O Tour de France, cuja edição de 2009 começou no Sábado passado, é a prova de ciclismo mais popular e importante em todo o mundo. Para mim, o Tour de France é o Eddye Merckx, o Bernard Hinault, o Miguel Indurain. É o Joaquim Agostinho. São as tardes de domingo a ver a última etapa, nas ruas de uma Paris que dificilmente parecia mais gloriosa e monumental.
Mas é sobretudo uma canção dos Kraftwerk: Tour de France Tour de France.
É impossível ficar indiferente no momento da morte de Michael Jackson. Para o melhor e para o pior, pelas melhores e pelas piores razões, ele marcou o nosso tempo. Em relação à personagem mediática, ao media monster freak (monstro em todos os sentidos da palavra), há pouco a dizer. Lembro-me de uma entrada bem velhinha do innersmile (do dia 21 de Fevereiro de 2003) em que disse tudo o que, para mim, faz sentido dizer sobre o assunto. Seja como for, parece-me de assinalar a forma como a notícia da sua morte tomou conta desse magma ruidoso em que vivemos, que é o espaçõ mediático, o que diz menos da sua importância enquanto músico do que sobre a sua qualidade de pop icon, e diz mais ainda acerca do modo como é feito e se alimenta esse espaço mediático.
Do ponto de vista musical, é impossível não prestar tributo ao criador de algumas canções pop perfeitas. É certo que há anos que o Michael Jackson tinha perdido relevância musical, mas de algum modo ele foi o precursor, o primeiro, de um estilo de pop que de alguma maneira ainda é a que domina. E do ponto de vista da pop, e da indústria da pop, deve-se a Michael Jackson pelo menos um momento definidor: há de facto um tempo antes e um tempo depois de 'Thriller', o video-clip (realizado por um enorme realizador, John Landis) que transformou a pop num fenómeno visual tanto quanto musical.
Quando vi a notícia, no twitter, e fui à procura dela, não me senti muito triste. Mas passado um bocado, a fazer zapping pelas televisões e a navegar pelos sites, dei por mim a cantarolar, de cabeça, aquela que é, se não a minha canção preferida, pelo menos a que me vem automaticamente à cabeça quando me lembro do Michael Jackson. Fui ouvir a canção e fiquei triste. Nem consigo bem racionalizar porquê, nem interessa.
You Are Not Alone é uma balada já tardia na carreira do Michael Jackson, do álbum HiStory, creio que da autoria do R. Kelly. Estará longe das suas canções de maior sucesso, e, na verdade, este que foi o seu penúltimo disco, é já claramente um disco da decadência criativa do cantor. O clip é um bocado weird, registando a participação da Lisa Marie Presley, filha do Elvis, e que ao tempo era casada com Michael. Um casamento, claro, demasiado bom para ser verdade, a filha do king of rock'n'roll casada com o king of pop! Como disse, não sei se é a minha canção preferida do Michael Jackson, mas é aquela que automaticamente associo ao Michael. E, além do mais, parece-me uma canção tão apropriada para homenagear o Michael Jackson.
Another day has gone I'm still all alone How could this be You're not here with me You never said goodbye Someone tell me why Did you have to go And leave my world so cold
Everyday I sit and ask myself How did love slip away Something whispers in my ear and says That you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
But you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart But you are not alone
Just the other night I thought I heard you cry Asking me to come And hold you in my arms I can hear your prayers Your burdens I will bear But first I need your hand Then forever can begin
Everyday I sit and ask myself How did love slip away Something whispers in my ear and says That you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart For you are not alone
Whisper three words and I'll come runnin' And girl you know that I'll be there I'll be there
You are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart
For you are not alone For I am here with you Though you're far away I am here to stay
For you are not alone For I am here with you Though we're far apart You're always in my heart
aos poucos, vão-se esfumando as fotografias no branco das pálpebras
a agulha de um vulcão, o empedrado das ruas, a tranquila superfície das águas profundas, um rosto de fugazes olhos negros, a brandura em desalinho das clavículas
mas quando a face repousa na palma da mão, são ainda las palabras que dão música à insónia
quando uma tarde azul e luminosa, e nós estamos no chiado ou no bairro alto e chegamos a uma varanda ou a uma janela, atrás de nós os lençóis brancos da cama por fazer, e à nossa frente, do outro lado do vale que é a baixa, as colinas de Lisboa, claras e misteriosas, caóticas e rigorosas, brancas à procura de todas as cores, iluminadas pelo sol que começa a descer para lá do bugio e bate-lhes de chapa, e a respiração suspende-se por um momento, enquanto recuperamos de tanta luz e tanta beleza, a luz e a beleza de todos os amores que tivemos e mais daquele que ainda dorme sobre os lençóis desfeitos. estão a ver como é? é assim o disco da carminho.
(...) Na religião o que há de real, essencial, necessário e eterno é o cerimonial e a liturgia - e que há de artificial, de suplementar, de dispensável, de transitório, é a teologia e a moral.
- Eça de Queirós, in FRADIQUE MENDES (Memórias e Notas)
Já aqui devo ter falado do primeiro disco dos Secos & Molhados, o grupo que trouxe ao mundo o Ney Matogrosso, editado em 1973. Esse disco encantou-me há mais de 30 anos, quando o conheci e ouvi intensamente (o meu irmão tinha o LP), e continua a encantar-me sempre. Acho que não houve altura da minha vida em que eu tenha estado muito longe dele.
Para além do seu papel revelador e mesmo pioneiro (a vários títulos), trata-se de uma formidável colecção de canções, clássicos absolutos, canções de uma modernidade a toda a prova, que fazem a ponte entre a capacidade da MPB de explorar o sentimento de ser brasileiro e a explosão de energia emocional do rock. Basta referir, para ilustrar a resistência ao desgaste destas canções e o seu classicismo, a Rosa de Hiroshima que é uma canção que marcou a carreira toda do Ney. Mas não é, pelo menos na minha opinião, a melhor canção do disco, no sentido de que se destaca das restantes. Não porque haja outras melhores, mas porque são todas verdadeiramente extraordinárias, e não há pinga de exagero nisto que digo.
Como disse, não houve altura da minha vida que este disco tenha parado de me encantar, e acho que já passei por todas as canções, ou seja já houve fases da minha vida, da minha vida emocional, que invocaram várias, se não todas, as canções do disco. Por estes dias tenho andado com uma delas a tocar quase em loop no meu player mental, a Rondó do Capitão, cuja letra é um poema de Manuel Bandeira (pergunto-me se foi com esta canção que pela primeira vez contactei com a poesia de Bandeira, imensa e grandiosa). Talvez por me transmitir um sentimento de magoada esperança, talvez por ser quase uma canção de embalar e eu andar muito precisado que me ninem.
Como não encontrei nenhum clip da canção no YouTube, fiz um do-it-yourself muito elementar só para a poder pôr aqui. Fica também a transcrição do poemazinho de Manuel Bandeira. E se alguém quiser aproveitar a oportunidade de deitar o dente e os ouvidos a este disco extraordinário, aí fica o link do blog Um Que Tenha, que é o melhor serviço público para quem é amante da música e da cultura brasileira.
Bão Balalão Senhor Capitão Tirai este peso Do meu coração. Não é de tristeza, Não é de aflição. É só de esperança, Senhor capitão! A leve esperança, A aérea esperança... Aérea, pois não! - Peso mais pesado Não existe não Ah,livrai-me dele, Senhor capitão!
No escuro do cérebro com um único pássaro acordado e a cantar para mim, aqui, onde não tenho nada para trocar pelo corpo sob esta dor e outra dor ainda, até onde as mães acabam e nós principiamos ou talvez antes (e porque não muito antes?) apesar de tudo aqui ou só no pássaro ou em seu excesso de cantar-se entre as sombras do cérebro – subitamente encontro laranjas maduras, o meu primeiro relógio, as madrugadas que estavam no caminho da praia, e Octávia a sair da minha adolescência, com Alzira atrás, o rio Incomati depois da escola, depois dos meus amigos negros Zefa, Fabião, onde já não deve estar Vicente nem sua perna cortada nem sua reforma ainda mais escassa.
E há fileiras de noites e são intensas e abrem apenas umas para as outras.
Yet each man kills the thing he loves By each let this be heard, Some do it with a bitter look, Some with a flattering word, The coward does it with a kiss, The brave man with a sword!
Some kill their love when they are young, And some when they are old; Some strangle with the hands of Lust, Some with the hands of Gold: The kindest use a knife, because The dead so soon grow cold.
Some love too little, some too long, Some sell, and others buy; Some do the deed with many tears, And some without a sigh: For each man kills the thing he loves, Yet each man does not die.
- Oscar Wilde, in Ballad of Reading Goal (excerto)
Descobri esta pérola no YouTube há muitos meses atrás, quando andava à procura de clips de canções da Carly Simon (itsy-bitsy-spider), e desde então tenho-a ali bem guardadinha à espera que chegasse o seu dia. É uma canção lindíssima, de uma banda sonora de um filme de James Bond, de que os Radiohead fazem uma versão galática. Pois bem, chegou hoje o dia de a pôr aqui, e toda ela dedicada a alguém que mesmo quando anda mais longe está sempre cá dentro. E como nestas coisas nunca há melhor maneira de o dizer do que através de uma canção pop, é ler com atenção a letrinha da canção porque, parece milagre!, vem lá tudo escrito. Pronto, Gonza, escusas de me fazer mais tefunemas a mandar-me dar-te os parabéns e a mandares boquitas de que eu não te dei nada nos teus anos. Que arrelia.
Nobody does it better Makes me feel sad for the rest Nobody does it half as good as you Baby, you're the best
I wasn't lookin' but somehow you found me It tried to hide from your love light But like heaven above me The spy who loved me Is keepin' all my secrets safe tonight
And nobody does it better Though sometimes I wish someone could Nobody does it quite the way you do Why'd you have to be so good?
The way that you hold me Whenever you hold me There's some kind of magic inside you That keeps me from runnin' But just keep it comin' How'd you learn to do the things you do?
Oh, and nobody does it better Makes me feel sad for the rest Nobody does it half as good as you Baby, baby, darlin', you're the best
Baby you're the best Darlin', you're the best Baby you're the best
Comecei a ler, e tenciono levar para férias, Beautiful Shadow, a biografia de Patricia Highsmith escrita por Andrew Wilson. Ainda não passei da introdução, mas cito já este pedacinho, a propósito de uma entrevista feita por Janet Watts para o jornal The Guardian em 1990, quando a escritora tinha quase 70 anos:
”When Watts quizzed her about the inspiration for Carol and her relashionship with women, Highsmith responded, ‘I don’t want to say. People’s emotional life… I think it’s all accidental, and not planned. It is very hard to talk about.”
~ Continuo a ouvir obsessivamente discos antigos do Milton Nascimento. Adoro esta canção, Coração Civil, e decidi fazer um clipzinho com fotos que tirei nas últimas férias, em Porto Seguro. Aí fica a fazer companhia, enquanto eu vou ali uma semana à Guatemala passear um bocado, e já volto. Hasta.
Quero a utopia, quero tudo e mais Quero a felicidade nos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade, quero o vinho e o pão Quero ser amizade, quero amor, prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder, eu quero ver São José da Costa Rica, coração civil Me inspire no meu sonho de amor Brasil Se o poeta é o que sonha o que vai ser real Bom sonhar coisas boas que o homem faz E esperar pelos frutos no quintal Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ? Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida Eu vou viver bem melhor Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar
Há já alguns dias engripado e febril. Esta madrugada, acordei por volta das quatro, depois de um sono inquieto por causa da febre. Levantei-me para ir tomar um anti-pirético. Pouco depois, não sei a que horas, tornei a acordar encharcado em suor. Mudei de roupa e tornei a adormecer. Acordei perto das onze da manhã, ainda húmido de ter suado tanto, mas com a cabeça fresca e leve. Acordei directamente de um sonho, julgo que vindo dos anos oitenta: uma manhã de sol, a esquina no bairro, lá em cima, ao pé da antiga papelaria Sabiá, um saco de jornais, e esta música a tocar em loop.
Dorme, meu filhinho, Dorme sossegado. Dorme, que a teu lado Cantarei baixinho. O dia não tarda... Vai amanhecer: Como é frio o ar! O anjinho da guarda Que o Senhor te deu, Pode adormecer, Pode descansar, Que te guardo eu.
- Manuel Bandeira, ACALANTO DE JOHN TALBOT (Lira dos Cinquent'Anos)
Como acontece com as obras de todos os grandes compositores (com a obra de todos os grandes artistas), também com os grandes criadores da música popular estamos sempre a descobrir novas canções ou, ainda mais subtil, novas emoções nas canções que sempre conhecemos.
Mesmo quando temos a pretensão, e eu não a tenho, longe disso, de conhecer razoavelmente a obra de António Carlos Jobim, estamos sempre a ser surpreendidos, as descobertas e as aventuras são inesgotáveis.
Tenho estado a ouvir muito um cd com uma gravação ao vivo de Caetano Veloso e Roberto Carlos, em homenagem aos 50 anos da bossa nova, a interpretarem canções de Tom Jobim. Eu tenho uma paixão avassaladora pelo Caetano e gosto muito do Roberto, que é um grande cantor, mesmo quando anda ali no fio que separa a música popular da música brega (ou mesmo pimba). Uma das coisas que aprendi com a música popular brasileira foi precisamente que parte da sua riqueza também vem da sua capacidade de se misturar, da intercomunicabilidade das coisas e dos nomes que à partida pareciam estar em pontos antagónicos. Ouvir sem preconceito e não ter medo de gostar. Além disso, a amizade entre Caetano e Roberto vem de longe, e uma das mais belas canções que Caetano canta (nomeadamente no álbum Circuladô Vivo), Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, foi escrita em sua homenagem por Roberto, quando Caetano estava exilado em Londres, no início dos anos 70.
Quanto ao cd, ele está mais ou menos dividido a meio, primeiro Caetano depois Roberto, e a abrir e fechar dois pares de duetos. Naturalmente prefiro a metade de Caetano (com acompanhamento onde pontifica o piano de Daniel Jobim), onde se descobre a faceta de crooner de Caetano, mas um crooner mais lírico do que sentimental, sempre à procura dos lugares que as canções podem ocupar na sua voz e sobretudo no seu canto.
Mas foi na metade Roberto do disco que desta vez fui apanhado de surpresa. A certa altura ouve-se a voz do próprio Tom Jobim a cantar um dos seus maiores êxitos, Lígia, extraído precisamente de um dos especiais televisivos de Roberto Carlos. Já tinha ouvido esta canção dezenas de vezes, mesmo neste cd, que já ando a ouvir no carro há uns dias. Mas de repente há qualquer coisa que nos toca, que nos agarra e arrasta para dentro da canção. E se a música de Tom Jobim é sempre mágica e arrebatadora, desta vez o que me conquistou foram as palavras. Assim:
Eu nunca sonhei com você Nunca fui ao cinema Não gosto de samba não vou a Ipanema Não gosto de chuva nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano O seu nome não sei Esqueci no piano as bobagens de amor Que eu iria dizer, não… Lígia Lígia
Eu nunca quis tê-la ao meu lado Num fim de semana Um chope gelado em Copacabana Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei Não passou de ilusão, o seu nome rasguei Fiz um samba canção das mentiras de amor Que aprendi com você É… Lígia Lígia
A letra continua mas o essencial está dito. Um admirável poema de Chico Buarque, a que a música de Tom dá um tom (trocadilho semi-intencional) quase impressionista, e que faz derramar sobre o Rio de Janeiro, sobre a memória verdadeira ou inventada que guardamos do Rio, um manto melancólico, como a luz cinzenta e húmida das ruas quando mal acabou de chover.
LET us go then, you and I, When the evening is spread out against the sky Like a patient etherised upon a table; Let us go, through certain half-deserted streets, The muttering retreats Of restless nights in one-night cheap hotels And sawdust restaurants with oyster-shells
In the room the women come and go Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Do I dare Disturb the universe? In a minute there is time For decisions and revisions which a minute will reverse.
Have known the evenings, mornings, afternoons, I have measured out my life with coffee spoons
I grow old... I grow old... I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach? I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach. I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
We have lingered in the chambers of the sea By sea-girls wreathed with seaweed red and brown Till human voices wake us, and we drown.
Lembrei-me, a propósito de uma das obras de Juan Muñoz, de uma das passagens do poema The Love Song of J. Alfred Pufrock, que foi um dos primeiros, talvez mesmo o primeiro, poema que aprendi do T. S. Eliot. De resto, uma das obras em exposição cita directamente um poema de Eliot, não este mas talvez o seu mais famoso poema, The Wasteland. Como tinha feito, com o telemóvel, umas fotos e uns clips na exposição, lembrei-me de os juntar a excertos do poema de Eliot, que é demasiado grande para o transcrever na sua totalidade. No entanto se alguém tiver curiosidade, o texto integral do poema está neste link: bartleby.com. Há pelo menos uma versão em português, em edição bilingue, publicada pela Assírio & Alvim, com tradução de João Almeida Flor. Na net encontram-se algumas versões em português do poema, todas elas, pelo que me pareceu, em tradução brasileira.
A tarde esmorece em estertor melancólico. Aborrece-me o livro, enfadam-me os blogs. Recordo ensonado a manhã em que estive sentado num banco a olhar os van goghs. A chuva ameaça, o frio entropece, o tempo é a chama da vela incendiada. Resgata-me à vida, e a tarde estremece, o breve fulgor da planície doirada.
É um dos fados clássicos do repertório da Amália, da autoria do grande Max. E esta versão, que vai aí no clip sem imagens, só com som, pela voz belíssima (e tão desprovida dos artifícios e rodriguinhos fadisteiros que hoje estão na moda) do António Zambujo, é, neste momento, a minha versão preferida. Ah, fadista!
Claro que eu, de quem gosto, confesso-o não só às paredes como até aqui, ao ecrã do livejournal. É do meu rapaz Saint-Clair, que faz hoje anos. Baci, meu querido, muitos parabéns e muitas felicidades. E que o tempo nos aproxime sempre um do outro.
Das várias vidas vividas pela Eartha Kitt (pois, nove, como os gatos), esta é a de que me lembro primeiro: Disco Diva. Havia uma carga de sensualidade na Eartha Kitt que a tornava uma diva, e que lhe dava esse estatuto junto do público gay. Hoje podemos olhar para isto e ver uma certa artificialidade, até um certo kitsch, mas isso é só porque hoje os nossos olhos estão habituados, e em muitos casos estão mesmo exaustos, de ver imagens com representações da sexualidade. Mas nem sempre foi assim, e até há muito pouco tempo não era assim. A Eartha Kitt, com o seu ar felino, os grrr que ela metia em muitas canções, com o corpo franzino e a cara feia, com as poses de sex-appeal e as coreografias com rapaziada de corpinho à mostra, representava a margem de transgressão possível. Era uma star. Era de um tempo em que as estrelas eram glamourosas e inacessíveis (não havia o MySpace nem o Facebook nem o YouTube) e isso fazia com que pudéssemos projectar nelas tudo o que as vidas cinzentas e cabisbaixas não nos deixavam viver. Era, como na famosa citação de Oscar Wilde, uma questão de viver na sarjeta mas poder olhar as estrelas.
Hoje de manhã, num intervalo de descompressão durante uma aborrecida reunião de trabalho, alguém falou numa canção dos Commitments, um grupo irlandês de música soul que foi criado para um filme musical, com o mesmo nome, do Alan Parker. Por uma daquelas associações que parecem repousar num mecanismo puramente cerebral, lembrei-me antes de uma canção da LeAnn Rimes, também intitulada Commitment, que eu ouvia nas estações de rádio de música country quando, dez anos atrás, dava os meus passeios pelas estradas dos estados do Wisconsin e do Minnesota ao volante do Pontiac Sunfire vermelho. Eu sei que a canção é aquele country muito comercialão de Nashville, a descair para o pimba, mas não há nada como conduzir pelas intermináveis auto-estradas americanas, rodeadas de uma paisagem verde sem limite ou fim visível, em dias solares de primavera ao som dessas canções. Passei o dia com a canção a roer-me a cabeça, ansioso por chegar a casa e poder ouvi-la.
Às oito da noite, preparava-me para sair de casa para ir ao jantar de Natal do meu serviço, quando recebi por sms o mais inesperado convite para jantar. E não era, pelo estilo do texto, um mero convite para jantar, mas sim um convite para jantar. Um príncipe, daqueles que prendem o nosso olhar e escondem o nosso suspiro, convidava um velho sapo para jantar. Inesperado por isso, mas inesperado porque nunca houve o mais pequeno sinal, antes pelo contrário, apesar de haver uns frágeis e muito ambíguos sinais captados pelo radar. Fiquei tão perturbado. Acho que corei, apesar de estar sozinho em casa. Até pensei que o convite me tivesse vindo parar ao telemóvel por engano. Liguei-lhe e a conversa foi um pouco estranha, muito apressada, comigo a desculpar-me com o jantar do serviço.
É nestas alturas que me sinto como no poema de Drummond, totalmente gauche na vida. Escapam-me completamente as subtilezas deste tráfego das intenções mais ou menos insinuadas e dissimuladas. Passei a noite a consumir-me com a dúvida. Era um simples convite para jantar ou era um convite para jantar? Caramba, porque é que alguém que simpática e amigavelmente não parece olhar para mim duas vezes me convida numa noite desta época de azáfamas e correrias, de famílias e compromissos, de centros comerciais e lares aconchegados, a pretexto de solidão e noites frias? Estou a ver mais do que vinha escrito no texto ou estou a ver menos?
«Commitment, Someone who'll go the distance, I need somebody with staying power, Who'll make me go weak in the knees, Commitment, And everything that goes with it, I need honor and love in my life from somebody, Who's playin' for keeps»
Nestes últimos dias tenho ouvido muito o disco de Rui Reininho, Companhia das Índias, o seu primeiro a solo, ou melhor, sem os GNR. O Reininho é um daqueles tipos de quem se gosta ou se detesta, e eu faço parte do contingente dos fãs. Apesar de consentir que ele não tem grande voz, a verdade é que sabe usar a que tem, tendo encontrado um registo feliz, porque assume uma certa fragilidade que dá à sua prestação um toquezinho de drama, de cinema, que serve às mil maravilhas a música que faz. E depois é um letrista superior, que brinca com a língua portuguesa de uma forma criativa que é simultaneamente poética e pop.
Neste disco Reininho liga-se a uma série de músicos de uma geração mais jovem do que a sua, o que veio trazer um novo fôlego à música que faz. Os GNR mantiveram sempre a capacidade de fazer boas canções, mas têm passado por fases de crise criativa que têm tornado os albúns mais recentes pouco interessantes. Por outro lado, a Armando Teixeira, o produtor e director musical deste projecto, também fez muito bem esta associação com Reininho, porque veio trazer consistência e substância à sua pop leve e jovial. Em suma, um projecto bem conseguido, que coroa um ano interessante para a música pop feita em Portugal.
Entre as onze faixas originais do disco, há letras que se situam ao nível do melhor que Reininho já escreveu, nomeadamente Morremos a Rir (destinada a ser um hit, se não for é porque alguma coisa foi muito mal feita pela editora) e Dr. Optimista. Ambas são comentários apurados e com um humor ácido q.b. ao estado da arte do Portugal versão Sócrates 2008. Pegando num conceito já ultrapassado, estas duas canções são aquilo que se pode chamar verdadeiras canções de intervenção, com a vantagem, relativamente às genuínas, de que se podem dançar.
Para além das canções originais, Companhia das Índias inclui ainda duas surpreendentes (ou não) versões, uma delas o famoso Bem Bom, das Doce, que foi escolhido para single de apresentação e cujo clip roda em tudo o que é computador. A outra versão é de uma das canções mais bonitas de Cazuza, Faz Parte do Meu Show, e só por esta ideia de pegar na canção do Cazuza o disco de Reininho já valeu a pena (já no último disco dos GNR Reininho tinha pegado num sucesso da pop brasileira, o clássico de Roberto Carlos, versão Jovem Guarda, Quero Que Tudo Vá Para o Inferno.
A versão de Reininho de Faz Parte do Meu Show começa com uma bossa nova e evolui para um bolero, e como que distingue a componente romântica e lírica da canção. Mas apesar de ser uma versão muito bem conseguida, não consegue (e ainda bem) sombrear o original de Cazuza, que tinha, a acrescentar ao lirismo, um lado agreste e áspero que, ao invés de nos embalar, nos possuía.
E como hoje é Domingo, temos direito a dose dupla. E eis como um texto sobre o disco novo de Rui Reininho se transforma numa celebração de Cazuza. No clip de Faz Parte do Meu Show, retirado de um programa de televisão do final de 1988, são já visíveis os sinais da doença que vitimaria o cantor menos de dois anos depois, em Julho de 90. Mas neste outro, uns anos anteriores (talvez dois, a avaliar pela ficha do clip no You Tube), Cazuza ainda nos aparece em todo o esplendor da sua juventude e beleza, com um ligeiro arranho de rouquidão na voz e a atitude de quem desafia e conquista o mundo e a vida. E ainda por cima a cantar uma canção superlativamente bonita, uma das minhas preferidas. Foram esta canção e este clip que me fizeram (como dizem os franceses e o Saint-Clair) 'tombar loucamente amoroso' por Cazuza.
Como se entre o antes e o agora houvesse um buraco imenso e o que me perturba é não conseguir sequer supor o que se passou nesse interim. Confio razoavelmente no meu conhecimento do agora, mas o hiato foi demasiado prolongado, durou vinte e seis anos, um mês e sete dias, e o enorme vazio dessa ausência é irreparável. Por isso pareço conhecer e pareço desconhecer. Conheço com o coração, com a memória, com as histórias que me contam ou que invento. Mas desconheço como nunca conseguimos habitar de novo a casa da infância, como uma coisa que já tive e que perdi, como uma cidade onde passámos um verão longinquo e aonde regressamos para não reconhecer o menor traço ou rua ou quarto.
The Naming of Cats is a difficult matter, It isn't just one of your holiday games; You may think at first I'm as mad as a hatter When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES. First of all, there's the name that the family use daily, Such as Peter, Augustus, Alonzo or James, Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey-- All of them sensible everyday names. There are fancier names if you think they sound sweeter, Some for the gentlemen, some for the dames: Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter-- But all of them sensible everyday names. But I tell you, a cat needs a name that's particular, A name that's peculiar, and more dignified, Else how can he keep up his tail perpendicular, Or spread out his whiskers, or cherish his pride? Of names of this kind, I can give you a quorum, Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat, Such as Bombalurina, or else Jellylorum- Names that never belong to more than one cat. But above and beyond there's still one name left over, And that is the name that you never will guess; The name that no human research can discover-- But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess. When you notice a cat in profound meditation, The reason, I tell you, is always the same: His mind is engaged in a rapt contemplation Of the thought, of the thought, of the thought of his name: His ineffable effable Effanineffable Deep and inscrutable singular Name.
Ó caraças, já não bastava a suave depressão outonal, tinha logo de me cruzar com uma daquelas canções! O título é I LIKE THAT, e o cantor, e autor, é um tipo chamado Shane Mack, de quem eu nunca tinha ouvido falar (tem uma página no My Space). Ouvi a canção pela primeira vez no filme Shelter, um gay-surf-pic sobre gente jovem confusa com a sua sexualidade. Dito assim soa a fraco, mas o filme nem é assim tão mau, não é uma obra-prima mas é bonitinho (e não estou só a falar dos rapazes). A canção passa logo no genérico inicial e um dia destes lembrei-me dela e fui outra vez ouvi-la na abertura do filme. Procurei no genérico final o autor e o título, e -zás!- há um clip, enfim uma montagem de imagens, da canção no youtube, com a letra e tudo. E agora pronto, não consigo deixar de a ouvir on and on and on again. Precisava mesmo era de arranjar o mp3 ou qualquer coisa para a ouvir mais vezes.
Shoes on my feet Sun on my back Some place to sleep Yeah I like that
Wind in my hair I just relax Going nowhere Yeah I like that
Yeah I like that
I think I'll stay No matter where I've been Take what I got Take it all in
and just take my time Then give it back 'Cause it's not mine Yeah I like that
Yeah I like that Yeah just like that
I think I'll stay No matter where I've been Take what I got Take it all in
and just take my time Then give it back 'Cause it's not mine Yeah I like that
Yeah I like that Just like that
Shoes on my feet Sun on my back Some place to sleep Yeah I like that
Com um beijo enorme para a Patrícia, que merece todos os mimos e toda a admiração.
Normalmente escolho livros leves (no tamanho e de preferência na concentração que exigem) para ler nas férias. Geralmente gosto de ler livros de não-ficção, diários, memórias, biografias, porque são mais adequados a uma leitura intermitente. Achio que o paradigma dos meus livros preferidos para ler nas férias é A Mulher de Porto Pim, porque é uma mistura de ficção e não-ficção, por causa da natureza fragmentada, porque tem a capacidade de nos agarrar quase de imediato, porque é um livro que podemos pegar em qualquer momento e ler páginas soltas, ao acaso (ou, pelo contrário, lê-lo de cabo a raso ininterruptamente). Para estes dias de férias na Áustria, interrompi a leitura da biogragia da Carmen Miranda (vou a pouco mais de meio) e levei na bagagem dois livros mais breves: Diário de Blindness resulta de notas, mais ou menos em forma de diário, e pelo menos num caso de um artigo de jornal, que o realizador brasileiro Fernando Meirelles foi escrevendo ao longo da produção do filme que fez com base no romance de José Saramago (e que ainda não tive oportunidade de ver). Acho sempre estes livros muito interessantes, porque nos revelam um pouco do que é o mistério do cinema, uma arte complexa do ponto de vista da produção, tanto mais quanto mais simples nos parece o resultado no écrã. Não quero parecer presumido, mas acho que a maior parte dos espectadores é demasiado passiva em relação à própria linguagem do cinema, não gozam um filme pelo prazer de o ver a ser contado, pela sua narrativa, mas apenas pelo resultado, pela história e suas peripécias. Este livro de Fernando Meirelles mostra-nos, também, como num filme nada surge do acaso, como a actividade do realizador depende sempre de um controlo das técnicas narrativas que escolhe utilizar, e que a alternativa a esse controlo é sempre o desatre. Penso que apenas tinha lido um livro do João Aguiar, e há muito tempo, não obstante ele ser um escritor muito popular (ok, em Portugal isto é sempre muito relativo). Andava por isso com vontade de experimentar, e Inês de Portugal, pelo tema, pela brevidade, e também pelo preço numa colecção de livros de bolso, pôs-se a jeito. Gostei muito do livro, que o autor insiste em qualificar como romance e não como ensaio historiográfico, mas que consegue uma recriação tão eficaz que é quase como uma lição de história. Aliás, é interessante realçar que essa eficácia do livro resulta não tanto na chamada recriação da época, mas na própria linguagem a que o narrador se socorre para fazer o seu relato (um pouco à maneira do que acontece em Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, do Mário de Carvalho): é o vocabulário utilizado, é a sintaxe usada em particular, que nos fazem mergulhar em plena corte de D. Afonso IV e de D. Pedro I, e assisitir, com um misto de fascínio e horror, ao desenrolar de uma dor episódios mais brutais mas também mais fascinantes e belos da história de Portugal.
Algumas das páginas mais interessantes do livro de Fernando Meirelles relatam a ocasião em que pela primeira vez o realizador mostrou o filme, praticamente acabado, ao escritor José Saramago. Acho que foi no meu querido Opiário que vi pela primeira vez o clip desse momento, filmado no final da projecção do filme no cinema São Jorge, em Lisboa. Se grande parte da discussão que rodeou a estreia do filme tem a ver com a já tradicional (e tão cansativa quanto inútil) polémica sobre os livros e as suas adaptações para cinema, então devo dizer que tanto o relato escrito por Meirelles como a cena captada pelo clip são tão bonitas e emocionantes quanto fiéis uma à outra. Dá-me um certo gozo íntimo pensar que o Opiário e o innersmile são um caso de amor entre o Brasil e Portugal, tão improvável quanto são desligadas as relações entre as culturas dos dois países. E como, de certo modo, o é também este encontro entre Meirelles e Saramago.
Melhor do que chorar com lágrimas o desaparecimento da cantora, é mesmo chorar com a música, com o ritmo, e com aquele requebro que se dá às ancas enquanto se roda. Pata Pata foi indubitavelmente o maior êxito de Miriam Makeba, o que lhe deu nome e projecção internacional. Foi uma canção que fez a travessia para o mainstream da música popular no 'primeiro mundo', antes de ter sido inventado o conceito de world music. Aliás, provavelmente Pata Pata foi o primeiro grande êxito da world music! Portugal também teve direito à sua versão de Pata Pata, com o Duo Ouro Negro (o nosso contributo para a world music avant-la-lettre).
O que é incrível é que tantos anos depois, e depois de tantos milhares de audições, ouve-se Pata Pata, nesta versão original, a de Miriam Makeba, e o corpo parece que se incendeia com vontade de dançar. E é assim, também assim, que Mama Africa ficará sempre conosco. A rir, a cantar e a dançar.
Reparem nos estalinhos que a Miriam dá quando pronuncia aquele som que é parecido com o 'G' no princípio da frase «Sat wuguga sat ju benga sat si pata pata». Lindo
Acordei hoje de manhã com a rádio a dar a funesta notícia de que morreu a Miriam Makeba. Contava 76 anos. Aparentemente de ataque cardíaco, depois de participar, em Itália, num concerto de solidariedade para com Roberto Saviano, o autor que denunciou a Camorra e agora se encontra ameaçado de morte. Ou seja, sempre solidária, Miriam, até ao fim.
Não sei se o nome diz alguma coisa às pessoas, neste tempo e neste lugar. Mas Miriam foi uma verdadeira diva revolucionária sul-africana, militante na luta contra o apartheid (e vítima da sua repressão). A cidadania sul-africana foi-lhe retirada e apenas pode regressar ao país depois de Nelson Mandela ter sido libertado e ter chegado a presidente. Foi casada com Hugh Masekela, um dos nomes geniais da música sul-africana (com forte influências jazzísticas), e com Stokely Carmichael, um activista dos Black Panthers norte-americanos, e estes dois casamentos de algum modo simbolizam o que foram as duas grandes causas da vida de Miriam Makeba, a música e o activismo político.
Quando vivi, em criança, os acontecimentos relacionados com a independência de Moçambique, o nome de Miriam Makeba era declinado como o de uma das maiores heroínas das independências africanas, merecedor de admiração e respeito. Vem desse tempo uma versão da canção A Luta Continua que Miriam dedicou específicamente à independência de Moçambique e ao seu primeiro presidente, Samora Machel. Pus um clip dessa canção (em que Miriam conta a sua história) numa entrada aqui do innersmile, e que está neste link.
Outro momento em que o nome de Miriam Makeba voltou a ser falado no ocidente, foi quando Paul Simon a convidou a participar na digressão de Graceland, o seu disco (absolutamente genial) feito com base nas sonoridades da música da África do Sul.
Não tenho bem a certeza, porque tudo repousa numa certa névoa lá no muito antigamente da memória, mas tenho a ideia de ter assistido a uma actuação ao vivo de Miriam Makeba, no pavilhão do Ferroviário de Nampula, lá nesses idos revolucionários de 70. Seja ou não desse concerto ao vivo, uma daquelas músicas que eu tenho inscrita no meu cérebro, e que assoma frequentemente, é o hino Nkosi Sikeleli Africa, que viria a ser adoptado como o hino nacional da África do Sul, cantado pela Miriam Makeba. De todo o modo, o nome de Miriam é daqueles que fazem parte integrante da minha memória e, mais não fosse por isso, da minha identidade.
So long, Mama Africa. Por todas as razões, a luta continua.
Quem há-de abrir a porta ao gato quando eu morrer?
Sempre que pode foge prá rua, cheira o passeio e volta pra trás, mas ao defrontar-se com a porta fechada (pobre do gato!) mia com raiva desesperada. Deixo-o sofrer que o sofrimento tem sua paga, e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim como acorre a mulher aos braços do amante. Pego-lhe ao colo e acaricio-o num gesto lento, vagarosamente, do alto da cabeça até ao fim da cauda. Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, olhos semi-cerrados, em êxtase, ronronando.
Repito a festa, vagarosamente. do alto da cabeça até ao fim da cauda. Ele aperta as maxilas, cerra os olhos, abre as narinas. e rosna. Rosna, deliquescente, abraça-me e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
É um poema, 'Alexandre', de Mário Jorge Bonito, com o qual o José Mário Branco fez uma canção, 1900 (Carta a Anton Tchekov).
Ouço cada vez menos música, quer dizer com cada vez menos atenção. Mas se calha um dia (ou uma noite, ou uma hora) tropeçar na música, numa canção, no Zé Mário Branco, depois fico em loop, sem conseguir sair. Sem conseguir. Hoje tropecei na canção Inquietação, do José Mário Branco, mas cantada pelo J.P. Simões. Um cd raro, edição da Fnac, que não sei como é que apareceu na casa dos meus pais. Devo ter sido eu a trazê-lo, mas não me lembro nada. Ou então veio com o jornal, não sei. Foi a minha mãe que o encontrou e deu-mo, espantada com as canções. Versões fantásticas, feitas por músicos portugueses, de algumas canções, se não clássicas pelo menos incontornáveis. Olhando para o line up do cd parece não ter havido outro critério a não ser tratarem-se todas de versões surpreendentes, espantosas (e algumas também espantadas). O disco chama-se Uma Outra História, e é uma jóia, suponho que escondida. Ora esguardai:
01. José Mário Branco + Canto Nono - O Que Será (À Flor da Pele) (Chico Buarque) 02. Margarida Pinto (Coldfinger) + Tó Trips - Capitão Romance (Ornatos Violeta) 03. Ricardo Rocha - Saudade (Love & Rockets) 04. Ana Deus + Carlos Zíngaro + Regina Guimarães + The Zany Dyslexic Band - Venus In Furs (Velvet Underground) 05. Old Jerusalem - For What It's Worth (Buffalo Springfield) 06. Carlos Bica - Paris, Texas (Ry Cooder) 07. Anabela Duarte + Mário Delgado + Alexandre Frazão + Zé Nabo - Baby (Os Mutantes) 08. JP Simões + Miguel Nogueira - Inquietação (José Mário Branco) 09. Kalaf + António Olaio + Marco Franco - Procissão (João Villaret) 10. Zé Pedro + Alexandre Soares + Gui + Pedro Gonçalves + Jorge Coelho + Fred - Call Up (The Clash)
Esta canção do Zé Mário Branco é das minhas preferidas dele, o que é uma coisa assinalável, pois eu acho que o Zé Mário escreveu muitas canções geniais. Inquietação apareceu, se não estou em erro, no cd Ser Solid/tário. Uma canção fortíssima, como todas as do compositor, intensa, arrancada das profundezas. E que eu sempre associo ao gesto do Zé Mário, ao cantá-la ao vivo, de levar a mão à cabeça, com a voz quase a tremer, quando, no final, vai repetindo o refrão.
Mas como o seu a seu dono, deixo aqui o clip de Inquietação cantada pelo J.P. Simões, porque hoje o dono desta inquietação foi o J.P. Que dá uma certa mansidão à canção, mas nem por isso a torna menos inquieta.
«A contas com o bem que tu me fazes A contas com o mal por que passei Com tantas guerras que travei Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas Meu peito feito campo de batalha Cada alvorada que me ensinas Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Ensinas-me fazer tantas perguntas Na volta das respostas que eu trazia Quantas promessas eu faria Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho Pois falta sempre pouco para chegar Eu não meti o barco ao mar Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Mas sei É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer Qualquer coisa que eu devia resolver Porquê, não sei Mas sei Que essa coisa é que é linda