É claro que a única maneira de falar de Ricardo Rangel que faça, e dê, algum sentido, agora (e) na hora da sua morte, é ver-lhe as fotos. Olhá-las, só, uma e outra vez, repetidamente, ainda outra vez, mais. Não sei se acontece com todos os fotógrafos, mas olhar as fotografias do Ricardo Rangel diz muito mais sobre quem as fez do que à partida se pudesse pensar. As fotografias do Ricardo Rangel fazem-nos apaixonar pelo fotógrafo, tanto quanto por elas próprias. Pois, não sei se isso é muito comum, mas a mim aconteceu-me, e parece-me que seja impossível não acontecer com quem quer que as olhe. E tanto nos apaixonamos pelo fotógrafo, quanto, e isso será eventualmente mais comum, nos apaixonamos pelo objecto das fotografias. Por exemplo, pelas prostitutas que Ricardo Rangel fotografou na série O Pão Nosso de Cada Noite. Ou pela cidade que Ricardo Rangel fotografou, e que é a mesma que está nos versos do Rui Knopfli. Mas se olhar as fotografias parece ser a única coisa que faz sentido, já não faz sentido enxamear estas páginas com elas. Logo, porque não seria fácil escolhê-las. Depois, porque quem as quiser ver, sempre as encontra.
Restam então, para dar sentido ao silêncio, as palavras. Ricardo Rangel, que era um apaixonado pelo jazz, possuía uma enorme colecção de discos de jazz e tinha, ou teve durante algum tempo, um clube de jazz na lindíssima estação de caminhos de ferro de Maputo, era também um homem de palavras, um contador de histórias, um conversador. Descobri-o aqui há tempos, quando vi, por acaso, um filme na televisão que lhe era dedicado. Um prazer, ouvir Ricardo Rangel contar as histórias da sua vida, contar a sua vida como se fosse uma história.
É tão supérfluo, e mesmo um pouco ridículo, fazer o panegírico fúnebre de Ricardo Rangel, dizer que era um nome incontornável da fotografia, um dos maiores fotógrafos africanos, um dos grandes fotógrafos mundiais da actualidade. Basta ter memória nos olhos, e atenção quanto baste, para o saber. Mas isso devolve o problema de saber como homenagear, como falar no fotógrafo, como dar sentido. Tavez procurando nas palavras dos outros. Ricardo Rangel personagem de romance. Ricardo Rangel destinatário de um poema (em ambos os casos, o que não é gratuíto de significado, acompanhado por outro fotógrafo de Moçambique, Kok Nam). Um excerto do livro de José Eduardo Agualusa, As Mulheres do Meu Pai, em que o périplo austral leva o narrador, diria inevitavelmente, a Ricardo Rangel. O outro é um poema poderoso e magnífico de Heliodoro Baptista, um poeta que a vida também perdeu há muito pouco tempo. Porque cada poema é sempre o ilegível mármore.
«Georgina garante que ele tem oitenta e dois anos. Custa a acreditar. Parece um jovem que cometeu muitos excessos. Claro que eu já o conhecia – através da obra e da reputação: Ricardo Rangel. Murmura-se este nome e logo alguém avança o rótulo: «Pai da Fotografia Moçambicana.» Implica certa responsabilidade, o raio do rótulo, pois Moçambique possui uma mão-cheia de excelentes fotógrafos. Eu gosto muito do Sérgio Santimano, um tipo meio preto, meio goês, com um espantoso olho lírico. Também gosto do Kok Nam, neste caso um moçambicano de origem chinesa, que acompanhou Rui Knopfli ao aeroporto no dia em que o poeta abandonou o país; isto só tem importância porque Knopfli nos deixou um registo poético do acontecimento: «É o fatídico mês de Março, estou / no piso superior a contemplar o vazio. / Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me, obliquamente, nos olhos: / Não voltas mais? Digo-lhe só que não. // Não voltarei, mas ficarei sempre, / algures em pequenos sinais ilegíveis, / a salvo de todas as futurologias indiscretas, / preservado apenas na exclusividade da memória / privada. Não quero lembrar-me de nada, // só me importa esquecer e esquecer / o impossível de esquecer. Nunca / se esquece, tudo se lembra ocultamente […]» Não sei o poema de cor, é claro, fui visitá-lo à Internet.»
- José Eduardo Agualusa
«T. S. ELIOT THE SHADOWS OF RAINBOW
(Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)
1. The formal word exact without vulgarity A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos, e a história somos o molde. Na voz do sangue, há sempre um negro ou cigano de violão azul.
Há um tempo para as estrelas dormirem e outro para fazerem amor; quer dizer, copular de olhos acesos ou já mortiços.
E inútil esbracejar ante os verdugos. Diriam: espera assim, vergastado, pois virá a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia, porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores! (Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)
2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas. Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela "Nikon"?! Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças. Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão de uma balada de tiros, com odor perfeito, único, do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar da amizade ou da submissão? As praias e as reservas devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta, da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.
And do not think of the fruit of action
3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz de um encenado morremorrer na Julius Nyerere ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila! E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali, de três metros suficientes para um poeta dizê-lo: "Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!"
«O almirante estava de boca aberta. Demorou algum tempo a emergir da estupefacção. Quando Fernando desdobrara as toalhas, parecera-lhe ridículo: um desejo irrisório de conservar o que não pode perdurar. Mas, agora, debruçava-se sobre as toalhas, percorria-as com o olhar, o dedo, e a emoção apoderava-se dele. O que tinha à sua frente era uma espécie de cartografia da amizade. As manchas de vinho. A posição dos pratos. Tornava-se possível imaginar quem se sentara em que lugar. Relembrava os gestos das mãos por cima das toalhas. Um copo que se entorna e interrompe momentaneamente a conversa. Uma migalha de pão amassada na ponta dos dedos. Era a marca mais comovedora que poderia restar dos seus encontros. Um grande número de toalhas.»
É um excerto de Noite Dentro, Moçambique, o conto final e que dá o título a este livro da autoria de Laurent Gaudé. Quatro narrativas breves, muito atmosféricas, carregadas de uma enorme sensibilidade e que se desenrolam em ambientes muito masculinos, no sentido mais violento da palavra. Em todas elas, personagens confrontam-se com os seus fantasmas, com um rasto de sangue e de violência, com a presença, mais do que o mero cheiro, da morte.
Noite Dentro, Moçambique foi o conto que me levou ao livro, e cujo tema se revelou absolutamente surpreendente, mas se tiver de escolher um como eleito, prefiro o primeiro, Sangue Negreiro, em que um capitão é verdadeiramente assombrado por mais do que a simples memória maldita de um massacre perpetrado a um grupo de escravos em fuga.
Laurent Gaudé escreve com elegância, os textos são muito evocativos de ambientes e de lugares, mesmo para quem não os conheça, os capítulos são curtos, e cada parágrafo quase que pode ser lido como uma narrativa por si só. Em suma, um livro breve e intenso, que deixa um tom amargo mas ao mesmo tempo melancólico.
PS: labrax, lembrei-me de ti ao ler o livro, acho que irias gostar muito de o ler. Foi editado pela Asa, para o caso de estares interessado.
«[Ricardo Menéndez Salmón] Optou por situar a sua história durante a II Guerra Mundial porque é um tema que sempre o interessou. Foi o último grande conflito em que praticamente o mundo inteiro se viu envolvido e o fenómeno do nazismo tem uma pergunta a que é impossível responder. "Licenciei-me em filosofia e todos os grandes nomes da filosofia moderna são alemães. De Kant até aqui, a Alemanha construiu as grandes formas de pensamento do mundo europeu. A música clássica é alemã, têm artistas maravilhosos… E surge então a pergunta óbvia: como é possível que um país que deu frutos intelectuais extraordinários tenha sido, ao mesmo tempo, aquele onde se incubou o ‘ovo da serpente’ (citando o filme de Bergman)? Essa pergunta continua sem resposta porque certamente é impossível responder. É a pergunta da modernidade (…)"»
De um artigo publicado no suplemento Ípsilon, do Jornal Público de 29 de Maio de 2009, sobre a edição de A Ofensa, da autoria do escritor espanhol Ricardo Menéndez Salmón.
Lembrei-me de começar a passar para aqui as primeiras frases, ou os primeiros parágrafos dos livros que leio. E lembrei-me de fazer isso precisamente quando li o primeiro parágrafo de A Damsel in Distress, do P.G. Wodehouse. Que é assim:
«In as much as the scene of this story is that historic pile, Belpher Castle, in the county of Hampshire, it would be an agreeable task to open it with a leisurely description of the place, followed by some notes on the history of the Earls of Marshmoreton, who have owned it since the fifteenth century. Unfortunately, in these days of hush and hurry, a novelist works at a disadvantage. He must leap into the middle of his tale with as little delay as he would employ in boarding a moving tramcar. He must get off the mark with the smooth swiftness of a jack-rabbit surprised while lunching. Otherwise, people throw him aside and go out to picture palaces.»
Li o ano passado dois livros do Wodehouse traduzidos e publicados por cá, ambos da série Wooster e Jeeves (acerca de quem, descobri agora, foi feita uma série cómica com o Hugh Laurie e o Stephen Frey, com muitos clips no YouTube). Mas quando comecei a ler este, no original inglês, é que percebi o poder humorístico da escrita de Wodehouse, e que é a essência dos seus livros, muito mais do que o cómico das situações retratadas (que, neste como nos outros, é uma variação do humor típico do autor: pôr a ridículo a luta de classes inglesa, com os upper class tolos e excêntricos e os downstairs matreiros ou simplórios, com trocas de identidade e enganos amorosos).
Aquela primeira frase que transcrevi é verdadeiramente prodigiosa. É complexa do ponto de vista sintáctico, e no entanto lê-se de forma cristalina. Segura-nos um bocadinho sem nos deixar entrar directamente na narrativa, mas enunciando que isso é coisa que não se pode fazer. E sobretudo marca o tom do tipo de humor que vai ser praticado, em que o narrador não é uma entidade presciente, mas emana da própria linguagem. Enfim, não sei explicar isto muito bem, mas seja como for é humor em pólvora.
Passaram, no dia 27 de Maio, 6 anos desde que comecei a pôr on-line textos, sobretudo poemas, de autores moçambicanos ou de alguma forma ligados a Moçambique, no blog À Sombra dos Palmares. No anos anteriores eu assinalava este aniversário mas este ano, francamente, não há nada a assinalar: entre Maio e Novembro do ano passado meti lá 6 ou 7 poemas, e desde Novembro que não faço nenhuma entrada nova.
A razão para esta negligência tem a ver com a minha pouca disponibilidade para procurar textos, passá-los para o computador (à mão, ou seja não tenho scanner) e editá-los no blog. Mas também com o facto de que ultimamente não tenho encontrado praticamente livros nenhuns de literatura moçambicana à venda por cá.
Claro que não faz sentido nenhum apagar o blog, até porque, apesar do desprezo, ele continua a ter visitas diárias, poucas mas mesmo assim, vindas na sua maioria de pesquisas nos motores de busca de nomes de poetas moçambicanos. E confesso que me agrada esta ideia de estar disponível na net, com algum sentido de utilidade para quem procura, informação que fui eu que pus. Informação que, diga-se de passagem, corresponde a uma coisa que eu acarinho e que é muito importante para mim.
Além disso pode ser que um dia destes me volte a dar uma vontade febril de tornar a pôr poemas no blog. Mas enquanto isso não acontece, aí ficam os poemas, em pousio, à espera que alguém se lembre deles, que os procure, e se venha tranquilamente sentar a lê-los, à sombra dos palmares.
«VENCEREMOS
A última coisa que vi foi nada. Logo a seguir às labaredas foi nada o que vi então Com um grande silêncio espantíssimo por cima de nada E um cheiro queimado de carne Que vinha de dentro do peito para a boca.
Agora estou só nos ouvidos e na língua vagarosa Eu que só pensava dentro dos olhos penso mal na língua E o mundo inteiro é muito pouco agora E tudo quanto está chegando aos meus ouvidos é pouco.
Não poderei fazer mais a mesma tarefa Mas a Luta continua pois é independente de um homem só E haverá outra tarefa para dois ouvidos e uma língua. Venceremos.»
(...) Na religião o que há de real, essencial, necessário e eterno é o cerimonial e a liturgia - e que há de artificial, de suplementar, de dispensável, de transitório, é a teologia e a moral.
- Eça de Queirós, in FRADIQUE MENDES (Memórias e Notas)
Já aqui devo ter falado do primeiro disco dos Secos & Molhados, o grupo que trouxe ao mundo o Ney Matogrosso, editado em 1973. Esse disco encantou-me há mais de 30 anos, quando o conheci e ouvi intensamente (o meu irmão tinha o LP), e continua a encantar-me sempre. Acho que não houve altura da minha vida em que eu tenha estado muito longe dele.
Para além do seu papel revelador e mesmo pioneiro (a vários títulos), trata-se de uma formidável colecção de canções, clássicos absolutos, canções de uma modernidade a toda a prova, que fazem a ponte entre a capacidade da MPB de explorar o sentimento de ser brasileiro e a explosão de energia emocional do rock. Basta referir, para ilustrar a resistência ao desgaste destas canções e o seu classicismo, a Rosa de Hiroshima que é uma canção que marcou a carreira toda do Ney. Mas não é, pelo menos na minha opinião, a melhor canção do disco, no sentido de que se destaca das restantes. Não porque haja outras melhores, mas porque são todas verdadeiramente extraordinárias, e não há pinga de exagero nisto que digo.
Como disse, não houve altura da minha vida que este disco tenha parado de me encantar, e acho que já passei por todas as canções, ou seja já houve fases da minha vida, da minha vida emocional, que invocaram várias, se não todas, as canções do disco. Por estes dias tenho andado com uma delas a tocar quase em loop no meu player mental, a Rondó do Capitão, cuja letra é um poema de Manuel Bandeira (pergunto-me se foi com esta canção que pela primeira vez contactei com a poesia de Bandeira, imensa e grandiosa). Talvez por me transmitir um sentimento de magoada esperança, talvez por ser quase uma canção de embalar e eu andar muito precisado que me ninem.
Como não encontrei nenhum clip da canção no YouTube, fiz um do-it-yourself muito elementar só para a poder pôr aqui. Fica também a transcrição do poemazinho de Manuel Bandeira. E se alguém quiser aproveitar a oportunidade de deitar o dente e os ouvidos a este disco extraordinário, aí fica o link do blog Um Que Tenha, que é o melhor serviço público para quem é amante da música e da cultura brasileira.
Bão Balalão Senhor Capitão Tirai este peso Do meu coração. Não é de tristeza, Não é de aflição. É só de esperança, Senhor capitão! A leve esperança, A aérea esperança... Aérea, pois não! - Peso mais pesado Não existe não Ah,livrai-me dele, Senhor capitão!
No escuro do cérebro com um único pássaro acordado e a cantar para mim, aqui, onde não tenho nada para trocar pelo corpo sob esta dor e outra dor ainda, até onde as mães acabam e nós principiamos ou talvez antes (e porque não muito antes?) apesar de tudo aqui ou só no pássaro ou em seu excesso de cantar-se entre as sombras do cérebro – subitamente encontro laranjas maduras, o meu primeiro relógio, as madrugadas que estavam no caminho da praia, e Octávia a sair da minha adolescência, com Alzira atrás, o rio Incomati depois da escola, depois dos meus amigos negros Zefa, Fabião, onde já não deve estar Vicente nem sua perna cortada nem sua reforma ainda mais escassa.
E há fileiras de noites e são intensas e abrem apenas umas para as outras.
Yet each man kills the thing he loves By each let this be heard, Some do it with a bitter look, Some with a flattering word, The coward does it with a kiss, The brave man with a sword!
Some kill their love when they are young, And some when they are old; Some strangle with the hands of Lust, Some with the hands of Gold: The kindest use a knife, because The dead so soon grow cold.
Some love too little, some too long, Some sell, and others buy; Some do the deed with many tears, And some without a sigh: For each man kills the thing he loves, Yet each man does not die.
- Oscar Wilde, in Ballad of Reading Goal (excerto)
Descobri esta pérola no YouTube há muitos meses atrás, quando andava à procura de clips de canções da Carly Simon (itsy-bitsy-spider), e desde então tenho-a ali bem guardadinha à espera que chegasse o seu dia. É uma canção lindíssima, de uma banda sonora de um filme de James Bond, de que os Radiohead fazem uma versão galática. Pois bem, chegou hoje o dia de a pôr aqui, e toda ela dedicada a alguém que mesmo quando anda mais longe está sempre cá dentro. E como nestas coisas nunca há melhor maneira de o dizer do que através de uma canção pop, é ler com atenção a letrinha da canção porque, parece milagre!, vem lá tudo escrito. Pronto, Gonza, escusas de me fazer mais tefunemas a mandar-me dar-te os parabéns e a mandares boquitas de que eu não te dei nada nos teus anos. Que arrelia.
Nobody does it better Makes me feel sad for the rest Nobody does it half as good as you Baby, you're the best
I wasn't lookin' but somehow you found me It tried to hide from your love light But like heaven above me The spy who loved me Is keepin' all my secrets safe tonight
And nobody does it better Though sometimes I wish someone could Nobody does it quite the way you do Why'd you have to be so good?
The way that you hold me Whenever you hold me There's some kind of magic inside you That keeps me from runnin' But just keep it comin' How'd you learn to do the things you do?
Oh, and nobody does it better Makes me feel sad for the rest Nobody does it half as good as you Baby, baby, darlin', you're the best
Baby you're the best Darlin', you're the best Baby you're the best
Comecei a ler, e tenciono levar para férias, Beautiful Shadow, a biografia de Patricia Highsmith escrita por Andrew Wilson. Ainda não passei da introdução, mas cito já este pedacinho, a propósito de uma entrevista feita por Janet Watts para o jornal The Guardian em 1990, quando a escritora tinha quase 70 anos:
”When Watts quizzed her about the inspiration for Carol and her relashionship with women, Highsmith responded, ‘I don’t want to say. People’s emotional life… I think it’s all accidental, and not planned. It is very hard to talk about.”
~ Continuo a ouvir obsessivamente discos antigos do Milton Nascimento. Adoro esta canção, Coração Civil, e decidi fazer um clipzinho com fotos que tirei nas últimas férias, em Porto Seguro. Aí fica a fazer companhia, enquanto eu vou ali uma semana à Guatemala passear um bocado, e já volto. Hasta.
Quero a utopia, quero tudo e mais Quero a felicidade nos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade, quero o vinho e o pão Quero ser amizade, quero amor, prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder, eu quero ver São José da Costa Rica, coração civil Me inspire no meu sonho de amor Brasil Se o poeta é o que sonha o que vai ser real Bom sonhar coisas boas que o homem faz E esperar pelos frutos no quintal Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ? Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida Eu vou viver bem melhor Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar
Acho que a primeira vez que ouvi a voz da Blossom Dearie foi num cd que antologiava o songbook de Cole Porter, cantado por grandes vozes, e instrumentistas também, do jazz. Blossom cantava Always True To You In My Fashion, e para sempre esta canção de Porter ficará, para mim, cunhada com a voz única e distintiva de Blossom Dearie. Ainda estive para escrever que foi a primeira vez que prestei atenção à voz da BD, mas não é verdade, não pode ser, é impossível ouvi-la sem lhe prestar atenção.
Para além das suas participações noutras colectâneas, tenho apenas um cd mesmo só da BD, e é nesse disco que está a minha faixa preferida da BD, o clássico Tea For Two, uma canção que não deve ter muito menos de cem anos e que se tornou num dos incontornáveis standards do jazz, quer vocal quer instrumental. Mas das inúmeras e diversas versões que teve, não há outra com a da Blossom Dearie, com a mesma mistura perfeita de inocência e sedução, de lirismo e sensualidade, de sonho e extâse. Trata-se de um convite, mais do que uma proposta, e se nos deixamos levar nele, percebemos que é um convite à felicidade, tal como supomos que ela seja: única, bela, inesquecível, leve, inalienável, fresca, suave, breve e efémera. Os três minutos de uma canção.
Durante toda a sua vida de jazz singer, Blossom Dearie sempre preferiu cantar ao vivo, nos clubes de jazz pequenos e íntimos, e fê-lo até há pouco tempo. Felizmente, agora que a morte a levou, já passados os 80 anos, resta sempre a sua voz a cantar Tea For Two, para nos fazer acreditar no seu convite à felicidade.
«I'm discontented With homes that are rented So I have invented my own
Darling this place is A lover's oasis Where life's weary Chase is unknown
Far from the cry of the city Where flowers pretty Caress the streams
Cozy to hide in To live side by side in Don't let it abide in my dreams
Picture me upon your knee With tea for two, and two for tea Me for you, and you for me alone
Nobody near us To see us or hear us No friends or relations On weekend vacations
We won't have it known That we own a telephone
Day will break And you'll awake And I will bake A sugar cake For you to take For all the boys to see
We will raise a family A boy for you and a girl for me Can't you see How happy we would be»
Persigo-o no ininteligível arbítrio dos astros, na clandestina linfa que percorre os túrgidos corredores do indecifrável, nos falsos indícios que, dos fogos-fátuos, escurecem
a persistente incógnita do nome. Em persegui-lo persisto onde, bem sei, não lograrei achá-lo, que nunca achado será em tempo ou espaço que excedam meu limite e dimensão.
Um nome, ainda obscuro, pressinto no sal da boca amarga. Conheço-lhe o rosto familiar, desfocado embora, no halo do tempo e da distância. É, creio, a face indefectível de tudo
quanto tenho de calar. Este nome (este rosto) habita-me silente, contra a recusa, a mentira, ou a calúnia. Na epiderme, nos nervos e na carne, sobre a língua e o palato, adivinho-lhe
forma, sabor e propósito. Ouço-o dentro de mim, mau grado o queira ou não, que em mim só está sofrê-lo porque em mim vive e dura, enquanto eu dure e viva.
E não por meu mal, que meu mal seria, mais que perdê-lo, sem ele viver. Um rosto persigo, um nome guardo no sal da boca
amarga, na pedra árdua da memória, no discurso penosamente reiterado do sangue. Nenhum silêncio lhe dará cobro, nem fim que não sejam meu fim e meu silêncio.»
Apesar de ter conta no Twitter já há uns meses, a verdade é que não acho muita piada àquilo. E então agora que está na moda e está lá tudo, ainda se torna, na minha opinião, menos interessante, porque aumentou enormemente a quantidade de ruído, ou seja, de informação que passa pelo nosso ecrã sem despertar qualquer reacção, ou então despertando uma reacção muito inconsequente.
Na origem, penso que o Twitter deveria ser uma plataforma de contactos, através de entradas curtas, máximo de 140 caracteres, permitindo enviar entradas mesmo sem ter um computador, criando uma rede de amigos que mantivéssemos actualizados sobre o que estamos a fazer. Na prática, parece-me que o Twitter se transformou sobretudo numa espécie de chat room gigante e comunal, sendo ainda aproveitado por algumas pessoas para divulgarem aquilo que vão produzindo noutros meios, como os blogs, através de um sistema de feeds.
A estrutura muito fácil e leve do Twitter, o imediatismo das entradas e das respostas, e principalmente a não reciprocidade das ligações entre as pessoas, em que posso escolher livremente aquelas pessoas cujas entradas quero seguir, mas não controlo quem segue as minhas, tornaram-no num meio muito popular, em que o sucesso é medido não pelo número de pessoas que respondem ao que eu mostro (por exemplo através de um sistema de comentários, ou de visitas, como nos blogs), mas pelo número de entradas que coloco e pelo número de pessoas que seguem o que escrevo.
Quando criei a conta no Twitter e comecei a seguir as entradas de alguns participantes, aborrecia-me o tom demasiado geek da coisa. Como em todo este tipo de novidades os primeiros utilizadores eram os cromos da informática e confesso que a maior parte do tempo eu nem sabia do que estavam a falar. Depois houve ali um momento (na verdade foi pouco mais do que um fim de semana) em que consegui estabelecer alguma interactividade com algumas pessoas e achei alguma piada (apesar de nunca ter sentido o Twitter como uma coisa viciante). Entretanto o número de utilizadores, sobretudo portugueses, aumentou e voltei a desinteressar-me do Twitter, sobretudo porque, como já afirmei, o excesso de ruído me impede de seleccionar coisas interessantes para ler, e porque acho que a maior parte da interacção é inconsequente, ou seja esgota-se num impulso e na reacção imediata.
Neste momento apenas leio com atenção o que escrevem dois ou três twitters. Um deles, um dos primeiros que segui, é o do Stephen Fry, que tem um poder de síntese fabuloso e a capacidade de criar um verdadeiro discurso com o recurso a um inglês rico em frases e expressões idiomáticas e cheias de sentido de humor; infelizmente, ultimamente o twitter do SF começa a perder-se demasiado em respostas a seguidores. O do Brian Eno, que debita metodicamenete uma entrada por dia, muito na onda das suas estratégias oblíquas.
Mas neste momento o meu Twitter preferido é o do escritor Paulinho Assunção, autor do blog Cidades Escritas (que também é o nome da sua página no Twitter). Tem entradas admirávies, pelo poder de síntese, pelo uso irrepreensível do português, pela capacidade de criar universos poéticos e narrativos com frases de meia dúzia de palavras. O que me levou a escrever esta entrada foi o facto de hoje de manhã ter ligado o twitter e visto esta sequência admirável de micro-textos que o Paulinho Assunção pôs e que, na minha opinião, consubstanciam aquilo que o Twitter, como forma de expressão, poderia ser (pela ordem em que apareceram):
Os poetas enxergam melhor os pontos F e H, embora sejam praticamente cegos para os pontos L e M.
Os romancistas vêem com mais clareza os pontos N e Q, mesmo em dia de névoa, mesmo em dia de brumas.
Os arrogantes sempre acham que podem ver todos os pontos, de A a Z.
Hoje eu olhei o ponto R e percebi que havia certo tumulto a caminho do ponto S.
Os que fazem a travessia do ponto A para o ponto B costumam ver, ao longe, os pontos Y e Z, ao sul.
"Um momento inesperado foi quando, já depois de cantar Menino do Rio, Caetano afirmou que tinha gostado muito da palavra 'ria', por ser feminino, e que a ideia de fazer uma canção sobre 'a menina da ria' era irrecusável e ficava desde já prometida. E o inesperado da coisa é que foi tão espontâneo que fiquei convencido que a ideia lhe tinha passado naquele mesmo momento pela cabeça."
Escrevi isto aqui no livejournal no dia 24 de Julho do ano passado, depois de, na véspera, ter assisitido ao concerto do Caetano Veloso na Praça Marquês de Pombal, em Aveiro. Pois bem, um dia destes apareceu uma nova entrada em Obra em Progresso, o blog de Caetano, em que aparece a seguinte 'maluquice' (a expressão é do próprio Caetano):
«Uma moça De lá do outro lado da poça Numa aparição transatlântica Me encheu de elegante alegria (Ai, Portygal, ovos moles, Aveiro) Menina da Ria Menina da Ria Menina da Ria
E uma preta (Parece que eu estou na Bahia) Tão Linda quanto ela, dizia No seu português lusitano: “Pode o Caetano tirar uma foto?” Menina da Ria Menina da Ria Menina da Ria
Arte Nova, um prédio art-nouveau numa margem Em frente à marina-miragem: Os barcos na Ria. E depois
Uma taça sobre o pubis glabro, um estudo Nenhum descalabro se tudo É sexo sem sexo em nós dois Menina da Ria Menina da Ria Menina da Ria»
Não há grandes indicações acerca do texto, mas aparentemente, pelo sentido do que escreve na entrada, ainda não é canção, falta-lhe a música, e mesmo o texto ainda pode sofrer alterações (nomeadamente de pontuação. Caetano anda muito perturbado com o novo acordo ortográfico, que já vigora no Brasil). O número excessivo de comentários ao texto torna-os praticamente impossíveis de ler, mas uma vista de olhos rápida dá para ver como os comentadores brasileiros reagem a uma letra que tem muitos referentes para Portugal, e que para eles são incompreensíveis. Engraçado.
Aliás o próprio Caetano desafia a interpretação da letra no texto do post, escrevendo que se for preciso explica a origem e o significado da expressão 'do outro lado da poça'. Suponho que seja a tradução para português da expressão inglesa 'the other side of the pond' que se refere à posição geográfica dos EUA face à Europa, particularmente à Inglaterra. Tenho a impressão de que o Saint-Clair já usou essa expressão no Opiário, para se referir ao Brasil e a Portugal.
Na mesma entrada do blog, uns parágrafos a seguir, Caetano Veloso escreve sobre o filme Gomorra, particularmente sobre uma afirmação, no final do filme, de que a Camorra ajudou a financiar as Torres Gémeas de Nova Iorque. E escreve o seguinte: «Informação relevante. Mas me senti mal ao pensar nisso em casa. Quanto ressentimento dos Estados Unidos tem a esquerda européia! Será que é paranóia minha ver aí um desejo de veladamente louvar (ou ao menos justificar) os fanáticos que enfiaram os aviões no World Trade Center?» Não, não é paranóia, e uma das coisas mais incompreensíveis na reacção europeia ao 11 de Setembro foi uma espécie de sentimento de 'eles merecem'. Tal como não compreendo, como refere Caetano, esse ressentimento da esquerda européia em relação aos EUA (aliás, acho que já escrevi sobre isso aqui no livejournal). Ainda bem que não sou o único a reparar e a incomodar-se com isso.
Dorme, meu filhinho, Dorme sossegado. Dorme, que a teu lado Cantarei baixinho. O dia não tarda... Vai amanhecer: Como é frio o ar! O anjinho da guarda Que o Senhor te deu, Pode adormecer, Pode descansar, Que te guardo eu.
- Manuel Bandeira, ACALANTO DE JOHN TALBOT (Lira dos Cinquent'Anos)
Desde que li Era No Tempo do Rei, de Ruy Castro, que tinha vontade de ler mais sobre a transferência da corte de D. João VI para o Brasil, em 1808. Precisamente 1808 é o título do livro da autoria do jornalista brasileiro Laurentino Gomes, que foi best-seller no Brasil e em Portugal, e que foi o livro que de certa maneira marcou o segundo centenário daquele acontecimento histórico, tão determinante na história dos dois países. Sobretudo para o Brasil, pois os treze anos de estadia da corte no Rio de Janeiro propiciaram à colónia as condições necessárias à sua independência, consagrada em 1822, logo no ano a seguir ao do regresso de D. João VI a Lisboa.
É de referir que não se trata de um livro de ensaio historiográfico, mas de uma obra de divulgação popular, uma espécie de reportagem alargada em mais de 300 páginas, que contextualiza os acontecimentos, analisa-os, e explicita-lhes as consequências. Escrito na linguagem ligeira própria do jornalismo, muito suportado em referências bibliográficas (as notas estão condensadas no fim, para conforto do leitor não demasiadamente preocupado com a genealogia das fontes), vai doseando com equilíbrio a narrativa dos acontecimentos, os perfis dos protagonistas, grandes ou pequenos (sendo que muitos deles foram simultaneamente protagonistas e testemunhas que deixaram relatos sobre a época), e as anedotas e apontamentos mais ou menos picarescos do quotidiano.
O ângulo do livro é demasiado aberto para estar aqui a destacar aspectos concretos, mas vale a pena referir duas ou três coisas. A primeira é que me fez muita impressão, logo no início do livro, a descrição da vida política, económica, cultural e social do Portugal do início do século XIX, por ser tão parecida, nos seus atavismos e mediocridades, com o Portugal de hoje. Desanima confrontarmo-nos com a profundidade da doença, porque nos faz descrer mais de que algum dia consigamos estar no mundo (e na vida) de outra maneira.
Outro aspecto que me impressionou, apesar de ser um pouco lateral em relação ao escopo da obra, foi o papel da escravatura na formação do Brasil. Assim como a descrição do Portugal dos séculos XVIII e XIX explica muito do que somos hoje, também esta génese do Brasil num sistema que tinha por base de sustentação económica e social a escravatura, ajuda a compreender algumas das profundas feridas e contradições que dilaceram o Brasil do século XXI.
Um dos inúmeros apontamentos da pequena história em que 1808 é pródigo, conta-nos como D, João VI trazia sempre os bolsos da casaca cheios com franguinhos assados e desossados, que ia trincando quer nos seus passeios pelo Rio de Janeiro quer durante as sessões diárias do beija-mão (que, aprendi no livro, ao contrário de serem uma manifestação da superioridade real, eram antes uma possibilidade que era dada a qualquer pessoa de se aproximar e falar a sua majestade, expondo-lhe problemas ou necessidades). Lembrei-me logo de D. João VI e A Mulata, um poema (cuja autoria apenas consigo identificar com dois nomes, A. Rodrigues e R. Calado) que me lembro de ouvir pela voz do João Villaret, nos discos do actor que habitaram a minha infância.
«Quando a corte de D. João VI Chegou a Paquetá Tudo servia de pretexto P’ra censurar, p’ra criticar Certa mulata que havia lá
Diziam que ela era um perigo Que ela era uma tentação E que um marquês de nome antigo Desdenhava o rei, não cumpria a lei, P’ra ser só dela o cortesão.
Mas quando alguém o censurasse Pedindo ao rei que a exilasse Pelo mal que fazia D. João VI trincava uma coxinha De frango ou de galinha E sempre respondia Já lhes disse que aqui em Paquetá Eu sigo a lei da corte de Lisboa E não me digam que a mulata é má Porque eu decreto que a mulata é boa
Certa noite muito escura A moça se assustou Vendo surgir uma figura Gorda, a ofegar Que sem falar Nos gordos braços logo a apertou Ela sentiu-se muito aflita Como dizer que não Até na treva era bonita E lá fez de conta, que ficava tonta Sem saber que era o seu D. João.
Mas quando alguém o censurasse Pedindo ao rei que a exilasse Pelo mal que fazia D. João VI trincava uma coxinha De frango ou de galinha E sempre respondia Já lhes disse que aqui em Paquetá Eu sigo a lei da corte de Lisboa E não me digam que a mulata é má Porque eu já sei como a mulata é boa.»
Como acontece com as obras de todos os grandes compositores (com a obra de todos os grandes artistas), também com os grandes criadores da música popular estamos sempre a descobrir novas canções ou, ainda mais subtil, novas emoções nas canções que sempre conhecemos.
Mesmo quando temos a pretensão, e eu não a tenho, longe disso, de conhecer razoavelmente a obra de António Carlos Jobim, estamos sempre a ser surpreendidos, as descobertas e as aventuras são inesgotáveis.
Tenho estado a ouvir muito um cd com uma gravação ao vivo de Caetano Veloso e Roberto Carlos, em homenagem aos 50 anos da bossa nova, a interpretarem canções de Tom Jobim. Eu tenho uma paixão avassaladora pelo Caetano e gosto muito do Roberto, que é um grande cantor, mesmo quando anda ali no fio que separa a música popular da música brega (ou mesmo pimba). Uma das coisas que aprendi com a música popular brasileira foi precisamente que parte da sua riqueza também vem da sua capacidade de se misturar, da intercomunicabilidade das coisas e dos nomes que à partida pareciam estar em pontos antagónicos. Ouvir sem preconceito e não ter medo de gostar. Além disso, a amizade entre Caetano e Roberto vem de longe, e uma das mais belas canções que Caetano canta (nomeadamente no álbum Circuladô Vivo), Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, foi escrita em sua homenagem por Roberto, quando Caetano estava exilado em Londres, no início dos anos 70.
Quanto ao cd, ele está mais ou menos dividido a meio, primeiro Caetano depois Roberto, e a abrir e fechar dois pares de duetos. Naturalmente prefiro a metade de Caetano (com acompanhamento onde pontifica o piano de Daniel Jobim), onde se descobre a faceta de crooner de Caetano, mas um crooner mais lírico do que sentimental, sempre à procura dos lugares que as canções podem ocupar na sua voz e sobretudo no seu canto.
Mas foi na metade Roberto do disco que desta vez fui apanhado de surpresa. A certa altura ouve-se a voz do próprio Tom Jobim a cantar um dos seus maiores êxitos, Lígia, extraído precisamente de um dos especiais televisivos de Roberto Carlos. Já tinha ouvido esta canção dezenas de vezes, mesmo neste cd, que já ando a ouvir no carro há uns dias. Mas de repente há qualquer coisa que nos toca, que nos agarra e arrasta para dentro da canção. E se a música de Tom Jobim é sempre mágica e arrebatadora, desta vez o que me conquistou foram as palavras. Assim:
Eu nunca sonhei com você Nunca fui ao cinema Não gosto de samba não vou a Ipanema Não gosto de chuva nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano O seu nome não sei Esqueci no piano as bobagens de amor Que eu iria dizer, não… Lígia Lígia
Eu nunca quis tê-la ao meu lado Num fim de semana Um chope gelado em Copacabana Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei Não passou de ilusão, o seu nome rasguei Fiz um samba canção das mentiras de amor Que aprendi com você É… Lígia Lígia
A letra continua mas o essencial está dito. Um admirável poema de Chico Buarque, a que a música de Tom dá um tom (trocadilho semi-intencional) quase impressionista, e que faz derramar sobre o Rio de Janeiro, sobre a memória verdadeira ou inventada que guardamos do Rio, um manto melancólico, como a luz cinzenta e húmida das ruas quando mal acabou de chover.
LET us go then, you and I, When the evening is spread out against the sky Like a patient etherised upon a table; Let us go, through certain half-deserted streets, The muttering retreats Of restless nights in one-night cheap hotels And sawdust restaurants with oyster-shells
In the room the women come and go Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time To wonder, "Do I dare?" and, "Do I dare?"
Do I dare Disturb the universe? In a minute there is time For decisions and revisions which a minute will reverse.
Have known the evenings, mornings, afternoons, I have measured out my life with coffee spoons
I grow old... I grow old... I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach? I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach. I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
We have lingered in the chambers of the sea By sea-girls wreathed with seaweed red and brown Till human voices wake us, and we drown.
Lembrei-me, a propósito de uma das obras de Juan Muñoz, de uma das passagens do poema The Love Song of J. Alfred Pufrock, que foi um dos primeiros, talvez mesmo o primeiro, poema que aprendi do T. S. Eliot. De resto, uma das obras em exposição cita directamente um poema de Eliot, não este mas talvez o seu mais famoso poema, The Wasteland. Como tinha feito, com o telemóvel, umas fotos e uns clips na exposição, lembrei-me de os juntar a excertos do poema de Eliot, que é demasiado grande para o transcrever na sua totalidade. No entanto se alguém tiver curiosidade, o texto integral do poema está neste link: bartleby.com. Há pelo menos uma versão em português, em edição bilingue, publicada pela Assírio & Alvim, com tradução de João Almeida Flor. Na net encontram-se algumas versões em português do poema, todas elas, pelo que me pareceu, em tradução brasileira.
«Aos 47 anos, tinha chegado à verificação de que um homem podia levar uma vida absolutamente normal sem fazer amor. Porque a minha vida era bastante normal, embora vazia. Trabalhava muito e cumpria o meu trabalho, para encher o tempo e ganhar um ordenado, não porque me interessasse - isso já só me acontecia muito raramente - e inclusivamente os meus estudos de russo e a quase infinita tradução dos contos de Ivan Bunin, que desfazia e refazia, acabaram por ser uma tarefa mecânica, que só muito de vez em quando se tornava divertida. Até o cinema, os concertos, a leitura, os discos, eram mais uma maneira de ocupar o tempo do que actividades que me entusiasmassem, como antigamente. Também por isso guardava rancor a Kuriko. Por causa dela, tinham-se-me sumido as satisfações que fazem da existência alguma coisa mais que uma soma de rotinas. Por vezes, sentia-me velho.»
The Naming of Cats is a difficult matter, It isn't just one of your holiday games; You may think at first I'm as mad as a hatter When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES. First of all, there's the name that the family use daily, Such as Peter, Augustus, Alonzo or James, Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey-- All of them sensible everyday names. There are fancier names if you think they sound sweeter, Some for the gentlemen, some for the dames: Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter-- But all of them sensible everyday names. But I tell you, a cat needs a name that's particular, A name that's peculiar, and more dignified, Else how can he keep up his tail perpendicular, Or spread out his whiskers, or cherish his pride? Of names of this kind, I can give you a quorum, Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat, Such as Bombalurina, or else Jellylorum- Names that never belong to more than one cat. But above and beyond there's still one name left over, And that is the name that you never will guess; The name that no human research can discover-- But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess. When you notice a cat in profound meditation, The reason, I tell you, is always the same: His mind is engaged in a rapt contemplation Of the thought, of the thought, of the thought of his name: His ineffable effable Effanineffable Deep and inscrutable singular Name.
«Naquele tempo, tentei muitas vezes falar com amigos meus sobre o problema: imagina que alguém corre conscientemente para a sua ruína e que tu podes salvá-lo – o que farias? Imagina uma operação e um doente que toma drogas que são incompatíveis com a anestesia, mas que se envergonha de ser um drogado, e não o quer dizer ao anestesista – ias falar com o anestesista? Imagina um processo em tribunal e um acusado que vai ser punido porque não confessa que é canhoto e que por isso não pode ter cometido aquele crime, que foi cometido por uma mão direita, mas que tem vergonha de ser canhoto – irias dizer ao juiz o que se está a passar? Imagina que é um homossexual, que não pode ter cometido aquele acto, mas que tem vergonha de ser homossexual. Não se trata aqui da questão de uma pessoa se envergonhar por ser canhoto ou homossexual: imagina, apenas, que o acusado tem vergonha.»
«Ao mesmo tempo, pergunto-me algo que já então começara a perguntar-me: como devia e como deve fazer a minha geração, a dos que nasceram mais tarde, acerca das informações que recebíamos sobre os horrores do extermínio dos judeus? Não devemos aspirar a compreender o que é incompreensível, nem temos o direito de comparar o que é incomparável, nem de fazer perguntas, porque aquele que pergunta, ainda que não ponha em dúvida o horror, torna-o objecto de comunicação em vez de o assumir como algo perante o qual só se pode emudecer de espanto, de vergonha e de culpa. Devemos apenas calar-nos, espantados, envergonhados e culpados? Para quê? Não que tivesse simplesmente perdido o entusiasmo pela revisão e pelo esclarecimento com que havia participado no seminário. Mas pergunto-me se as coisas deviam ser assim: uns poucos, condenados e castigados, e nós, a geração seguinte, emudecida de espanto, de vergonha e de culpa.»
«Por vezes penso naqueles tempos e vejo-me a mim mesmo. Vestia os fatos elegantes que herdara de um tio rico, assim como vários pares de sapatos de duas cores, pretos e castanhos, pretos e brancos, de camurça e de couro liso. Tinha os braços demasiado longos e as pernas demasiado compridas, não para os fatos que minha mãe se encarregara de me arranjar, mas para coordenar os meus próprios movimentos. Os meus óculos eram um modelo barato, da Segurança Social, e o meu cabelo uma escova desgrenhada, fizesse o que fizesse. Na escola, não era bom nem mau aluno; penso que muitos professores nem sequer notavam a minha presença, e os alunos que davam o tom na turma também não. Não gostava do meu aspecto, da minha roupa, da maneira como me movia, do que conseguia alcançar e do que valia. Mas estava cheio de energia, cheio de confiança em que um dia seria bonito e inteligente, superior e admirado, cheio de ansiedade por enfrentar pessoas e situações novas.
Será isto aquilo que me entristece? O fervor e a crença, que então me preenchiam, e o empenho em arrancar da vida uma promessa que jamais seria cumprida? Por vezes, vejo nos rostos das crianças e dos adolescentes o mesmo fervor e a mesma crença, e vejo-os com a mesma tristeza com que recordo então de mim. Será esta tristeza mais do que a tristeza pura? É ela que nos invade quando as boas recordações se tornam quebradiças ao vermos que aquela felicidade não se alimentava apenas da situação de momento, mas antes de uma promessa que não se cumpriu?»
- Bernhard Schlink, O LEITOR (Edições Asa)
É sempre um milagre, tanto maior quanto mais inesperado, quando encontramos um livro que nos explica o mundo.
Quem há-de abrir a porta ao gato quando eu morrer?
Sempre que pode foge prá rua, cheira o passeio e volta pra trás, mas ao defrontar-se com a porta fechada (pobre do gato!) mia com raiva desesperada. Deixo-o sofrer que o sofrimento tem sua paga, e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim como acorre a mulher aos braços do amante. Pego-lhe ao colo e acaricio-o num gesto lento, vagarosamente, do alto da cabeça até ao fim da cauda. Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, olhos semi-cerrados, em êxtase, ronronando.
Repito a festa, vagarosamente. do alto da cabeça até ao fim da cauda. Ele aperta as maxilas, cerra os olhos, abre as narinas. e rosna. Rosna, deliquescente, abraça-me e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
É um poema, 'Alexandre', de Mário Jorge Bonito, com o qual o José Mário Branco fez uma canção, 1900 (Carta a Anton Tchekov).
Ouço cada vez menos música, quer dizer com cada vez menos atenção. Mas se calha um dia (ou uma noite, ou uma hora) tropeçar na música, numa canção, no Zé Mário Branco, depois fico em loop, sem conseguir sair. Sem conseguir. Hoje tropecei na canção Inquietação, do José Mário Branco, mas cantada pelo J.P. Simões. Um cd raro, edição da Fnac, que não sei como é que apareceu na casa dos meus pais. Devo ter sido eu a trazê-lo, mas não me lembro nada. Ou então veio com o jornal, não sei. Foi a minha mãe que o encontrou e deu-mo, espantada com as canções. Versões fantásticas, feitas por músicos portugueses, de algumas canções, se não clássicas pelo menos incontornáveis. Olhando para o line up do cd parece não ter havido outro critério a não ser tratarem-se todas de versões surpreendentes, espantosas (e algumas também espantadas). O disco chama-se Uma Outra História, e é uma jóia, suponho que escondida. Ora esguardai:
01. José Mário Branco + Canto Nono - O Que Será (À Flor da Pele) (Chico Buarque) 02. Margarida Pinto (Coldfinger) + Tó Trips - Capitão Romance (Ornatos Violeta) 03. Ricardo Rocha - Saudade (Love & Rockets) 04. Ana Deus + Carlos Zíngaro + Regina Guimarães + The Zany Dyslexic Band - Venus In Furs (Velvet Underground) 05. Old Jerusalem - For What It's Worth (Buffalo Springfield) 06. Carlos Bica - Paris, Texas (Ry Cooder) 07. Anabela Duarte + Mário Delgado + Alexandre Frazão + Zé Nabo - Baby (Os Mutantes) 08. JP Simões + Miguel Nogueira - Inquietação (José Mário Branco) 09. Kalaf + António Olaio + Marco Franco - Procissão (João Villaret) 10. Zé Pedro + Alexandre Soares + Gui + Pedro Gonçalves + Jorge Coelho + Fred - Call Up (The Clash)
Esta canção do Zé Mário Branco é das minhas preferidas dele, o que é uma coisa assinalável, pois eu acho que o Zé Mário escreveu muitas canções geniais. Inquietação apareceu, se não estou em erro, no cd Ser Solid/tário. Uma canção fortíssima, como todas as do compositor, intensa, arrancada das profundezas. E que eu sempre associo ao gesto do Zé Mário, ao cantá-la ao vivo, de levar a mão à cabeça, com a voz quase a tremer, quando, no final, vai repetindo o refrão.
Mas como o seu a seu dono, deixo aqui o clip de Inquietação cantada pelo J.P. Simões, porque hoje o dono desta inquietação foi o J.P. Que dá uma certa mansidão à canção, mas nem por isso a torna menos inquieta.
«A contas com o bem que tu me fazes A contas com o mal por que passei Com tantas guerras que travei Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas Meu peito feito campo de batalha Cada alvorada que me ensinas Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Ensinas-me fazer tantas perguntas Na volta das respostas que eu trazia Quantas promessas eu faria Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho Pois falta sempre pouco para chegar Eu não meti o barco ao mar Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Mas sei É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer Qualquer coisa que eu devia resolver Porquê, não sei Mas sei Que essa coisa é que é linda
Ontem, vá-se lá saber porque obscuro (ou nem por isso) mecanismo de associação automática, passei praticamente o dia todo a cantarolar mentalmente a seguinte frase de uma canção popular: «Boy, you're gonna carry that weight, Carry that weight a long time». Mas é que foi praticamente a dia todo, tipo estar a ter uma reunião, e ao mesmo tempo que acenava com a cabeça e dizia "sim, claro", "pois pois", ou mesmo só sons como "hum hum", tinha a alma cá dentro desenfreada a cantar em altos berros e de braços bem abertos «Boy, you're gonna carry that weight, Carry that weight a long time». Mas que raio de coisa. É que nem a tinha ouvido de manhã na rádio, nada. Deve ter sido qualquer coisa que li de passagem, um pensamento em forma de relâmpago instantâneo que me surgiu no meio de alguma sinapse, não sei, qualquer coisa que me pôs a cantarolar sempre as mesmas palavras, sem nunca passar disso: «Boy, you're gonna carry that weight, Carry that weight a long time».
Como se sabe, este verso faz parte de uma canção dos Beatles, o que é, à partida, menos mau: mais vale termos uma canção dos Beatles entranhada no nosso subconsciente e a matraquear-nos os ouvidos a partir do lado de dentro, do que, não desfazendo, uma do Emanuel ou do Phil Collins. Trata-se de um medley que fecha, ou quase que fecha, o disco Abbey Road, e que é composto por três canções, todas escritas pelo Paul: Golden Slumbers, Carry That Weight e The End. E digo quase que fecha porque depois deste medley ainda há mais uma (mini) faixa, Her Majesty. Feito numa altura em que os Beatles praticamente já não funcionavam como grupo, Abbey Road é, todavia, um dos discos mais perfeitos e melhor 'assembled' não só dos Beatles mas de toda a música popular. Como no tempo dos Beatles ainda não havia video-clips (nem MTV, imagine-se!), aqui fica um clip muito bem feito a partir de footage do grupo, montadas ao som do medley.
GOLDEN SLUMBERS
Once there was a way to get back homeward Once there was a way to get back home Sleep pretty darling do not cry And I will sing a lullabye
Golden slumbers fill your eyes Smiles awake you when you rise Sleep pretty darling do not cry And I will sing a lullabye
Once there was a way to get back homeward Once there was a way to get back home Sleep pretty darling do not cry And I will sing a lullabye
CARRY THAT WEIGHT
Boy, you're going to carry that weight, Carry that weight a long time Boy, you're going to carry that weight Carry that weight a long time
I never give you my pillow I only send you my invitations And in the middle of the celebrations I break down
Boy, you're going to carry that weight Carry that weight a long time Boy, you're going to carry that weight Carry that weight a long time
THE END
Oh yeah, all right Are you going to be in my dreams Tonight?
And in the end The love you take Is equal to the love You make
Um destes dias era uma rola, ontem uma canção dos Beatles... Será que isto significa que se está a aproximar the end? E daí, se o fim estivesse perto, isso significaria que não teria de 'carry that weight a long time', não era? Nah, não faz sentido.
Americanos pobres na noite da Louisiana Turistas ingleses assaltados em Copacabana Os pivetes ainda pensam que eles eram americanos Turistas espanhóis presos no Aterro do Flamengo Por engano Americanos ricos já não passeiam por Havana Viados americanos trazem o vírus da aids Para o Rio no carnaval Viados organizados de São Francisco conseguem Controlar a propagação do mal Só um genocida em potencial – De batina, de gravata ou de avental – Pode fingir que não vê que os viados – Tendo sido o grupo-vítima preferencial – Estão na situação de liderar o movimento para deter A disseminação do HIV
Americanos são muito estatísticos Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos Olhos de brilho penetrante que vão fundo No que olham, mas não no próprio fundo
Os americanos representam grande parte Da alegria existente neste mundo
Para os americanos branco é branco, preto é preto (e a mulata não é a tal) Bicha é bicha, macho é macho Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro
E assim ganham-se, barganham-se, perdem-se Concedem-se, conquistam-se direitos Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime
E dançamos com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei Entre a delícia e a desgraça Entre o monstruoso e o sublime
Americanos não são americanos São velhos homens humanos Chegando, passando, atravessando São tipicamente americanos
Americanos sentem que algo se perdeu Algo se quebrou, está se quebrando