de Patricia Highsmith, e de que resulta uma biografia literária muito completa, e que abre perspectivas e avança interpretações não apenas em relação aos grandes temas de Highsmith, mas que desce a pormenores e detalhes, chegando ao ponto de identificar, por exemplo, a origem de determinadas frases dos livros ou os lugares onde se desenrola a acção de algumas sequências.

É impossível resumir aqui um esboço que seja do universo literário e da personalidade, como escritora, de Patricia Highsmith. É interessante notar que dos testemunhos recolhidos resultam muitas vezes perspectivas contraditórias, embora quase todas concordem com uma nítida misantropia, uma angústia, que lhe vinha desde a infância, provocada por uma relação atormentada e dolorosa com a mãe, e uma homossexualidade sempre assumida mas nem sempre de modo muito pacífico. Se as ideias políticas de Highsmith eram algo incoerentes e nem sempre muito simpáticas, o olhar negro que deitou à sociedade contemporânea, particularmente em relação à sua América natal e com a qual manteve sempre uma relação muito difícil (Highsmith viveu a maior parte da sua vida adulta expatriada na Europa), originaram uma obra literária que sempre fugiu ao cânone do policiário, justificado apenas pelo enorme fascínio que o crime lhe suscitava, não tanto enquanto puro exercício de maldade (mas também), mas sobretudo como ponto de ruptura da moralidade com que a sociedade pretende constranger o indivíduo, e do dilema que essa ruptura lhe provoca, ou seja, o modo como ele vive a culpa.

Suponho que esta seja uma obra que interessa sobretudo aos fans de Patricia Highsmith, entre os quais naturalmente me incluo. É no entanto mais do que isso; já nem refiro um comentário ao século XX tal como foi vivido, e sofrido, pelo homem ocidental. Beatiful Shadow é, sobretudo, a história de uma mulher que viveu enormes e dilacerantes angústias e fragilidades, e que as escreveu sob a metáfora do crime e da maldade, com uma escrita rigorosa e simples, que ela trabalhava de forma obsessiva porque era a única maneira que sabia de se salvar de si própria.
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Subject:chris & don
Time:11:32 pm
Durante o verão de 2001, e boa parte do Outono, li o primeiro volume dos Diários de Christopher Isherwood. Um livro com mais de 1000 páginas, cobrindo os anos de 1939 a 1960. Foi também nesse verão, em finais de Julho, que comecei a escrever este diário on-line, e muitas dessas entradas iniciais foram escritas ao ritmo, e sob influência, da leitura dos diários de Isherwood.

Tive agora a sorte de ver o documentário Chris & Don, A Love Story, que relata, como o título deixa adivinhar, a relação de mais de 30 anos que uniu Isherwood a Don Bachardy. Na realidade, conheceram-se no início da década de 50, e em 1952 já viviam juntos, quando Isherwood tinha 48 anos e Don 18. Isherwood, que nunca tinha escondido a sua condição de homossexual, decidiu igualmente nunca esconder essa relação que, por causa da diferença de idades e de estatuto social, foi escandalosa. E estiveram juntos durante mais de 30 anos, até à morte de Isherwood, em 1986.

O filme, realizado em 2007, é uma crónica afectuosa e comovente dessa relação, centrando a sua atenção em Don, e juntando depoimentos de amigos e especialistas na obra de Isherwood, filmes antigos feitos pelo casal, pequenas reconstituições da relação entre os dois (na minha opinião a parte mais débil do filme, perfeitamente dispensável), e até pedaços de filmes de animação a partir de duas personagens de animais que Chris e Don assumiam na sua intimidade.

O resultado, sem escamotear as dificuldades porque passa uma relação tão duradoura, dá evidência de um amor extraordinário, pelas circunstâncias, pelas formas que esse amor assumia, e também pelo retrato que fica de Christopher Isherwood. É que se o filme se baseia e perspectiva em torno de Don Bachardy, dos seus relatos, das suas memórias, e até da sua vivência nos anos pós-Chris, a verdade é que é sempre e em cada fotograma, um veemente canto de amor que Don dirige a Chris. Aliás, mais até do que um canto de amor, a evocação que Don faz de Chris é um verdadeiro canto de vida.

A produtora do filme tem um site rico em material sobre o filme (www.asphalt-stars.com). O site da Isherwood Foundation tem o arquivo das newsletters onde há igualmente material sobre o filme e uma lista muito boa de recursos on-line sobre Christopher Isherwood.
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Subject:carol
Time:10:33 pm
Em Dezembro de 1948, a um mês de completar 28 anos, Patricia Highsmith arranjou emprego como balconista na secção de brinquedos dos armazéns Bloomingdale’s em Nova Iorque. Era uma maneira de arranjar um meio de subsistência enquanto tentava encontrar uma voz distinta no seu propósito de se tornar escritora de romances.

Logo num dos primeiros dias de trabalho Highsmith atendeu uma cliente, loira e elegante, vestindo um casaco de peles, e sentiu-se, nas suas próprias palavras, instantaneamente apaixonada. Tratava-se de Katheleen Senn, uma esposa e mãe de família de Ridgewood, em New Jersey. Comprou uma boneca para uma das suas filhas, deixou o nome e o endereço para entrega da encomenda, e saiu. As duas mulheres nunca mais se tornaram a cruzar, mas Patricia Highsmith ficou tão obcecada que uns dias depois começou a pensar num romance construído à volta dessa mulher. Por duas vezes deslocou-se até Ridgewood, apenas para poder espiar a sua casa, a última das quais em Janeiro de 1951, já depois de ter publicado o seu primeiro livro, Strangers On A Train, que lhe trouxe desde logo renome e sucesso como escritora de crime e suspense, e com base no qual Alfred Hitchcock filmou uma das suas obras-primas.

Em Maio de 1952, Patricia Highsmith, sob o pseudónimo de Claire Morgan, publicou The Price of Salt (republicado em 1990 com o título Carol, e com o nome de Highsmith como autora), uma história de amor lésbico baseada nas paixões e amores de Highsmith. No romance Therese, uma aspirante a cenógrafa teatral, trabalha no sector de brinquedos de um grande armazém de Nova Iorque. Um dia atende uma cliente, Carol, que vem comprar uma boneca para a filha. As duas encontram-se, apaixonam-se, e vivem um romance que inclui uma viagem de carro através da América.

Em Outubro de 1951, quando o livro já estava escrito e Patricia Highsmith se debatia com o dilema de o publicar, num tempo (e já agora numa América) em que a homossexualidade era um tema tabu na literatura, Katheleen Senn fechou-se na garagem de casa, pôs o motor do carro a trabalhar e suicidou-se. Sem nunca saber que tinha despertado uma paixão tal, ao ponto de ter inspirado um livro. De igual modo Patricia Highsmith nunca chegou a saber que a sua Carol se tinha suicidado, e ainda antes de ter publicado o livro que ela inspirou.
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Subject:a casa
Time:07:15 pm


A semana passada, logo após ter chegado de férias, comprei o catálogo da exposição ‘Colecção Alberto de Lacerda: Um Olhar’, editado pela Assírio & Alvim. Para além das reproduções das obras de arte que Alberto de Lacerda foi coleccionando ao longo da vida, o livro, em forma de álbum, reúne ainda um acervo de iconografia vária relacionada com o poeta: fotografias, cartas, autógrafos, reprodução de capas de livros e de discos (e não se pense que estamos a falar apenas de cultura erudita, há duas fotos da capa do célebre disco da banana, dos Velvet Underground). Não vi a exposição, que permanece até final de Maio na Fundação Mário Soares, que, por iniciativa de Luís Amorim de Sousa, o guardião das coisas de Alberto de Lacerda, abriga todo o espólio do poeta. No site da Fundação Mário Soares, há uma página dedicada à colecção e que tem praticamente todos os textos e demais materiais que vêm incluídos no catálogo.

Alberto de Lacerda é uma das personagens principais aqui do meu diário, porque é um dos meus poetas preferidos. E porque, por razões íntimas que prefiro não analisar, me toca em algumas partes sensíveis. Algumas dessas coisas estão plasmadas neste poema, que vem reproduzido, em fac-simile do manuscrito, no catálogo (tal como a reacção que lhe mereceu a pintora Paula Rego, e que é tão notável como o poema). Não me está muito a apetecer ir ali procurar nos livros que tenho de Alberto de Lacerda se lá tenho o poema, por isso vou reproduzi-lo do catálogo. Espero que não tenha erros por má interpretação da letra do poeta, mas se tiver, paciência, isto também é mais só para mim.

A casa ficou por construir
Cheguei tarde
E o ardor mútuo não impede
Que os nossos caminhos
Sejam diferentes

A casa ficou por construir
As várias salas
Os longos corredores
O quarto mais tranquilo
Com seu leito

A janela rasgada
Donde te veria surgir
Todos os dias
A lareira que nos protegeria
Do que a vida tem de enregelado

O suceder das estações acompanhando
O acumular dos anos e a confiança
Que um amor profundo dissemina

Vivo num cacifo solitário
No outro lado do oceano
Longe tão longe donde tu nasceste

Mas a casa
Nossa
Ficou por construir

Pássaro ferido
Sou um hóspede
No teu coração

[Boston, 14 de Janeiro de 1994]
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Subject:a utopia, tudo e mais
Time:06:19 pm
Comecei a ler, e tenciono levar para férias, Beautiful Shadow, a biografia de Patricia Highsmith escrita por Andrew Wilson. Ainda não passei da introdução, mas cito já este pedacinho, a propósito de uma entrevista feita por Janet Watts para o jornal The Guardian em 1990, quando a escritora tinha quase 70 anos:

”When Watts quizzed her about the inspiration for Carol and her relashionship with women, Highsmith responded, ‘I don’t want to say. People’s emotional life… I think it’s all accidental, and not planned. It is very hard to talk about.”

~
Continuo a ouvir obsessivamente discos antigos do Milton Nascimento. Adoro esta canção, Coração Civil, e decidi fazer um clipzinho com fotos que tirei nas últimas férias, em Porto Seguro. Aí fica a fazer companhia, enquanto eu vou ali uma semana à Guatemala passear um bocado, e já volto. Hasta.



Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade nos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver
São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
Bom sonhar coisas boas que o homem faz
E esperar pelos frutos no quintal
Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ?
Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida
Eu vou viver bem melhor
Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar
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Current Music:Aracy de Almeida - Conversa De Botequim | Powered by Last.fm
Subject:doida não e não
Time:11:38 pm


Tenho estado a ler um livro fascinante, ou melhor sobre uma história fascinante, daquelas que a história acaba por resguardar. A autora do livro é Manuela Gonzaga, de quem eu li, há tempos, uma biografia sobre António Variações, intitulada Entre Braga e Nova Iorque.
‘Doida Não e Não’ não é tanto uma biografia, talvez mais um ensaio biográfico, pois restringe o seu escopo a um episódio (determinante, naturalmente) da vida da sua protagonista. Maria Adelaide Coelho da Cunha era filha do fundador do jornal Diário de Notícias e casada com o seu administrador, morava no palácio de São Vicente, e era, nos anos de 1910, uma das mais destacadas e distintas socialites da Lisboa da época.

Num dia de Novembro de 1918, Maria Adelaide desaparece sem deixar rastro, e quando todos julgavam que se tinha matado, dá escassas notícias pedindo à família que a considere morta e que não a procure. Tinha fugido com um chauffeur, antigo empregado da família, vinte e tal anos mais novo do que ela (que teria nesta ocasião já perto de 50 anos). O que se seguiu foi um processo implacável, cruel e muito eficaz, traçado pelo seu poderoso marido e levado a cabo com uma igualmente poderosa rede de cumplicidades, que visava considerar Maria Adelaide louca e inimputável, assim resgatando a honra da família abandonada e resguardando a fortuna familiar.

O livro de Manuela Gonzaga, para além de seguir este romanesco fascinante e a sua protagonista, insere-se ainda numa análise de género, contextualizando a história à luz da sociedade da época e do papel que nele desempenhava a mulher, associando o castigo que se abateu sobre Maria Adelaide à sua ousadia de quebrar, e logo por amor, o seu destino de mulher ilustre mas submissa.

A história de Maria Adelaide, o seu contributo para o conhecimento da época, e o suporte teórico com que a perspectiva a autora, Manuela Gonzaga, tornam este livro absolutamente imperdível.
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Current Music:Jamelão e Orquestra Tabajara - Sozinha | Powered by Last.fm
Subject:passaporte
Time:10:28 pm


Acabei de ler Passaporte, uma colecção de textos da autoria de Maria Filomena Mónica, reunidos sob a égide das viagens. Viagens diversas, no tempo e na geografia, algumas cá dentro, duas à vizinha Espanha, a Inglaterra, e a destinos mais exóticos como Istambul, o Cairo ou Macau e Hong Kong. Ao todo são 13 textos, que em comum têm a desenvoltura da escrita de Maria Filomena Mónica, o seu humor e erudição, e uma mistura deliciosa entre uma certa afectação burguesa (por vezes, a rasar a dondoca) e uma ironia que nunca deixa de ser auto-dirigida, mesmo que seja conhecido o truque de se pôr a si própria em causa como meio de atingir os outros.

Devo dizer que neste estilo de cronista de costumes, a Maria Filomena Mónica é das minhas preferidas, não lhe faltando o toque de autoridade da sociologia, por um lado, e a distância ligeiramente afectada dos estrangeirados. O que salva a autora, no entanto, é que nunca sai de cena, nunca deixa, mesmo que por vezes soe a falsa modéstia, de se colocar na mira da sua crítica irónica.

Tenho a impressão de que nos dois parágrafos de cima digo rigorosamente a mesma coisa, por outras palavras. Adiante! A ideia é mesmo só dizer que acho a prosa da Maria Filomena Mónica muito divertida e que gosto do modo informado como ela olha para as coisas, as pessoas, as culturas, os tiques. Compreensivelmente esse olhar é sempre mais implacável e certeiro quando se dirige a Portugal e aos portugueses, e acho que o contributo da autora para o retrato do Portugal contemporâneo não é nada despiciendo.
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Current Music:Carmen Miranda - Disseram Que Voltei Americanizada | Powered by Last.fm
Subject:o casamento alegre
Time:10:52 pm


"Os homossexuais praticamente não têm passado, ou têm um passado continuamente obliterado pelas sucessivas vagas da perpétua maioria heterossexual. Esta maioria impõe em termos sociais um modelo de valorização e de organização das relações humanas que apaga quaisquer vestígios de memória da existência das referidas minorias. É por isso imperativo e precioso preservar a memória dos comportamentos homossexuais e o testemunho das suas alegrias, dores e realizações. Quantos irmãos e irmãs, primos e primas, tios e tias que «nunca casaram» - para empregar um velho eufemismo – não ficam ainda hoje soterrados no silêncio envergonhado de memórias familiares que se transmite de geração em geração."

"Um homossexual tem de abrir dentro e fora de si um espaço para poder ser. Esse espaço interior de construção de si mesmo e essa projecção de um mundo de possibilidade fora de si exigem-lhe recursos extraordinários. Enquanto os heterossexuais encontram um mundo pronto-a-vestir, os homossexuais têm de construir a estrada para poderem circular, essa via que lhes permita avançar na direcção do futuro. Esta ausência de perspectivação do futuro creio que é o maior problema com que se deparam os adolescentes que se descobrem com uma orientação sexual diversa da maioritária. E como podem falar livremente de homossexualidade num mundo social, familiar e religioso onde a homossexualidade era ainda em tempos muito recentes um tabu ou um assunto marcado com o ferrete da ignomínia? E, sobretudo, como falar disso no meio de desertos de intensa solidão afectiva? Como viver de escassa meia dúzia de carícias e de beijos trocados em noites que, para o mundo dos outros, nunca existiram?"


Raras vezes tenho visto posto com tanto rigor e clarividência alguns dos problemas mais profundos que se põem à condição homossexual. São apenas dois parágrafos (de tantos que me apetecia reproduzir aqui) do longo texto introdutório do mais recente livro do escritor José António Almeida, O CASAMENTO SEMPRE FOI GAY E NUNCA TRISTE (edições & etc). Para além deste texto o livro contém ainda uma série de doze poemas que poderíamos dizer estão colocados sob o signo de uma tripla condição de poeta, homossexual e católico, que o autor convoca como marca autoral do livro. Que termina com uma carta ao Expresso cuja publicação foi recusada com a mais patética (não chega a ser ridícula) das razões.

O livro, o segundo que José António Almeida publica na & etc num curto espaço de tempo, faz-me lembrar os opúsculos e as plaquetes que se publicavam antigamente, quando o acesso aos media era difícil quando não impossível, para defender publicamente determinadas causas ou posições. É de certo modo um folheto de combate, que pretende tomar pública a posição que o autor defende, enquanto escritor católico homossexual, no debate não tanto da admissibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas sobretudo da posição da igreja católica nesse debate.

Para que não se pense que o facto de este livro se aparentar a uma intervenção necessariamente política num debate sobre uma questão complexa, descura ou secundariza a qualidade dos versos de José António Almeida, aí fica um dos poemas do livro, AO ANOITECER.

"Sou um velho rato celibatário
- a lei não me permite casamento.

Outros encontram sem dificuldade
o universo pronto a vestir

logo de manhã, desde que nasceram.
Depois trajam todas as convenções

- que lhes assentam bem, do colarinho
às mangas, até parece que Deus

é um alfaiate por conta deles.
A nós, a melhor roupa fica mal

- em nenhuma loja vendem sapatos
que nos deixem ir noutra direcção,

nem anel que não faça propaganda
à ordem sempre «natural» do mundo."
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Current Music:Dinah Washington - Our Love Is Here To Stay | Powered by Last.fm
Subject:beautiful shadow
Time:11:49 pm
Há anos que tenho o livro na minha wish list da loja inglesa da Amazon, onde aparece habitualmente com a informação de indisponível. Esta noite entrei na Fnac e na prateleira de livros em língua inglesa lá estavam três exemplares de Beatiful Shadow, uma biografia de Patricia Highsmith da autoria de Andrew Wilson, que é geralmente considerada uma excelente biografia da escritora, além de ter sido a primeira. Ainda por cima com o irresistível preço de 5 euros! Claro que a trouxe (juntamente com o dvd da primeira série de Allô Allô - estou cheio de saudades de a ver...). Ainda só folheei os extra-textos com as fotos e posso, a partir de uma observação rápida e muito superficial, afiançar que a lista de amigas, namoradas e amantes de Highsmith é longa e muito diversificada. Como ainda estou a acabar de ler o livro de João Ubaldo Ribeiro (ainda não fez um mês, mas não falta muito) e não consigo parar de comprar livros, a lista de espera é longa.
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Current Music:Van Morrison - Ballerina | Powered by Last.fm
Subject:o nego leléu
Time:10:29 pm
«De quem será esse velório lá longe lobrigado, lamentoso e lúgubre? Ora se aquele não é Nego Leléu sorridente no caixão, mais lorde que um visconde, mais guapo que um marquês, fato preto bem passado, botas tinindo de lustro, barbinha feita a capricho, carapinha escovadinha, mãos mui limpas cruzadas sobre o peito, camisa mais que cheirosa e engomada, sem cara nenhuma de morte! Se Nego Leléu morreu? Mas claro que morreu, ou não o teriam banhado, vestido e deitado ali, para ser enterrado na manhã seguinte. Morreu no meio da soneca do meio-dia e, como estava ficando cada dia mais menino, pensou que era um sonho. Foi encontrado pelos outros meninos, com quem tinha combinado sair para brincar de pelota, empinar arraia e jogar pião. Viram logo que estava morto, mas nenhum deles se assustou, porque ele tinha a expressão divertida, talvez matreira, certamente feliz.»

É um brevíssimo trecho do capítulo 12 de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Acho que até agora foi o meu capítulo preferido, todo ele em volta de Nego Leléu e da sua morte. Se eu mandasse, este capítulo do livro era leitura obrigatória em todas as escolas. Não para analisar morfologicamente, para dividir as orações, para interpretar a semântica ou a sintaxe; nada disso, apenas pelo mero gozo de ler uma coisa muito bem escrita e pungente de humanidade. De tantas e diversas personagens que o livro tem, algumas delas fortíssimas de carácter e simbologia, o Nego Leléu é, até agora, a minha preferida. Por muitas razões, mas principalmente por ter tomado essa decisão de, quando começou a ficar velho, ser a única coisa que nunca tinha sido em toda a sua vida: menino.

Um dos aspectos admiráveis da escrita de João Ubaldo é ela conseguir ser, no mesmo passo, humorística e encantatória. O humor dá-nos a distância necessária em relação à narrativa para podermos olhá-la de um modo mais analítico, mais racional, enquanto épico que conta verdadeiramente a história de uma nação (ou melhor, de um povo, como o título reivindica); mas a maneira como a linguagem se torna mágica, encantatória, leva-nos para dentro da narrativa, permitindo-nos saborear, já não a história, mas a alma desse povo.
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Current Music:David Daniels - Giulio Cesare in Egitto: Dall' ondoso periglio | Powered by Last.fm
Subject:barreto na ler
Time:06:29 pm
Confesso que fiquei um bocado incomodado com a frase que a edição da revista Ler de Março, escolheu para legendar a capa, e a entrevista, com António Barreto: "O 'Magalhães' é o maior assassino da leitura em Portugal". Apesar de ser um crítico (rigoroso e implacável, mas consequente) da actual governação, a frase parecia-me mais uma boutade esvaziada de significado do que propriamente uma crítica séria.

Claro que fui ler a entrevista, e claro que o conteúdo da entrevista é diferente. A começar na própria citação; o que Barreto afirma é que "O 'Magalhães', nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal", e o contexto em que é dita, como é óbvio, transforma a frase numa crítica séria, rigorosa e consequente à opção que o governo faz de investir tudo na literacia informática desprezando a noção de que o livro "é a melhor maneira de transmitir cultura".

De resto, a entrevista é uma delícia, como seria de esperar. Por mim, pelo menos. Gosto muito do António Barreto, quer dizer simpatizo com a sua forma livre de estar, com as suas análises sociológicas muito precisas e clarificantes acerca da maneira de sermos Portugal nestes últimos tempos. Mesmo quando é contraditório, ou pelo menos quando força um pouco as suas perspectivas, eu simpatizo com ele, porque acho que isso, no seu caso, se deve sempre a um princípio de liberdade. De liberdade intelectual, pelo menos. Também assumo que me seduz em António Barreto uma certa fleuma, muito anglo-saxónica, muito Oxbridge (mais Oxford que Cambridge, é verdade).

E gostei, na entrevista, de ler António Barreto falar sobre livros, sobre as suas leituras, sobre as suas memórias, sobre a relação com a escrita, sobre os seus projectos literários, ou a falta deles. Barreto é, como se percebe pelo que vai escrito acima, um defensor dos livros, chegando a afirmar que "o livro é eterno". Transcrevo este pedacinho delicioso, onde António Barreto responde à questão, feita com uma ponta de provocação, de saber se tem nostalgia do livro tradicional. Diz assim:

«Tenho, mas há uma coisa que lhe vou dizer: não é por causa do fetichismo do livro. Quase toda a gente diz isso: "Ah, o cheiro, a cola, a capa, o papel, a tinta de impressão". Tudo isso é muito engraçado mas não é isso que me faz correr. A nostalgia é por causa do tempo de meditação, do tempo de leitura, do tempo de saborear, do tempo de ponderar o que se está a ler, de parar, voltar, recomeçar. Ler implica ter uma vida para a leitura; que na sua vida tem de haver espaço para a leitura. Quando você já não tem espaço para a leitura, não é o cheiro que vai substituir o que quer que seja, não é o objecto físico que conta.»
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Subject:a la carte
Time:08:48 am

O que verdadeiramente me apetece é transcrever para aqui páginas e páginas do livro Viva o Povo Brasileiro, do escritor, prémio Camões o ano passado, João Ubaldo Ribeiro. Vou a pouco mais de cinquenta páginas do livro, e já houve dois trechos absolutamente divinais, coisa de génio: uma explicação pormenorizada e científica da encarnação das alminhas, e um menú gourmet de todas as iguarias que o caboco Capiroba conseguiu preparar com as diversas partes de um padre (mesmo antes de concluir pela superioridade dos holandeses . Enfim, é sabido que o segredo da gastronomia passa muito pela qualidade dos ingredientes).

Quanto às almas, são sete ou oito páginas antológicas que, só para dar um cheirinho, começam assim: «O comportamento das almas inopinadamente desencarnadas, sobretudo quando muito jovens, é objecto de grande controvérsia e mesmo de versões diametralmente contraditórias, resultando que, em todo o assunto, não há um só ponto pacífico. Em Amoreiras, por exemplo, afirma-se que a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias mais potentes, dos polos esótéricos, das correntes alquímico-filosofais, das atracções da lua e dos astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas - tudo isso faz com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e às vezes fazendo um sem-número de exigências.»

Não sei como vou atacar as quase oitocentas e cinquenta páginas do livro (coragem, já só faltam oitocentas...), para mais com a minha velocidade de leitura que é a de um caracol ensonado. Mas para já esta leitura está a ser uma aventura exaltante, encantatória e sobretudo muitíssimo divertida. Gracias, Saint, mais uma que te devo.

E pronto, cá vai a carta do caboco gourmet, para arrepio dos mais sensíveis e deleite dos gulosos... por literatura.

«O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prapararam ensopado, muqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de linguiça, aproveitando as tripas bem lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele. Também usaram umas sobras para isca de siri e de peixinho de rio, sendo os boles e as partes moles o que melhor serve, como o caboco logo descobriu.»
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Subject:a viagem do elefante
Time:08:56 am


Terminei a leitura de A Viagem do Elefante, a mais recente obra de José Saramago, e comummente considerado o seu melhor livro nos últimos não-sei-quantos-anos. E tenho de concordar que o livro tem um fulgor narrativo que tem estado ausente das últimas obras de Saramago (pelo menos das últimas que tentei ler, sem me entusiasmar), o que é tanto mais notável (mas se calhar et pour cause) quanto o livro é pouco mais do que um divertimento, uma fantasia. Isto claro sem menosprezo nenhum, não estou a dizer que se trata de uma obra menor. Se calhar até pelo contrário, talvez o facto de o autor não ter nenhuma mensagem profunda a transmitir, a não ser (e já não é pouco) celebrar o facto de estar vivo e da sua própria viagem ter conseguido ultrapassar um desfiladeiro dos Alpes, tenha contribuído para este livro ser tão divertido. Saramago tem, passe o lugar comum, uma imaginação prodigiosa, mas, como já disse, é o carácter luxuriante da narrativa, a multiplicidade de recursos, o modo como o narrador (o tão típico narrador saramaguiano) nos pega pela mão e nos arrasta em considerações mirabolantes, que fazem deste livro uma obra maior da bibliografia do autor.
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Current Music:Bill Evans - Autumn Leaves | Powered by Last.fm
Subject:sontag e miranda
Time:06:27 pm


«What, I ask, drives me to disorder? How can I diagnose myself? All I feel, most immediately, is the most anguished need for physical love and mental companionship – I am very young, and perhaps the disturbing aspect of my sexual ambitions will be outgrown – frankly, I don’t care. My need is so overwhelming and time, in my obsession, so short -»

Quando escreveu isto, no dia de Natal de 1948, Susan Sontag tinha quinze anos. O 'disturbing aspect' da sua ambição sexual era a pulsão homossexual que sentia, e que constitui um dos temas preponderantes de Reborn, a primeira edição do conjunto dos seus diários, e que abarca os anos da juventude, entre 1947 e 1964 (SS nasceu em 1933). David Rieff, o filho de Sontag, editou os diários e assina um prefácio notável, em que dá testemunho de todas as dúvidas e até do desconforto que sentiu, ao ver exposta uma parte da vida, íntima, que a sua mãe sempre preservou (ao ponto de, embora nunca a negando, SS ter sempre optado por não falar em público da sua homossexualidade). A leitura do livro promete ser uma aventura.

Na revista Pública, a capa e um extenso artigo dedicam-se a Carmen Miranda, de cujo aniversário se assinala amanhã um século. Desta vez cheguei antecipadamente às comemorações: parte significativa do final do Verão e do Outono passado, andei entretido com a pequena notável. O artigo na Pública segue de perto a biografia de Ruy Castro, e por isso não me trouxe novidades. Agora trágico trágico é a Cinemateca organizar um mini festival Carmen Miranda, com a exibição de muitos dos seus filmes e, claro, na província neva!, como dizia o outro.

Carmen Miranda e Susan Sontag. A América, numa tarde de Domingo.
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Subject:transa atlântica
Time:04:53 pm

Despertou-me a curiosidade para Transa Atlântica, de Mónica Marques, uma crítica que Eduardo Pitta publicou no Ipsilon (e no seu blog). Além de que precisava de cortar um bocado com o livro de Obama, que é um bocado pesado.
Basicamente o livro de Mónica Marques (que mantém o blog SushiLeblon) é uma narrativa fragmentada que segue os amores e desamores de uma mulher entre os 30 e os 40, portuguesa a viver no Rio de Janeiro. Um dos aspectos interessantes do livro é situar-se ali naquela zona em que não conseguimos distinguir muito bem o que é que é pura narrativa ficcional, e o que resulta de uma escrita mais pessoal, de tipo diarístico. O resultado prejudica a inteligibilidade e a clareza da narrativa amorosa, mas ganha em vivacidade e actualidade, e há páginas que explodem de vida e energia.
Num livro que trata de affaires amorosos intercontinentais, o mais intenso deles todos, e que é a verdadeira seiva da obra, é pela própria cidade do Rio de Janeiro. De algum modo, mesmo os que conhecemos mal o Rio, ou os que não conhecem de todo, acreditamos nas descrições (se bem que 'descrição' não seja exactamente o termo) de Mónica Marques, e percebemos essa espécie de furor, a que não faltam os odores do perigo e da aventura, que perpassa nestas páginas.
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Subject:raça e legado
Time:01:04 pm


Tenho estado a ler Dreams of My Father, um livro que Barack Obama escreveu em 1994, quando se tornou editor da Harvard Law Review, e que é uma memória autobiográfica da sua vida até entrar para o curso de direito na universidade de Harvard.

O principal enfoque do livro, pelo menos até onde eu estou a ler, é o problema da raça, de como um jovem de raízes africanas lida com aquela que é ainda a grande barreira que divide a nação americana. Obama está, naturalmente, muito bem posicionado pra discutir o assunto, sendo produto de uma família multiracial e tendo lidado, desde a infância e a nível familiar, com pessoas de raças e culturas muito diferentes.

A oportunidade de ler este livro acentua ainda mais a importância deste dia de hoje, na história dos Estados Unidos, mas também na da sociedade ocidental, tal como a conhecemos e vivemos. Com efeito, não é apenas uma mudança de sentido e de pendor político que se vive hoje em Washington DC; e já essa seria importante, depois de 8 anos de uma administração norte-americana marcada por um conservadorismo quase radical, por uma profunda desconfiança do mundo, e por uma tentação manipuladora dissimulada e anti-democrática. Mas além disso, tenhamos ainda esperança de que este dia de hoje assinale ainda uma profunda transformação na enraizada prática ocidental de que o poder nos nossas sociedades, qualquer que ele seja mas sobretudo o poder político, é detido por homens de raça branca.
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Current Music:Jacques Loussier - Nocturne No. 18 in E major, Op. 62, No. 2 | Powered by Last.fm
Subject:1808
Time:03:54 pm


Desde que li Era No Tempo do Rei, de Ruy Castro, que tinha vontade de ler mais sobre a transferência da corte de D. João VI para o Brasil, em 1808. Precisamente 1808 é o título do livro da autoria do jornalista brasileiro Laurentino Gomes, que foi best-seller no Brasil e em Portugal, e que foi o livro que de certa maneira marcou o segundo centenário daquele acontecimento histórico, tão determinante na história dos dois países. Sobretudo para o Brasil, pois os treze anos de estadia da corte no Rio de Janeiro propiciaram à colónia as condições necessárias à sua independência, consagrada em 1822, logo no ano a seguir ao do regresso de D. João VI a Lisboa.

É de referir que não se trata de um livro de ensaio historiográfico, mas de uma obra de divulgação popular, uma espécie de reportagem alargada em mais de 300 páginas, que contextualiza os acontecimentos, analisa-os, e explicita-lhes as consequências. Escrito na linguagem ligeira própria do jornalismo, muito suportado em referências bibliográficas (as notas estão condensadas no fim, para conforto do leitor não demasiadamente preocupado com a genealogia das fontes), vai doseando com equilíbrio a narrativa dos acontecimentos, os perfis dos protagonistas, grandes ou pequenos (sendo que muitos deles foram simultaneamente protagonistas e testemunhas que deixaram relatos sobre a época), e as anedotas e apontamentos mais ou menos picarescos do quotidiano.

O ângulo do livro é demasiado aberto para estar aqui a destacar aspectos concretos, mas vale a pena referir duas ou três coisas. A primeira é que me fez muita impressão, logo no início do livro, a descrição da vida política, económica, cultural e social do Portugal do início do século XIX, por ser tão parecida, nos seus atavismos e mediocridades, com o Portugal de hoje. Desanima confrontarmo-nos com a profundidade da doença, porque nos faz descrer mais de que algum dia consigamos estar no mundo (e na vida) de outra maneira.

Outro aspecto que me impressionou, apesar de ser um pouco lateral em relação ao escopo da obra, foi o papel da escravatura na formação do Brasil. Assim como a descrição do Portugal dos séculos XVIII e XIX explica muito do que somos hoje, também esta génese do Brasil num sistema que tinha por base de sustentação económica e social a escravatura, ajuda a compreender algumas das profundas feridas e contradições que dilaceram o Brasil do século XXI.

Um dos inúmeros apontamentos da pequena história em que 1808 é pródigo, conta-nos como D, João VI trazia sempre os bolsos da casaca cheios com franguinhos assados e desossados, que ia trincando quer nos seus passeios pelo Rio de Janeiro quer durante as sessões diárias do beija-mão (que, aprendi no livro, ao contrário de serem uma manifestação da superioridade real, eram antes uma possibilidade que era dada a qualquer pessoa de se aproximar e falar a sua majestade, expondo-lhe problemas ou necessidades).
Lembrei-me logo de D. João VI e A Mulata, um poema (cuja autoria apenas consigo identificar com dois nomes, A. Rodrigues e R. Calado) que me lembro de ouvir pela voz do João Villaret, nos discos do actor que habitaram a minha infância.

«Quando a corte de D. João VI
Chegou a Paquetá
Tudo servia de pretexto
P’ra censurar, p’ra criticar
Certa mulata que havia lá

Diziam que ela era um perigo
Que ela era uma tentação
E que um marquês de nome antigo
Desdenhava o rei, não cumpria a lei,
P’ra ser só dela o cortesão.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu decreto que a mulata é boa

Certa noite muito escura
A moça se assustou
Vendo surgir uma figura
Gorda, a ofegar
Que sem falar
Nos gordos braços logo a apertou
Ela sentiu-se muito aflita
Como dizer que não
Até na treva era bonita
E lá fez de conta, que ficava tonta
Sem saber que era o seu D. João.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu já sei como a mulata é boa.»
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Current Music:Penguin Cafe Orchestra - Prelude And Yodel | Powered by Last.fm
Subject:vida de horácio
Time:11:22 pm


«A caminho do Alentejo, através da janela do comboio, Horácio pensava no número incalculável de todos os seres humanos mortos desde Eva e Adão e no reino quase ilimitado da morte e via num rápido desfile, como o da copa das árvores, as caras dos poetas e filósofos falecidos e também as dos amantes defuntos e perguntava-se, ao longo da imensidão da planície mosqueada de arvoredo, se a morte não seria infinitamente maior do que a vida e se este mundo, que nos parece tudo, não seria ao fim e ao cabo um flutuante nada e, ao contrário, a morte, que se assemelha ao nada, o contorno de tudo, ou pelo menos algo oceanicamente vasto e a perder de vista, a que talvez faltasse apenas uma pequena parcela: o comboio em que ele, Horácio, viajava pelo universo.»

- José António Almeida, A VIDA DE HORÁCIO (& etc)

Acabei de ler há minutos este que é o primeiro livro em prosa, que, como nos recorda o autor nos posfácio, não é o contrário da poesia, de José António Almeida, autor de um dos meus livros de poemas predilectos, O Rei de Sodoma e Algumas Palavras em Sua Homenagem. Como o título indica, trata-se de uma narrativa sobre a vida de um personagem, Horácio, ou mais particularmente sobre a incursão que o herói decidiu fazer, em obediência a uma ideia fixa, à "outra metade do céu" a fim de conhecer sexualmente a mulher. Trata-se de um livro divertidíssimo, com um humor que por vezes é sarcástico, mas é sempre muito impiedoso em relação ao próprio Horácio, e à metade do universo que ele representa. A advertência do autor, no posfácio já referido, contra a tentação de leituras biográficas, claro que só aguça mais o apetite e a curiosidade. Mas esse humor nunca esconde uma latência lírica da narrativa e, parece-me, mais do que na linguagem, é nesta quase desarmada entrega à vertigem dos sentimentos que se consubstancia o tal princípio de que a prosa não é o contrário da poesia.
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Subject:balanço II - livros
Time:08:47 am
Foram estes os livros que li em 2008, agrupados por afinidades afectivas (o título vai na língua em que os li):

- Gore Vidal, Clouds and Eclipses
- Patricia Nell Warren, Harlan's Race
- Naguib Mahfouz, Akhenaton, o Rei Herege
- Eduardo Mendicutti, California
- Patricia Highsmith, The Tremor of Forgery
- Felice Picano, Ambidextrous
- Richard Zimler, Confundir a Cidade Com o Mar
- Dennis Cooper, Fio Solto
- Lev Tosltoi, A Morte de Ivan Ilitch
- E.P. Jacobs, A Marca Amarela
- Simon Ings, O Peso dos Números
- Bernhard Schlink, O Leitor
- Mario Vargas Llosa, As Travessuras da Menina Má
- Evelyn Waugh, O Ente Querido

- P.G. Wodehouse, Época de Acasalamento
- P.G. Wodehouse, O Código dos Wooster

- Edmund White, Hotel de Dream
- Edmund White, My Lives

- Tennessee Williams, Memories
- Joan Didion, O Ano do Pensamento Mágico
- Bill Bryson, O Diário Africano
- Alberto Manguel, Um Diário de Leituras
- Darwin Poerter, Brando Mas Pouco
- Edmund Engelman, Bergasse, 19

- Joel Costa, Balada para Sérgio Varella Cid
- Mónica Guerreiro, Olga Roriz
- António Carlos Carvalho, João Villaret, Uma Biografia
- António Mascarenhas Gaivão, Mouzinho de Albuquerque
- Jacinto Veloso, Memórias em Voo Rasante
- Ruy Duarte Carvalho, Desmesura, Crónica do Brasil
- Alexandre O'Neill, Já Cá Não Está Quem Falou
- A.M. Galopim de Carvalho, Fora de Portas
- Paulo Moura, O Fim das Miragens
- Clara Pinto Correia, Os Outros Caminhos do Mundo
- Fernando Meirelles, Diário de Blindness
- Adriana Calcanhotto, Saga Lusa

- Ruy Castro, Carmen
- Ruy Castro, Era No Tempo do Rei

- Adolfo Caminha, O Bom Crioulo
- J.P. Borges Coelho, Hynianbaan
- Fernando Duarte Ribeiro, O Jardim dos Perversos
- Ricardo Saavedra, Os Dias do Fim
- José Saramago, Ensaio Sobre a Lucidez
- João Aguiar, Inês de Portugal
- Nelson Saúte, Rio dos Bons Sinais
- Luis Bernardo Honwana, Nós Matámos O Cão Tinhoso

- Mutimati Barnabé João, Eu, O Povo
- José António Almeida, A Mãe de Todas as Histórias
- Blaise Cendrars, Folhas de Viagem

De todas as actividades ditas culturais, a leitura é a que me continua a dar mais horas de prazer, escapismo e sabedoria. O meu problema é que sou muito errático nas escolhas, não leio o cânone, distraio-me totalmente das listas de vendas e das estrelinhas dos críticos. Leio ao sabor dos prazeres e das descobertas. Olho para a lista de livros que li e dificilmente reconheço nela uma lista de recomendações, são apenas livros para consumo interno.

Da quase meia centena de livros que listei acima, as leituras que mais me entusiasmaram este ano foram as dos livros do Edmund White, do Ruy Castro (a biografia de Carmen marcou todo o meu interesse durante umas boas semanas), a descoberta do humor inglês de P.G. Wodehouse e de Evelyn Waugh, o Felice Picano, o Vargas Llosa, as memórias do Tennessee Williams e o reencontro (e a releitura) com dois dos mais importantes livros da minha adolescência, o Cão Tinhoso e o Eu, O Povo.

Se há livros que me marcaram com intensidade devo destacar dois, ambos de não ficção: a já referida biografia de Carmen Miranda, da autoria de Ruy Castro, pelo prazer que me deu e pela aventura que me proporcionou, e O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, que foi um dos livros que mais me forçou ao confronto comigo mesmo, com aqueles medos e angústias que estão dentro de nós. Um livro de cuja leitura não se sai ileso, inteiro, mas sempre significativamente maior.
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Subject:hotel de dream
Time:11:20 am

Stephen Crane foi um escritor e jornalista norte-americano que viveu entre 1871 e 1900. Foi correspondente de guerra e autor de livros sobre a vida nas ruas de Nova Iorque. Quando visitou o bordel Hotel De Dream, na Florida, conheceu a sua dona, Cora Taylor, e passaram a viver juntos (Cora não podia casar porque desconhecia o paradeiro do seu marido a fim de lhe pedir o divórcio), em Inglaterra. Morreu tuberculoso num sanatório da Floresta Negra, na Alemanha, com 28 anos, e é actualmente considerado um dos fundadores da moderna literatura norte-americana.

Um dos críticos e mentores de Crane deixou relatado um encontro que os dois tiveram com um rapaz prostituto, numa rua de Nova Iorque, e que teria inspirado Crane a escrever o primeiro capítulo de um livro que, a conselho desse amigo, teria rasgado por ser demasiado ousado para a época, precisamente sobre o meio dos rapazes que se dedicavam à prostituição.

Mesmo afirmando não acreditar na veracidade desta história, o escritor Edmund White pegou nela e construiu uma ficção ('uma fantasia', como lhe chama) sobre essa hipótese, intitulada precisamente Hotel De Dream. O livro tem uma estrutura que a princípio parece um pouco confusa, mas que aos poucos vai fazendo sentido, com vários planos narrativos. O plano principal é o da viagem que Crane e Cora fazem desde Inglaterra até ao sanatório alemão, com o estado de saúde do escritor a deteriorar-se seriamente. Para além de encontros de Crane com outros escritores, como Joseph Conrad, Henry James ou H. G. Wells, e das vicissitudes da viagem, este plano narrativo é pontuado pelos ditados em voz alta que o escritor faz a Cora das passagens do romance sobre o rapaz prostituto que pretende escrever nesses seus derradeiros dias. The Painted Boy constitui esse romance, que vai aparecendo ao longo do livro como uma narrativa dentro da narrativa. Há outro plano narrativo que acompanha o pensamento de Crane, reflectindo em relação à sua saúde e à perspectiva de uma morte próxima, ou sobre o seu relacionamento com Cora. Neste plano narrativo o escritor alterna entre a 1ª e a 3ª pessoa do singular, e inclui a memória de Crane sobre o encontro com o rapaz prostituto e o mergulho que esse encontro proporcionou pelo meio nova-iorquino da prostituição masculina.

Para além de uma recriação, quase como um romance histórico, do quotidiano da cidade em finais do século XIX (e que faz um pouco lembrar as cenas do filme de Scorsese, Gangs of New York, até porque grande parte da acção se passa no mesmo cenário da Bowery), o que pareceu interessar a White foi esse olhar sobre a homossexualidade (através da prostituição, que era, como o foi até há pouco tempo, a única possibilidade de muitos homossexuais experimentarem a sua condição) tal como era vivida nessa época. Outro aspecto interessante, e que White enuncia como sendo um dos seus interesses ao escrever o livro, era tentar contar uma história sobre a homossexualidade a partir de um olhar heterossexual. Neste ponto, acho que o livro não corresponde bem a esse desiderato, porque se sente que o olhar de Crane é demasiado contaminado pelo do narrador, e este coincide, quase inevitavelmente, com o do escritor, que é manifesta e assumidamente homossexual.

Do que não restam dúvidas é que Edmund White (como já tinha aqui escrito a propósito de My Lives, a sua autobiografia, que também li este ano) é um admirável escritor sobre a sexualidade, construindo universos narrativos densos mas muito claros na sua análise da sexualidade humana, em particular da que repousa na experiência homossexual (apenas por ser essa a que melhor conhece, pois é a sua). Para além disso, Hotel De Dream é ainda um saboroso exercício de linguagem, recriando muitas das expressões usadas na época para falar das coisas relacionadas com o sexo, sobretudo através de um jargão que se justificava não só pela clandestinidade da homossexualidade, mas pelo próprio tabu que constituía toda a temática da sexualidade.
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Subject:niña mala
Time:11:11 pm


Há bons livros, e depois há grandes escritores. Travessuras da Menina Má é isso, um bom, um óptimo livro, e sobretudo é a obra de um grande escritor, um mestre da narrativa, que escreve um romance vasto, espraiado, que tanto é um ensaio sobre o amor e as suas inúmeras faces como um fresco sobre a segunda metade do século XX. Até do ponto de vista literário é um livro rico, que tanto se oferece ao leitor como uma memória, como pode igualmente ser lido como um livro de contos. E é fantástico sentir que uma narrativa tão derramada, que se estende por épocas e lugares muito diversos, que cria personagens novas ao ritmo da deriva, está sempre segura pela mão firme do autor, está sempre sob controlo, não tem um grama de gordura, tudo é fibra e músculo.

Trata-se da história de Ricardo Somocurcio que, adolescente em Lima, Peru, só tens dois desejos na vida: amar Lily, uma chileninha que se muda para o bairro de Miraflores, e viver em Paris. E basicamente o livro é o relato da forma atribulada, divertida e dolorosa, como ele consegue realizar esses dois desejos. A chileninha, a niña mala, é a personagem que varre a vida de Ricardito como um furacão, e a narrativa, que é escrita na primeira pessoa do singular, parece não ter outro sentido que o dessa personagem feminina tão sedutora e fascinante quanto fria e calculista. Mas o que não nos pode escapar, a nós leitores, é que, mesmo quando parece que quase se dilui no seu papel de narrador, a personagem central desta história é sempre ele próprio, Ricardito, cuja bonomia (um borra-botas) e capacidade de se sujeitar, quase com servilismo, às traquinices da menina má, nunca o faz perder o controlo da história nem do ponto de vista. É um personagem admirável, tanto mais que se constroi sempre a partir da dedicação e do amor quase obsessivo que dirige a outra personagem, que se esconde quanto mais se parece revelar, e que de facto se entretém a fascinar-nos a nós, leitores. Ricardito pode estar sempre a sucumbir ao poder de sedução da menina má, mas ao longo dos mais de 50 anos do tempo da acção e das quase quatrocentas páginas do romance, é sempre ele que nos está a seduzir e a embalar nas travessuras do seu relato.
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[icon] um voo cego a nada
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