Um concerto delicioso, ontem, o da Ámélia Muge no Teatro Aveirense. Acompanhada em palco por Filipe Raposo (excelente pianista e autor dos arranjos, ou pelo menos de alguns deles) e pela violoncelista Catarina Anacleto, e ainda pelos samplers manuseados pelo incontornável José Martins, o concerto surgiu no seguimento de um outro que a Améia Muge fez, creio que no CCB, há uns bons meses atrás, sob o signo das 202 canções que tem registadas na SPA, como autora.
O concerto serve assim para passar em revista alguns temas antigos da cantora, e também para mostrar algum do trabalho que Amélia Muge tem feito para outros intérpretes, sobretudo da área do fado. Confesso que para mim foi uma oportunidade maravilhosa de ouvir alguns dos meus temas preferidos da Amélia, um deles, se bem me lembro, que nunca a tinha ouvido antes cantar ao vivo, o Colchão às Riscas.
A Amélia Muge tem três qualidades que lhe dão um carácter extraordinário no panorama da música popular portuguesa, e que nunca deixam de marcar os seus concertos tanto quanto o seu trabalho em disco. Primeiro é uma compositora inspiradíssima (como o provam os trabalhos que tem feito para outros intérpretes) e com um domínio perfeito dos textos, quer dos que ela própria escreve quer dos que escolhe para as suas composições. Depois, é uma criadora que gosta de arriscar e de experimentar, que trabalha sobre ideias e não sobre fórmulas. Finalmente é uma excelente intérprete, que procura sempre encontrar o tom e o fraseado adequados à melodia e às palavras das canções. A estas qualidades a Amélia Muge alia ainda um conhecimento profundo da música popular, da sua história e dos seus grandes criadores, e que ela incorpora nas suas canções e nos seus concertos, muito mais como inspiração do que como influência.
Claro que a sua música não é própriamente fácil, e exige do ouvinte ou do espectador do concerto, atenção, entrega e disponibilidade. A essa falta de facilitismo, a Amélia junta uma opção, assumida, pelas margens, que regateiam em popularidade o que transbordam em liberdade criativa. Já tive a experiência traumatizante de arrastar para concertos da Amélia Muge amigos que pura e simplesmente detestaram. Felizmente até isso ontem correu bem, e os amigos com que fui ao concerto, e que não a conheciam de todo, ficaram rendidos à 'múgica' da Amélia.
Houve um aspecto no concerto de ontem que dá bem a medida da maneira de estar na música da Amélia. Creio que na véspera do concerto, a Amélia Muge fez um workshop onde participaram membros de dois grupos corais da região. A Amélia decidiu incorporar essa experiência no concerto, solicitando, em dois momentos, ao público presente mas sobretudo às pessoas que participaram no workshop, a sua intervenção directamente da plateia. Note-se que não se tratava tanto de pôr o público a acompanhar as canções, como é habitual, mas usar o trabalho feito para dar alguma coisa de diferente às canções. É esta capacidade de experimentar, de expandir, de criar, que tornam a Amélia Muge num dos nomes de primeira importância da música popular portuguesa.
O festival de jazz Dixieland, cuja VI edição termina hoje em Cantanhede, tem características engraçadas, a principal delas é ser um festival verdadeiramente popular, o que é notável tendo em atenção que o jazz não é propriamente a mais fácil das músicas. É certo que o dixieland é um género divertido e acessível, mas mesmo assim é extraordinário ver a música jazz a chegar e a misturar-se com as pessoas: nas aldeias ao redor de Cantanhede onde se organizam concertos, na verdadeira dimensão de rua que o festival comporta, nas noites onde há música junto às barracas de comes & bebes, no facto de a maior parte dos eventos serem gratuitos, na adesão das pessoas. E, por fim, nos concertos na tenda Dixieland, cheia de um público animado e muito barulhento.
E tudo sem correr o risco de o carácter popular da festa prejudicar a componente musical e jazzistica do evento. Ontem os três concertos da tenda foram todos eles muito bons. Começou com a banda portuguesa (é incrível a quantidade de músicos que se dedicam ao dixieland) Astedixie, da Lousã, que pratica um jazz leve, divertido, descomprometido, e muito animado.
A seguir actuaram Los Krokodillos, uma banda sediada em Barcelona e liderada por um russo. Foram, na minha opinião, a melhor banda da noite, um naipe de músicos fenomenal, com solos muito ricos e entusiasmantes, um repertório fácil ainda que não propriamente óbvio, mas nunca facilitado na execução.
Finalmente as Alice in Dixieland, uma banda holandesa inteiramente feminina, que tiveram como special guest a Jacinta. Um verdadeiro mimo para os espectadores, e o milagre sempre renovado de ver músicos que se conheceram poucas horas antes a conseguirem um nível de entrosamento e de cumplicidade notáveis. As AiD diversificam a sua prestação jazzistica, fogem ao dixieland e aproximam-se dos combos e das big bands do jazz mais clássico, que completam com harmonias vocais muito bonitas, a lembrar as bandas dos anos 40 e 50, tipo Andrew Sisters. Não sei se por necessidade de acertar repertório com a Jacinta, ouviu-se muita Bessie Smith, o que é sempre uma coisa extraordinária.
No fim dos concertos ainda ia haver uma jam session, mas confesso que já era tão tarde que tive de recolher. Esta coisa de ser um assalariado com horário fixo arruinou-me completamente a capacidade de ficar até muito tarde sem cair numa soneira praticamente comatosa.
Fui ontem à noite ao Museu Machado de Castro para ouvir um concerto a solo de Joe McPhee, integrado no festival Jazz ao Centro. Casa cheia, o que nem sempre é bom: pareceu-me que a lotação da sala foi largamente ultrapassada, o ambiente estava abafado e muito quente, e além disso, como eu sou claustrofóbico, estava um bocado nervoso com a quantidade de gente que tinha de passar por uma única porta, em caso de emergência. Apesar do sítio ser muito bom, aquela sala não me parece muito indicada para acontecimentos que levem mais do que, sei lá, umas 30, 50 pessoas no máximo.
Quanto ao concerto, foi muito bom, apesar de não ser propriamente fácil. Joe McPhee, do alto dos seus quase 70 experientes anos, pratica um free jazz que procura os limites da música, do som, e do seu instrumento. Este concerto de certa forma pôr em evidência o método: procurar, ou melhor convocar sons e trazê-los para a música, ou se calhar, melhor ainda, procurar a música que existe fora da música e trazê-la para aquilo a que chamamos música. Houve alturas (melhor seria ouve alturas) em que McPhee com o seu instrumento parecia um xamã, invocando o mundo, através dos seus sons, para com eles construir uma espécie de êxtase. A próximidade com o músico, a espontaneidade dos temas, até a fisicalidade do músico, proporcionaram ao espectador esse raro milagre de poder ver a arte em construção, despojada da sacralidade sempre distanciadora do palco. Uma óptima noite.
A música brasileira, aquilo a que geralmente se chama música popular brasileira, é sem sombra de dúvida uma das maiores expressões artísticas do nosso tempo. E ontem, no palco do CAE da Figueira da Foz isso ficou mais uma vez demonstrado no excelente concerto dado pela dupla Simone e Zélia Duncan. Foi dos melhores concertos a que assisti, uma daquelas ocasiões comoventes, especiais, mágicas, que não queremos que acabe jamais.
Três notinhas. A primeira para dizer que o reportório escolhido (registado em cd e em dvd, este em versão longa) é muito bom, e que há um lote de canções deste concerto, e estou a falar de temas que eu não conhecia, absolutamente fabuloso. Por exemplo, as canções A Companheira, de Luiz Tatit, e Na Próxima Encarnação, de Itamar Assumpção.
A outra nota vai para este encontro de duas vozes distintas, nos timbres, mas também nos estilos, nas cores, nas emoções, mas que se reúnem de forma perfeita, quer em termos harmónicos quer nos diálogos que vão estabelecendo uma com a outra. Nunca são duas cantoras que se juntam, é sempre uma dupla de vozes a funcionarem em harmonia perfeita.
Finalmente a postura em palco, o modo generoso como se dão, não tanto ao público (mas também) mas sobretudo ao próprio espectáculo, à noção de prestação e performance que é a essência do concerto. Convenhamos, a Simone é uma rainha, um nome maior do que si própria, mas que em palco está sempre ao serviço. Não é dizer que ela é simpática, que não tem tiques de arrogância, nada disso; é dizer que o cantor, que aquele que se entrega ali no palco, vem sempre antes e muito à frente da pessoa que a que dá corpo e voz. E isto é uma coisa que vemos acontecer com a generalidade dos músicos brasileiros, mesmo com aqueles que são monstros sagrados e que por isso podiam ter uma pose mais majestática.
Como disse, um dos trunfos desde concerto é a excelência das canções. Uma delas, precisamente a que dá o nome ao show, é AMIGO É CASA, da autoria de Capiba, a música, e Hermínio Bello de Carvalho, a letra. Cantada em encore a encerrar o concerto (que termina como começa, com as cantoras a cantar fora de cena), e apesar de não aparecer no alinhamento nem do cd nem do dvd, tem esta letra lindíssima (Saint, quem é o Hermínio Bello de Carvalho, é poeta?):
«Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre mas é preciso ter muito tijolo e terra preparar reboco, construir tramelas usar a sapiência de um João-de-barro que constrói com arte a sua residência há que o alicerce seja muito resistente que às chuvas e aos ventos possa então a proteger.
E há que fincar muito jequitibá e vigas de jatobá e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar que os cabelos brancos vão surgindo que nem mato na roceira que mal dá pra capinar e há que ver os pés de manacá cheios de sabiás sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis choro de imaginar!
Pra festa da cumieira não faltem os violões! Muito milho ardendo na fogueira e quentão farto em gengibre aquecendo os corações.
A casa é amizade construída aos poucos e que a gente quer com beira e tribeira com gelosia feita de matéria rara e altas platibandas, com portão bem largo que é pra se entrar sorrindo nas horas incertas sem fazer alarde, sem causar transtorno amigo que é amigo quando quer estar presente faz-se quase transparente sem deixar-se perceber amigo é pra ficar.
Se chegar, se achegar, se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha e oferece lugar pra dormir e comer amigo que é amigo não puxa tapete oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem quando não tem, finge que tem, faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.»
Gostei muito de ter ido ontem à noite à Fábrica Braço de Prata, em Lisboa. Ok, o facto de ter uma livraria enorme é logo mais de meia razão para eu passar um tempo divertido, tanto mais que é a sucessora de duas livrarias no Bairro Alto, que eu frequentei muito, a Ler Devagar, onde comprei muitos livros de fundo de catálogo, e a Eterno Retorno, onde não comprava livros (a filosofia nunca foi o meu forte) mas ia tomar chá nuns belos cadeirões de verga que lá havia. Outros tempos, em que eu era frequentador, não propriamente habitué, mas de qualquer maneira com alguma assiduidade, dessa zona de Lisboa que vai do Principe Real (ou mesmo de mais cá acima, do Rato) até ao Chiado. Tenho saudades, é claro, desse tempo e dos meus companheiros da altura.
Para além dos livros, a Fábrica de Braço de Prata tem sempre muitos concertos a acontecer em simultâneo. Ontem à noite, para além das espreitadelas, segui com atenção um concerto da Marta Plantier e do Luís Barrigas, num jazz muito free. Não conhecia o pianista Luís Barrigas e gostei muito, fiquei com vontade de conhecer mais e melhor.
Mas, para mim pelo menos, o supremo da noite foi mesmo uma sessão de fados com dois dos irmãos Moutinho, o Hélder (o anfitrião destas noites de Sábado) e o Pedro, e mais uma fadista que não sei quem é. É muito emocionante ouvir assim o fado, em ambiente intimista, sem amplificação, e tive pena de não ter ficado para a segunda parte. Mas fiquei com muita vontade de regressar, aos fados e à Fábrica, e à livraria.
Ah, e ainda por cima uma noite em conta. Para além dos cinco euros da entrada, paguei mais três por um livro, e cinco por um gin tonic e por um chá verde (à atenção do barman: menti-te, só o chá é que era para mim).
Concerto do Rodrigo Leão & Cinema Ensemble, esta noite no TAGV. Começo a perder a conta ao número de vezes que já vi o RL ao vivo, e é sempre uma ocasião agradável. Fui espreitar as entradas antigas do innersmile onde falo sobre os outros concertos e a verdade é que o que escrevi nessas ocasiões poderia repeti-lo agora. Ou seja, não há grandes novidades num concerto do RL, a coisa anda geralmente sempre à volta do mesmo, mas não se consegue deixar de ir, tal o poder de sedução da sua música, os arranjos sempre muito transversais, a ensaiar combinações sóbrias e de bom gosto entre a música electrónica, a música de câmara e a world music. Nos piores momentos, ou seja naqueles um bocadinho mais aborrecidos, podemos sempre fechar os olhos e vogar atrás de um sonho qualquer, embalados pelo poder da música de convocar imagens e ambientes. Mas mesmo nesses o proposta musical do RL é sempre muito madura, muito coerente, muito trabalhada. E sobretudo muito bonita.
Teatro: - Os Melhores Sketches dos Monty Python, enc. de António Feio (Adaptação de Nuno Markl), CAE Figueira da Foz - O Saque, de Joe Orton, enc. Ricardo Pais, Teatro Carlos Alberto - Cabaret, enc. Diogo Infante, Teatro Maria Matos, Lisboa - Otello, de Giuseppe Verdi, StaatsOpera, Viena
Dança: - Paraíso, Companhia Olga Roriz, coreografia Olga Roriz, Teatro Aveirense, Aveiro
Concertos: - Mayra Andrade, Pav. Multiusos Coimbra - Dead Combo+Gary Lucas, TAGV Coimbra - Jacinta, Convexo, TAGV Coimbra - Always Drinking Marching Band+Maria João, Recinto de Feiras Cantanhede - Caetano Veloso, Praça Marquês de Pombal, Aveiro - Madonna, Parque da Bela Vista, Lisboa - Ney Matogrosso, CAE Figueira da Foz - Erwin Helfner e Skinny Williams, Jazzland, Viena - Maria João e Mário Laginha, TAGV, Coimbra
Exposições: - Michael Borremans, CAV Coimbra - José Saramago, A Consistência dos Sonhos, Palácio da Ajuda, Lisboa - Le Corbusier, A Arte da Arquitectura, Museu Berardo (CCB), Lisboa - Western Motel, Edward Hopper and Contemporary Art, Kunsthalle, Viena - Van Gogh, Museu Albertina, Viena - Peter Kogler, MuMoK, Viena
Os destaques vão para o reencontro com o teatro do Joe Orton, para a versão do Cabaret pelo Diogo Infante, para os concertos do Caetano Veloso e do Ney Matogrosso, e para a exposição Western Motel, que vi em Viena.
Dia da partida. Já saímos. Depois de um café num sítio enorme chamado Mocca Lounge, fomos ao Naschmarkt: comprei uma tarte Lindz, biscoitos, e pão para o almoço. Um pão escuro, cheio de sementes, delicioso. Vou fazer a mala, e mais logo vamos para o aeroporto apanhar o avião de regresso.
Ontem jantámos numa cervejaria ao pé do Volkstheatre, chamada 7 Stern Brau (falta o trema no U), e depois fomos para uma zona junto ao canal, no Franz Josefs Kai a que chamam 'o triângulo das bermudas', à procura de um clube de jazz. Chama-se Jazzland, é o hot club de Viena, e fica num esconso atrás de um prédio, ao fundo de umas escadas com um ar um bocado manhoso, numa cave minúscula de tecto abaulado e paredes de pedra. Entrada a €18 para ver uma dupla de músicos de Chicago, Erwin Helfner e Skinny Williams, em piano e saxofone respectivamente, a tocar blues, jazz e boogie-woogie. Três sets, das nove até depois da meia-noite, perante uma audiência entusiasmada. Entre os sets o Skinny, um matulão como o nome deixa adivinhar, andava pelas mesas a conversar com toda a gente. Comprei um cd, para o Skinny autografar, ele perguntou-me como é que eu me chamava, para fazer o autógrafo personalizado, e perguntou-se o que é que eu toco: 'What do you play, Miguel?'. Respondi-lhe que 'I just play low'.
Para se ver como a noite em Viena acaba cedo, apanhámos o penúltimo metro, à meia-noite e meia.
Foi excelente, como seria de esperar, o concerto de terça à noite (dia 25), no Gil Vicente, de apresentação de Chocolate, o cd que marca o regresso da dupla Maria João e Mário Laginha aos discos e aos palcos, depois de uns anos (três, quatro?) em que cada um deles andou a explorar outros territórios. O pretexto foi comemorar os 25 anos de uma das colaborações mais profícuas da música popular portuguesa, nomeadamente do jazz nacional.
Acompanharam a dupla no concerto o extraordinário saxofonista Julian Arguelles e dois dos mais seguros músicos portugueses de jazz, o Alexandre Frazão e o Bernardo Moreira. Com apenas duas excepções, dois clássicos das apresentações ao vivo da dupla, a concerto apresentou as canções, standards e originais, do disco, apesar de ter baralhado o alinhamento. Por exemplo, When You Wish Upon a Star (a clássica canção do Grilo Falante do filme Pinóquio, da Walt Disney) que no cd encerra o alinhamento, foi o tema escolhido para abertura do concerto.
Foi, como comecei por dizer, um concerto excelente, com os músicos em grande forma e com visível satisfação por estarem de novo a tocar juntos (sobretudo por parte da Maria João). A única nota dissonante foi mesmo a temperatura gelada do Gil Vicente, que nem os calorosos aplausos da plateia entusiasmada conseguiram elevar.
Concerto de Ney Matogrosso no CAE da Figueira da Foz, a encerrar uma digressão nacional do seu último show, Inclassificáveis. Acho que foi o melhor concerto de Ney que eu vi, e com este já foram quatro (ok, e descontando a emoção de o ter visto na catedral do Canecão). Claro que o mais óbvio do espectáculo é o regresso de Ney à extravagância visual, às plumas e aos brilhantes. Mas mesmo esse registo, é preciso dizer, nunca é gratuíto em Ney Matogrosso, nunca deriva de qualquer pulsão exibicionista; é antes uma postura cénica, uma maneira de comunicar com o público, uma celebração do excesso, artístico, a que não falta uma ponta de provocação.
Mas a qualidade deste show ultrapassa em muito o aspecto cénico, e prende-se, na minha opinião, sobretudo com a capacidade (e mesmo o génio) de Ney em escolher repertório, em conseguir construir um espectáculo muito coeso e coerente sempre com grandes canções (ou pelo menos com canções que se prestam a que ele lhes dê grandeza) que se sucedem quase como as páginas de um livro. Muitas canções inéditas, vários temas de Cazuza (logo a abrir, 'O Tempo Não Pára', uma canção fabulosa, e a fechar 'Pro Dia Nascer Feliz', depois de um falso final com 'Divino Maravilhoso', de Caetano Veloso). A direcção musical a cabo de Emílio Carreira, um ex-companheiro dos Secos & Molhados, à frente de uma banda muito jovem, a dar substância à intenção de fazer um concerto mais perto da pop e do rock (excelente a guitarra eléctrica de Júnior Meirelles).
Mas, como sempre, o que mais me fascina nos shows do Ney Matogrosso, mais do que o seu timbre vocal ou mesmo que a sua criatividade interpretativa, é a sua capacidade de comunicar com o público, quase como, e passe o lugar-comum, se se dirigisse a cada uma das pessoas presentes no auditório. Num cantor cuja tímidez não só é conhecida como é notória (não tanto 'apesar' como 'por causa' do seu excesso cénico), que não troca com o público praticamente palavra (nem sequer as de circunstância), Ney Matogrosso nunca faz dos seus concertos exercícios de exibição de ego ou mesmo de uma certa sacralização do ao vivo, como acontece com tantos artistas, mesmo entre os melhores. Os seus conscertos são sempre verdadeiras prestações, em que Ney se entrega, e como que parece canalizar energias no sentido de encantar cada um de nós. A vantagem de ter ficado sentado tão perto do palco permitiu-me perceber que essa capacidade encantatória de Ney Matogrosso não lhe vem da voz, como seria de esperar, mas dos olhos, da intensidade com que o seu olhar se dirige sempre para auditório, para o lugar que é o nosso.
Notes to self: 1 - não preciso de tornar a ver outro concerto da Madonna 2 - não volto a ir a um concerto no parque da Bela Vista. Ever. Jamais. 3 - vou evitar, tanto quanto possível, ir a concertos promovidos pela empresa que organizou este.
Acho que foi mesmo, em termos de organização, o pior concerto a que fui. A tal ponto que ponderei muitas vezes, e seriamente, virar costas e pirar-me. E, pior, nunca deixei de me sentir um tolo por estar ali, a sofrer e a aguentar com a falta de condições mínimas para acolher, de forma segura e minimamente confortável, aquela multidão imensa. Acho que a ganância tem limites. Mais não seja, o da decência.
Quanto ao concerto em si, pareceu-me (que até o som, com tanta ventania, chegava em deficientes condições lá ao fundo, onde eu estava), do ponto de vista estritamente musical e de show business, melhor do que o que vi, aqui há atrasado (ok, em Setembro de 2004), no Pavilhão Atlântico. Pode não se gostar de tudo o que a Madonna faz (e eu gosto de quase tudo) mas a verdade é que tudo o que ela faz, faz bem feito, com um nível de qualidade fora de vulgar, sem falhas, já não digo em termos de preparação, porque seriam inadmissíveis ao nível em que ela movimenta em termos de produção, mas sobretudo em termos de opções. Tudo bate certo, tudo faz sentido, uma vez que entra no sistema de produção da máquina-madonna. E o que é invulgar é que seja ela própria, herself, a tomar sempre conta das operações, a ter controlo artistico de tudo, há vinte e tal anos.
Que delícia o concerto de Caetano Veloso ontem na Praça Marquês de Pombal, em Aveiro. A noite estava no ponto adequado, a praça rectangular e bonita, cheia mas sem abarrotar, o som competente. Caetano sozinho em palco com o seu violão, durante perto de duas horas, a desfiar canções e tesouros. Descontraído e bem disposto, a ceder naquelas canções incontornáveis para o público, e a entreter-se com as mais recentes, com uma inédita, e com as canções dos outros, das mais esperadas às mais surpreendentes. Por exemplo, a cantar La Mer, a primeira vez que o ouço a cantar em francês. Caetano abrandou um pouco o ritmo de cançoneta de Charles Trenet, e deu-lhe mais lirismo e melancolia. No fim da canção, disse que gostaria de a cantar de novo e repetiu-a. Noutro momento, cantou uma canção dedicada à Baía e no fim esclareceu que a canção não era da autoria dele mas de Ary Barroso e, para ilustrar a grandeza do compositor tocou e cantou pequeninos trechos dos clássicos absolutos Brasil e Baixa do Sapateiro. Um momento inesperado foi quando, já depois de cantar Menino do Rio, Caetano afirmou que tinha gostado muito da palavra ‘ria’, por ser feminino, e que a ideia de fazer uma canção sobre ‘a menina da ria’ era irrecusável e ficava desde já prometida. E o inesperado da coisa é que foi tão espontâneo que fiquei convencido que a ideia lhe tinha passado naquele mesmo momento pela cabeça. Cantou algumas das minhas canções preferidas, como Sampa, mas para mim o momento mais alto do concerto foi a interpretação de Terra, que é uma canção fabulosa, que Caetano cantou de forma extremamente doce, mesmo quando sacava precursões do violão, e com a ajuda do público no refrão. Outro momento particularmente bonito foi a versão do fado Confesso, que Caetano começa em ritmo de samba e termina em tom de fado, e que sendo um dos meus fados preferidos, na voz e na interpretação de Caetano fica ainda mais bonito e emotivo. Apenas no encore surgiram duas canções de Cê, e mesmo assim em versão abreviada, mas que soaram muito bem na transposição para o violão. Em suma, e apesar de eu já ter assistido incontáveis vezes a shows do Caetano, este foi mesmo muito especial e seguramente inesquecível.
Ontem à noite fui a Cantanhede, ao festival de Dixieland, sobretudo com o fito de assistir a um concerto de uma banda de dixie espanhola, os Always Drinking Marching Band com a special guest star Maria João. Podia ter sido um excelente concerto se não fosse o som a tenda ser horripilante e o pessoal não para um segundinho sequer de falar. Aliás o único momento em que se calaram foi no fim do concerto para pedir um encore. Mal os músicos regressaram ao palco voltou tudo às conversas habituais. Apesar de tudo, é sempre muito interessante assistir a este tipo de reuniões artísticas, porque se percebe melhor a matéria de que é feito o acto de produzir música ao vivo (João e os músicos da banda conheceram-se ontem mesmo durante os ensaios), as fórmulas a que os músicos recorrem para se sentirem seguros, o modo como criam espaços de inter-relação e como, concerteza com muito saber, talento e experiência, conseguem fazer a música crescer e tornar-se uma festa e uma celebração. E é nisto que o jazz é a forma de fazer música ao vivo por excelência. Para além de estar ravissante como sempre, foi uma (rara) oportunidade de ver a Maria João cantar standards populares como My Baby Just Cares for Me, Mack the Knife ou They Can’t Take That Away From Me.
E foi ainda oportunidade de ouvir e ver a Maria João cantar uma canção lindíssima composta pelo Charles Chaplin, que já teve dezenas de versões, sendo as mais conhecidas as de Nat King Cole (era um dos seus clássicos) ou da gay diva Barbra Streisand (porque é que La Streisand é tão pouco conhecida e apreciada em Portugal, nomeadamente pela rapaziada mais alegre?) À procura no youtube de versões da canção descobri que ela também teve uma versão do Michael Jackson, incluída no seu álbum HIStory, de 1995, e da qual aqui fica um clip para fazer sorrir.
«Smile, though your heart is aching Smile, even though it's breaking When there are clouds in the sky You'll get by...
If you smile With your fear and sorrow Smile and maybe tomorrow You'll find that life is still worthwhile If you just...
Light up your face with gladness Hide every trace of sadness Although a tear may be ever so near That's the time you must keep on trying Smile, what's the use of crying You'll find that life is still worthwhile If you just...
Smile, though your heart is aching Smile, even though it's breaking When there are clouds in the sky You'll get by...
If you smile Through your fear and sorrow Smile and maybe tomorrow You'll find that life is still worthwhile If you just smile...
That's the time you must keep on trying Smile, what's the use of crying You'll find that life is still worthwhile If you just smile»
(A música, como referi, é de Charlie Chaplin e foi feita para o filme Modern Times; a letra é da dupla John Turner e Geoffrey Parsons)
Para além do concerto de Maria João assisiti igualmente a cerca de meia-hora de concerto de outra das bandas da noite, os portugueses Desbundixie, que achei excelente, com um som perfeito e aquela riqueza de melodias e variações das marchas da música dixie. Infelizmente às tantas a luz da sala foi abaixo e eu reitei-me para a rullotte dos churros.
Concerto da Jacinta ontem no Gil Vicente, a apresentar, em tour, o disco Convexo (A música de Zeca Afonso). O concerto segue o alinhamento do disco, e o formato é o mesmo, em trio, com Rui Caetano no piano e Bruno Pedroso na bateria. Comprei o cd aqui há uns meses, e tinha achado o projecto interessante, ainda que não absolutamente distintivo em termos de releitura da música de José Afonso. Mas Jacinta é uma excelente cantora, e o formato de trio, com piano e bateria é estimulante. O concerto de certa forma confirmou essas impressões do cd, nomeadamente quanto à leitura um pouco lisa das canções do JA. Claro que é sempre preferível manter as versões o mais perto possível do original a fazer variações muito elaboradas e totalmente desadequadas, algumas mesmo estapafúrdias (adoro esta palavra). Mas há outros projectos, como por exemplo os Coupplecoffe que já provaram que é possível fazer leituras originais das canções do Zeca. No entanto, nada disso faz perigar o jazz de Jacinta, a sua voz quente envolvente e o modo seguro como ela domina a melodia, o que torna o seu scat sempre muito eficiente, nada daqueles estribilhos exibicionistas que tantas vezes vemos. Os músicos excelentes, com aproximações muito discretas aos respectivos instrumentos, principalmente o piano de Rui Caetano. Tal como no disco, o que mais me agradou (para além da belíssima voz da cantora, é óbvio) foi o funcionamento do trio, a forma como foi aproveitada, e desenvolvida, a interacção entre os três elementos. Em suma, foi um belo concerto, que nos devolveu um prazer muito musical de escutar algumas das mais belas canções do José Afonso.
Mais uma edição do festival Coimbra em Blues trouxe ontem à noite ao palco do Gil Vicente os Dead Combo juntamente com o guitarrista Gary Lucas. Para quem não sabe (como eu não sabia), Lucas é um consagrado guitarrista, que tocou, e estabeleceu parcerias artísticas, com lendas como Captain Beefheart ou Jeff Buckley (é co-autor de Grace). O concerto de ontem resultou de um projecto criado especificamente no âmbito do festival e que passou por uma residência do músico americano em Coimbra. O concerto foi aberto pelos Dead Combo, com o seu blues muito ambiental e incorporando frases e referências latinas, particularmente lusas (o fado com que abriram foi um exemplo). Depois juntou-se-lhes o Gary Lucas para uma fase mais experimental, a seguir tivemos Lucas sozinho em palco, a contar histórias e a recriar, numa eloquente steel guitar, alguns dos seus trabalhos de compositor, e o segmento final do concerto novamente com os Dead Combo, com recriações de temas de Gary Lucas e pelo menos um composição saída da reunião dos três músicos. Foi um concerto muito bonito, com muita alma e um visível entusiasmo por parte dos músicos. Pena algumas deficiências de som, que, mesmo assim, não chegaram a retirar beleza à música carregada de evocações, nem impediram o deliciado gozo de ouvir um guitarrista virtuosíssimo.
Na sexta-feira concerto da Mayra Andrade no pavilhão multi-usos. Conhecia muito pouco na música da cantora cabo-verdiana, só aquilo que ia ouvindo por acaso. Tem uma voz potentíssima, quente e aveludada, mas que pode ganhar uma rugosidade cheia de emoção. Apesar do concerto ser quase todo cantado em crioulo, e de nunca perder a referência cabo-verdiana, a música de Mayra Andrade abre-se ao mundo, com nítidas influências da música brasileira (nas primeiras canções do concerto se não fosse a língua eu diria que se tratava de canções da MPB) ou do jazz, nomeadamente no recurso ao scat. Para além da música, Mayra Andrade é simpática, comunicativa, dança, dialoga, faz festa. A resposta calorosa do público, cortesia, digo eu, dos muitos cabo-verdianos presentes, ajudou à festa.
No Sábado fui ao Porto. À tarde fui às inaugurações colectivas das galerias de arte contemporânea da Rua Miguel Bombarda. Que animação. Acho curioso e interessante pretender fazer-se uma zona trendy, com galerias de arte e lojas ‘alternativas’, sobretudo porque é evidente uma clara adesão das pessoas. Não consegui todavia perceber se todo o hype à volta da rua é mesmo genuíno, ou se não haverá ali um toquezinho de artifício. De qualquer forma acho que uns restaurantes e uns bares ajudavam a dar corpo à coisa, pois a partir das oito da noite fica tudo deserto e perto da meia-noite, a hora a que voltei à rua para ir buscar o carro, aquilo já tinha o ar de que um tipo podia perfeitamente ser assaltado por uns agarraditos. Quanto às exposições, muitas e para todos os gostos. As que mais gostei foram: Jorge Martins, Sebastien Le Gal, Carlos Roque, e a instalação feérica de Pascal Nordmann.
Não pode ficar por registar o gozo de vermos o nome de um amigo a assinar um trabalho exposto numa parede. Foi isso que senti, mais um toquezinho de orgulho, quando vi, numa exposição do JUP e da revista águasfurtadas uma foto do Bruno Espadana.
À noite fui ao Teatro Carlos Alberto, onde não entrava há muitos anos, ainda antes da radical remodelação que deixou o teatro completamente irreconhecível. Está muito bonito, com óptimas instalações, mas infelizmente o espaço entre filas é diminuto, o que torna a experiência de ir ao teatro numa coisa muito incómoda. Que pena. A peça foi O Saque, de Joe Orton, com encenação de Ricardo Pais. Gostei muito, é claro, ou não fosse fã do Orton e do seu teatro. Ainda que os costumes já não sejam aquilo que eram na Inglaterra dos anos 60, a verdade é que o texto de Orton mantém um inegável sabor de subversão e transgressão. Sexo, morte e religião num tom de farsa que põe a ridículo as nossas piores hipocrisias. Ainda que discutível, achei o tom que Ricardo Pais deu à encenação muito adequado, porque mantém uma certa referência realista, essencial para a farsa resultar, mas que a estiliza para ser um exercício um pouco pop. Aproveitei a embalagem e hoje reli o texto da peça. Li em inglês, mas fiquei com vontade de ler a tradução que a Luísa Costa Gomes fez, que me pareceu óptima, pelo menos ao ouvido.
Entretanto para terminar, fui ver o No Country For Old Men, o oscarizado filme dos irmãos Coen. O cinema lacónico e despido dos Coen, que recria com despojamento os traços essenciais dos vários géneros, serve muito bem esta história em que a ausência de sentido parece conduzir o filme para um melancólico exercício sobre o absurdo de um mundo dominado pela violência. Não sei se percebo bem a recepção crítica a este filme dos Coen, que o aclama como uma espécie de regresso às origens. Claro que numa carreira que se abeira das duas dezenas de títulos, há filmes melhores e filmes piores, mas há no cinema dos irmãos Coen uma coerência de intenções, e até de registo, que nos leva a ver cada filme quase como uma variação de um tema, ou um novo capítulo de uma mesma obra.
Quanto ao balanço de espectáculos e concertos, foi um ano desequilibrado: não vi quase nenhum teatro, muito pouca dança, mas em compensação vi alguns bons concertos. Mas uma boa maneira de começar este inventário, até para que sirva de lição no futuro, é registar os dois concertos que não vi e que me torci todo por não ter visto, os da Patti Smith e de Rufus Wainright. Ok não ajudou serem em Lisboa, e pelo menos o do Rufus ser a meio da semana, mas mesmo assim devia-me ter esforçado um bocadinho mais para ir ver. No cookies for me, portanto.
Concertos:
- Amélia Muge, Culturgest - Chilgildrin, TAGV - Vitorino, TAGV - Alabama 3, TAGV - George Michael, Estádio de Coimbra - Andrew Bird, TAGV - Carlos Bica e Azul, TAGV - Eugénia Melo e Castro, TAGV - Maria Bethânia, CAE Figueira - Orquestra Gulbenkian, dir, Joana Carneiro, com António Rosado, TAGV - Police, Estádio do Jamor - Caetano Veloso, no Coliseu em Lisboa e no Pav. Multiusos em Coimbra - Mark Kozelek, Santiago Alquimista - Jane Birkin, Teatro Aveirense - Tcheka, Teatro Aveirense - Gonzales, Teatro Aveirense - Vinício Capossela, Teatro Aveirense
Dança:
- Daqui em Diante, de Olga Roriz, TAGV - Programa Primavera, CNB (coreografias de William Forsythe, Mauro Bigonzetti, Gagik Ismailian e Olga Roriz), Teatro Camões - Malgré Tout, Nous Étions Là, de Paulo Ribeiro, TAGV - Masculine, de Paulo Ribeiro, TNSJ
Teatro:
- La Traviata, pela Ópera Estatal de Ektarinburg, TAGV - Macbeth, encenação de Bruno Bravo, TAGV - Música no Coração, encenação de Filipe La Féria, Teatro Politeama.
Os quatro espectáculos de dança foram muito bons, mas o destaque tem de ir para as duas coreografias de Paulo Ribeiro, sobretudo para Malgré Tout, Nous Étions Là, um dos mais bonitos e comoventes espectáculos que eu vi. Alguns concertos absolutamente inesquecíveis, dos quais destaco os de Caetano Veloso (cada concerto de Caetano é sempre um reencontro e uma descoberta) e Maria Bethânia (uma celebração mística e uma fonte de energia), o da Amélia Muge (que é a melhor criadora de música popular portuguesa e isso percebe-se ainda melhor ao vivo, e o da Jane Birkin que, mais do que um concerto, foi um verdadeiro affaire romântico e inteligente.
Não há milagres que se repitam, e por isso a segunda noite, e última, de concertos do Festival Sons em Trânsito a que assisti não foi tão especial como a anterior. Também prejudicou a função o facto de eu ter ficado numa das últimas filas do balcão, incrivelmente longe do palco, em vez da intimidade da segunda fila na véspera. Mesmo assim dois excelentes concertos.
O primeiro muito inesperado, com Gonzales que, tanto quanto julgo saber, fez nome na área da música electrónica de dança. Em Aveiro, o canadiano apresentou-se a solo ao piano, vestindo uma bata de laboratório e luvas brancas: a ideia era tratar a música como uma experiência científica. Foi, como se calcula, um concerto muito marcado pelo humor, em que Gonzales se revelou um virtuoso do piano, demonstrando e desconstruindo algumas regras da música, especialmente da música para as massas, a música popular.
O segundo concerto da noite foi de Vinicio Capossela, em relação ao qual eu tinha grandes expectativas, que se confirmaram todas. Apresentando um espectáculo total, com um intenso sentido do teatral, grande preponderância de elementos cénicos (especialmente chapéus, não houve uma canção em que VC não usasse um chapéu, quase todos diferentes), e criando um ambiente entre o intimista com tons góticos e o festivo. O resultado é uma performance muito forte, um espectáculo denso e profundo, e verdadeiramente inesquecível. Para além da qualidade da prestação, o que mais me impressionou foi o compromisso de Capossela com a própria função do concerto, e claro com o público. Esse compromisso revelou-se, por exemplo, no esforço de comunicação, que passou não só pelo facto de Capossela se ter dirigido ao público sempre em português, mas também no de ter traduzido os textos das projecções e ter feito distribuir um guião com as traduções dos poemas das canções. O final do concerto foi verdadeiramente apoteótico, em clima de festa, com todo o público de pé a dançar e Vinicio Capossela sempre a esforçar-se ao máximo por servir, não tanto o público, mas sobretudo a própria noção de espectáculo, de prestação teatral e musical.
No fim do concerto ainda houve os tradicionais bolos e uma sessão de música com a DJ Raquel Bulha. Em suma, e apesar de apenas ter assistido a duas das quatro noites do festival, foi mais uma belíssima edição do Sons em Trânsito. O único senão é os concertos começarem tão tarde. Já nem falo, é óbvio, no facto de eu no fim ainda ter de voltar para Coimbra, porque essa é a minha circunstância, mas, pelo menos para mim, houve algum prejuízo de concentração e atenção durante o concerto do Capossela, que começou depois da meia-noite. Ou seja, nas partes mais suaves do concerto eu ficava cheio de sono!
Dois concertos ontem no Teatro Aveirense, em mais uma edição do festival Sons em Trânsito.
A razão que me levou ontem a Aveiro foi sobretudo o concerto de Tcheka, um músico de Cabo Verde, da ilha de Santiago, muito jovem. Eu comprei o cd, aqui há tempos, e tenho andado muito entusiasmado a ouvi-lo. Ao vivo, Tcheka acelera um pouco o ritomo das canções, mesmo a apelar ao baile. As canções fogem um bocadinho àquilo que estamos habituados na música de Cabo Verde, ou seja, mornas e funanás, é como se fosse uma música mais africana. São canções muito bonitas, simples, sobre o quotidiano (a avaliar pelo pouco que consigo entender), servidas pela voz rouca e doce do Tcheka, que com mudanças de tom e o recurso ao falsete, consegue encher vocalmente as canções. Além disso é um executante exímio da guitarra. Ontem, acompanhado apenas de baixo e percussão (mais dois excelentes músicos que não consigo identificar), e percorrendo as canções do cd Londji, Tcheka conseguiu animar a noite, apesar de, pelo menos a princípio, o público estar um bocadinho frio.
O segundo concerto da noite foi de Jane Birkin, o famoso ícone dos anos 60 e 70, starlette inglesa apaixonada por Serge Gainsbourg, e que deu voz ao célebre e escandaloso Je T'Aime Moi Non Plus. Bem, foi um dos concertos mais felizes a que eu assisti. La Birkin, mais do que uma cantora, é uma actriz, que usa o charme e a simpatia para cativar e seduzir o público, devolvendo-lhe um aconchego caloroso mas sempre elegante. Percorrendo as canções dos seus dois mais recentes cds, Rendez Vous (que eu tenho e não me canso de ouvir) e Fictions, muito do concerto assenta em clássicos de Gainsbourg, que Birkin celebra com amor e alegria, mas sem qualquer melancolia fúnebre. Acompanhada de três excelentes músicos (Christophe Cravero, um homem lindíssimo, no piano e violino, Frederick Jacquemin em percussão e samplings, e Thomas Coeuriot em teclas e cordas várias), e vestida com umas calças cargo e um pull-over em V que lhe acentuava o famoso peito de 'gamin', a Birkin cantou, desceu à plateia, cantou em português (o Leãozinho, de Caetano Veloso), fez fosquinhas ao público, fez adeusinhos com a mão, falou que se fartou, homenageou Aung San Suu Kyi e os monges da Birmânia, contou histórias de Serge. E sobretudo celebrou o próprio concerto, sempre com um entusiasmo contido. Diga-se que o público correspondeu sempre, entre o divertido e o extasiado.
Acho que todas as pessoas, as pessoas normais, como eu, que trabalham das nove às cinco e pagam impostos, e têm hipotecas e sofrem da vesícula, deviam pelo menos uma vez na vida assistir a um concerto como o de ontem da Birkin. Foi, acho eu, a única vez na vida que me senti como se estivesse a participar num filme contracenando com uma diva. E saí do concerto como se trouxesse o Oscar para a melhor cena romântica do ano.
Entretanto, logo à noite há mais Sons em Trânsito e eu lá estarei!
No Sábado, dia 27, à noite, fui ao Santiago Alquimista assistir a um concerto do Mark Kozelek. Tenho de começar por afirmar que não o conhecia. Passei um pouco ao lado daquela onda a que chamaram, nos anos 90, slowcore, de que fazia parte a banda de Kozelek, os Red House Painters (vi, aí por alturas de 96, um concerto dos Spain, na Aula Magna, e acho que a minha digressão maníaco-depressiva se ficou por aí). O Kozelek fez um concerto quase a solo, o 'quase' é porque durante parte do concerto teve a acompanhia em palco de um guitarrista, que não apresentou, e em que desfiou canções dos RHP, do projecto Sun Kil Moon e dos seus discos a solo. Foram quase duas horas de canções belíssimas, tocadas de forma muito subtil mas com uma riqueza de filigrana, e cantadas com uma voz evocativa e irremediavelmente atravessada por uma angústia melancólica. Como eu não conhecia, estas coisas têm sempre o sabor das descobertas, dos sabores que se provam pela primeira vez. As características do SA adequam-se muito a este tipo de concertos, propiciando um grau de intimidade entre músico e público, acentuado pelo envolvimento do varandim.
Na primeira parte actuaram os portugueses Sean Riley & The Slowriders, a quem, em termos gerais, correu bem a prestação.
Depois do concerto, e depois de uma ida ao Chapitô comer tostas, experimentei a sensação de ficar fechado naqueles espaço de Lisboa cujas ruas são de acesso limitado e controlado por pins automáticos. A verdade é que consegui entrar, porque o pin estava em baixo e o semáforo intermitente, mas depois não consegui sair porque o pin estava fechado! Ainda pensei abandonar o meu carro à sua (dele) sorte e vir-me embora a pé, mas depois pensei melhor e decidi ser solidário, razão porque escrevo este post dentro do meu carro, estacionado debaixo de umas árvores num largo em frente a um quartel da GNR (ou whatever), onde tenho vivido nos últimos três dias. E como estava isolado do mundo por pins camarários nem dei pela mudança da hora pelo que a juntar ao confinamento espacial, estou igualmente recluso de uma fracção temporal onde só existo eu e os relógios de pulso esquecidos nas gavetas por falta de uso.
Parece que ainda gostei mais do concerto de Caetano Veloso ontem, no pavilhão ‘multiusos’ de Coimbra, do que já tinha gostado do de Sábado passado no Coliseu. Talvez porque, como sabia ao que ia, estava mais descontraído e desfrutei de cada canção. O concerto foi igualzinho, claro, as canções e a sequência, as coreografias de Caetano para cada canção, as suas falas breves, até o momento em que tirou o casaco. Diferente só mesmo o momento ‘violão’, que teve, desta vez, Cucurucucu Paloma e Estranha Forma de Vida. Pelo que percebi foi o momento preferido pelo público, o que não admira, há muita gente que não conhece Cê e há muita outra que, conhecendo, não gosta desta fase roqueira e áspera do cantor. Por falar em público, achei que durante a maior parte do espectáculo o de Coimbra foi mais caloroso do que o de Lisboa. Só correu mal no fim: o coimbrinha é ensonadito, por isso mal o Caetano fez a primeira pausa para o encore começou a debandada, que não parou quando o cantor voltou. Conclusão, enquanto o concerto do Coliseu teve um encore de meia-hora, com Menino do Rio e o Leãozinho pelo meio e uma repetição festiva de Odeio, o de Coimbra apenas teve as duas canções regulamentares.
Só houve duas coisas que não correram muito bem no concerto ontem dos The Police no Estádio do Jamor (que eu não conhecia e achei lindíssimo, uma arquitectura típica Estado Novo, mas que é leve e muito bem integrada no espaço envolvente), e nenhuma delas pode ser imputada à banda de Sting.
A primeira é que estava um frio do caraças, sobretudo para quem, como eu, chegou muito cedo ao estádio (o lado positivo foi que, segundo li, à hora de inicio do concerto ainda estava muita gente engarrafada a tentar chegar e estacionar). A segunda é que, apesar de eu ter chegado cedo ao estádio, cheguei tarde ao concerto. De facto, cheguei vinte e sete anos atrasado! Tinha feito mais sentido ter estado no concerto que os The Police deram no vizinho estádio do Belenenses em 1980, quando a sua música fazia parte essencial da banda sonora das nossas vidas. Talvez porque estivesse tanto frio, a cena da nostalgia não me tocou, e só o meu corpo, quando eu dançava (enfim…), é que se lembrava bem do balanço da música de Sting e dos seus parceiros.
Tirando isso, foi um concerto irrepreensível, em que, apesar da embalagem obrigatoriamente impressionante de som e luzes, a música esteve sempre no lugar principal. Tocando com a desenvoltura técnica de quem sabe o que anda a fazer há muito tempo, os três músicos deram um espectáculo feito em absoluto de canções, de canções muito boas e inesquecíveis, conseguindo dar-lhes roupagens luxuriantes mas mantendo sempre a simplicidade que permitia ao público aderir de imediato. Numa época de tanto fogacho, de tanto fogo de artifício (e atenção, que eu adoro toda aquela cena larger than life dos grandes concertos de estádio), de tanto recurso tecnológico, soube bem assistir a um concerto de estádio sempre focado na música e nas canções. Numa carreira que teve tantas e boas canções, era difícil conseguir um alinhamento que não deixasse de fora os principais êxitos do grupo, mas que também não parecesse uma daquelas cassetes de super-êxitos que havia quando os Police foram famosos da outra vez. E a verdade é que o alinhamento foi perfeitamente conseguido, sempre bem embalado, sem nunca deixar as coisas morrerem.
Só mais duas notinhas. A primeira é para a mania do pessoal chamar à banda 'os pólice'. Mas é que tudo, rádio, televisão, o pessoal, tudo!, falava nos pólice! A maior parte das pessoas sabe falar inglês e tenho a certeza de que quando se referem à polícia não lhe chamam a 'pólice'. Os 'poulice' já é aceitável, 'os palice' está quase lá, mas 'pólice'?!
A segunda nota vai para o melhor do concerto, que foi eu ter ido com a minha babe prefirocalar. Foi tão bom que ficámos os dois, como se pôde comprovar pela entrada anterior, 'oh so blue'.
Concerto, ontem à noite no Gil Vicente, da Orquestra Gulbenkian, dirigida pela maestrina Joana Carneiro. Que é uma miúda, ou seja, é muito novinha, e faz (boa) impressão vê-la ali a dirigir, com arrebato e firmeza, uma orquestra tão 'pesada'. No programa havia Brahms, uma peça curta a abrir e a Sinfonia nº2 a ocupar integralmente a segunda parte, e o segundo concerto para piano e orquestra de Rachmaninov, com António Rosado como solista. Eu adoro este concerto para piano, que nunca tinha visto tocado ao vivo. E logo pelo António Rosado, que é um pianista fabuloso. Ainda no Domingo passado foi o António Rosado que tocou a Rapsódia em Blue, de Gershwin, no concerto da RTP, e na altura não imaginava que tão poucos dias depois teria oportunidade de o ver tocar ao vivo, e logo esta obra do Rachmaninov. Eu sou totalmente desprovido de conhecimentos que me permitam analisar a performance de ontem, mas o António Rosado tem um modo de 'atacar' o piano muito próprio, emocionado mas ao mesmo tempo com uma certa 'souplesse'. Eu já vi alguns bons pianistas tocar ao vivo, quer de música clássica quer de jazz (um recital do Alfred Brendel foi um dos pontos mais altos da minha carreira de espectador) e é interessante perceber as diferenças entre eles, e como essas diferenças ultrapassam a pura técnica, são muito mais formas psicológicas, emocionais, de abordar o piano. E como dessas diferenças resultam 'músicas' igualmente diversas. Talvez porque tenha crescido e formado o meu ouvido musical a ouvir sobretudo rock e música pop (quer no sentido de popular quer no sentido mais top of the pops) entendo perfeitamente a noção de versão (várias e diversas versões para a mesma canção), mas só recentemente comecei a perceber que também na música clássica a interpretação, o modo como cada músico, cada solista, cada formação, interpreta determinado trecho, e até o modo como o ouvinte percepciona o que ouve, dá às obras cunhos muito distintos.
É impossível ouvir o concerto de Rachmaninov sem acumular os clichés: noites de um azul profundo, luares impossivelmente prateados, ondas a despedaçarem na praia, mulheres trágicas e homens devastados. Li muito recentemente mas não me consigo lembrar onde, que um cliché fragiliza a obra, mas que a acumulação de clichés a pode tornar mais intensa e verdadeira. E realmente só assim, num acumular de lugares-comuns de hiper-romantismo derramado, consigo ‘encaixar’ a emoção que este concerto para piano me provoca. Nisso, ou então, claro, numa coreografia da Olga Roriz. Pode parecer um paradoxo, mas o facto de essa coreografia já ter sido feita, não me impede de, sempre que oiço o Rachmaninov, pensar (sentir) que aquela música está à espera que a Roriz a ponha a mover-se no corpo de um bailarino.
A primeira, e única, vez que tinha visto Maria Bethânia em palco foi em 1999 num concerto que deu a meias com Caetano Veloso no Pavilhão Atlântico, para comemorar o primeiro aniversário da inauguração da Expo98. A apresentação do show Dentro do Mar Tem Um Rio ontem, no CAE da Figueira da Foz, confirmou essa noção de que a presença de Bethânia em palco é mística e sagrada, majestosa e torrencial. Se há cantores em relação aos quais o palco é, muito mais do que a gravação, o lugar de plenitude e consagração (e o Brasil tem tantos artistas assim), esse é, por excelência, o caso de Bethânia. O que é desde logo impressionante é o rigor da produção, a forma perfeita como o espectáculo é planeado e posto em cena, desde o encadeado das canções até aos cenários e figurinos (da cantora e dos músicos acompanhantes), passando pelas posições e pelos movimentos em palco. Mas o que é notável é que essa perfeição não retira um grama que seja de emoção e entrega. Aliás muito do segredo do sucesso da presença em palco de Bethânia passa pelo modo subtil e inteligente como a cantora vai doseando os diversos elementos, numa prestação que é simultaneamente sofisticada e simples, popular e erudita, alternando a festa do concerto com a intimidade do recital. Quanto ao alinhamento, este show suporta-se fundamentalmente nos dois mais recentes discos de Bethânia, Mar de Sophia e Pirata, apostando na mistura (mais uma prova da inteligência de Bethânia) dos clássicos com a descoberta dos novos compositores. Não falta, numa sucessão que praticamente encadeia as canções umas nas outras, o momento de recordar uma outra faceta característica de Bethânia, ou de uma certa fase da sua carreira, a das canções sobre o desvario e a dor amorosa. Acompanham-na em palco sete músicos, com direcção musical e arranjos de Jaime Alem. Foi um dos concertos do ano, sem dúvida, duas horas de encantamento e emoção pura. E para a magia da noite contribuem as óptimas condições do palco do CAE, quer em termos de qualidade de som, que sobretudo no que toca à iluminação, que tornam o palco um lugar verdadeiramente iluminado e luminoso.
No fim do concerto, quando vinha de carro de regresso a casa, estava tão embalado na voz de Bethânia que não tive paciência para ouvir o cd que tinha enfiado no auto-rádio. Quando é assim o melhor é pôr-me a fazer zapping pelas estações radiofónicas à espera que surja uma que convide (para utilizar o nome de um programa muito antigo) os passageiros da noite. Estava eu entretido a zappar estações de música pimba quando surge, quem mais?, a voz de Bethânia a cantar uma daquelas canções velhinhas de quase trinta anos (daquelas pelas quais valia a pena assistir às telenovelas), uma das clássicas canções de dor de corno que marcaram uma época.
Gostei muito do concerto que ontem a Eugénia Melo e Castro deu no Gil Vicente, e que integra a digressão que ela está a fazer em diversos palcos portugueses (abriu em Lisboa e vai fechar no Porto) para promover o seu disco mais recente, PoPortugal. A EMC não tem assim daquelas vozes mais potentes, não tem um vozeirão, mas tem a voz muito trabalhada, conhece muito bem a voz que tem, os seus limites e aprendeu a usá-la e a explorá-la de uma forma muito rica. Além disso tem um enorme bom gosto, além de um profundo e apurado sentido musical. Acho que é isto, ou seja, muito trabalho, muito instinto, e a dose certa de sorte e de right connections, que lhe tem permitido fazer uma carreira digníssima, sem nunca cavalgar as ondas do popularismo (mesmo quando lhe bateu à porta), criando um percurso que, visto à perspectiva de 25 anos, é pessoal, distinto, coerente e, sobretudo, interessante do ponto de vista musical. E boa de se ouvir que é a sua música. O concerto de ontem revelou generosamente tudo isto. Muito bem doseados os clássicos do seu repertório, com os temas de Chico Buarque do disco Des-Cons-Tru-Ção e com os de clássicos da pop portuguesa do mais recente disco, sempre em versões muito trabalhadas e ‘personalizadas’, criando realmente novas versões, e não apenas variantes de temas conhecidos. Fiquei com muita vontade de conhecer o PoPortugal, e sobretudo o disco com canções de Chico Buarque que, a provar pelos arranjos e pelo bom gosto das amostras ouvidas, deve ser bem interessante. Outro ponto altíssimo do concerto é a banda que acompanha EMC: 7 músicos excelentes, todos brasileiros, e a fantástica direcção musical, de facto uma pareceria com EMC, do guitarrista Eduardo Queirós.
Pena o Gil Vicente estar a meia casa, talvez menos, apesar de os poucos que estavam serem entusiastas e calorosos. Nos últimos anos tem-se assistido a uma diminuição na afluência de público ao GV, que tem sido gradual e constante. Já não me lembro de ver casa cheia há muito tempo; talvez na ópera, mas este ano nem nos festivais de blues e de jazz, pelo menos nas noites em que lá fui. Mas cada vez mais raro. É uma pena. Porque não me lembro de outras épocas em que o Gil Vicente tenha tido tanta oferta de espectáculos, e tão variados e bons e interessantes. Não acredito que a crise e as dificuldades económicas expliquem o que quer que seja, porque nunca se viu tanto consumo como actualmente. Suspeito que as verdadeiras razões sejam bem mais profundas e bem mais graves e tristes.
Os músicos de Carlos Bica & Azul, para além do contrabaixista português o guitarrista alemão Frank Mobus e o baterista norte-americano Jim Black, tocam juntos há mais de 10 anos. Quatro discos (se não estou em erro) e muitos (muitos mesmo) concertos depois, isso nota-se. Há entre os três músicos um entendimento, uma capacidade de tocarem uns com os outros (o que é diferente, e mais, de simplesmente tocarem juntos), que dão ao concerto, integrado na primeira parte do Festival Jazz Ao Centro, uma dimensão celebratória à qual não se consegue ficar imune. Mais do que apreciar as composições de Bica, tão sedutoramente apelativas ao universo da canção rock, ou mesmo pop, mais do gozar os arranjos e a exploração musical que os músicos fazem da formação (a bateria de Jim Black parece trazer uma orquestra inteira lá dentro), o que de raro é dado proporcionar ao espectador do concerto de Azul, é essa simbiose mágica, essa aventura que torna o jazz tão humanamente frágil e forte ao mesmo tempo, que é assistir aos três músicos, cada um muito debruçado sobre o seu instrumento, mas sempre a chegar até ele através do que os outros músicos lhe estão a dar. É daquelas coisas preciosas que nós sabemos reconhecer mas, se não formos músicos de jazz tão excelentes, nunca saberemos como se faz.
É sempre uma aventura irmos a um concerto de um músico de que sabemos muito pouco (ou mesmo nada, como já me aconteceu noutras ocasiões). Normalmente corre bem, porque há sempre um mínimo de informação que nos diz se seremos sensíveis ou não ao tipo de prestação musical. Ontem, com a pouca informação que dispunha, e tendo ouvido apenas meia-dúzia de canções (cortesia de um amigo do livejournal e dos clips do youtube), fui ao concerto do Andrew Bird, com lugar na segunda fila, o que dá sempre uma maior proximidade com os músicos, porque lhes podemos apreciar as expressões faciais, acompanhar os pequenos gestos em palco. Gostei muito do concerto. Desde logo por duas razões. Uma, porque gosto muito de assobios e o AB foi o primeiro tipo que eu vi a utilizar tão profusa e complexamente os assobios, não apenas para compor ou dar ambiente, mas como verdadeiro instrumento musical. A outra porque acho fascinante aquela coisa de se gravar o sampler de um som em palco e começar a construir toda a canção a partir desse som. E muito da prestação musical de AB e dos excelentes músicos que o acompanharam (Martin Dosh, na bateria e teclados, e Jeremy Ylvisaker, em baixo e guitarras) se baseou nessa técnica de ir gravando sons e acrescentando camadas (lembro-me do concerto extraordinário do Mathew Herbert na Casa da Música, aqui há uns anos, que era todo construído assim, para mais com a presença de uma cozinheira em palco!) Para além de algumas referências mais óbvias (Radiohead no conceito e estrutura das canções, Rufus na forma como coloca e suspende a voz), houve momentos em que me lembrei das músicas da Penguin Café Orchestra, sobretudo, acho eu, por causa da utilização de instrumentos muito variados e que não estamos habituados a ver juntos, também por causa da utilização sequenciada desses instrumentos, como se cada canção tivesse, à moda da música clássica, vários andamentos, e ainda, acho eu, por causa da utilização de frases melódicas muito curtas e simples, e que vão sendo utilizadas repetidamente. Aliás, agora que estava a escrever isto achei interessante essa noção de que o AB (que, segundo li, teve formação clássica, creio que no violino) incorpora nas suas canções, dando-lhes, digamos assim, um tratamento pop, muitos conceitos da música contemporânea.
Fim-de-semana animado aqui por estas bandas. Para além de visitas, houve, há pouco, o Académica-Sporting, que os leões venceram, e ainda bem, mas mais em sorte do que em jeito. Acho muito divertido ir à bola, percebo realmente o lugar-comum de viver as emoções ao vivo, a cores, e, sobretudo, com o som vociferante dos adeptos.
No entanto, o golo da jornada, apesar de também se ter passado no Municipal de Coimbra (é mais bonito chamar-lhe assim do que estádio cidade de Coimbra – e vá lá, livrou-se da rainha santa…), não foi no jogo de hoje, mas na noite de ontem. Falo, obviamente, do concerto de George Michael. E que concerto! Foi fabuloso, o tipo está numa forma perfeita, e foi dos concertos mais bem pensados que eu já vi. Foi sempre o GM, todo ele, que esteve ali, sem fazer o frete das canções mais antigas, e sempre a fazer a festa com as mais recentes. A própria noção de mise-en-scéne, com os músicos (quase) todos retirados para os lados do palco e o GM sempre em cena, no meio da cena, sozinho, num enorme telão que descia do alto, fazia de passadeira e terminava em rampa, e que era o principal monitor de imagens, isto para além de mais quatro ecrãs, dois com imagens do cantor e outros dois a ajudarem ao cenário. Esta circunstância de o cantor estar sozinho em cena é, naturalmente, uma estratégia de consagração da sua estatura de estrela pop, mas o que lhe dá espessura, o que a torna mais do que um narcísico exercício de exposição, no caso deste concerto da tour 25Live, é que GM é mais do que uma mera estrela pop, é um verdadeiro músico, é um tipo que sempre teve controlo absoluto sobre o produto musical que ofereceu ao público (como o provou a batalha judicial para se livrar de um contrato discográfico que lhe condicionava a produção musical), é, para além de cantor, compositor da totalidade dos originais que grava, e é um músico com um projecto musical bem definido, o que é ainda mais notável dado que a área musical de GM é a sempre volátil canção pop.
Por tudo isto, foi um concerto memorável, um dos melhores que eu já assisti. Agora uma coisa um pouco desconcertante foi a quantidade de referências que eu ouvi à condição de homossexual do GM! Houve pessoas que eu conheço que se desinteressaram do GM, e desta oportunidade rara de o ver em Coimbra, pelo facto de ele “ser gay”. Disseram-se piadas, houve mulheres que foram sozinhas porque os maridos não queriam ir ao concerto do tipo que é paneleiro. Claro que isto mostra bem a tacanhez e o provincianismo da cidade. Mas mesmo independentemente destas atitudes mais imbecis, houve muitas referências à condição sexual do tipo. Como disse, achei um pouco desconcertante. Por um lado, dá-me gozo que as pessoas tenham de engolir o facto de existirem ‘role models’, pessoas de sucesso, que não escondem a sua orientação sexual e que a incorporam na sua prestação artística, como fez GM, com subtileza mas de modo assumido, em alguns momentos do concerto. Mas por outro, provoca-me algum desconforto a sexualidade de uma pessoa ser tema de discussão a propósito de uma circunstância para a qual a sexualidade é pouco relevante.
Fui comprar o bilhete para assistir ao último concerto do festival Coimbra em Blues, sem dar muita atenção ao cartaz. Um aviso à porta do Gil Vicente anunciava que uma das bandas tinha sido cancelada e que a outra ia estender o concerto. Mas só quando já estava sentadinho no meu lugar a ler aquela bibliografia que distribuem, é que me bateu que os Alabama 3 cujo concerto que estava prestes a começar, eram OS Alabama 3, do álbum Exile on Coldharbour Lane, um disco fabuloso de 1997 que eu comprei sem saber ler nem escrever numa altura em que comprava muitos discos de country às cegas, apenas porque estavam na prateleira da música country. O disco não era propriamente o disco de música country que estava à espera, a começar pelo facto de os Alabama 3 serem ingleses. A música era uma mistura energética de blues, country e house, uma teia de sons com efeitos de sonoplastia, coros religiosos, e um ritmo frenético, daqueles que põe a dançar qualquer monstro empedernido com 100 quilos de peso. Para quem não os conhece, a canção mais conhecida dos Alabama 3 é o Wake Up This Morning, que fazia o genérico de abertura da série The Sopranos, e que está incluída no Exile on CL. No concerto desta noite os Alabama 3 apresentaram-se em versão reduzida Acoustic & Unplugged, com guitarra, harmónica e duas vozes, mas tão explosivos como no disco e com o mesmo humor ácido, político e cheio de piscadelas de olho para aquela pose muito rock’n’roll do Johnny Cash dos primeiros tempos (aliás o concerto teve vários momentos Cash, o mais surpreendente de todos foi uma espécie de concurso ‘quem é o Cash da noite que decorreu na plateia do TAGV), muito rockabilly, muito estados sulistas dos EUA. Mesmo despidas do aparato sonoro, as canções são incendiárias, muito por mérito dos excelentes instrumentistas. Muitas canções do disco, incluindo a Wake Up This Morning, U Don’t Dance 2 Tekno Anymore, e a Peace in the Valley, que passou a Peace in Coimbra. O concerto durou duas horas, foi animado e divertido, e, espantosamente, muito bluesy, a justificar plenamente a sua inclusão no tema do festival.
Mais um concerto de Vitorino, este integrado no tour ‘Tudo! Alentejo, Amor, Lisboa’, com que o cantor assinala 30 anos de carreira. A impressão de que este concerto foi muito parecido com o que vi há pouco mais de um ano, mas é sempre feliz o reencontro com um dos mais carismáticos artistas portugueses. E as canções são muito bonitas, os arranjos são simples mas interessantes, e a presença em palco do Vitorino é sempre entusiasmada. E no concerto de hoje ele estava particularmente bem disposto (cortesia do Bairrada, talvez, que ainda patrocinou uma branca na Canção de Embalar, do José Afonso). A voz portentosa e belíssima do Vitorino começa a acusar a passagem do tempo, ficando por vezes um bocadinho baça, em vez do vibrato tão lindo que ele tem e que cabe tão bem para ele cantar com o tom da canção de Coimbra. Mas como o Vitorino tem muita personalidade e muito savoir faire, nem se nota esse desgaste.