![[icon]](http://l-userpic.livejournal.com/529600/280649) |
um voo cego a nada
|
| Este texto começa em dois tempos distintos. O primeiro foi a semana passada quando o Saint-Clair (sempre meu mestre) me mandou um mail com um link para um artigo sobre o cantor pop brasileiro, dos anos 60, Wilson Simonal, nomeadamente sobre um documentário que foi feito sobre o cantor e sobre os acontecimentos que precipitaram o fim da sua carreira de ídolo popular, e aceleraram a sua decadência pessoal. Eu conhecia bem o nome de Wilson Simonal, mas apenas muito vagamente as suas canções, e por isso arranjei modo de deitar os ouvidos a discos antigos do cantor. Uma pop leve e deliciosa, bem assente na Bossa Nova, servida por uma voz com um domínio extraordinário sobre a melodia e o tempo, a fazer lembrar, sem exagero e apenas para dar uma ideia (até porque a voz não é nada parecida), aquele registo swingado e muito livre do Frank Sinatra. É curioso como a Bossa Nova suportava registos tão diversificados e quase opostos, cabendo nela a concisão altamente elaborada de um João Gilberto, e o instinto quase preguiçoso da maneira de cantar de Simonal. O outro tempo de que falei foi há 40 anos, mais coisa menos coisa. Eu era uma criança mimada pelos fulgores coloniais de Nampula (mal sabendo que eram os últimos), e os meus pais costumavam-me comprar discos de 45 rpm com histórias infantis gravadas. Suponho que esses discos ainda estejam guardados na casa dos meus pais, num álbum de plástico com capas azuis, do tipo dos que havia antigamente para guardar os discos. Algumas dessas histórias eram em português (histórias, se bem me lembro, da Odette de Saint Maurice, narradas pelo João Perry) mas a maior parte eram edições brasileiras. Lembro-me muito nitidamente de um deles, o Macaco e a Velha, de que ainda sei de cor alguns trechos. Um outro, de que já não me recordo muito bem, era uma variação da história de João e o pé de feijão: a mãe pobrezinha do João manda-o à feira vender qualquer coisa (as galinhas ou a vaca, não sei) e ele troca a mercadoria por um punhado de feijões que, ao chegar a casa, a mãe deita fora pela janela. O pé de feijão cresce, até ao céu, e um dia o João trepa por ele até chegar a um sítio onde havia um gigante muito mau e comilão que quer caçar o João, já não sei se para o meter no caldeirão da comida. O João foge, traz umas traquitanas de oiro que rouba no palácio do gigante, que a mãe vende para ter dinheiro. Depois de muitas peripécias, pé de feijão acima pé de feijão abaixo, a coisa acaba com o João a cortar com um machado o pé de feijão precipitando a queda, e o fim inglório, do gigante. Se não era bem isto, era mais ou menos. Apenas tenho na memória auditiva pedaços muito breves da gravação, como o gigante a dizer com o seu melhor sotaque brasileiro: 'mulher, hoje estou sem apetite. Quero apenas um boi assado'! Pois bem, acho que era nesta história do João (mas não garanto, pois a memória é muito ténue), que quando o rapaz chegava lá acima do pé de feijão, se ouvia um coro, que eu já não me lembro se era o gigante a cantar, ou se eram os prisioneiros no palácio, que cantava: «Escravos de Jó, jogavam caxangá Tira, bota, deixa o cão guerreiro entrar Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá» Para falar com franqueza eu nunca percebi muito bem quais eram as palavras iniciais da cantoria, apenas tinha fixados os sons, qualquer coisa do género 'estava onde estava, jogando caxangá', mas do resto lembro-me muito bem. E o que é que isto tem a ver com o Wilson Simonal? É que estava eu a ouvir o álbum quando começou a tocar uma faixa intitulada Escravos de Jó, cujo refrão corresponde quase ipsis verbis, e apenas com uma ligeira alteração, mais do ritmo do que da própria melodia, à velhinha canção do disco de histórias: «Escravos de Jó jogavam caxangá Tira, bota, deixa ficar, deixa cair Deixa ficar, deixa cair Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za» Fiquei completamente embasbacado a ouvir aquilo, uma coisa que eu não ouvia há tantos e tantos anos. Uma pesquisazinha ligeira na net disse-me que Escravos de Jó é uma cantiga de roda, uma cantilena para acompanhar um jogo infantil. E é, aparentemente, uma cantiga muito conhecida e popular. Não há certezas quanto à sua origem e as interpretações são as mais diversas quanto ao seu significado, até porque, concerteza, a versão actual será o resultado de muitas adulterações na sua transmissão oral através das gerações. Mas basta ler a letra com atenção para perceber que a sua origem está intimamente ligada à história do Brasil, e que terá surgido no seio dos escravos. Uma das interpretações que li (a mais etnográfica, digamos) considera jó uma alteração da palavra bantu ndjo, que denominava os escravos domésticos, os escravos da casa. Não tenho ideia nenhuma de alguma vez a ter ouvido em Portugal, aliás tanto quanto me lembro, apenas a ouvi nos dois contextos que referi, mas há outro aspecto interessante: numa das variantes que encontrei, o segundo verso era assim: 'Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar'. Não digo que haja relação, mas é muito curioso que em Portugal uma das figuras mais populares das festas, feiras e romarias, sejam os Zés Pereiras, os bonecos cabeçudos e gigantones que correm as ruas das vilas e aldeias, ao som dos bombos e das gaitas de foles, a anunciar que a festa começou. Acho uma pena que sejam tão pouco estudadas as histórias das culturas populares portuguesa e africana, sobretudo angolana, que vão fundar a riquíssima cultura popular brasileira, onde, por ser tão recente, são ainda muito legíveis os seus processos de génese e desenvolvimento. | comments: 18 comments or Leave a comment  |
| Nunca votei no Bloco de Esquerda e tenho muito pouca simpatia pelo seu modo de estar na política, que considero farisaico e sobranceiro. Desconfio sempre dos que se proclamam de uma nova maneira de fazer política (afinal de contas está tudo inventado, e há mais de 2000 anos) e desconfio ainda mais daqueles que arrebanham para as suas hostes os que estão cansados da política e dos políticos. O único crédito que lhes dou é que acho divertidas, mas nada mais do que isso, algumas das suas acções de agitação e propaganda. Têm sentido de humor, e eu acho isso bem.
No entanto, nas próximas eleições europeias, cuja campanha começou este fim de semana, vou votar no Bloco. E faço-o porque o Bloco é o único partido em que me revejo na questão da imigração. Acho perigoso que a Europa se queira transformar numa fortaleza securitária, que dou à conta da fobia paranóica que todos sentimos em relação ao que é diferente e vem de fora. Mas acho deplorável a política das quotas de imigrantes que os estados membros da União têm aos poucos vindo a implementar e que agora pretendem transformar em política europeia.
Primeiro, porque acho de um cinismo a toda a prova, essa coisa de apenas querermos cá os imigrantes de que precisamos, na quantidade em que precisamos e para fazer as tarefas que precisamos que façam. Em termos morais, isso não tem outro nome que não seja escravatura. Uma Europa que se diz civilizada e pretende ser o farol da humanidade em termos de dignidade da pessoa e respeito pelos direitos humanos, acha que os pobres deste mundo são pessoas de segunda categoria, que podem ser contingentados em função das nossas necessidades. A sério, acho inqualificável.
Depois porque efectivamente acredito que o mundo é uno e todos temos, ou devíamos ter, o direito de nos instalarmos onde queremos. Porque é que um tecnocrata europeu tem o direito a empregar-se como quadro superior numa multinacional e ir viver, a ganhar balúrdios, numa capital do terceiro mundo onde a sua empresa explora a mão de obra fácil e barata, e um cidadão desse mesmo país não tem o direito de procurar uma vida melhor e vir viver para o país de onde esse tecnocrata é cidadão a trabalhar num emprego que mais ninguém quer, a ganhar o salário mínimo e a viver em condições precárias?
Finalmente acho insuportável o argumento de que os imigrantes nos vêm roubar os nossos empregos e mamar na nossa segurança social. Oiço este argumento há mais de 30 anos, ouvia-o aos grupos nacionalistas ingleses, de extrema-direita, e faz-me impressão que hoje se diga isso à boca cheia, por políticos soi-disant democráticos, sem pejo nem vergonha. Desde logo porque os imigrantes geralmente só ficam com os empregos que mais ninguém quer. Depois porque os imigrantes procuram oportunidades e por isso seguem as economias prósperas (ou alguém ainda não tinha dado conta de que os imigrantes dos países de leste foram-se embora e os brasileiros estão a deixar de vir?) Além disso porque os imigrantes que se decidem mesmo a ficar por cá são normalmente pessoas integradas, que trazem algo de novo e de positivo à nossa sociedade, que acrescentam e diversificam, tornando mais rica, a nossa geografia humana. | comments: 42 comments or Leave a comment  |
| "Nos noticiários e nos jornais na sexta-feira (10), ao fim da tarde, os primeiros-ministros irlandês e inglês anunciaram o acordo de paz para a Irlanda do Norte que, se as coisas correrem como previsto, e se as partes envolvidas se portarem bem, não só põe fim ao conflito, como abre as portas para a resolução da questão, devolvendo aos irlandeses do norte a possibilidade de decidirem o seu futuro. Se deus existe (ele que esteve no centro desta guerra), a paz chegou à Irlanda. E se eu puder meter uma cunha, faço votos para o que o Ulster se integre plenamente na República."
Escrevi isto no dia 12 de Abril de 1998, em Eau Claire, Wisconsin. Na altura eu era apaixonado pela Irlanda, onde tinha ido de férias pela primeira vez em Julho de 1995, e onde haveria de regressar nesse mesmo ano de 1998, em Outubro, para mais uma semana de passeio por Dublin e pelo countryside, que, na minha opinião, é a parte mais bonita da Irlanda e onde ‘the irish experience’ é mais intensa e genuína.
Relendo o que escrevi há perto de onze anos, o Ulster não se integrou na República, mas a paz durou dez anos na Irlanda do Norte. Infelizmente, por estes dias a violência regressou ao Ulster. Tenho andado tão desconcentrado da vida lá fora, que ainda não percebi bem a natureza deste regresso da violência. Mas devo dizer que pessoalmente foi uma notícia tristíssima. Apesar de não ir à Irlanda há tantos anos (eu que tinha prometido a mim próprio lá voltar sempre que tivesse oportunidade), tenho sempre muitas saudades e continuo a amar o país, a paisagem, o povo e a cultura. Se a felicidade é feita de momentos, de emoções, de clarões, então uma das minhas definições de felicidade é conduzir de carro (pela esquerda) pelas estradas apertadas e sinuosas da costa oriental da Irlanda, entre um mar revolto e intimidante e as encostas suaves e luxuriantes de verde de Connemara ou da península de Kerry. | comments: 4 comments or Leave a comment  |
| Detesto polémicas! Gosto da discussão, do debate, mas detesto polémicas por escrito. Não tenho muita paciência para as dos outros (o tema tem de me interessar mesmo muito para eu seguir uma polémica), e fujo de me meter delas como o diabo da cruz. Por isso neste texto não haverá ´naming names’, não se vá dar o caso de alguém andar por aí a googlar e vir aqui parar e começar tudo outra vez.
Aqui há umas semanas, vi-me metido numa polémica. Ok, só me vi um bocadinho metido, mas mesmo assim foi suficientemente incómodo, para mim. Quando estreou um certo filme que ganhou uma data de Oscars, passado na Índia e com nome de concurso de televisão, o jornal que costumo ler, propriedade de um engenheiro patrão de indústria do norte, publicou no suplemento das sextas-feiras que dedica às artes e aos espectáculos, um conjunto de textos muito desfavoráveis ao filme. Um deles, da autoria de um crítico de cinema que assina com dois nomes próprios e um apelido, sendo este o mesmo de uma certa árvore que dá a azeitona de que se faz o rico e saboroso azeite, era particularmente violento em relação ao filme, terminando por dizer que o autor do filme tinha ido à Índia e a única coisa que tinha sentido era o cheiro a merda (espero que ninguém se lembre de googlar ‘merda’ e venha aqui parar).
Li o texto, achei-o uma caca, e, para não sair do mesmo vernáculo metafórico, caguei e andei. Passados uns dias, um dos meus críticos de cinema favoritos, que, creio, escreve num jornal de Lisboa que tem o mesmo nome de uma rua que fica no Bairro Alto, escreveu um texto no seu (dele) blog, cujo tem um nome que eu confundo sempre com a Light and Sound, que é a revista de cinema do BFI, em que falava das reacções dos leitores do site do tal suplemento do jornal do engenheiro do norte, ao tal artigo do crítico do azeite sobre o filme do inglês.
Concordando embora que o nível dos comentários dos visitantes do site esteja ao nível dos odores que de acordo com o crítico dos azeites o realizador inglês cheirou em Bombaim, escrevi um mail ao autor do blog a dizer que achava que o texto do crítico do engenheiro era tão mau e tão desrespeitador dos leitores do jornal, que a reacção dos ditos neste caso me parecia, se não justificado, pelo menos ao nível. O autor do blog respondeu simpaticamente ao meu mail e anunciou-me que o ia publicar no referido blog. Claro que o crítico do suplemento do jornal do engenheiro respondeu ao meu texto, e fê-lo com tanta eficácia que eu me senti o tipo mais ignorante do mundo, um brutamontes que sofre de ambliopia cultural e que não sabe o que diz. E devo dizer que acho que ele tem inteiríssima razão.
Felizmente nem tudo correu muito mal, e como o autor do blog grafou com um ligeiro erro o endereço do innersmile aqui no livejournal, poupei-me a ter um acréscimo de visitas e quem sabe um número ainda maior de insultos desestabilizadores do meu frágil ego. Mas relembrei a razão porque gosto tão pouco de escrever cartas ou mails para os jornais ou para os blogs, e sobretudo porque detesto as polémicas. Aquilo nunca sai exactamente como pensámos, tropeçamos muitas vezes nos nossos próprios argumentos, e a contra-argumentação dos outros parece sempre infalível e implacável. Se calhar, digo eu, foi também por isto que desisti de uma obscura carreira na advocacia.
Lembrei-me disto hoje porque estava ali a ler numa edição atrasada do mesmo suplemento e a irritar-me com a opinião de um crítico (de cinema, claro, já é implicância da minha parte) e antes que começasse a delinear na minha cabeça uma resposta, disse logo ‘alto, deixa-te disso, lembra-te da outra vez!’
Claro que não me atrevo a pôr aqui um link para o blog onde está publicado o meu mail (com nome e tudo, credo). E espero francamente que este texto esteja à prova do Google, mesmo correndo o risco de estar ilegível e intragável. Ora ora, ele há coisas mais interessantes na vida do que estar a discutir por escrito, em público, com pessoas que não conhecemos de lado nenhum. Mas se alguém estiver mesmo mesmo interessado em me ver enxovalhado pelo crítico do jornal do senhor engenheiro dos hipermercados, e conseguir saber de que blog é que estou a falar (e declaro já que se alguém o identificar nos comentários, será apagado. Não corro riscos!), é procurar no arquivo do mês de Fevereiro deste ano, que me há-de lá encontrar pelo meio. | comments: 19 comments or Leave a comment  |
| "Subject: Preconceitos. Há muitos. Apesar de tarde - por só agora ter dado de caras com este post - e de muito pouco comum - desagradam-me as caixas de comentários - acho que por aqui grassa, de facto, muito preconceito... Dei esta entrevista à Com'out, e aceitei fazer a capa, porque entendi que era realmente importante esclarecer o meu «Não» àqueles projectos do BE e de Os Verdes. Não pertencendo a esta minoria, sempre fui absolutamente a favor da união, casamento e que mais quiserem, entre pessoas do mesmo género. Os políticos são pessoas tão comuns como quaisquer outras. Acho que aceitar o desafio de fazer a capa desta revista contribui para aproximar as pessoas dessas «outras pessoas» que são os políticos. Não foi frete. Foi decisão própria e sem consulta prévia. Quanto ao «desprezo» pelo conteúdo da entrevista, devo dizer que respondi ao que me foi perguntado, e a razão de ser da entrevista era muito específica: aquele «não». Se daqui conseguem saber tudo de mim, acho que são geniais. Enfim, o preconceito tem muitas, muitas, mas mesmo muitas faces. E foi só mesmo por aqui se revelar numa outra face (infelizmente) tão comum, que comentei. Marta Rebelo"
A deputada Marta Rebelo deixou este comentário a um texto que pus no livejournal em 15 de Dezembro do ano passado, a propósito de uma entrevista que concedeu à revista Com'Out. Reconheço a Marta Rebelo o fair-play e até a humildade de vir responder a um sítio na internet tão obscuro como este e acuso o toque de achar que o meu comentário foi tão preconceituoso como os preconceitos que denuncio.
Assim, e em respeito pela disponibilidade de Marta Rebelo em comentar o meu texto, não cometo a deselegância de lhe responder. Mas não posso deixar de referir três pequenas notas.
1. No meu texto não ataquei Marta Rebelo e toda a contundência que possa ter usado refere-se em exclusivo ao conteúdo da entrevista.
2. Marta Rebelo escolheu a mais implacavelmente escrutinável plataforma de intervenção pública, e ser criticada por aqueles que votaram nela, como pelos que não votaram, faz parte da job description, mesmo quando essas críticas redundem em injustiças morais.
3. O comentário de Marta Rebelo não acrescenta nada, em termos de valor, às razões aduzidas na entrevista para o seu voto contra a proposta apresentada no Parlamento, tornado, aliás, ainda mais incompreensível quanto mais protesta que sempre foi a favor do casamento entre pessoas do mesmo género.
E só acrescento que espero que Marta Rebelo tenha lido com tanta atenção os dois últimos parágrafos do meu texto (sobretudo o último) como leu os dois primeiros. | comments: 14 comments or Leave a comment  |
| Não tinha ideia de me pronunciar sobre o programa de ontem, Prós & Contras, na Rtp1, sobre o casamento… e aqui começa a primeira discordância, o facto de a produção falar em casamento homossexual, quando em rigor não é disso que se trata, mas de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não é uma diferença de pormenor: o casamento civil que hoje é admitido, não é, em rigor, heterossexual: dois homossexuais, um homem e uma mulher, podem contrair casamento, se quiserem. O que está em causa é a possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo, homossexuais ou não, se poderem casar.
Mas comecei a responder à Imenso, num comentário a outra entrada, e como a resposta se alongou, decidi trazê-la para aqui, mas no pressuposto de que não sei se tenho alguma coisa a acrescentar sobre o assunto. E francamente não sei se já me passou a irritação que o programa (parte, nem o vi todo) me causou. Eu sei que já há muito os lunatics have taken over the asylum, mas mesmo assim. A minha capacidade para enfrentar o absurdo tem limites, e quando achei que eles tinham sido atingidos, desliguei o aparelho e fui ler um romance.
De toda a forma gostei de ouvir as pessoas que estiveram em defesa do sim. Gostei de ouvir o Miguel Vale Almeida, porque o seu discurso é ponderado e sensato. Gostei imenso de ouvir a Isabel Moreira, porque os argumentos, de ordem jurídica, que avançou foram sempre demolidores dos falsos argumentos que os do contra convocaram. E gostei de ouvir, na plateia, o Rui Tavares, que colocou a questão na sede própria, a da liberdade individual.
Quanto aos participantes que estiveram em defesa do não, o único para o qual tenho alguma condescendência é o Padre Vaz Pinto, que é um homem culto, informado, sério e 'pensado'. E que se via que tinha consciência de estar aprisionado por duas lógicas que é tramado quando se contradizem: a do respeito pela liberdade individual e pelos direitos humanos, e a do dogma religioso. Quanto aos outros, os argumentos foram sempre tão inanes e falaciosos que foi por demais evidente que todos têm vergonha de dizerem realmente o que pensam, e por isso se escondem atrás de ideias gerais, feitas e falsas. | comments: 18 comments or Leave a comment  |
| Acho curioso o preciosismo de algumas pessoas (ainda agora li isso num jornal) que referem que Barack Obama, em rigor, não é bem negro, mas sim mulato, a propósito de se referir que se trata do primeiro presidente norte-americano negro, ou afro-americano. O essencial da questão rácica não tem a ver com a genética, com o pigmento, com a cor da pele. É uma questão exclusivamente política. Quando Obama se posiciona do lado ‘negro’ da barreira rácica (primeiro porque para isso o empurraram, depois porque assim escolheu), para além de assumir a sua raíz africana, está a fazer um statement político, reivindicando o acesso a estruturas de poder que até agora estavam vedadas a não-brancos (como o que Rosa Parks fez, há 50 anos, ao recusar-se a ceder o seu assento no autocarro). Referir que Obama não é bem negro, mas sim mulato, é, ainda que inconsciente ou involuntariamente, perpetuar o preconceito de que há uma diferença essencial que radica em exclusivo na cor da pele. Da mesma forma que com Kennedy todos podemos ser berlinenses, com Obama todos podemos ser negros. | comments: 11 comments or Leave a comment  |
| Há um aspecto inegavelmente positivo no anúncio que José Sócrates fez de que a moção de orientação política que levará ao congresso do PS irá contemplar a admissibilidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Se o PS aprovar a moção, como o fará de certeza absoluta, e Sócrates for, como será de certeza absoluta, o candidato do PS às próximas eleições legislativas, ficamos a saber que essa matéria vai entrar na agenda política das próximas eleições. Se Sócrates for, como parece inevitável que irá ser, o próximo primeiro-ministro de Portugal, então o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo constará ainda do programa político do próximo governo. Resta o último 'se': se houver condições políticas, ou seja, se o PS tiver maioria absoluta ou pelo menos apoio parlamentar maioritário, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo será uma realidade em Portugal nos próximos 4 anos.
Qualquer um destes cenários é positivo, como o é, de resto, o próprio anúncio de ontem. Não é dispiciendo o principal partido político português, um partido de massas, popular, com vocação de poder, introduzir tal matéria no seu programa político. Por muito que doa, já será benévolo pensar que a maioria das pessoas tem uma posição indiferente nesta matéria. E não tenhamos dúvidas de que entre os que não lhe são indiferentes, o número dos que defendem será inferior ao dos que recusam o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Por isso, por não estarmos exactamente a falar de demagogia populista ou eleitoralista, por não ser uma matéria que traga votos ao PS, podendo mesmo afastar alguns, é importante que um partido tão transversal como é o PS (e como era o PSD, não sabemos se ainda é) a inclua na sua agenda política. Bastava isso, só isso, para já ser uma coisa positiva.
No entanto este anúncio feito por Sócrates evidencia ainda mais as más razões pelas quais o PS votou contra os projectos apresentados no Parlamento há pouco mais de 3 meses no mesmo sentido de reconhecer a possibilidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Tiques prepotentes de partido maioritário, oportunismo político, argumentos falaciosos, fizeram com que o PS tivesse desperdiçado uma oportunidade de ouro de fazer uma coisa bem feita apenas porque era a coisa certa a fazer. | comments: 5 comments or Leave a comment  |
| Apesar de o assunto já estar em modo de fade out, queria aqui deixar os meus 'dois centavos' acerca das tiradas infelizes do cardeal patriarca sobre o casamento entre as portuguesas (atenção à generalização, as portuguesas todas) e os muçulmanos, que, na ideia do mais alto representante da igreja católica em Portugal, é um 'monte de sarilhos'. Eu até acho o cardeal um tipo interessante, um humanista e sobretudo um homem do seu tempo (quero dizer, do nosso), que é capaz de olhar e reflectir sobre o mundo tal como ele é. E até percebo, ou julgo que percebo, o que é que ele quis dizer com aquilo, todos temos essa noção, de que a situação da mulher no islamismo não é propriamente das mais brilhantes e que uma mulher ocidental, completamente desenquadrada dos valores e da cultura islâmica, pode passar um mau bocado não tanto por se casar com um muçulmano, mas sobretudo se for viver para um país muçulmano num meio onde lhe faltem as referências e os apoios a que está habituada, e o modo de viver seja completamente diferente. Sinceramente acredito que foi isto que o cardeal pretendeu dizer. Mas não foi o que disse e não podia dizer o que disse. Não por qualquer questão de correcção política (damn with it) mas apenas porque tais afirmações, desenquadradas do contexto e ditas no tom levemente jocoso em que foram proferidas ('monte de sarilhos' não é uma definição correcta dos problemas em causa) contrariam, e põem em causa, o princípio de ecumenismo que a igreja defende e sobretudo o esforço de sermos capazes de olhar para o outro não como um alien, um estranho, mas como uma forma diferente de sermos nós. E se há religiões (e o islamismo nesse aspecto não é pior do que o catolicismo, nós é que somos mais tolerantes em relação àquilo a que estamos mais habituados) que têm práticas ou costumes ou rituais que põem em causa a dignidade do ser humano ou os seus direitos fundamentais, a solução não está em proibi-las mas em educar as pessoas para que elas se possam libertar das superstições e do obscurantismo que as leva a seguir, cegamente, essas práticas. Assim, só posso atribuir o deslize do cardeal ao facto de ter sido cometido depois de um jantar que deve ter sido bem bebido. Não estou a gozar. o tipo tem ar de quem gosta de uns uísques e de uns vinháticos e por isso devia estar mais descontraído. Já acho uma hipocrisia o pseudo-choque por ele estar num casino, como se para o português mesquinho um homem do clero entrar num casino fosse tão grave como uma portuguesa casar com um muçulmano. Toma! Mas sinceramente acho grave a gaffe do cardeal. E muito ridícula. Só me faz lembrar aqueles conselhos que os tipos do tele-rural dão no fim do programa: e cuidado com aqueles moxoje que usam um lencho enrolado na cabecha. | comments: 20 comments or Leave a comment  |
| 
A edição de Dezembro da revista Com'Out faz a capa com a deputada do PS Marta Rebelo, com chamada para entrevista onde a política, entre outras coisas, faz a defesa do 'Não' do PS na votação do projecto que admitia a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Infelizmente a entrevista é fraca, em parte por responsabilidade de quem entrevista, mas sobretudo por culpa da deputada. Não conheço a Marta Rebelo, o seu trabalho como deputada, os seus contributos para a elevação da política nacional e para o avanço do país, mas a avaliar apenas pelo teor da entrevista, e tratando-se de uma deputada muito jovem, não são grandes as razões para ter confiança, quanto mais admiração, pelos nossos políticos. A justificação avançada por Marta Rebelo é frouxa, corresponde ao credo oficial do partido nesta matéria, esgota-se no jogo politico-partidário, e espelha bem o absurdo ridículo que foi a posição do PS em todo este processo. Mas pior do que isso é a entrevista não revelar uma visão do mundo e do país, uma reflexão interessante e substancial seja sobre que for. O discurso de Marta Rebelo alinha opiniões, mais do que ideias, e meia-dúzia de lugares-comuns acerca das banalidades do costume. Ficava mais barato ao país dar-lhe, em vez do lugar de deputada (e correspondente remuneração), uma conta nos blogs do Sapo.
Mas dito isto devo acrescentar que, apesar de tudo, me agrada o facto de um deputado, para mais de um partido de poder, e para mais ainda do partido que neste momento sustenta o governo, não só dar a cara numa entrevista a uma revista gay, mas prestar-se a um ensaio fotográfico para a capa. Claro que podemos ser sempre um bocadinho cínicos (e basta um bocadinho) e achar que Marta Rebelo está a fazer o frete ao patrão dela, para aquietar a angústia e a revolta do voto cor-de-rosa. Pode ser que seja. Mas mesmo se for esse o caso, ainda assim é positivo que um deputado não fuja de uma revista tão marcada pelo estatuto minoritário e estigmatizado do seu público-alvo. Que eu me lembre, é a primeira vez que um deputado de um dos dois grandes partidos portugueses (ou mesmo dos cinco) se compromete com este grau de exposição com qualquer acto que se dirija tão explicitamente à comunidade homossexual (a excepção será, é evidente, o Bloco de Esquerda, mas a ideia que tenho é que a intervenção do BE se desenvolve mais no campo do combate político e menos no plano social ou cultural, mas de qualquer forma fica feita a ressalva para o único partido que não tem receio de abordar as questões de género).
Esta capa da Com'Out com a deputada Marta Rebelo de certa forma vem quebrar um tabú, o de que o estigma da homossexualidade é tão forte que queima a imagem de qualquer pessoa que se deixe associar com qualquer coisa que se dirija, com este grau de específicidade, aos homossexuais. Ficamos a saber que as figuras públicas em geral, e os políticos em particular, que se recusam a falar para a Com'Out (como tem havido, por exemplo na secção das perguntas à queima-roupa sobre temas mais ou menos embaraçosos) ou de alguma forma a se associarem com a homossexualidade, já não o fazem por medo das consequências eventualmente negativas nas suas carreiras ou no seu sucesso, mas por puro e absoluto preconceito. | comments: 13 comments or Leave a comment  |
| Começa a esmorecer nos media a questão do deputado do PND ao parlamento da Madeira que desfraldou uma bandeira nazi em pleno hemiciclo, justificada, segundo ele, como manifestação de protesto pelas regras pouco-democráticas que vigoram na política madeirense. Curiosamente o grosso da discussão, especialmente ao nível da classe política, versou a questão da suspensão, pelos vistos ilegal, do mandato do referido deputado, decretada pelo presidente da Assembleia Regional.
Ora, na minha opinião, a questão importante aqui é outra. Não está em causa a minha opinião acerca do governo da madeira e do seu presidente e respectivos caciques. Mas considero totalmente inaceitável recorrer-se a um símbolo tão negativamente carregado enquanto instrumento de acção política. Ao desfraldar a bandeira nazi, o deputado do PND não ofendeu o presidente do governo da Madeira, mas sim os milhões de vítimas da barbárie nazi.
A nossa conduta em sociedade faz-se no quadro de uma determinada exigência moral (mesmo que seja para a contrariar), e, por maioria de razão, a intervenção política tem de ter um quadro de valores que lhe sirva de referência. Mostrar uma bandeira nazi porque se quer denunciar modos pouco democráticos de um governo cuja legitimidade democrática não tem discussão é no mínimo desproporcional.
Isto para já não falar nos efeitos preversos da banalização de determinadas imagens e símbolos. Quando vemos os neo-nazis desfilar com os seus símbolos em que é que a cruz suástica que exibem é diversa da que o deputado do PND exibiu no parlamento da Madeira?
Francamente não sei se os regulamentos estão ou não a ser ultrapassados nesta questão do deputado regional. O que sei é que reduzir esta questão à burocracia dos regulamentos é já, em si, desvalorizá-la naquilo que tem de essencial. Pela minha parte o que o deputado madeirense mostrou foi uma irreparável falta de cultura cívica e política, que o desabilita completamente a exercer o seu mandato de representante do povo. Por isso das duas uma: se fez o seu gesto infeliz à revelia do partido, então a direcção deste deveria exigir que ele próprio pedisse a suspensão do seu mandato. Se a direcção do partido sabia do que se iria passar, ficamos a saber que a democracia do partido não é nova nem velha, não é democracia. | comments: 17 comments or Leave a comment  |
| Admito que perdi um bocado o interesse nas eleições presidenciais norte-americanas desde que Hillary Clinton perdeu as primárias democratas. Sou muito conservador em política (apesar de ser de esquerda), e talvez por isso nunca me empolguei com o discurso de Obama, demasiado evangélico para o meu gosto.
Por isso para mim o mais importante era tirar a administração Bush da Casa Branca o que, pela lei da limitação dos mandatos, estava garantido. Apesar de sentir simpatia pelo John McCain, a escolha de Sarah Palin para vice foi desastrosa e, pior do que as gaffes, os negócios obscuros e o estilo cheerleader, para mim o perigo era dar mesmo a sulipampa ao McCain e aí tínhamos a quadrilha de regresso com a Sarah.
Há duas coisas que verdadeiramente me impressionam nesta manhã pós-eleitoral. A primeira é o facto de pela primeira vez os EUA terem um presidente afro-americano. Pode parecer pouco, mas temos de nos lembrar que a escravatura negra foi abolida, nos Estados Unidos, há cerca de 150 anos. Já foi no meu tempo de vida, há cerca de 40 anos, que Martin Luther King foi assassinado por liderar a luta pelos direitos civis do afro-americanos. Para todos os efeitos, e apesar de tudo o resto, a supremacia branca acabou oficialmente.
A outra nota tem de ir para os americanos, que elegeram Barack Obama. Apesar de alguma histeria europeia, o yes we can, como agora o yes we did, referia-se aos americanos. Não foram os europeus que puseram Obama na Casa Branca, foram os americanos. Exactíssimamente os mesmos a quem os europeus passaram os últimos 8 anos a insultar, tratando-os com desprezo e insolência. É grande a nação americana, e isso vê-se na maneira como se suplanta a si própria, como se ultrapassa. Isso viu-se, enfim, no modo como aceitou a revolução Obama e lhe deu uma oportunidade. O grande desafio de Obama vai ser não desiludir, estar à altura. Provar que a realidade é feita da mesma matéria do sonho. | comments: 16 comments or Leave a comment  |
| Tenho acompanhado mais com curiosidade do que com a atenção (ultimamente toda a minha atenção tem sido gasta profissionalmente) as histórias à volta da morte num acidente automóvel de Jorg Haider, o lider da extrema-direita austríaca. O evoluir da história tem sido interessante: primeiro, o acidente a alta-velocidade, depois a condução sob efeito do alcoól, a seguir a notícia de que tinha sido visto num bar gay nas horas que antecederam o acidente, e finalmente a revelação de que tinha tido uma discussão com o seu lugar-tenente no partido que também era seu namorado. Isto apesar de Haider ser casado e ter duas filhas. O dito namorado, que tinha sido nomeado líder do partido, assume que eram amantes e é substituído de imediato. Finalmente a viúva parece vir pedir uma nova autópsia do corpo de Haider sob suspeita de ele ter sido drogado e, nesse caso, a sua morte poder prefigurar um caso de homicídio. Enfim, uma daquelas histórias em que a realidade parece ultrapassar em imaginação e delírio a ficção mais desenfreada.
Um dos aspectos que me despertou o interesse nesta história foi a ligação da extrema-direita à homossexualidade. Lembrava-me de que já tinha escrito aqui sobre isso e de facto encontrei uma entrada, datada de 18 de Agosto de 2004, em que escrevi sobre um artigo na Attitude que se debruçava sobre esse inquietante link entre a direita e os nacionalismos e a homossexualidade. É engraçado porque no artigo, e como refiro no texto, se falava precisamente no Jorg Haider como um dos casos "suspeitos" e eu acrescentei entre parentesis de que me parecia que não passava de uma insinuação! Pois, pelos vistos era mais do que isso.
Esta referência já antiga vem, por seu lado, confirmar aquilo que li agora no site do jornal inglês The Independent, que a homossexualidade de Haider (ou, enfim, a sua bissexualidade) era já conhecida. Mas independentemente dos laivos de novela austríaca de todos estes desenvolvimentos ´post-mortem' (se não fosse uma certa morbidez gélida e arrepiante, e se os protagonistas fossem mulheres, quase poderia ser uma história almodovariana), não deixa de ser sinalizável mais esta ligação, que pessoalmente acho perturbadora e inquietante, entre a homossexualidade e a extrema-direita, nomeadamente a nacionalista. | comments: 21 comments or Leave a comment  |
| Não tenho muito mais a acrescentar ao que já escrevi aqui há dias sobre o PS e a salganhada em que se meteu a propósito do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, e que culminou com o chumbo, hoje, no parlamento, de duas propostas de lei que visavam a alteração do código civil para consagrar essa possibilidade. A não ser que o PS perdeu uma oportunidade história de fazer uma coisa bem feita e que fazia todo o sentido, contribuindo para a modernização da mentalidade nacional, e fazendo, na mesma passada, a felicidade de um grupo de cidadãos que, sendo uma minoria e das pouco significativas, em todo o caso tem algum peso político e económico. Isto para já não falar em dignidade e cidadania. E a verdade é que estou mais zangado com a perda dessa oportunidade histórica do que pensei que viesse a estar. Não faço profissões de fé, de nunca mais votar no PS, porque uma coisa são os meus sentimentos e as minhas emoções, e até as minhas circunstâncias, e outra diferente é aquilo que, racionalmente, eu vou achar que é melhor ou faz mais sentido quando tiver que votar de novo. A política, e a participação nela dos cidadãos, não é uma questão apaixonada, tipo clube de futebol. Vota-se naquilo que nos parece melhor, que faz mais sentido. Mas lá que estou zangado, estou. O que me apetecia era mesmo apanhar o Socras a jeito, segurá-lo pelos colarinhos, e espetar-lhe dois tabefes. Com coisas sérias não se brinca, ó palerma. E a vida das pessoas, a sua felicidade, o seu quotidiano, a sua vidinha, a sua casinha, o seu casamentosinho, esse tipo de coisas, são as coisas mais sérias que há. | comments: 32 comments or Leave a comment  |
| A jornalista Fernanda Câncio publicou no DN do passado sábado, e reproduz agora na sua página do blog 5dias uma cronologia abreviada da luta pelos direitos homossexuais em Portugal. Copio-a para aqui (sem autorização mas com a devida vénia), sobretudo para referência futura, mas também para recordar como é tudo tão recente, e que determinadas realidades e direitos só são reconhecidos pela actual ordem jurídica há meia dúzia de anos. Olhando para esta cronologia faz-me um bocado de impressão constatar que vivi a maior parte da minha vida, nomeadamente a adulta, num país cujo sistema jurídico me desconsiderava em toda a linha. Mas faz-me ainda mais impressão pensar que se calhar, e apesar dos progressos verificados na ordem jurídica, o país real e profundo, o das mentalidades e do civismo e da cultura, ainda desconsidera.
»1974 A associação dos psiquiatras americanos retira a homossexualidade da lista das patologias. Em Portugal, um manifestode homossexuais é repudiado pelo general Galvão de Melo na TV: “O 25 de Abril não se fez para as prostitutas e os homossexuais reinvindicarem”.
1976 É aprovada no parlamento eleito a Constituição da República, que estabelece a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, assim como a reserva da vida íntima.
1982 É revogado o CódigoPenal (CP) de 1886, que no artigo 71º punia com “medidas desegurança — internamento “em manicómio criminal”, “casa de trabalho ou colónia agrícola” (por período de seis meses a três anos, para trabalhos forçados), “liberdade vigiada”,“caução de boa conduta” e “interdição do exercício de profissão”– quem se entregasse “habitualmente à prática de vícios contra a natureza”, práticas essas que “agredissem” o “princípio básico da moral sexual” e “o primado da sexualidade genital e da reprodução”. Mas cria-se um novo crime (artigo207º),“Homossexualidade com menores”, punindo com prisão até três anos “quem, sendo maior, desencaminhar menor de 16 anos do mesmo sexo para a prática de acto contrário ao pudor, consigo ou com outrém do mesmo sexo”.
1989 Uma portaria de inaptidões para o serviço militar classifica como doença mental os “desvios e transtornos sexuais: homossexualidade e outras perversões sexuais” . Quem manifestar tal “desvio” é inapto.
1991 Surge o primeiro grupo organizadode defesa dos direitos LGBT. É o Grupo de Trabalho Homossexual, integrado no Partido Socialista Revolucionário, um dos partidos que virá em 1999 a unir-se no Bloco de esquerda.
1992 A Organização Mundial de Saúde retira a homossexualidade da lista das patologias. 1995 Nova revisão do CP substitui o artigo 207º pelo 175º, “Actos homossexuais com menores”. Prevê-se que “quem, sendo maior, praticar actos homossexuais de relevo com menor entre 14 e 16 anos, ou levar a que eles sejam por este praticados com outrem, é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias”. Entre pessoas da mesma idade mas de sexo diferente, só há crime se houver “abuso de inexperiência”.
1996 Os Verdes propõem incluir no artigo 13º da Constituição a proibição da discriminação em função da orientação sexual. Abstenção do PS e votos contrários do PSD e do PP impedem aprovação. São criadas a associação ILGA-Portugal e o Clube Safo (associação lésbica).
1997 É publicado o despacho do Ministério da Administração Interna n.º 13/97, que declara inaptidão à admissão na PSP de “personalidades psicopáticas de qualquer tipo, particularmente anormais sexuais, em particular invertidos”. É celebrado o primeiro arraial pride no Príncipe Real, fundadada a associação Opus Gay e ocorre o I Festival de Cinema Gay e Lésbico, com o apoio da Câmara de Lisboa.
1998 É publicado o manifesto dos grupos homossexuais, com várias exigências, entre as quais a inclusão da não discriminação em função da orientação sexual no artigo 13.º da Constituição, o reconhecimento das uniões de facto e do acesso à adopção. O casamento não faz parte das reivindicações.
1999 Entra em vigor o Tratado de Amesterdão, que consagra a proibição da discriminação em função da orientação sexual . É, em Março, revogada a tabela nacional das inaptidões aprovada em Janeiro e na qual a homossexualidade surgia como “deficiência”. O provedor de Justiça declara “constitucionalmente intoleráveis” as restrições constantes nas tabelas de inaptidões do serviço militar e da PSP. É aprovada uma lei das uniões de facto, proposta pelo PS, que exclui casais do mesmo sexo.
2000 Primeira parada do Orgulho Gay desce a Avenida da Liberdade, em Lisboa.
2001 O Parlamento aprova uma lei das uniões de facto que inclui os casais do mesmo sexo, excluindo-os da adopção.
2003 O novo Código do Trabalho proíbe a discriminação do trabalhador com base na orientação sexual.
2004 A orientação sexual é incluída no artigo 13.º da Constituição, em votação parlamentar.
2005 A ILGA-Portugal lança uma petição pela igualdade no acesso ao casamento. Recolhe mais de 7000 assinaturas. O Tribunal Constitucional (TC) reputa de inconstitucional o artigo 175.º do Código Penal. 2006 Teresa Pires e Helena Paixão tentam casar-se numa Conservatória de Lisboa. Sucessivas recusas levam o caso até ao TC, onde aguarda decisão.
2007 A revisão do Código Penal elimina o artigo 175.º e inclui, no novo crime de violência doméstica, os casais do mesmo sexo, assim como, entre as circunstâncias agravantes dos crimes, o ódio baseado na orientação sexual.
2008 A secretária de Estado Idália Moniz garante que os casais do mesmo sexo estão excluídos das candidaturas a família de acolhimento, apesar de a lei admitir unidos de facto. Decorre, a 3 de Outubro, a audição parlamentar de apreciação da petição a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo. A 10 de Outubro, será votada a petição, assim como os projectos de lei do BE e de Os Verdes sobre o mesmo assunto, com chumbo anunciado.» | comments: 8 comments or Leave a comment  |
| E já que estamos com a mão na massa a dar traulitada ao PS, aí vai mais uma: chama-nos a atenção o JPT, do blog Ma-schamba, de que o partido do governo fez aprovar esta semana uma alteração ao sistema de voto dos emigrantes, acabando com o voto por correspondência. Como já faço parte do grupo dos animais que são menos iguais que outros, aproveito para dar aos emigrantes portugueses as boas-vindas ao grupo dos cidadãos excluídos da cidadania plena. O que não deixa de ser uma curiosa ironia.
Mas o Oscar das ironias, na semana que passou, vai para a decisão da administração federal dos EUA de injectar dinheiro no mercado dos investimentos com o intuito de travar (ou pelo menos amortecer) a queda dos bancos financeiros de investimento. A primeira ironia é a de auxiliar os especuladores financeiros que, por causa da sua ganância ávida e desenfreada, foram os principais responsáveis pela própria crise de que são vítimas. Mas a mãe de todas as ironias está mesmo no facto de os arautos do capitalismo mais desenfreado, do menos Estado melhor Estado, da redução da intervenção estatal ao mais basal dos níveis, o próprio rosto da mão invisível e perfeita do capitalismo, em suma, de repente desatar a defender a intervenção do Estado para salvar os especuladores financeiros. Caso tenha passado despercebido, o capitalismo virou, nesta semana que passou, mais uma página. Já não é, já não pode ser, mais o que era. Podemos ainda não saber como vai ser amanhã, mas seguramente já não é o que era até há oito dias atrás. | comments: 6 comments or Leave a comment  |
| A única triste vantagem da trapalhada em que o Partido Socialista se meteu a propósito das propostas de alteração do Código Civil para reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, é clarificar (se tal fosse preciso) a matéria de que é feito o principal partido de esquerda português.
Não tenhamos dúvidas de que a única razão pela qual a direcção do PS não pretendia este debate neste momento é porque acha que a aprovação do chamado casamento entre homossexuais, ou tão apenas a sua discussão no parlamento, é penosa do ponto de vista eleitoral. É essa a ideia que o PS, partido do governo com maioria absoluta, faz do povo português (e se calhar é a correcta): se o partido aparecer muito conotado com essa mariquice do casamento dos “paneleiros”, isso vai-lhe custar muitos votos. O PS preferia que este debate se fizesse no princípio da legislatura, ou pelo menos até dois terços da legislatura. Por um lado fazia a parte do partido modernaço, em consonância com os seus congéneres europeus, e por outro lado daria muito tempo ao povo para se esquecer de tal bizarria.
Apesar de não ter dúvidas acerca do que pensa a generalidade das pessoas acerca dos homossexuais e dos seus direitos de cidadania, acho que o PS com esta atitude de não querer o debate e por isso pretender obrigar os seus deputados à disciplina de voto, deu um tiro no pé: pôs o país precisamente a debater o assunto. Se tivesse reagido com inteligência e sangue frio, o PS tinha dado liberdade de voto aos deputados (precisamente com o mesmíssimo argumento que usou para a negar, o de que este assunto não estava no programa eleitoral, e por isso o partido não tinha posição oficial, para mais tratando-se de uma questão mais social e de consciência do que de política). Sendo altamente provável que a maior parte dos deputados iria votar contra, a proposta não passava, o bruaá nos media morria à nascença, e o país lá seguia a sua vidinha. Quando lhe fosse mais favorável, ou seja quando isso não lhe custasse os votos, o PS fazia aprovar a alteração ao código civil, dava uma de partido moderno e liberal, e continuava tudo na mesma.
Assim, como são uma cambada de parolos, trouxeram o assunto para as primeiras páginas dos jornais. E deram oportunidade aos disparates do costume, como o Manuel Alegre que já picou o ponto: como é do contra, desta vez é contra o casamento dos homossexuais, porque acha que o assunto não é importante, e é contra a disciplina de voto, porque sim. Ou porque não.
(Declaração de interesses: votei no PS nas últimas eleições, se as eleições fossem hoje tornava a votar, e provavelmente vou votar no PS nas próximas eleições. Basicamente porque neste momento é o único partido com condições para governar. Mas é sempre bom confirmarmos que não vale a pena ter ilusões) | comments: 24 comments or Leave a comment  |
| Não consegui comprar nenhum livro durante as férias em Porto Seguro (não vi nenhuma livraria, e livros à venda só no quiosque do aeroporto, mas nenhum me despertou a atenção), mas comprei duas revistas. A Aimé-Primus Inter Pares, o terceiro número de uma revista dedicada ao público LGBT (no Brasil diz-se GLS, mas o que quer dizer o S?), e a edição brasileira da famosa revista Rolling Stone.
Curiosamente, e muito significativamente, ambas têm um ponto em comum: o escritor best seller, estrela pop da literatura e membro da academia, Paulo Coelho. A propósito da edição de O Mago, uma biografia que lhe é dedicada, a Rolling Stone dá-lhe a capa e uma entrevista feita em França, onde Coelho reside parte do ano. A Aimé traz uma entrevista muito interessante com Fernando Morais, o próprio autor da biografia. Mais do que o assunto Coelho, o que a entrevista revela é uma grande personalidade, a do autor da biografia, homem dos jornais, escritor e conhecedor do mundo. É curioso como no Brasil ainda subsiste uma geração de antigos jornalistas, homens com muitos quilómetros de vida e de experiência, que se dedicam a escrever a crónica do seu tempo e do seu lugar. Em Portugal essa classe dissipou-se quase completamente, em grande parte devido ao facto de ter sido absorvida pela classe política, integrando a corte de assessores e consultores dos políticos. É pena, porque estes tipos de facto ensinam-nos a ler a vida e o tempo que vivemos.
Quanto à biografia de Coelho, pelos vistos, e a avaliar pelo destaque que lhe é dado nas peças de ambas as publicações, a grande revelação é facto de o Paulo Coelho ter tido uma relação homossexual no passado. Para mim a maior surpresa foi ter descoberto que o Paulo Coelho formou uma dupla criativa com o grande Raul Seixas. Va savoir…, como dizem os franceses.
Já há uns dias que andava para alinhavar estas notas sobre as revistas, e hoje estava a ler a entrevista que a revista Ler fez a Eduardo Lourenço, e eis senão o Paulo Coelho entra na conversa. Passo a citar:
«O Paulo Coelho começa por ser uma pessoa que um sujeito que se preza não lê. Não quer saber do Paulo Coelho para nada. Mas o fenómeno Paulo Coelho é verdadeiramente espantoso. É uma reciclagem de coisas simples.»
E mais à frente:
«É uma literatura de um optimismo beato, em todos os sentidos da palavra. Ele descobriu que havia aqui uma carência. Com essa ingenuidade – ou falsa ingenuidade – da visão do Paulo Coelho as pessoas encontram-se nessa espécie de paraíso portátil e de receitas de salvação, quando as receitas de salvação das grandes religiões capotaram. Ele oferece-lhes um sucedâneo da essência de todas essas coisas, mas em versão light.»
Sempre senti uma enorme embirração em relação ao Paulo Coelho. Não por ele ser light ou fácil, mas precisamente porque acho que os seus livros são uma vigarice, tal como as seitas que pulularam por aí no final do milénio passado. Receitas fáceis e inúteis (quando não mesmo prejudiciais) para quem não consegue conviver com o vazio dos tempos.
Mas o Eduardo Lourenço, que sabe destas coisas infinitamente mais do que eu, dá-me logo a seguir uma lição de humildade, ao dizer: «Mas em si essa literatura não me merece desprezo». Caramba, isto de um tipo que é considerado o grande pensador português do nosso tempo, e que alicerçou o fundamental da sua obra na leitura dos grandes escritores portugueses, sobretudo de Pessoa. Isso mesmo. O tipo que nos descodificou o Pessoa, e que faz um diagnóstico tão lapidar do fenómeno Paulo Coelho, a afirmar que esse tipo de literatura fácil não lhe merece desprezo. | comments: 42 comments or Leave a comment  |
| Esta coisa de não ter nada que fazer e estar em Coimbra revela-se desastrosa do ponto de vista financeiro: de cada vez que saio de casa, nem que seja para ir lá abaixo por o lixo, compro livros. Claro que é sempre com a desculpa de que é para ler nas férias, mas já são tantos que precisava de um mês numa ilha deserta (sem livrarias) para os conseguir ler todos. Com o dinheiro que já gastei mais valia ter comprado umas férias caríssimas, daquelas num lugar qualquer paradisíaco que só existe no ficheiro clipart de algum publicitário megalómano.
Hoje saí de manhã e, claro, comprei logo dois livros, em duas livrarias diferentes. Um dos livros é um volume de memórias do Prof. Galopim de Carvalho, o dos dinossauros. Cheguei a casa, folheei o livro para ver o estilo e as fotografias e fui surpreendido por uma foto em particular do professor na famosa Pedreira do Galinha, onde existe um enorme trilho de pegadas de dinossauro.
Tenho de admitir que nunca fui tocado pelo fascínio dos dinossauros, talvez porque quando era miúdo eles ainda não tinham sido inventados e a nossa imaginação ainda se enchia com os desvarios do futuro e não com os mistérios do passado. Talvez fosse pelo ângulo da fotografia, que apanha os trilhos laje acima, deixando particularmente em evidência o relevo das marcas dos passos, quase como as pegadas que acabámos de deixar na areia húmida da praia, tive quase uma espécie de visão de um dinossauro (daqueles gorditos com o pescoço esguio e alto, que comiam as folhas das copas das árvores – isto é ciência de filme de Spielberg, nem sei o raio do nome dos bichos) a trepar encosta acima lá muito entretido na vida dele.
Fiquei tocado, quase comovido, um pouco como quando pela primeira vez os meus olhos se esbugalharam para as pirâmides de Gizé. São sempre especiais estes encontros com realidades com que lidamos quase quotidianamente mas que, lá no fundo, não percebemos completamente. | comments: 6 comments or Leave a comment  |
| Só um comentário que tem a ver com os resultados dos atletas portugueses nos jogos olímpicos, nomeadamente com os da natação. Houve quem se chocasse com o facto de dois atletas terem comentado que tinham ido a Pequim apenas com o objectivo de bater recordes nacionais, e que isso poderia ser feito cá, nas piscinas nacionais. A verdade é que não podia. Em todas as modalidades desportivas, mas principalmente naquelas em que o sucesso se mede por uma determinada marca, como a natação ou o atletismo, e não pelo resultado de um confronto a dois, como o judo ou o basquetebol, só a competição com atletas melhores do que nós ou pelo menos ao nosso nível fornece o estímulo suficiente para o esforço adicional necessário para a melhoria. Um nadador que nada sozinho dificilmente se consegue ultrapassar a si próprio. Por isso é que nos meetings de atletismo há atletas que são convidados, e pagos, pela organização para funcionarem como lebres, ou seja para puxarem os restantes atletas, nomeadamente os melhores em prova, para a obtenção de recordes. Ninguém consegue bater um recorde, sobretudo pessoal, a correr sozinho à volta de uma pista ou a nadar sozinho piscinas consecutivas. Por isso é tão importante a presença dos atletas em competições como os jogos olímpicos em que estão presentes os melhores. Se os que vão ao jogos são os melhores, isso significa que apenas nos jogos eles conseguem nadar contra atletas que são melhores do que eles. Isto é particularmente significativo em países relativamente pequenos, como o nosso, em que por uma questão demográfica são poucos os atletas que chegam ao topo das suas modalidades. E é também por esta razão que a maior parte dos atletas dos países pequenos vão treinar para os países com maior número de praticantes: não apenas e nem tanto porque os métodos de treinamento sejam mais aperfeiçoados, mas porque o nível de competição é mais elevado e isso funciona como estímulo à superação individual. Por esta razão, e apesar de ter estado a acompanhar muito lateralmente estes jogos e nomeadamente os resultados dos atletas portugueses, não me parece que a natação seja propriamente a modalidade em que os atletas portugueses tenham feito ou estejam a fazer má figura. Pelo contrário, têm sido batidos recordes individuais e nacionais, precisamente porque o nível de competição é elevado e a isso estimula.Não chegam ao pódio? Pois, é verdade, mas também o é para 99% dos atletas que estão em Pequim. | comments: 5 comments or Leave a comment  |
| Adorei a cerimónia de abertura dos jogos olímpicos de Pequim. Acho que nunca tinha visto nada assim tão deslumbrante e fabuloso, o casamento perfeito entre a mais avançada tecnologia e a simplicidade das tradições mais elementares. Num enorme tapete digital, uma folha de papel estendida e um grupo de bailarinos fazendo desenhos ao sabor dos passos de dança. Uma lanterna de papel em forma de globo percorrido por pessoas a correr em desafio às leis da gravidade e à nossa capacidade de compreensão. Podemos apreciar estes jogos ao arrepio das preocupações, mormente humanitárias, que a política chinesa desencadeia? No seu blog, a Jasmim faz um eloquente e inquietante comentário a esta questão, pondo, sem grandes comentários, um clip com imagens da cerimónia de ontem em Pequim e outro da dos jogos de Berlim, em 1936. Há uma longa tradição de boicotes ao longo da história das olimpíadas modernas. Em 1976, em Montreal, a própria China iniciou uma série de boicotes ao jogos protestando contra a aceitação por parte do comité olímpico de Taiwan, com a designação de República da China, e só regressaria aos jogos em 84. Em 1980 os jogos de Moscovo foram boicotados por um enorme grupo de países ocidentais em protesto contra a invasão soviética do Afeganistão (Portugal foi um dos países que participou no boicote, apesar de ter havido um grupo de atletas que o furou e se deslocou aos jogos). Em retaliação, os jogos de 1984, em Los Angeles, forma boicotados pela URSS e demais países do antigo bloco de leste. A África do Sul, no tempo do apartheid, estava impedida de participar nos jogos (e em todas as outras competições desportivas internacionais). A questão é: se há assim tanta preocupação com a China, porque é que os jogos de Pequim não foram boicotados? Claro, porque ao contrário do que acontecia há vinte ou trinta anos, o capitalismo fala mais alto do que a ideologia. Aliás, já nem há questões ideológicas a dividir os países, China inclusive. Os jogos de Pequim representam uma oportunidade de negócio, aliás muitas, para se tomarem medidas efectivas de penalização da China. Mas como temos de limpar a consciência, fazemos todos, Bush e Sarkozy incluídos, profissões de fé acerca da China, dos atropelos aos direitos humanos, e da sua política expansionista em relação, por exemplo, ao Tibete e, hélas, a Taiwan! Isto para já não relembrar que há trinta anos éramos todos (enfim, generalizo) maoistas, numa época em que a China era incomparavelmente mais brutal para com os seus cidadãos do que, apesar de tudo, é hoje. Francamente, acho que isto tudo é uma enorme hipocrisia. Acho que nós precisamos de balões de oxigénio politicamente correcto para podermos dormir de consciência tranquila e fazermos de conta de que os males do mundo também não são responsabilidade nossa, de cada um de nós. É sempre mais fácil arranjar um culpado oficial e o mau da fita de serviço do momento é a China. Apesar de não me considera propriamente um sinófilo, tenho um enorme fascínio pela China (não conta, claro, pois sou fascinado por todo e qualquer rincão do mundo), enquanto cultura mas também pelo que tem sido a sua evolução nas últimas décadas. A China conseguiu, ou está em vias de, transformar a sua sociedade e a sua economia sem cair nos atropelos e nas contradições em que caiu, por exemplo, a Rússia. E sinceramente acho que o que mais incómodos causa aos ocidentais não são os atropelos aos direitos humanos na China, mas sobretudo a perspectiva de a China se vir a tornar, num prazo mais curto do que aquele que prevíamos, ou que temiamos, na potência dominante da economia mundial e, por isso, do mundo.
Faço tenção de ver os jogos, disfrutá-los e não vou deixar a minha consciência atrapalhar esse meu prazer. Nem por um momento me esqueço dos mortos e das vítimas dos regimes políticos, mas já cá ando há tantos anos que aprendi a conviver com esse lado mais sujo e desagradável desta coisa de ser cidadão do tempo que me calhou em sorte viver. Não preciso de mostrar as mãos limpas a ninguém. Isto é cinismo? Olha, se for temos pena. | comments: 8 comments or Leave a comment  |
| 08-08-08 Este princípio de século dá-nos a oportunidade de vivermos, uma vez por ano, esta coisa um pouco mágica, das datas redondas. Não me lembro da do ano passado, mas lembro-me perfeitamente da de há dois anos, que registei em fotografia (e pus aqui no innersmile, se não estou em erro). Mas hoje, apesar dos bons augúrios que levaram a China a escolher este dia para abertura dos Jogos Olímpicos (cuja cerimónia vou perder, por estar a trabalhar, eu que gosto tanto de assistir a estas cerimónias), o dia está-me a soar um pouco estranho. Ontem à noite, já não sei porquê, liguei o televisor quando cheguei a casa, e deixei-o sem som, enquanto ia dar uma voltinha pela net. Por volta das onze, decidi ir para a cama ler e fiz um zapping pelos canais do costume antes de desligar. Na Sic Notícias estavam a transmitir imagens de uma mulher, de calças brancas e t-shirt escura, de mãos algemadas e com uma pistola encostada ao pescoço. Não fazia ideia do que estava a acontecer, mas percebi que afinal tinha havido uma tentativa de assalto a um banco em Campolide, às três da tarde, e que, oito horas depois, os assaltantes ainda estavam barricados dentro das instalações do banco, juntamente com dois reféns. Passado pouco tempo apareceu no plano da imagem, ou seja, na porta do banco, o outro refém, igualmente algemado, seguido por um dos assaltantes, que vestia calças de ganga, ténis e luvas, e que lhe encostava uma pistola à nuca. A imagem era captada a muita distância, apesar do zoom, e por isso viam-se muitos polícias, nomeadamente dos GOE. Passado um bocado, quando parecia não haver grande coisa a acontecer, ouviram-se uns tiros e viu-se a senhora a fugir e os polícias a entrarem. Fez-me tudo muita impressão. Achei perturbante ver as pessoas ali com as pistolas apontadas à cabeça. A nossa maneira de lidar com a realidade (quer dizer, a minha, pelo menos) passa muito por eu ser capaz de representar as situações para reflectir sobre elas, e não me consigo imaginar a viver uma situação daquelas, como é que se lida com o passar das horas, com o medo, o que é que nos passa pela cabeça. Também me perturbou saber que aqueles tiros que nós ouvimos em directo mataram um dos sequestradores e feriram gravemente o outro. Ou seja quando ouvimos o barulho e vimos a senhora a correr, isso significa que o sequestrador que a estava a segurar tinha acabado de ser atingido. Parece-me mesmo um bocado obsceno esta coisa de a morte de uma pessoa ser testemunhada pelas câmaras de televisão. Há uma foto, creio que no site do diário de notícias, onde parece que se vê ainda o esboço de alguém que acabou de largar a senhora. Um fantasma. | comments: 14 comments or Leave a comment  |
| Há coisa de vinte minutos, meia hora, ia a sair de casa e vi uma luz fixa, mortiça como uma lâmpada de vinte watts num vasto e desolado armazém, a cruzar o céu, direcção de sudoeste para nordeste, a uma velocidade constante e ao que me pareceu baixa altitude. Seria o mês de Agosto?
A edição de sexta-feira passada do Ípsilon, suplemento de arte e cultura do jornal Público, organizou um destacável com sugestões de discos e livros para os dias de férias de Verão. Nas páginas centrais, uma crónica da jornalista Alexandra Lucas Coelho, a propósito dos livros que nunca, ou ainda não lemos, invoca grandes nomes que fizeram história nos jornais portugueses nos anos oitenta: Fernando Assis Pacheco, Ernesto Sampaio, Torcato Sepúlveda, Eduardo Prado Coelho, Clara Ferreira Alves, António Mega Ferreira, Clara Pinto Correia, Miguel Esteves Cardoso, José Amaro Dionísio, Fátima Maldonado, Maria Regina Louro, Tereza Coelho, Eduardo Lourenço. Nomes que puseram a cultura na imprensa portuguesa e fizeram, ou ajudaram a fazer, nela um jornalismo de qualidade. Foram esses nomes, alguns deles, que me ensinaram a ler, e com os quais aprendi a gostar de jornais, de livros. Uma época de ouro da imprensa, que torna ainda mais miserável, por comparação, o jornalismo que hoje se pratica nos jornais. A essa notável, e carinhosamente saudosa, galeria de nomes, eu acrescentaria um dos poucos, um dos raros, que hoje em dia salvam os jornais da total mediocridade: o da Alexandra Lucas Coelho. | comments: 4 comments or Leave a comment  |
| | Cada ano, as árvores no passeio fronteiro à esplanada estão maiores. As copas mais frondosas, já fazem sombra. Lembro-me, há dois ou três verões, destas árvores serem fininhas e despidas, frágeis como tudo o que é novo e vem para a vida. Agora, quando as olho aqui do plano baixo da minha cadeira na esplanada (os cubos de gelo tilintando no vidro fino do copo) vejo-as orgulhosas, a ganhar corpo. À espera da manhã, do sol. Contando as estações e os dias, árvores de um tempo quando eu for velho. | comments: 8 comments or Leave a comment  |
| Realizam-se de dois em dois anos, e como este é ano par há festas da rainha santa. O lado pagão das festas é muito pouco interessante: feira popular, feira comercial e industrial. O programa cultural costuma ser paupérrimo, já que a noção de cultura de quem manda em Coimbra se reduz a grupos folclóricos e a nomes de ruas. Este ano, vá lá, já houve o concerto dos GNR+GNR e o da fadista Marisa (não fui a nenhum, o dos GNR porque não estava cá, e a da fadista Marisa porque não é my cup of tea), e anunciam-se concertos da Rosa Passos e dos Couple Coffee. Mas bastava a procissão da noite, da penitência, sobretudo o momento da chegada da imagem à Portagem, para tornar as festas da Rainha Santa numa coisa imperdível. Este ano a procissão é na próxima quinta-feira, dia 10, e eu quero ver se venço a preguiça e vou ver. Ok, não sou coimbrinha fanático e é verdade que não conheço assim tantas procissões, mas tenho para mim que não deve haver muitas outras tão emocionantes como esta nocturna da Rainha Santa Isabel. Mas a razão porque me lembrei de fazer esta entrada sobre as festas da Rainha Santa tem sobretudo a ver com o cartaz das festas. Normalmente não tem interesse nenhum, mas este ano acho o cartaz muito bonito. Todo ele: a cor, o padrão com as rosas, o rosto da santa, o manto a transformar-se em rio. Não sei quem fez, mas é o cartaz mais bonito de que me lembro. Só encontrei este exemplar na net, mas junto também uma foto que tirei a um mupi já com a ideia de a pôr aqui.

 | comments: 12 comments or Leave a comment  |
| 30.6.08 De novo em São Pedro de Moel para uns dias de praia (se o tempo ajudar) e de fare niente. O lugar parece estar a sofrer um face lifting. Muitas casas pintadas de novo (de branco) e o hotel sofreu uma remodelação profunda. Está mais moderno e mais confortável. Infelizmente perdeu um certo ar retro e de hotel de província, que lhe dava um certo charme. O ano passado por esta altura estava pouquíssima gente, este ano está cheio de turistas estrangeiros (ok, há também um casalinho gay). O bar estava, depois do jantar, cheio de excursionistas a beber e a falar muito alto, numa daquelas línguas muito ásperas e que parece que apenas podem ser faladas aos berros. Lembrei-me do bar o ano passado, onde apenas costumavam estacionar um casal com ar suspeito e clandestino, e os soldados do posto da GNR, mesmo aqui ao lado, a beber cerveja e a jogar no bilhar.
Como estou um cidadão info-excluído (o meu computador portátil está agónico, não o consigo ter ligado por períodos superiores a cinco minutos), ontem à noite, ainda em casa, tomei nota de duas entradas para o innersmile. Vinha a contar com um computador que havia aqui no hotel, na recepção, ao dispor dos clientes, mas uma das remodelações foi acabar com esse computador e substituí-lo por acessos pagos a um operador wi-fi. Por isso vou transcrever para aqui essas duas entradas de ontem.
29.6.08 Estranho. Hoje, ao longo do dia, encontrei seis pessoas do meu antigo emprego. Num domingo, tempo de praia, seis! Passo semanas sem encontrar ninguém e hoje sempre que saí de casa, em cada curva do caminho, saltava-me à frente mais uma pessoa do meu antigo emprego. Até na bomba da gasolina, no ponto de abastecimento de ar para os pneus. No supermercado foram três, tendo-me uma delas atropelado com o carrinho. Das seis consegui evitar uma, não me apetecia nada conversar com ela. Com três, incluindo a que me atropelou, foram cumprimentos de circunstância. Com as restantes duas estive um bocadinho a conversar porque, não sendo propriamente amigas, são daquelas pessoas que me dá prazer encontrar.
29.6.08 Final do europeu de futebol. Gostei que a Espanha tivesse ganho, porque foi a melhor equipa em jogo, praticou um futebol bonito, vivo, com vontade de jogar e de ganhar. Agora não percebo a cena de o pessoal ficar feliz porque a Alemanha perdeu. A começar pelos comentadores do desafio na televisão, que nem se davam ao trabalho de disfarçar que estavam a torcer pela derrota alemã. Mais não seja é um bocado mesquinho ficarmos contentes, mesmo eufóricos com a derrota dos outros. Ficarmos contentes porque a nossa equipa ganhou é natural, faz parte, não é? Ficarmos contentes porque os outros perderam, é estranho. Mas é pior: essa alegria é uma espécie de vingança por a Alemanha ter derrotado a selecção nacional nos quartos de final! Ora isso também já é ser medíocre. Eu aprendi quando era puto que devíamos querer sempre que as equipas que ganham à nossa vençam o campeonato porque isso significa que só os melhores ganham aos melhores. Agora dá um certo gozo estarmos todos exultantes com a vitória da Espanha e senti-la quase como nossa. Eu percebo que esse gozo é instrumental, mas mesmo assim que me lembre é a primeira vez que vejo os portugueses contentes por os espanhóis terem ganho, e logo no futebol, onde costumava haver uma rivalidade feroz. E lembrar que para aí há um ano o Saramago ia sendo queimado vivo por ter falado em iberismo, e por ter dito numa entrevista que o nosso destino provável era acabar por ser uma província de Espanha. | comments: 7 comments or Leave a comment  |
| Não vi a entrevista com Vale e Azevedo, não tenho nenhuma simpatia pelo personagem, mas concordo com o bastonário da Ordem dos Advogados quando diz que o ex-presidente do Benfica foi mal-tratado pela justiça portuguesa e tem todas as razões para não regressar voluntariamente e preferir resguardar-se junto de um sistema judiciário, o inglês, que aparentemente lhe dá maiores garantias. Não está em causa que tenha de ser julgado pelos crimes que cometeu e que por eles deva cumprir pena. Trata-se de que um país é tanto mais civilizado quanto mais garantias o sistema judicial oferece aos cidadãos de que têm direito a ser tratados com dignidade, mas sobretudo de que serão poupados a humilhações e vilipêndios que têm menos a ver com a realização da justiça e mais com subliminares comportamentos do foro da psicologia ou da sociologia. E a verdade é que, independentemente dos crimes que cometeu, Vale e Azevedo foi tratado com total desrespeito pelas mais elementares regras da dignidade. Não tenho aqui um rol, como é evidente, mas bastar-me-ia apenas um episódio do qual guardo memória e incómodo: a ocasião em que Vale e Azevedo foi libertado da cadeia e segundos depois, e ainda à porta do estabelecimento prisional, foi novamente preso! E, para aumentar a humilhação, tudo defronte do olhar obsceno das câmaras de televisão. É que há sempre duas maneiras de ver o problema. Se para todos os efeitos a questão aqui é a de um simples foragido à justiça, também é verdade que bastaria esse episódio humilhante para transformar Vale e Azevedo numa vítima da justiça portuguesa e para legitimar a sua recusa em regressar voluntariamente a Portugal. | comments: 10 comments or Leave a comment  |
| «I don’t know how to say good-bye because I can never leave you. We will never watch a sunset together again. We will never share the emotions together before a painting again. Someday I will join you under the palm trees of Morocco. I want to tell you my admiration, my profound respect and my love.»
São as palavras finais da comovente elegia proferida por Pierre Bergé no funeral de Yves Saint Laurent (corre na net um clip com imagens, ao qual cheguei por cortesia do João e pode ser visto neste link). Os dois foram amigos, parceiros de negócio e, durante bastante tempo, amantes. Aliás o papel de consorte oficial de Bergé foi reforçado pelo facto de ter sido ele a anunciar a morte do mais famoso costureiro da actualidade, para além, é óbvio, do próprio conteúdo do seu elogio fúnebre.
Agora há outro aspecto muito interessante e que causa uma dupla perplexidade: o facto de este discurso ter sido proferido dentro de uma igreja. No próprio enquadramento o plano de fundo da imagem é quase sempre constituído por dois sacerdotes. A primeira perplexidade, feliz, tem a ver com a própria possibilidade de o amor entre dois homens, quero dizer: o amor que também foi carnal entre dois seres do sexo masculino, poder ser assim tão livre e naturalmente enunciado no interior de uma igreja durante a celebração de um rito católico. A segunda perplexidade, menos feliz, tem a ver com a facilidade com que a igreja se esquece dos seus pruridos, ou mesmo dos seus autos de fé, quando ela própria se ajoelha perante os poderosos. E a verdade é que por cada celebridade, mesmo que seja morta, que a igreja recebe olhando discretamente para o lado no que toca aos seus vícios públicos (e apesar de o ter negado durante muito tempo, Saint Laurent acabou por admitir publicamente a sua homossexualidade), há dezenas ou centenas ou milhares de pessoas a quem a igreja fecha a porta na cara por causa dos seus vícios privados. | comments: 5 comments or Leave a comment  |
| No dia 22 de Janeiro do ano passado escrevi um post aqui no innersmile dando conta do facto só por si entusiasmante de haver na corrida para a candidatura democrata à presidência dos Estados Unidos uma mulher e um negro, pessoas de dois grupos de população habitualmente excluídos dos círculos mais elevados da política e do poder, não só na sociedade americana mas nas sociedades ocidentais em geral (já repararam que quase não há negros nos governos da Europa, mesmo em países muito multirraciais como a Inglaterra, a França ou a Holanda?) Dei conta de que esse facto acontecia 'apenas' cinquenta anos depois de o movimento pelos direitos civis se ter desencadeado quando justamente uma mulher negra, Rosa Parks, se ter recusado a dar o seu lugar no autocarro a um passageiro branco. Curiosamente o jornalista Ferreira Fernandes, numa crónica recente creio que no DN, referia a distância entre esses dois movimentos, o da recusa de uma mulher em se deslocar para a traseira do autocarro e o de um negro chegar à primeiríssima fila da política mundial.
Tenho naturalmente a esperança de que Barack Obama venha a ser o próximo Presidente dos Estados Unidos, mas devo dizer que a minha candidatura preferida era a de Hillary Clinton. Desde logo pelo facto em si de ser mulher. Gosto muito de ver a política feita pelas mulheres, acho que as mulheres, talvez pelo facto de terem sido sempre, histórica e culturalmente, excluídas dos centros formais de poder político e remetidas para a esfera do íntimo e do particular, talvez por isso, dizia, as mulheres têm em geral um certo desapego que as faz concentrar naquilo que é essencial na função política em vez de desperdiçarem energia e recursos com os próprios processos de conquista e afirmação do poder. O caso recente da Manuela Ferreira Leite é disso um bom exemplo. Outra razão porque preferia a candidatura de Hillary Clinton terá talvez a ver com o facto de eu ser muito conservador e acreditar que no exercício do poder político é fundamental conhecer bem o sistema, os seus senadores bem como os seus funcionários, e sobretudo saber exactamente quais são as regras e os limites. Não acredito no espírito de missão em política, porque acho que só vai para a política quem tem uma ambição enorme e uma grande capacidade de 'atropelar' os outros, sejam os rivais ou os inimigos, sejam os correligionários ou mesmo os eleitores. Um político tem de se sentir sempre um pouco acima dos outros não hesitando por isso em os 'destruir' quando isso é preciso. Em Portugal o melhor exemplo disto é o Mário Soares. Contra Clinton tinha sobretudo o facto de ser a mulher de um ex-presidente. Soa-me demasiado a um episódio do Dallas ou do Dinasty (alguém se lembra?). Não gosto de oligarquias, de famílias políticas; há vinte anos que na presidência dos EUA estão os Bush e os Clinton, e se Hillary ganhasse eram mais dez anos! Caramba, há monarquias que duram menos… Tal como não acredito muito no espírito de missão em política, tenho muito medo do aventureirismo, e tenho de confessar que é a isso que me soa esta candidatura de Barack Obama. A sua vitória nas primárias foi feita sobretudo com slogans, com ideias e conceitos muito esvaziados de conteúdo político, pelo menos no sentido ideológico do termo, ou seja enquanto doutrina de um determinado programa de poder. A vitória de Obama repousa muito no facto de o eleitorado ter acreditado numa proposta de mudança e na capacidade de as pessoas (ou seja o próprio eleitorado) operarem a mudança. Enunciada tal como o foi por Obama parece que estamos a falar da utopia realizável, e eu percebo, e não sou insensível ao carácter irresistível desse apelo. Mas esta candidatura de Barack Obama faz-me lembrar demasiado a de Lula da Silva, quando venceu as eleições e se tornou presidente do Brasil. Todos nos lembramos como foi, até porque foi há muito pouco tempo. Todos nos lembramos de como uma vaga de esperança varreu literalmente o Brasil, e de como o discurso de Lula, ele que era um ex-sindicalista e um homem clara e assumidamente de esquerda, se despiu e esvaziou de conteúdo ideológico precisamente para pôr no seu lugar o discurso da utopia. E todos nos lembramos de enorme balde de água gelada que o Brasil começou a sentir quase no dia imediato ao da eleição. | comments: 21 comments or Leave a comment  |
| O futebol português é um pântano infecto e é enorme a probabilidade de Pinto da Costa ser um dos responsáveis maiores por esse estado de coisas. São por isso bem vindas as medidas, tomadas dentro ou fora do país, destinadas a pôr um termo a essa podridão. Mas a decisão da UEFA de impedir o Futebol Clube do Porto de alinhar na Champions na época de 2008/2009 é tremendamente injusta. O Porto é o único clube de futebol português que merece, por direito mais do que próprio, participar nessa competição. Acho que ninguém minimamente honesto (ui, esta palavra!) pode negar que o Porto é neste momento o melhor clube português, e o único que ombreia com os uniteds, os inters e os reals. E, apesar de eu ser sportinguista, tenho a convicção de que a Champions sem o Porto perde muito interesse competitivo. O meu clube estrangeiro favorito é, desde há perto de 25 anos, o Manchester United. E em competições de clubes, ao contrário do que acontece em campeonatos de selecções, só torço pelos meus clubes favoritos, o Sporting e o Manchester. E tenho pena se não puder ver nenhum destes meus clubes a jogar e a vencer contra um dos melhores clubes do mundo. | comments: 15 comments or Leave a comment  |
![[icon]](http://l-userpic.livejournal.com/529600/280649) |
um voo cego a nada
|
|