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[icon] um voo cego a nada
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Subject:rainha santa
Time:06:26 pm
O dia de ontem começou às sete da manhã com um telefonema. O meu pai estava a sentir-se mal. Fui levá-lo ao hospital. Às nove e meia tive notícias de que estava bem e vim para casa. Voltei ao hospital ao meio-dia para o ir buscar e fui levá-lo a casa. Depois fui almoçar com um grupo de amigos, companheiros de viagens passadas e, esperançosamente, de viagens por vir. Às quatro vim a casa, vesti um fato e tive de ir a um velório. Logo a seguir, para contrabalançar, e ainda de fato vestido, fui visitar uma bebé que tem pouco mais de três meses de idade e que é uma ternura: linda e perfeita, daquelas que parece que são feitas para podermos olhar para elas e reconciliarmo-nos com o mundo. Regressei a casa, despi o fato e fui ter com outros amigos, de passagem pela cidade, para jantarmos. Soube-me logo bem encontrar-me com eles na esplanada e melhor ainda o seu ar veraneante. Pela primeira vez ao longo do longo dia, descontraí-me e senti-me bem e feliz. Quando me deitei, apesar de cansado, estava tão estimulado e sensível, que não conseguia adormecer, a ter ideias para textos. Tomei nota de alguns, para ir escrevendo. Um deles foi este. Que dia.

Dedico este texto, não à rainha santa, cujo dia ontem se assinalou, mas ao João, ao Dejan e ao Félix, que me salvaram o dia.
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Subject:permanente
Time:12:00 pm
Em 2004, julgo que logo no início do ano, a minha amiga S. ofereceu-me uma caneta de tinta permanente. Sempre gostei muito de escrever com caneta, e ainda que a maior parte das canetas que tive (e tenho) fossem das mais baratas, cheguei a usar clássicos como a Mont Blanc ou a Parker. Tenho a maior parte dessas canetas guardadas, infelizmente não no melhor estado de conservação, ou seja, não as limpo nem as mantenho em bom estado.

A caneta que a minha amiga me ofereceu, para suavizar um momento muito complicado a nível profissional, é dessas mais baratas, de cartucho, de uma marca muito comum, que estão à venda em montinhos nos balcões das papelarias. O corpo da caneta é de plástico, claro, de cor azul, com um padrão discreto de umas flores, e um nome de uma senhora em espanhol que não faço ideia quem seja, suponho que uma designer ou coisa do género. Enfim, uma caneta sem nada de especial, daquelas para usar durante uns tempos e acabar por perder, mais não seja no fundo de uma gaveta.

Acontece que comecei a usar a caneta logo na ocasião em que ela ma ofereceu. Gostei da leveza e do volume do corpo, e da maciez do aparo. Durante muito tempo usei cartuchos de tinta negra, sem marca, que um amigo me ofereceu em duas saquetas de plástico cheias, e que ele tinha em casa à espera de uma oportunidade para deitar fora! Quando acabaram (guardo ainda dois, de reserva) comecei a usar aquilo que ia encontrando, que não é muito frequente encontrar à venda cartuchos de tinta permanente, sobretudo nos supermercados do material para escritório. Aqui há tempos, encontrei cartuchos Pelikan de tinta azul à venda pelo preço da chuva na Papelaria Fernandes, e comprei logo um carregamento deles.

Nunca mais deixei de usar a caneta e é seguramente aquela que usei, e ainda uso, durante mais tempo. Com o tempo o aparo foi-se fazendo totalmente à minha mão, e à maneira pouco usual como pego nas canetas e nos lápis, com três dedos, em vez dos habituais dois como nos ensinavam na escola primária. Agrada-me o facto de quase não precisar de fazer pressão com os dedos para escrever, o que é uma vantagem quando se têm de fazer muitas assinaturas por dia. E se a maior parte dos documentos escrevo directamente no computador, é a caneta que uso para tomar notas no caderninho que anda sempre comigo, nas reuniões ou para fazer as vezes de agenda, no dia a dia.

A minha caneta está sempre à mão na secretária ou na mesa de reuniões, e é um objecto que tão naturalmente prolonga a minha mão, que geralmente pego-lhe quase sem precisar de a procurar com o olhar, sei sempre mais ou menos onde ela está, onde é que a larguei. Mesmo quando fica debaixo de uma pilha de papéis, mesmo assim tenho sempre noção onde a deixei. O que não acontece, como é óbvio, com os outros materiais: ando sempre à procura do agrafador, ou dos marcadores, os lápis sucedem-se na minha mesa com um turn-over estonteante, estou sempre a perdê-los, nunca encontro a lista telefónica, e isto para já não falar dos papéis, claro, das fotocópias, dos ofícios, dos livros, dos relatórios, das pastinhas de plástico com o expediente.

Mas porque é que eu comecei a falar na caneta de tinta permanente? Ah, já sei! Na segunda-feira, vinha eu de uma reunião, com a tampa da caneta presa na capa do caderninho, quando a caneta se soltou e caíu ao chão. Conclusão, o aparo ficou a arranhar e a tinta a falhar. Até fazia barulho, o aparo a arranhar no papel. Que chatice, um aparo tão macio, tão moldado. Claro que a coisa aos poucos vai ao sítio, e de vez em quando pego numa folha de rascunho e ponho-me a fazer riscos e rabiscos, para, literalmente, ir limando o aparo nos pontos em que ficou áspero. Até acho que hoje já está a ficar um pouco mais macio, a tinta a sair de um modo mais uniforme, a voltar outra vez aquela suavidade na escrita. Temos caneta!
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Subject:estação a estação
Time:12:37 pm
No Domingo, ao fim da tarde, fui à igreja de Nossa Senhora do Amparo, para ser padrinho de baptizado. Já tenho alguns afilhados de baptismo, mas foi a primeira vez que fui escolhido para padrinho pela própria afilhada. Ou seja, não foi o padrinho que fez a afilhada, foi a afilhada que fez o padrinho.

Ontem de manhã risquei a capital. À hora de ponta, ou à volta disso, entrei numa carruagem e corri uma linha de metro quase de uma ponta à outra. Depois percorri uma das minhas estações de comboios preferidas, e que linda que ela está, iluminada, airosa, limpa e ampla, o empedrado do chão polido e brilhante.

Depois meti-me no comboio, a ouvir música, a ler uma revista. De estação em estação, até chegar de novo à minha vida. A tarde, de calor e luz a derramar-se numa esplanada, prometia. E cumpriu, como há muito tempo não acontecia.
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Subject:a língua vagarosa
Time:12:47 pm
Passaram, no dia 27 de Maio, 6 anos desde que comecei a pôr on-line textos, sobretudo poemas, de autores moçambicanos ou de alguma forma ligados a Moçambique, no blog À Sombra dos Palmares. No anos anteriores eu assinalava este aniversário mas este ano, francamente, não há nada a assinalar: entre Maio e Novembro do ano passado meti lá 6 ou 7 poemas, e desde Novembro que não faço nenhuma entrada nova.

A razão para esta negligência tem a ver com a minha pouca disponibilidade para procurar textos, passá-los para o computador (à mão, ou seja não tenho scanner) e editá-los no blog. Mas também com o facto de que ultimamente não tenho encontrado praticamente livros nenhuns de literatura moçambicana à venda por cá.

Claro que não faz sentido nenhum apagar o blog, até porque, apesar do desprezo, ele continua a ter visitas diárias, poucas mas mesmo assim, vindas na sua maioria de pesquisas nos motores de busca de nomes de poetas moçambicanos. E confesso que me agrada esta ideia de estar disponível na net, com algum sentido de utilidade para quem procura, informação que fui eu que pus. Informação que, diga-se de passagem, corresponde a uma coisa que eu acarinho e que é muito importante para mim.

Além disso pode ser que um dia destes me volte a dar uma vontade febril de tornar a pôr poemas no blog. Mas enquanto isso não acontece, aí ficam os poemas, em pousio, à espera que alguém se lembre deles, que os procure, e se venha tranquilamente sentar a lê-los, à sombra dos palmares.


«VENCEREMOS

A última coisa que vi foi nada.
Logo a seguir às labaredas foi nada o que vi então
Com um grande silêncio espantíssimo por cima de nada
E um cheiro queimado de carne
Que vinha de dentro do peito para a boca.

Agora estou só nos ouvidos e na língua vagarosa
Eu que só pensava dentro dos olhos penso mal na língua
E o mundo inteiro é muito pouco agora
E tudo quanto está chegando aos meus ouvidos é pouco.

Não poderei fazer mais a mesma tarefa
Mas a Luta continua pois é independente de um homem só
E haverá outra tarefa para dois ouvidos e uma língua.
Venceremos.»


- Mutimati Barnabé João, in EU, O POVO
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Current Music:Secos & Molhados - Rondo do Capitão | Powered by Last.fm
Subject:ai livrai-me dele
Time:10:55 pm
Já aqui devo ter falado do primeiro disco dos Secos & Molhados, o grupo que trouxe ao mundo o Ney Matogrosso, editado em 1973. Esse disco encantou-me há mais de 30 anos, quando o conheci e ouvi intensamente (o meu irmão tinha o LP), e continua a encantar-me sempre. Acho que não houve altura da minha vida em que eu tenha estado muito longe dele.

Para além do seu papel revelador e mesmo pioneiro (a vários títulos), trata-se de uma formidável colecção de canções, clássicos absolutos, canções de uma modernidade a toda a prova, que fazem a ponte entre a capacidade da MPB de explorar o sentimento de ser brasileiro e a explosão de energia emocional do rock. Basta referir, para ilustrar a resistência ao desgaste destas canções e o seu classicismo, a Rosa de Hiroshima que é uma canção que marcou a carreira toda do Ney. Mas não é, pelo menos na minha opinião, a melhor canção do disco, no sentido de que se destaca das restantes. Não porque haja outras melhores, mas porque são todas verdadeiramente extraordinárias, e não há pinga de exagero nisto que digo.

Como disse, não houve altura da minha vida que este disco tenha parado de me encantar, e acho que já passei por todas as canções, ou seja já houve fases da minha vida, da minha vida emocional, que invocaram várias, se não todas, as canções do disco. Por estes dias tenho andado com uma delas a tocar quase em loop no meu player mental, a Rondó do Capitão, cuja letra é um poema de Manuel Bandeira (pergunto-me se foi com esta canção que pela primeira vez contactei com a poesia de Bandeira, imensa e grandiosa). Talvez por me transmitir um sentimento de magoada esperança, talvez por ser quase uma canção de embalar e eu andar muito precisado que me ninem.

Como não encontrei nenhum clip da canção no YouTube, fiz um do-it-yourself muito elementar só para a poder pôr aqui. Fica também a transcrição do poemazinho de Manuel Bandeira. E se alguém quiser aproveitar a oportunidade de deitar o dente e os ouvidos a este disco extraordinário, aí fica o link do blog Um Que Tenha, que é o melhor serviço público para quem é amante da música e da cultura brasileira.



Bão Balalão
Senhor Capitão
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição.
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não
Ah,livrai-me dele,
Senhor capitão!


- Manuel Bandeira, in LIRA DOS CINQUENT'ANOS
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Current Music:Milton Nascimento - Nos Bailes da Vida | Powered by Last.fm
Subject:com a mesma mão
Time:09:43 pm
Vim a casa pôr umas coisas numa maleta, o robe, pijamas, chinelos e um estojo de toilette. Arrumar as coisas, sentir-lhe o cheiro nelas, admirar o cuidado das dobras, dos vincos, tocar-lhes a simplicidade do algodão. Como se cada peça de roupa, dessas de andar por casa, domésticas, íntimas, trouxesse marcada a sua pessoa, a história, aquela cabeça gloriosa que nunca pára de me emocionar e surpreender.
Depois voltei, e já a encontrei bem disposta, animada, tranquila. Nada, nos gestos, nos carinhos, no sorriso, dizia que apenas duas ou três horas antes, um ventrículo tinha disparado em batimentos caóticos, fazendo o coração fibrilar quase até ao colapso, e exigindo manobras de ressuscitação, como as dos filmes.

Medroso, assustado, um nó de preocupação, atravesso corredores. Ninguém sabe a razão porque ali estou e dão-me abraços, perguntam-me se regresso. Chamam-me filho pródigo. Põem-me um braço sobre os ombros e começam-me a contar um problema, como se eu o pudesse resolver. Dizem-me que faço falta, muita falta, e que agora não há outro como. Uma sensação estranhíssima: medroso, assustado, um nó de preocupação, mas com o ego inchado. A vida consegue dar-nos sempre, e com a mesma mão, o pior e o melhor, o inferno e o paraíso.
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Subject:recados
Time:06:49 pm
Recado para o Pinguim e para o Paulo + Zé: o jantar de ontem foi ainda melhor do que o do ano passado. Acho que a fórmula volante resulta muito bem. Mesmo eu que sou um bicho do mato me fartei de falar e socializar (por aí, como cantavam os Ban). Para além dos amigos que se revêem, há os que se conhecem pela primeira vez e aqueles com quem se aprofundam conhecimentos anteriores. E nota alta para o restaurante e para a simpatia com que fomos recebidos.

Recado para o Tangere, a Noli e o Me: apesar da tranquilidade foi uma tarde intensa. É sempre exaltante quando encontramos alguém que nos estimula. Venha de lá o sol e o tapete verde que nos há-de levar às memórias. Às nossas, quero dizer.

Recado ainda para os peregrinos: percebo que sejam tantos e com tal fé que transbordem para a faixa de rodagem. Mas acreditem (ainda a fé) que o percurso da Nacional 1 (ou lá como se chama actualmente) entre Coimbra e Condeixa, ontem como hoje, fi-lo de coração nas mãos: é um bocado alucinante a perigosa proximidade que se estabelece entre o meu carro veloz e a vossa fé.

Ainda a propósito dos peregrinos, duas observações. Tornam-se a ver tatuagens nos braços dos peregrinos, mas onde antigamente eram as amargas recordações da passagem pelos teatros da guerra colonial, agora são os tribalismos dos salões de tatuagem da moda. Mudam-se os tempos…
Outra nota: é impressão minha ou os peregrinos são todos caucasianos? Vinha com atenção e não vi, em centenas que formavam uma interminável fila que se estendia ao longo da estrada, um único que não fosse branco!
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Subject:I must have read a while
Time:09:04 am
Leio de raspão algures na net que morreu a escritora Marilyn French. Nunca li nenhum livro seu, nem lhes conhecia os títulos, não sabia rigorosamente nada acerca da sua vida ou da sua pessoa. Nada. Quer dizer, nada, excepto uma frase da letra daquela que é a minha canção preferida dos ABBA, The Day Before You Came. Uma canção que eu adoro, acerca da qual já escrevi aqui muitasvezes, e até já escrevi, sob sua influência, mais do que um conto. Na última estrofe da canção, quando a protagonista da canção (sim, protagonista, já que é de uma narrativa que se trata) chega a casa por volta das oito, depois de passar pelo restaurante chinês para comprar o jantar, que comeu a ver o episódio do Dallas, deita-se às dez e pouco, porque precisa de dormir muitas horas, e lê, tcharam!, "the latest one by Marylin French or something in that style". E logo depois, conclui, com a frase que dá todo o sentido à história: "it's funny, but I had no sense of living without aim, the day before you came".

Das várias versões que a canção já conheceu, a primeira foi dos Blancmange, logo em 1984, ainda o cadáver dos Abba não estava bem frio: The Day Before You Came é normalmente considerada a úlitma canção que o grupo gravou, em 1982. Nessa versão o grupo inglês trocou essa parte da letra e cantava "the latest one by Barbara Cartland".

Quanto à Marylin French, fui ler os obituários publicados nas versões on line de alguns jornais, onde aprendi que foi uma pioneira do movimento feminista. No seu primeiro romance, The Women's Room, publicado em 1977, há uma personagem que afirma "All men are rapists, and that’s all they are. They rape us with their eyes, their laws, and their codes".

Entretanto li também que em 1992 foi-lhe diagnosticado um cancro no esófago. O prognóstico era o pior possível, e os médicos deram-lhe muito pouco tempo de vida. Seguiu-se a luta contra a doença, que Marylin French relatou num livro de memórias intitulado A Season in Hell. E a este propósito, o New York Times cita uma frase verdadeiramente admirável da autora: "I cannot say I am happy I was sick. But I am happy that sickness, if it had to happen, brought me to where I am now. It is a better place than I have been before." Caraças, até se me enrola a garganta. Como se já não bastasse ser citada numa das minhas canções preferidas, esta frase eleva a Marylin French praticamente à condição de minha irmã.
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Subject:in memoriam
Time:03:04 pm
"Por razões ligadas à minha profissão, as doenças oncológicas, e as pessoas que as sofrem, estão muito presentes no meu dia a dia. Além disso eu próprio tive cancro, há mais de vinte anos, e sobrevivi. Mais recentemente, algumas pessoas que me estão muito próximas, amigos e familiares, também sofreram de cancro e curaram-se. Por todas estas razões habituei-me a olhar para o cancro não tanto como uma ameaça de morte mas sobretudo como um assunto de vida. É, como no poema do Drummond, uma pedra no meio do caminho, uma pedra enorme, um pedregulho, mas que se ultrapassa, há luz do outro lado do túnel, ainda que não se vislumbre até estarmos já bem perto da saída. Claro que quando sei que foi diagnosticada uma doença destas a alguém que me é próximo, fico triste e preocupado, sinto um certo desânimo porque sei que se seguem meses de uma luta terrível e esgotante (para o doente e para as pessoas que lhe estão próximas). Mas, se calhar até por um mecanismo qualquer de defesa, não penso na morte. Não penso que é uma sentença de morte; penso antes que se calhar é uma daquelas condenações a trabalhos forçados, mas que tem um fim à vista, por muito longínquo e difícil que pareça de alcançar.
Sendo que a morte é sempre extemporânea, quando ela ceifa as vidas jovens é ainda mais brutal e chocante. E quando as vidas em causa são de pessoas talentosas, que ocupam o espaço público com a sua arte, que seguem um sonho e o partilham mais por condição do que por vocação, acrescenta-se sempre um sentimento de perda e desperdício. Mas confesso que o que mais me chocou na morte do músico João Aguardela foi a notícia de que a causa da morte foi o cancro. De alguma forma, isso torna a perda e o desperdício ainda mais injustos.
Interrompi muitas vezes este texto, e mesmo agora não sei como dar sequência à frase anterior. Nem percebo muito bem porque é que fiquei tão perturbado. De certo modo esta morte do JA veio-me lembrar que, mesmo para um tipo com menos de 40 anos e com possibilidades, o cancro ainda pode ser, quer dizer, ainda é uma doença mortal. Há coisas que na minha cabeça não batem muito bem, e isto de uma pop star ter um cancro e morrer não faz muito sentido. Ok, ouvimos as histórias de celebridades que tiveram um cancro e conseguiram vencê-lo. É como se fosse a vitória do bem sobre o mal.
Agora o cancro é uma doença demasiado insidiosa e traiçoeira, e saber que ela ganhou desanima-me. Habituei-me nestes últimos tempo a perder o medo do cancro, sobretudo depois de duas pessoas de quem estou muito próximo terem vencido a doença, e isso, não o posso negar, dava-me algum conforto. Mas também já estou um bocado habituado a viver com estes recrudescimentos da angústia. Apesar de já terem passado muitos anos, aprendemos a viver com o medo, mas não o domesticamos."


Escrevi este texto uns meses atrás, de chofre, e sob efeito do choque da notícia da morte, por cancro, do músico João Aguardela. Decidi, na altura, não o pôr de imediato on-line, e esperar uns dias para o reler. Nunca senti que fosse o momento de o publicar, e o texto foi ficando no arquivo do computador. Lembrei-me dele a semana passada quando, numa pausa das andanças na Guatemala, fui espreitar na internet do hotel onde estava os blogs de alguns amigos, e descobri que tinha morrido, igualmente por cancro, uma pessoa que conheci aqui das andanças da blogosfera. Vamos chamar-lhe C., para facilitar o discurso.

Custa-me reivindicar, unicamente por pudor, para o C. a condição de 'amigo', porque o contacto que tivemos foi muito fugaz. Estivemos juntos em duas ocasiões, mas na primeira creio que nem chegámos a trocar palavra. Na segunda sim, e a(s) conversa(s) espraiou-se por um dia inteiro, num piquenique muito feliz que reuniu umas duas dezenas de pessoas numa jornada extraordinária. A seguir a esse dia maravilhoso, o C. passou a comentar os meus textos. Apesar de não ter um blog, o C. marcou presença em vários blogs através dos seus comentários, que eram verdadeiramente especiais: porque diziam sempre respeito ao assunto em questão, porque respeitavam o tom usado, sério ou divertido, porque diziam sempre coisas interessantes e apropriadas. Porque, enfim, reflectiam o facto de o C. ser um tipo culto e informado, e que sabia escrever em bom português. Passadas algumas semanas o C. foi de férias, ainda voltou aos comentários por uns dias, e tornou a desaparecer. Admirado pela ausência, perguntei por ele a um amigo comum, e soube que o C. estava doente, com cancro.

Para além de culto e letrado, o C. era um homem muito charmoso, um sedutor. Confesso que a primeira vez que o vi me senti um pouco intimidado: sou muito tímido e assustam-me sempre as pessoas um pouco transbordantes, atemorizam-me os egos inchados. Puro engano meu, como verifiquei posteriormente: o C., charmoso e sedutor, era uma pessoa amável, educadíssima, simpática, sem tiques ou poses, com uma disponibilidade para os outros muito rara, com um sentido de humor generoso e elegante. É fácil dizer bem das pessoas que já nos deixaram, são sempre excelentes, só têm qualidades. Mas o C. era um homem verdadeiramente extraordinário, o que se tornava perceptível mesmo num contacto breve e fugaz, como foi o que eu tive com ele. E se senti um profundo desânimo, e até uma certa revolta, pelo desperdício que a sua morte representou, também não deixei de me sentir muito reconfortado por ter tido o privilégio feliz de o ter conhecido.
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Subject:de regresso
Time:06:22 pm


Cheguei a casa ontem à noitinha, depois de 24 horas entre aeroportos, aviões e autocarros. Exausto e feliz. E, diga-se de passagem, nada pronto para regressar amanhã ao trabalho, sobretudo porque, com tantas horas sem dormir e as diferenças de fusos horários, não sei muito bem onde e a que horas tenho a cabeça. Mas enfim, antes por isto do que por outra coisa.

Claro que de regresso à minha vida, os problemas ressurgem, nomeadamente as preocupações com os meus pais. A minha mãe foi há pouco para o hospital. Felizmente tenho lá amigos, e posso estar aqui mais ou menos descansado à espera de notícias. O meu pai continua muito queixoso e cada vez mais frágil e senil.

A viagem à Guatemala correu muito bem, gostei muito do país e das pessoas (enfim, apesar do contacto ser sempre muito limitado). Eu sei que o que eu faço é mais turismo que viagem, mas cada um é para o que nasce e eu não tenho espírito aventureiro. Mas tento apreender e desfrutar ao máximo, e sobretudo tento encontrar sempre nos sítios que visito alguma coisa que me acrescente.
Tenho ali um caderninho com notas da viagem, que espero organizar e pôr aqui, juntamente com algumas fotos. Para já, e em ritmo de enumeração, algumas das coisas que mais gostei: o tremor de terra que senti em La Antigua Guatemala; o lago Atitlan e Santiago de Atitlan, com os seus três vulcões: São Pedro, Toliman e Atitlan; a procissão em Guatemala, 'la proce', como dizem os locais, abrindo bem o 'e' final; a selva de Petén e as torres das pirâmides a furarem acima do tecto das copas das árvores; os macacos roncadores e as árvores, dezenas de árvores lindíssimas; a semente de tawa que comprei, com duas iguanas esculpidas, que neste momento é o meu preferido de todos os objectos que possuo; a hora que passei sozinho a caminho da cratera do vulcão Pacaya, só com a poeira da lava, o barulho do vento, e as nuvens a tocarem-me as mãos.

Tenho estado a ler, e levei para férias, a biografia que Andrew Wilson escreveu sobre a Patricia Highsmith, Beautiful Shadow. Passagens do livro fizeram-me ter saudades do tempo em que escrevia diários que só eu lia, e onde por isso podia ser mais íntimo e cru e introspectivo. Faz-me falta um diário confessional, mas não tenho tempo nem paciência para escrever dois diários, um público, como este, e outro mais pessoal (e intransmissível)
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Current Music:Amélia Muge - Parece Maio | Powered by Last.fm
Subject:príncipe real
Time:06:05 pm
Na Pública de hoje uma série de retratos sobre aspectos concretos do Portugal de hoje , a propósito do ano eleitoral que está prestes a começar. Num dos artigos aborda-se a utilização das novas tecnologias: os jovens e os telemóveis, um criador de gado (caprino? escrevo de cor) que criou um programa para gerir os seus rebanhos, e… a Theo, a propósito da net e da sua utilização como meio de estabelecer redes e relações sociais e familiares.

Há oito dias foram o Zé e o Paulo numa belíssima entrevista, hoje a Theo com uma fotografia lindíssima tirada no Príncipe Real (privilégio da amizade, este o de saber o lugar onde a fotografia foi feita), e a falar sobre os seus blogs, o Grand Torino e os hmongs, e sobre os seus amigos moçambicanos. É um orgulho.

A substituir o beijo que eu gostava de lhe dar pessoalmente, deixo aqui para a Theo, e inspirado na sua foto, uma das minhas canções preferidas da Amélia Muge, 'Parece Maio'.





PS: se alguém me souber dizer um meio de pôr aqui música sem ser através da grande volta que é pô-los no YouTube (para mais com o ecrã todo negro), já sabe, a minha eterna gratidão se me ensinar devagarinho e por palavras simples.
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Subject:forever young, i want to be
Time:12:47 pm
Estou ansioso por ir de férias. Não porque me esteja a apetecer desesperadamente ir passear, as horas de viagem, as correrias, as diferenças horárias e o cansaço. Pelo contrário, aquilo que me estava a apetecer era uns dias de férias tranquilos, a ler e a apanhar calor num sítio calmo. Mas ainda bem que vou, porque estou a passar por uma fase de um profundo mal-estar, e assim pode ser que o corte das férias, a canseira, e o facto de passar os dias sempre acompanhado, ponham um fim a essa fase em que ando já há algumas semanas.
Felizmente acho que não tenho um espírito muito depressivo. Claro, sou melancólico, tenho momentos de tristeza, mas não sofro de depressões, não me deixo, pelo menos por enquanto, enredar no labirinto da depressão clínica. Não tomo comprimidos, não faço terapias, não preciso de próteses afectivas, sejam elas químicas, relacionais ou outras. Como acredito que a depressão tem uma origem fisiológica, é um assunto clínico, só me posso considerar um felizardo por não sofrer desses padecimentos (sofro de outros, é claro, mas não são para aqui, ou pelo menos para agora, chamados).
Mas apesar de ter uma auto-estima razoável (que compensa uma certa falta de auto-confiança), a verdade é que ando a sentir-me mal. Sinto-me tenso, cansado, triste. Ponho-me em causa severamente e recrimino-me por achar que sou incapaz de quebrar um circulo, mais viciante do que vicioso, de infelicidade e frustração.
Por vezes acho que não sei, que não sou capaz, de romper o isolamento e a solidão em que me tenho vindo a afundar. Apaixono-me pelas pessoas erradas, não consigo aprofundar um relacionamento para além da mais superficial das camadas, do mero enfatuamento, sinto um pavor cada vez mais paralisante da rejeição. É verdade que isso não me faz sentir profundamente infeliz, e se calhar até devia, porque podia ser que eu reagisse. Assim, só agrava o mal-estar. E, claro, como se não bastasse, é nestas fases que temos a tentação de fazer as coisas mais patéticas, como voltar a mexer em feridas antigas, que julgávamos saradas e cicatrizadas.
Ando há uns dias a pensar em escrever qualquer coisa que pelo menos para mim tivesse o mínimo interesse, e que desse algum sentido a estes sentimentos pardos que me têm ocupado. Mas saiu assim, e é assim que vai ficar. Fica o texto confessional da temporada, uma espécie de recaída adolescente. Eu sei que nos blogs a sério não se escrevem textos destes, mas como ceci c'est pas un blog, estamos conversados. Para compensar o tom baço, vou-lhe juntar uma fotografia das frésias, que, por estes dias, me têm servido de contraponto de cor e luz.

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Current Music:Chris de Burgh - Perfect Day | Powered by Last.fm
Subject:felizes juntos
Time:10:10 pm
Fui jantar com os meus pais. Quando entrei lá em casa a minha mãe pousou a revista na mesa da sala e reparei que a Pública estava dobrada precisamente na última página da entrevista. Eu sabia que a edição da revista de hoje trazia a entrevista e estava com ganas de a lêr. Peguei-lhe e comecei a ler mesmo na última página, e fui lendo meio em diagonal de trás para a frente.

Depois interrompi para jantar, e peguei novamente na revista, vi que a capa era com eles, e li novamente a entrevista de fio a pavio.
Comoveu-me a entrevista, claro. Porque conheço o Paulo e o Zé, porque já estive com eles em ambientes de descontraída amizade, porque a entrevista organizou alguma da informação acerca deles, que eu fui sabendo através da leitura do seu blog, o Felizes Juntos. Porque a entrevista, feita com inteligência, evidencia algumas das coisas que são a marca das relações afectivas entre pessoas do mesmo sexo. A entrevista, por assim dizer, mostra-nos como é feita a normalidade de um ‘casamento’ que dos pontos de vista familiar, social e jurídico, ainda é muito feito de clandestinidade e, como eles referem, de omissões, mais do que de mentiras.

Mas o que mais me tocou na peça da revista foi a fotografia que abre o artigo, em que o Zé e o Paulo aparecem sentados, de costas para a camara, num banco. Comoveu-me porque quando observei a foto senti-lhe uma familiaridade, entre os dois, naturalmente, mas também em relação a mim. Vi essa foto como se estivesse olhando os seus rostos, como se eles estivessem voltados de frente. Por razões que nem sou bem capaz de precisar, essa fotografia define quase na perfeição o que eu sinto em relação a eles. É como que um convite a olhar na direcção em que eles olham.

Estava ainda a folhear a revista quando a minha mãe regressou à sala. Perguntei-lhe se ela a queria ler, e ela disse-me que não, que tinha tempo. Que apenas tinha lido uma entrevista muito interessante com um casal de homossexuais, a falarem de como era a sua vida em comum. E acrescentou, com aquela sagacidade que só as mães têm, que um deles só tinha pai e o outro tinha mãe e irmãos, e que tinha achado muito interessante a parte em que eles falam da família, de como se relacionam com os familiares.

Eu confesso que nesta altura estava-me a sentir a pessoa mais absurda do mundo, por não ter coragem de dizer à minha mãe que sou amigo do Zé e do Paulo e o quanto isso me estava a encher de orgulho.
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Current Music:Zélia Duncan - Mãos Atadas | Powered by Last.fm
Subject:as frésias
Time:04:27 pm
Visto uma t-shirt azul, que não usava desde o Verão passado. Sobre o peito, um pelo branco do meu gato.

As frésias na jarra de vidro, na mesa junto à janela. Demoro-me na palavra: frésias. Frésias. Sabe a Verão.

O sol baço e quente vai rodando ao longo da janela rasgada da sala. É já um sol de Primavera, mas declina-se nas recordações do Inverno que passou e nas cores do Verão em que se compromete.
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Current Music:Aracy de Almeida - Palpite Infeliz | Powered by Last.fm
Subject:sláinte
Time:12:01 am
A propósito de um texto que pus aqui há uns dias sobre o recrudescimento da violência na Irlanda do Norte, e como exercício de memória, lembrei-me de, com a ajuda do Google Earth e da Wikipedia, tentar refazer os percursos e lugares visitados nas minhas duas viagens à Irlanda. Em ambas as ocasiões o ponto de partida e de chegada foi sempre Dublin.

Em Julho de 1995, fiquei instalado, à chegada a Dublin, num hotel no Upper Ormond Quay, junto ao Liffey. Como o meu quarto ficava mesmo por cima da discoteca do hotel, depois do passeio e antes do regresso, fiquei noutro em Lower Abbey, onde, uma noite, às três ou quatro horas da manhã, um hóspede se lembrou de accionar o alarme de incêndio. Foi mais divertido do que assustador, sobretudo os hóspedes todos em pijama na rua em frente ao hotel.

O passeio, em carro alugado, passou pelos seguintes lugares e cidades: Wicklow, para visitar as cataratas de Powerscourt, Enniscorthy e Wexford, onde almocei, num pub junto ao porto. Depois do almoço segui por Waterford e Clonmel até Cashel, uma terrinha fabulosa, com um castelo em ruínas cheio de cruzes celtas e sobrevoado por corvos ao final da tarde. A dormida foi num bed & breakfast, que eu e os meus companheiros de passeio baptizámos de Bates Motel, em homenagem ao filme de Hitchcock e por causa do rapaz que nos atendeu e que era um bocado sombrio.

Na manhã seguinte visitámos o castelo e seguimos para Tipperary (paragem estratégica para cantar em coro “it´s a long way to Tipperary, it’s a long way to go”) e Limmerick, onde almocei e comprei uns sapatos em saldos. Depois do almoço, por Shanon e Ennis, até aos Cliffs of Moher, impressionantes e assustadores, a atracção do abismo. Ao fim da tarde segui para Galway, onde jantei (num restaurante chinês) e pernoitei. De manhã fiz a estrada que passa pela península de Connemara, com almoço em Clifden, se não estou em erro, num pub. Fiz a Sky Road e depois segui para Westport onde chegámos ao fim da tarde. Pelo caminho parámos junto a um convento, de pedra muito branca, e que ainda era habitado, e que ficava encostado à escarpa de uma montanha. Uma parte significativa do percurso foi feita bordejando uma espécie de fiorde. Ainda fomos para Castlebar, onde, depois de jantar, estivemos a ouvir música tradicional num pub. Dormi num Bed & Breakfast onde havia um cão minorca no pátio e um gato preto e gordo dentro de casa.

No dia seguinte saí de Castlebar, passei por Roscommon, e antes de chegar a Athlone fui dar uma volta de hovercraft no Lago Ree. Por mero acaso, saímos da estrada principal e fomos ter à beira do lago, junto a um hotel e um campo de golfe. Estávamos a decidir se íamos ou não dar uma volta pelo lago quando começou a chover, o que resolveu a situação: tudo para dentro do hovercraft e ala para o lago. Depois fui ainda visitar o mosteiro e as ruínas de Clonmacnoise, com um cemitério cheio de cruzes celtas, e regressei, já quase de noite a Dublin.

Em Outubro de 1998, saí de Dublin em direcção a Cashel, para mostrar aos meus companheiros dessa segunda viagem o castelo que tanto me tinha apaixonado na primeira viagem. Depois passámos por Cork (onde regressámos para jantar) e fomos para Blarney, onde me instalei num hotel na Square, um enorme campo relvado em forma de quadrado (quase) perfeito, perto do castelo, que visitei na manhã seguinte. No castelo de Blarney há uma pedra na muralha que, conta a lenda que se a beijarmos deitados de costas a partir da janela numa parede que fica separada por escassos centímetros, dá o dom da eloquência. A fila para beijar o muro era interminável.

Seguimos para fazer o Ring of Kerry, a partir de Killarney e até lá à ponta, em Waterville, onde fica a estátua do Charlot. E depois a península mais a norte, até Dingle, que é uma pequena cidade portuária, e um dos sítios mais lindos onde já estive. Jantar de ostras e música tradicional até às tantas num dos inúmeros bares da cidade. De manhã fizemos o Connor Pass e fomos de rota batida até Limmerick, onde almoçámos. No regresso a Dublin parámos ainda numa terrinha de que não me recordo o nome para tomar um café. Quando chegámos ao hotel de Dublin (em Temple Bar), uma das minhas companheiras de viagem apercebeu-se de que tinha deixado o saco com a câmara de vídeo no bar onde tínhamos estado a tomar café. Depois de uns telefonemas meio doidos, conseguimos falar para o pessoal do bar, que confirmou que o saco tinha lá ficado, de modo que depois de jantar ainda voltámos para trás para ir buscar a câmara.
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Current Music:Chris de Burgh - Summer Rain | Powered by Last.fm
Subject:o verão de 77
Time:11:40 pm
Num dia de Junho de 1977 (talvez no dia 12… ou no dia 20… não sei) apanhei um autocarro de carreira na madrugada da cidade de Mirandela, em Trás-os-montes, para vir para Lisboa ter com a minha família, os meus pais e o meu irmão. A viagem durou o dia todo e a chegada a Lisboa foi já ao fim da tarde. Quando o autocarro chegou à praça do Marquês de Pombal, o trânsito estava cortado porque havia uma manifestação política. Parou numa das ruas ali à volta do Marquês, não sei qual, e eu fui a um café tentar telefonar para casa, em vão, como eu já sabia, pois os meus pais e irmão deviam estar um pouco mais abaixo, à espera do autocarro. Nessa altura eu estava já a morrer de angústia de nunca mais ver a minha família na vida. Sentia, acho eu, que estava a ser vítima da mais cruel partida do destino: perder-me definitivamente da minha família precisamente no dia em que a ia reencontrar.

A manifestação acabou por descer do Marquês para a Avenida, alguém me foi chamar ao café onde eu ainda tentava desesperadamente telefonar não sei para quem, o autocarro veio para o ponto do términos da viagem, encostado ao Parque Eduardo VII, e eu chorei de alívio e emoção abraçado à minha mãe.

Esse dia foi o primeiro dia de um verão passado entre Lisboa e a Amadora, antes de, em Novembro, os meus pais arranjarem emprego em Coimbra e mudarmos para nos instalarmos definitivamente por cá. Entre esse dia de Junho e o início do ano lectivo, em meados de Outubro, quando comecei a frequentar as aulas no liceu nacional da Amadora, passei um verão muito solitário, sem conhecer ninguém, sem outros amigos que não fossem os amigos de Nampula que viviam ao pé de nós, na Reboleira, e que foram responsáveis por os meus pais se terem instalado na Amadora.

Entre tardes de passeio pela Baixa e pelo Chiado, e sessões de cinema numa sala de projecção que havia ao lado das piscinas do Algés e Dafundo (onde me lembro de ver um filme sobre a equipa de futebol uruguaia que se despenhou nos Andes e que ficou conhecida por os sobreviventes terem praticado canibalismo para conseguirem sobreviver, e ainda um filme documentário sobre os jogos olímpicos de Montreal, que tinham sido no ano anterior), devorei os livros que havia numa pequena biblioteca da parte de casa mobilada que os meus pais arrendaram na Rua Elias Garcia, perto da estação de comboios da Amadora (lembro-me de ter lido Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro, sem fazer a mais pálida ideia do que estava a ler), e ouvi discos, long plays, numa aparelhagem que o meu irmão comprou e que estava no aparador da sala de jantar.

E era precisamente aqui que este texto me queria trazer, aos discos que eu ouvi nesse verão de 1977, na parte de casa mobilada da Rua Elias Garcia que tinha, coisa que eu nunca tinha visto, estores que se afastavam da parede para deixar entrar luz protegendo dos raios solares. Que me lembre eu só tinha um disco, o Even In The Quietest Moments, dos Supertramp, que ganhei num concurso da revista Música & Som (a minha única extravagância consumista num tempo de vacas escanzeladas). Os outros meus discos estavam, juntamente com a aparelhagem dos meus pais, em trânsito de contentores de amigos que se dispuseram a trazer coisas da minha casa – os meus pais não puderam trazer mais do que a roupa do corpo. Mas lembro-me , do meu irmão, de ouvir muito três discos dos Kraftwerk, o Autobhan, o Radio Activity e o Trans Europe Express. Lembro-me do disco ‘Juntos e Ao Vivo’ de Caetano Veloso e Chico Buarque. E lembro-me de mais dois discos que ouvi muito na casa dos tais amigos que viviam na Reboleira: o Spanish Train and Other Stories, do Chris de Burgh, e o The Kick Inside, da Kate Bush. Dos discos dos Kraftwerk e do Caetano e Chico ao vivo, nunca me separei, nunca houve um período da minha vida mais ou menos prolongado que não os tenha ouvido. Da Kate Bush também nunca me afastei, e o Wuthering Heights é, ainda e sempre, uma das minhas canções preferidas. O Chris de Burgh e os Supertramp deixei de os ouvir há muitos muitos anos, por nenhuma razão especial, nem sequer o facto de me ter cansado ou de ter avançado. Pura e simplesmente deixei de ouvir.

Mas no fim de semana passado dediquei-me a ouvir, quase em loop, esses três discos: o Spanish Train, o Kick Inside e o Even in The Quietest Moments. E agora escrevi este texto que não é sobre outra coisa que não seja o fim de semana que passei a ouvir os discos que marcaram o verão de 1977, o verão dos meus quinze anos.
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Current Music:Sapna Awasghi - Chaiyya Chaiyya | Powered by Last.fm
Subject:sonho de felicidade
Time:06:16 pm
Estava ali a folhear a edição deste mês da revista Ler e na última página o jornalista Ferreira Fernandes, de quem eu gosto muito de ler as crónicas que há muitos anos vem escrevendo em vários jornais e revistas, na rubrica Ponto Final, responde que a sua ideia de felicidade é “Angola, anos 50”. Na pergunta anterior, o que não está no seu BI e devia estar, tinha respondido que “a naturalidade e a nacionalidade são: Angola, anos 50. Um país que já não existe”.

Percebo perfeitamente o que o FF quer dizer, ideia que, de resto, já lhe tinha lido expressa de variadas maneiras, em muitos dos seus textos. É uma ideia atravessada pelo saudosismo mas que não paralisa nele. A saudade de uma vivência que foi demasiado intensa e que pura e simplesmente desapareceu, pelo que é impossível confrontarmos a memória, a emoção, o sentimento, com alguma coisa que exista fora do nosso espírito, da nossa mente. Chega a ser dolorosa esta impossibilidade. Um pouco (digo eu, que conheço pouco) como as dores que um corredor sente nas suas pernas amputadas. Como amar o fantasma da nossa felicidade.

Quando li este trecho da entrevista do FF, raciocinei, de imediato, e seguindo a mesma linha, que se eu escolhesse a minha ideia de felicidade seria antes Moçambique, Janeiro de 2003. Poucas vezes na vida senti tão intensamente como nessas quase três semanas em que regressei à terra onde nasci e aos lugares da minha infância e pré-adolescência. Acho que já escrevi (mais do que uma vez) aqui sobre isso, mas se me repito é só porque, por muito que pense sobre o assunto e escreva sobre ele, a questão nunca está definitivamente arrumada.

Seja como for, são preciosas para mim as recordações desses dias. A sensação de se chegar a um sítio que não conhecíamos mas ao qual pertencíamos mesmo sem saber e o conhecer. A sensação de que alguma coisa em nós se completou, de que passaram a fazer sentido uma série de emoções que não conseguíamos, antes, definir, nem nomear, que apenas sentíamos como um vazio.

Acho que tive, e para voltar às respostas de FF na Ler, muita sorte, porque saí de Moçambique demasiado novo para de facto ter a noção de que estava a perder alguma coisa. E quando voltei, não foi à procura do que tinha perdido, nem sequer tinha a expectativa de encontrar fosse o que fosse. Mas lembro-me de que nos dias que antecederam a viagem, sonhava recorrentemente com o momento em que ia ver de novo a casa onde tinha passado a infância, em Nampula. E foi por isso que essa viagem foi tão importante: porque encontrei o que não procurava, encontrei o que me faltava sem eu saber que me faltava.


(dedico este texto à IO, do Chuinga; por razões que ela intuirá)
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Current Music:Penguin Cafe Orchestra - Air à Danser | Powered by Last.fm
Subject:os sapatos
Time:12:25 am


Estes sapatos (da Nike) foram feitos para andar, e de facto andaram. Comprei-os há mais dez anos, em 1998, nuns saldos de uma loja da Target, acho eu, no Oakwood Mall de Eau Claire, Wi. Na altura em que os comprei fiquei aflito porque ao chegar a casa descobri que eram made in Indonesia, e na altura nós, os portugueses, boicotávamos os produtos da Indonésia como forma de protesto pela ocupação de Timor-Leste.
Usei-os para dar caminhadas pela cidade de Eau Claire, principalmente pelo parque do Half Moon Lake, que ficava nas traseiras da minha casa. Ou para ir, a pé, aos Domingos de manhã, até ao Grande Avenue Cafe, que ficava na rua onde eu morava mas na extremidade oposta, junto à ponte pedonal sobre o rio Chippewa que dava acesso directo à Barstow Street, na downtown de Eau Claire (que, a propósito, estava completamente deserta aos Domingos, quando eu ia até lá para tirar, das máquinas a moedas, o meu exemplar do Leader Telegram). Ou quando, no final das tardes quentes do mês de Junho, dava grandes passeios numa bicicleta decrépita que me emprestaram, pelos trilhos ao longo do rio.
Depois de mais de dez anos de conforto e 'faithful service', morreram hoje, esta noite, quando vinha para casa depois da natação. Suponho que a sola de borracha não resistiu à humidade toda que se faz sentir. Vou ter saudades vossas, pá.
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Subject:menina da ria
Time:11:37 am
"Um momento inesperado foi quando, já depois de cantar Menino do Rio, Caetano afirmou que tinha gostado muito da palavra 'ria', por ser feminino, e que a ideia de fazer uma canção sobre 'a menina da ria' era irrecusável e ficava desde já prometida. E o inesperado da coisa é que foi tão espontâneo que fiquei convencido que a ideia lhe tinha passado naquele mesmo momento pela cabeça."

Escrevi isto aqui no livejournal no dia 24 de Julho do ano passado, depois de, na véspera, ter assisitido ao concerto do Caetano Veloso na Praça Marquês de Pombal, em Aveiro. Pois bem, um dia destes apareceu uma nova entrada em Obra em Progresso, o blog de Caetano, em que aparece a seguinte 'maluquice' (a expressão é do próprio Caetano):

«Uma moça
De lá do outro lado da poça
Numa aparição transatlântica
Me encheu de elegante alegria
(Ai, Portygal, ovos moles, Aveiro)
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

E uma preta
(Parece que eu estou na Bahia)
Tão Linda quanto ela, dizia
No seu português lusitano:
“Pode o Caetano tirar uma foto?”
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

Arte Nova, um prédio art-nouveau numa margem
Em frente à marina-miragem:
Os barcos na Ria. E depois

Uma taça sobre o pubis glabro, um estudo
Nenhum descalabro se tudo
É sexo sem sexo em nós dois
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria»


Não há grandes indicações acerca do texto, mas aparentemente, pelo sentido do que escreve na entrada, ainda não é canção, falta-lhe a música, e mesmo o texto ainda pode sofrer alterações (nomeadamente de pontuação. Caetano anda muito perturbado com o novo acordo ortográfico, que já vigora no Brasil). O número excessivo de comentários ao texto torna-os praticamente impossíveis de ler, mas uma vista de olhos rápida dá para ver como os comentadores brasileiros reagem a uma letra que tem muitos referentes para Portugal, e que para eles são incompreensíveis. Engraçado.

Aliás o próprio Caetano desafia a interpretação da letra no texto do post, escrevendo que se for preciso explica a origem e o significado da expressão 'do outro lado da poça'. Suponho que seja a tradução para português da expressão inglesa 'the other side of the pond' que se refere à posição geográfica dos EUA face à Europa, particularmente à Inglaterra. Tenho a impressão de que o Saint-Clair já usou essa expressão no Opiário, para se referir ao Brasil e a Portugal.

Na mesma entrada do blog, uns parágrafos a seguir, Caetano Veloso escreve sobre o filme Gomorra, particularmente sobre uma afirmação, no final do filme, de que a Camorra ajudou a financiar as Torres Gémeas de Nova Iorque. E escreve o seguinte: «Informação relevante. Mas me senti mal ao pensar nisso em casa. Quanto ressentimento dos Estados Unidos tem a esquerda européia! Será que é paranóia minha ver aí um desejo de veladamente louvar (ou ao menos justificar) os fanáticos que enfiaram os aviões no World Trade Center?» Não, não é paranóia, e uma das coisas mais incompreensíveis na reacção europeia ao 11 de Setembro foi uma espécie de sentimento de 'eles merecem'. Tal como não compreendo, como refere Caetano, esse ressentimento da esquerda européia em relação aos EUA (aliás, acho que já escrevi sobre isso aqui no livejournal). Ainda bem que não sou o único a reparar e a incomodar-se com isso.
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Subject:que te guardo eu
Time:11:23 pm


Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado.
Dorme, que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer,
Pode descansar,
Que te guardo eu.


- Manuel Bandeira, ACALANTO DE JOHN TALBOT (Lira dos Cinquent'Anos)
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Current Music:Herbie Hancock - Chameleon | Powered by Last.fm
Subject:olhando os van goghs
Time:12:14 am


A tarde esmorece em estertor melancólico. Aborrece-me o livro, enfadam-me os blogs. Recordo ensonado a manhã em que estive sentado num banco a olhar os van goghs. A chuva ameaça, o frio entropece, o tempo é a chama da vela incendiada. Resgata-me à vida, e a tarde estremece, o breve fulgor da planície doirada.


Desejo BOM ANO de 2009 a todos os amigos.
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Subject:who's playin' for keeps
Time:01:17 am
Hoje de manhã, num intervalo de descompressão durante uma aborrecida reunião de trabalho, alguém falou numa canção dos Commitments, um grupo irlandês de música soul que foi criado para um filme musical, com o mesmo nome, do Alan Parker. Por uma daquelas associações que parecem repousar num mecanismo puramente cerebral, lembrei-me antes de uma canção da LeAnn Rimes, também intitulada Commitment, que eu ouvia nas estações de rádio de música country quando, dez anos atrás, dava os meus passeios pelas estradas dos estados do Wisconsin e do Minnesota ao volante do Pontiac Sunfire vermelho. Eu sei que a canção é aquele country muito comercialão de Nashville, a descair para o pimba, mas não há nada como conduzir pelas intermináveis auto-estradas americanas, rodeadas de uma paisagem verde sem limite ou fim visível, em dias solares de primavera ao som dessas canções. Passei o dia com a canção a roer-me a cabeça, ansioso por chegar a casa e poder ouvi-la.

Às oito da noite, preparava-me para sair de casa para ir ao jantar de Natal do meu serviço, quando recebi por sms o mais inesperado convite para jantar. E não era, pelo estilo do texto, um mero convite para jantar, mas sim um convite para jantar. Um príncipe, daqueles que prendem o nosso olhar e escondem o nosso suspiro, convidava um velho sapo para jantar. Inesperado por isso, mas inesperado porque nunca houve o mais pequeno sinal, antes pelo contrário, apesar de haver uns frágeis e muito ambíguos sinais captados pelo radar. Fiquei tão perturbado. Acho que corei, apesar de estar sozinho em casa. Até pensei que o convite me tivesse vindo parar ao telemóvel por engano. Liguei-lhe e a conversa foi um pouco estranha, muito apressada, comigo a desculpar-me com o jantar do serviço.

É nestas alturas que me sinto como no poema de Drummond, totalmente gauche na vida. Escapam-me completamente as subtilezas deste tráfego das intenções mais ou menos insinuadas e dissimuladas. Passei a noite a consumir-me com a dúvida. Era um simples convite para jantar ou era um convite para jantar? Caramba, porque é que alguém que simpática e amigavelmente não parece olhar para mim duas vezes me convida numa noite desta época de azáfamas e correrias, de famílias e compromissos, de centros comerciais e lares aconchegados, a pretexto de solidão e noites frias? Estou a ver mais do que vinha escrito no texto ou estou a ver menos?

«Commitment, Someone who'll go the distance, I need somebody with staying power, Who'll make me go weak in the knees, Commitment, And everything that goes with it, I need honor and love in my life from somebody, Who's playin' for keeps»

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Subject:um dia
Time:12:59 pm


Não sei como um dia sobreviverei à tristeza, ao deserto dos afectos, aos desmantelar das casas, aos móveis despachados a quem faça a misericórdia de ficar com eles. Não sei como um dia pegarei em cada objecto, em cada tesouro daquilo que hoje me parece um cúmulo de inutilidades, com a impossível certeza de que será a derradeira vez que lhe toco. Não sei como um dia haverá saída para a mágoa, o sufoco, a angústia, a desistência.
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Subject:poços de ar
Time:01:17 am


Como se entre o antes e o agora houvesse um buraco imenso e o que me perturba é não conseguir sequer supor o que se passou nesse interim. Confio razoavelmente no meu conhecimento do agora, mas o hiato foi demasiado prolongado, durou vinte e seis anos, um mês e sete dias, e o enorme vazio dessa ausência é irreparável. Por isso pareço conhecer e pareço desconhecer. Conheço com o coração, com a memória, com as histórias que me contam ou que invento. Mas desconheço como nunca conseguimos habitar de novo a casa da infância, como uma coisa que já tive e que perdi, como uma cidade onde passámos um verão longinquo e aonde regressamos para não reconhecer o menor traço ou rua ou quarto.
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Subject:conto com gato
Time:08:26 am
Agradeço muito aos amigos que me têm dado mimos e carinho. Agradeço, por igual, aos que são mais presentes, aos que são mais esparsos, e aos que interromperam um silêncio longo. Agradeço aos que me ligaram e aos que me mandaram mensagens.

Acho que nunca repeti um texto aqui, mas hoje vou pôr um conto que já tinha posto há muito tempo. Dedico-o, naturalmente, AOS AMIGOS.




CONTO COM GATO

O conto começa no momento em que a personagem conclui, ao ver os médicos abandonar a sala de emergência, ficando apenas uma enfermeira a desligar as máquinas, que morreu.
Conclui, além disso, que afinal sempre há vida depois da morte. Ela própria está ali, fora do seu corpo morto. Nem se atreve a olhá-lo, com receio do desgosto. Desgosto por o ver maltratado, descomposto pelo desnorte do enfarte, espetado por agulhas, rasgado por sondas e seringas, a pele, a sua pele, maculada pelo violento esforço dos médicos. Mas desgosto também por vê-lo, ao seu corpo, já fora de si, uma pedra dormindo, aquele corpo que, até há brevíssimos momentos, julgava ser tudo o que tinha, tudo o que poderia verdadeiramente chamar de seu.
Afinal, sempre há vida depois da morte. Resolvido o mistério. Finalmente. É para isto que vivemos uma vida inteira, para descobrir o que acontece nesse preciso instante em que os médicos desistem do milagre da ressuscitação. Vida espiritual, passe o lugar-comum. A personagem tenta sentir-se, mas a única coisa que consegue sentir, é que existe, é que ainda perdura, ainda sente, apesar de não sentir mais nada, desprovidos os sentidos da sua elementar tarefa de nos relacionar com o mundo dos outros.
Como é estar morto?, pergunta-se. Procura em seu redor um cliché: um longo corredor obscurecido, uma luz branca ao fundo, a sua vida contada em imagens rápidas a passar vertiginosamente pelos lados dos seus olhos. Mas nada. Tudo ao seu redor é apenas um incomensurável vazio, uma noite sem estrelas e sem lua, um breu absoluto e aborrecido, um silêncio sem cor. Um oceano de ausências, por onde a personagem sente que vai deslizando como a brisa leve que faz agitar a imperceptível cortina.
E de súbito surge-lhe à frente uma outra alma, materializando-se instantaneamente, como se, por absurdo, uma entidade espiritual se pudesse materializar. Mas seja como for, a personagem, que até há um momento se sentia sozinha num vácuo baço e leitoso, agora sente que está acompanhada, que já não é mais uma alma sozinha. À sua frente, ou atrás de si, ou ao seu redor, que a noção de espaço e lugar é demasiado incerta (tal como a noção de tempo é fluída e esgarçada: ainda agora estava só, e agora já não está), há um outro espírito, vivo como o dela, igual ao seu, ou seja, feito da mesma imaterial substância, mas que a personagem tem a certeza que é um outro espírito, um espírito outro, o espírito de um outro. E, ademais, a personagem reconhece esse outro espírito, identifica-o, é-lhe familiar.
Outro mistério resolvido, e este tão perplexo como o anterior, ainda que se pudesse dizer, mas não se deve, não tão primordial: os animais também têm alma, e a alma dos animais é tão imortal como a das pessoas. A personagem reconhece de imediato nessa outra alma que agora a acompanha, a alma de um gato negro que lhe tinha sido oferecido por ocasião do seu décimo aniversário e que tinha vivido durante os dezassete anos seguintes na sua diária companhia e dependência. Dependência mútua, naturalmente. Um gato de eloquentes silêncios e amanheceres estridentes e mimados, grande e gordo como o afecto que a personagem sempre lhe dedicou, em troca de uma paixão sobrevivencial que o bicho tentava, por razões de dignidade, esconder sob uma aparente e afectada indiferença
Terá passado pelo espírito da personagem, pelo espírito do seu espírito, digamos, que havia na situação alguma estranheza. Afinal, não se cruzara com nenhum dos espíritos de todos aqueles a quem amou e que a antecederam na morte: parentes, amantes, amigos predilectos. Toda essa constelação de afectos que formam um rosário de vida, um rosário peculiar, que vai crescendo à medida que se vai desfiando. Mas se lhe passou pelo espírito essa estranheza, foi passagem rápida e fugaz, porque, sendo na morte, e como já se viu, o tempo tão fluído, no momento imediato já a personagem se compraz na companhia feliz da alma do gato. Na verdade, o primeiro ser a quem verdadeiramente amou. Ou o único que amou ainda antes de saber que havia um conceito definidor do sentimento amor, e, é claro, muito antes de perceber o significado e o alcance desse conceito.
Nesta altura do conto impõe-se uma reviravolta estilística, trocando a narrativa por um diálogo vivo e comovente entre duas almas que há muito não se trocavam. Na verdade, é até a primeira vez que estas duas almas dialogam de forma tão directa. Nunca, em vida de ambas, à personagem passou pelo espírito conversar verdadeiramente com o animal, nesse sentido de reciprocidade que o diálogo sempre contém, apesar de constantemente falar, não com ele, mas para ele. Ao gato, se lhe passou alguma vez pelo espírito conversar com a personagem sua dona, em algo mais que aflitivos miados e ronronares dolentes, não se sabe. Por isso, a morte, pensa a personagem, lhe traz outra novidade, esta de poder conversar com os bichos, ou, em todo o caso, com a alma do seu adorado e saudoso gato.
Uma conversa um pouco bizarra, no entanto, já que um fala sem realmente falar, e o outro ouve sem chegar a ouvir, como se o simples facto de estarem assim juntas, pairando uma na periferia da outra, permitisse que os pensamentos fluíssem sem a intermediação das palavras, ou, com rigor, das palavras ditas, faladas, já que, até prova em contrário, sempre o pensamento se há-de socorrer das palavras, mais não seja para chegar ao conto. Mas o diálogo corre, e corre bem: saudações, protestos de saudades, desfiar de recordações, a família, a casa, as brincadeiras, como foi a vida depois da separação, e o que ela custou, a ambos sabe-se agora, o que ficou por fazer, enfim, todos esses inventários inevitáveis entre duas almas amigas e por tanto tempo apartadas.
Se na eternidade houver tarde, já esta está descaindo para o seu termo quando o espírito do gato compõe uma expressão mais séria e comunica à personagem que, na realidade, na realidade da morte como é óbvio, tem estado à sua espera. Sabias que eu vinha, então?, pergunta um pouco perplexa a personagem. Não só sabia que vinhas como te aguardo ansiosamente. E começa o gato de explicar, não sem algum embaraço e hesitação, que na verdade os dois espíritos são apenas um, unificados pelo laço forte do amor que os uniu em vida. Mas é complicado, sustém o gato, porque sendo um espírito na morte, prosseguiremos sendo dois em vida. Em vida, espanta-se a personagem, pressentindo um sobressalto que há-de vir, e sendo o tempo fluído como já se viu, transtorna-se o momento de um momento para o outro.
Não te percebo, diz, sem todavia falar, a alma da personagem. Somos um espírito na morte e dois na vida. O que significa? Que tu me amaste tanto, e que eu me deixei amar tanto por ti, amarrou-se de tal forma a minha dolência à tua dedicação, e a tua quietude à minha argúcia, que, como disse, somos um. Tenho estado à tua espera porque é esse o meu destino, aguardar que a tua alma se cole e funda na minha. E então, retorque a personagem, faremos companhia um ao outro para sempre, parece-me bem. Mas há um problema, enruga-se o espírito do gato com ar grave. Tu és uma alma humana, cumpriste o teu destino, viveste, foste feliz e fizeste a felicidade de outros. Cumpriste-te. Aqui, o espírito da personagem não evitou o esboço de um sorriso orgulhoso. Sim, tens razão para essa pequena vaidade. Mas cumprindo-te, cumpriste também a tua missão. Fechaste o ciclo da tua vida. Ora, eu sou a alma de um gato, e como sabes um gato tem sete vidas, das quais apenas cumpri quatro. Que dizes, era o sobressalto há pouco pressentido a surpreender a personagem. Isso em que pensas. Como somos apenas um espírito na morte, terás de ficar aqui à minha espera enquanto eu regresso para viver uma nova vida.

O conto estaria já terminado se não fosse abrir-se a porta de serviço e o ar gelado da noite sacudir o peso da tristeza que se abatia sobre a enfermeira. Terminado mais um turno, e enquanto atravessa o parque de estacionamento, o nebuloso alvor da madrugada retardando a manhã de Inverno, a enfermeira pensa em como os anos de profissão não atenuam a sensação de vazio de cada vez que alguém morre, subitamente, assim, na sala de emergência. Tão jovem, uma vida por cumprir, um destino riscado do mapa dos vivos, não é justo, pensa ela, sombria e cansada. Acciona o alarme da porta do automóvel, e prepara-se para entrar no carro quando ouve uns gemidos vindos do contentor de lixo próximo. Só me faltava mais esta, o que será. No cimo do monte de lixo, agita-se um saco plástico atado com um nó. Estão vivos, que crueldade. Abre o saco, desatando o nó e afastando as asas. Uma ninhada de gatinhos recém-nascidos, todos mortos à excepção de um, todo negro, que se debate aflito contra a asfixia do saco fechado e do peso morto dos irmãos. A enfermeira retira-o do monte ainda quente de pelo. Uma vida por uma vida, diz em voz alta, enquanto, enrolando o gatinho frágil na dobra do casaco, se dirige apressadamente para o automóvel.
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Subject:jarbas
Time:11:50 pm
O Jarbinhas morreu hoje. Ao fim de, quantos?, doze? anos de convívio, o gatinho, que estava doente há uns dois meses, ficou no veterinário para levar a injecção fatal. Há um mês foi operado, numa tentativa de o recuperar, mas nestes últimos dias estava tão prostrado, sem comer, sem ir ao caixote, que achámos todos que não valia a pena prolongar a agonia do bicho. E a nossa, naturalmente. Claro que perante o fogo que arde no nosso olhar por não podermos simplesmente olhar para ele, ou com a ausência física da seda do seu pelo na palma da nossa mão, pensando nisso vacilamos e pensamos se não teria valido a pena gozar mais um mês, uma semana, um dia que fosse.
Há aquela canção do António Variações, dedicada à mãe, Deolinda de Jesus, em que o Variações diz que a mãe dele era a melhor, porque era a dele. E eu penso o mesmo em relação ao meu gato: era o gato mais bonito, mais amigável, mais cool e mais mimalho, mais manso e doce e suave, de todos os que conheci. Reconheço o exagero de dizer estas coisas em relação a um animal, compará-lo com a mãe do Variações, até é ofensivo, e não quero ser desrespeitador, mas só me lembrei da analogia porque concerteza toda a gente acha que o seu animal é o mais bonito e o melhor de todos. É como as crianças, quando os pais e os avós nos contam, babados, as gracinhas das crianças como se fossem as únicas a fazer bolhinhas de baba com a boca.
O Jarbas começou por ser Leonardo. Quem mo deu chamou-o Leonardo, mas eu não aprecio muito animais com nome de gente, sobretudo se conheço alguém com esse nome. De modo que mal chegou a casa (ia escrever ‘cá a casa’, mas não a esta, onde escrevo) passou logo a ser Leo, como os leões, como o Sporting, como o leãozinho do Caetano Veloso. Mas rapidamente evoluiu para Jarbas, diminutivo Jarbinhas. Também foi, nas fases mais gay, Pombinha (era a Conceição que o chamava Pombinha, agarrava-o de encontro ao peito e dizia ‘ai Pombinha do meu coração’, e o gato fazia um ar de paciente sofrimento) e mesmo Barbosinha. Desde há uns dois anos, quando começou a ficar velho, passou a ser Jú-jú (diminutivo Jú-juzinho), mas esse era um nome de casa, que não usávamos à frente de pessoas de fora, só entre nós. Que graça, só agora que estou a escrever isto (hoje, que o gatinho morreu) é que me lembrei que esta sucessão de nomes tem tudo a ver com o poema do T.S. Elliot, The Naming of Cats, o poema que abre o Ol’ Possum Book of Pratical Cats.
Mesmo nestes últimos dias, em que o gatinho passava os dias a dormir, mal se mexia, mesmo assim era um prazer incomparável olhar para ele. Não tenho a certeza mas acho que foi o Eugénio de Andrade que disse uma vez que o gato foi criado para o homem poder sentir o prazer de afagar o tigre. E acho que era isso mesmo, há sempre nos gatos uma dimensão que nos escapa, qualquer coisa que não compreendemos (no poema do Elliot, era o nome que só o gato conhecia, aquele que nos era vedado), uma indomabilidade ancestral, selvagem, primordial, de uma beleza tão radical e extrema que é irresistível afagá-lo mesmo quando o nosso instinto nos diz que há nele essa dimensão de perigo.
O gato é sempre bonito, aliás o gato é um animal lindíssimo que depois de morto fica feio e até um pouco repelente (felizmente não tive de ver o meu gatinho morto), como se a vida fosse a única razão da sua beleza. Mas dizia que o gato é sempre bonito, sempre que olhamos para ele, esteja ele a fazer o que quer que seja, o gato é lindo e fotogénico. Eu estava sempre a tirar-lhe fotografias com o telemóvel, porque olhava para ele e parecia-me tão bonito que aquela beleza tinha de ficar registada. A última fotografia que lhe tirei foi já num destes últimos dias, quando ele só dormia. Eu estava sentado no maple, ele a dormir no meio das almofadas do sofá, a ponta das orelhas a espreitar atrás do torso branco, e eu olhei para ele e não vi um traço de doença, de sofrimento, caraças, este sacana até agonizante é tão bonito, apetece comê-lo com os olhos, olhar para ele é sempre uma experiência de prazer e êxtase, saquei do telemóvel e tirei uma fotografia, que veio a ser a última.
Caramba, um bicho é um bicho e um homem é um homem, e eu não me esqueço disso, e sei que o meu gato, que ainda por cima veio para casa para escapar ao afogamento da ninhada, não valia uma ponta do sofrimento do mundo. Mas era um gato lindo e bonito, e eu espero que tenha sido tão feliz como a felicidade e o prazer que sempre nos deu, aliás espero que ele tenha sido tão feliz como esta tristeza que sinto por não poder olhar outra vez para ele, fazer-lhe uma festa no dorso ou na cabeça, ir meter-me com ele como quando estava a apanhar sol em cima da máquina de lavar, na varanda, e reagia com aquela mistura de languidez (um gato nunca se furta a um afago) e aborrecimento por estar a ser incomodado.
Oh, escrevo para não chorar. Para reter alguma coisa. Para o gato não se transformar tão cedo em memória.
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Subject:o gato
Time:11:33 am


Acho que foi o animal que mais amei em toda a minha vida, mesmo contando com os cães que habitaram a minha infância. Deu-nos 12 anos de prazer, que é isso que os gatos dão aos homens, prazer puro.
Hoje chegou ao fim. E é só a angústia triste do vazio que me inunda os olhos e as mãos.
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Subject:o circo de três pistas
Time:05:45 pm
Provavelmente é um sentimento comum a muitas pessoas, mas durante muito tempo vivi com a sensação de que a minha vida interior era uma espécie de circo de três pistas (numa das pistas trapezistas suicidas, na outra as feras indomáveis e na terceira os palhaços tristes e alucinados), um desastre caótico à espera de acontecer, mantido na ordem, e sob uma aparência de absoluta e rigorosa imperturbabilidade, graças a uma grande capacidade de auto-controlo.

Nessa altura, achava que o pior que me poderia vir a acontecer era chegar o dia em que essa minha capacidade de gerir com mão de ferro (o chicote do domador do circo) o tumulto abrandasse e as coisas começassem a escapar ao meu controlo, primeiro de forma quase imperceptível, uma falhazinha aqui, um desmoronar acolá, depois um engarrafamento monumental, a seguir um comboio que descarrila, uma ponte que desaba, e finalmente dois aviões que colidem em pleno ar sobre uma zona residencial porque o controlador aéreo teve um AVC e caiu morto sobre a consola.

Com o tempo e a velhice fui-me esquecendo desta (fraca) teoria, e deixei de me preocupar com o futuro, talvez porque o próprio futuro se estivesse a aproximar a uma velocidade vertiginosa. De repente lembrei-me dela porque recentemente comecei a ter a impressão de que está finalmente a chegar o tempo em que eu já não consigo controlar as coisas e elas começam a ganhar vida própria, com tendência para a entropia.

Neste último fim de semana, porque tinha a cabeça muito ocupada, com vários assuntos a preocuparem-me razoavelmente, e ainda estava sob o efeito anestesiante das férias, comecei nitidamente a tropeçar nos meus próprios pés. Às tantas, e apesar de ter estado sempre sol, foi como se um relâmpago tivesse desabado mesmo em cima da minha cabeça, e um bola de fogo me tivesse entrado pelo alto da chaminé, percorrido os corredores e as salas e os quartos, e finalmente desaparecido por uma das janelas dos fundos. O milagre é que não provocou estragos, não houve danos nenhuns, mas tenho a impressão de que isso aconteceu por mero acaso, porque tive sorte.

Assim tudo parece estar normal. Mas houve pelo menos uma pessoa que estranhou esse enorme clarão que perpassou pelas minhas janelas, e até me telefonou a perguntar se tinha acontecido alguma coisa. De facto parece estar tudo bem, mas permanece a sensação um pouco inquietante de que um dos leões do circo aproveitou a confusão e fugiu, continuando à solta na região de Rio Maior.
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Current Music:The Bad Plus - Dirty Blonde | Powered by Last.fm
Subject:da crueldade
Time:12:08 am
Abomino a crueldade, que é uma das formas mais abjectas de cobardia. A crueldade nasce sempre de um enraizado sentimento de inferioridade, que explode em violência quando sentimos que o outro está enfranquecido e portanto à nossa completa mercê. Em muitos casos essa violência é física, como quando alguém está caído no chão e todos aproveitam para ir lá molhar a sopa, geralmente ao pontapé porque é a melhor forma de evitar a proximidade. Mas igualmente cobarde (se calhar mais, porque até tem horror ao contacto físico) é a crueldade que se infringe através da humilhação. Quando sentimos que alguém é frágil, de uma fragilidade que a torna ridícula aos nossos olhos, sobe-nos o fel à boca e divertimo-nos, ou pseudo-divertimo-nos porque de uma macaqueação se trata, a humilhar e a insultar o outro. O anonimato, que tantas vezes vem agarrado, apenas torna a cobardia mais patética e miserável, mas não está na sua essência. O que define a cobardia é mesmo o abuso da posição dominante, o maltratar o outro porque nos sentimos mais fortes do que ele e assim nos vingamos da raiva de o julgarmos melhor do que nós.
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Subject:fui à vida
Time:09:17 am
escrevi-te dois ou três poemas de ódio (depois de já te ter escrito não me lembro quantos poemas de amor) e depois deixei-te parado, fui à vida, como quem arranca sem pressas quando muda a luz do semáforo. hoje ainda sinto ternura por ti. mas ficas já a saber que não tornarei a percorrer a via sacra da exaustão, apenas porque o meu modo de me perder era ver-te feliz. gosto de ti, sim, mas apenas enquanto estás, imóvel, parado, nesse lugar distante.
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[icon] um voo cego a nada
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