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um voo cego a nada
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| Não vi nem o Ali G nem o Borat, os filmes-personagem que o Sacha Baron Cohen fez antes deste Bruno, apesar de, é claro, estar familiarizado com as personagens, por causa dos programas de TV. Não sou grande fã do humor do SBC, embora me agrade um certo lado subversivo. Mas o facto de esse humor se basear muito em pôr os outros a ridículo, mesmo quando eles merecem, deixa-me quase sempre incomodado. É um humor que está muito próximo da humilhação e se há coisa que não suporto é ver alguém ser humilhado.
Fui então ver o Bruno porque tinha vontade de ver como é que ele utilizava a homossexualidade da personagem. Não estava à espera que o filme tivesse uma leitura muito plana acerca do assunto, nem gozando abertamente com os clichés ligados aos homossexuais, nem, pelo contrário, pondo a ridículo a homofobia. Ou seja, não me parecia que o filme tivesse uma leitura política. O que de facto acontece. O humor de SBC funciona demasiado como um rolo compressor para conseguir salvaguardar muitas subtilezas, apesar de ser um humor mais inteligente e mental do que parece.
Para falar com franqueza acho que o SBC utiliza demasiado o sexo como elemento desencadeante das situações. Não que isso me choque pessoalmente, mas acho que tem um efeito perverso: muitas vezes o filme esgota-se nesse incómodo, e o facto de ser todo construído sobre isso faz com que haja uma certa dissipação do cómico. Ou seja, ser provocador só faz sentido quando se pretende obter mais qualquer coisa do que uma simples reacção. É um terreno perigoso, o do provocador: raras vezes consegue ser subversivo, a maior parte delas limita-se a ser um chato.
Sinceramente acho que é sobretudo isso que acontece ao Bruno. | comments: 2 comments or Leave a comment  |
| Já tinha visto um filme do realizador filipino Brillante Mendoza, Pantasya, e não tinha achado grande piada. Mas vi agora Serbis (Serviço) e gostei bastante. Tenho ideia de o filme ter sido exibido num festival de cinema português, creio que no IndieLisboa, mas não tenho a certeza. O filme é todo construído à volta (ou melhor, dentro) de um velho cinema, daqueles enormes, com plateia, balcão e muitos foyers, que está completamente decrépito, sujo e degradado, e cuja programação consta de filmes pornográficos, em sessões frequentadas sobretudo por homossexuais à procura de engates. O velho cinema chama-se Family, é gerido por uma família que vive nas próprias instalações, e constitui o palco da sua luta pela sobrevivência. O edifício é, e isso para mim é o mais fascinante do filme, a sua principal personagem. O modo como são ocupados os espaços, o forte contraste entre a função para que foram criados e a sua actual utilização, o modo como esses espaços cederam e tiveram de se adaptar, a maneira como o filme vai percorrendo e desvendando os circuitos, os corredores, as escadarias, como entra e sai das salas, tudo isto dá ao edifício um carácter quase orgânico. Como se fosse um barco que navegasse através das ruas da cidade (como o edifício da companhia de seguros no início do filme dos Monty Python, The Meaning of Life), a qual quase só se entrevê a partir do interior do próprio cinema. Apesar de as personagens não serem muito desenvolvidas do ponto de vista dramático e de lhes faltar alguma espessura e densidade, a família e os clientes do cinema e do seu restaurante (enfim, por assim dizer) constituem o outro polo de interesse do filme. Muito pelo modo como a câmara ora os vai seguindo nos seus percursos labirínticos pelo interior do edifício, um pouco como se estivesse à procura do seu desígnio, ora como se detém a contemplá-los, na expectativa de uma revelação. Se a personagem da matriarca da família se assume como o pólo dinamizador da narrativa, para mim as personagens essenciais do filme são, como é óbvio, as de Nayda e Alan, respectivamente tia e sobrinho, que nos seus papéis muito contrastantes, simbolizam os dois vectores que marcam esta família: uma tenaz vontade de sobreviver, e um inelidível desejo de evasão. | comments: 1 comment or Leave a comment  |
| Não me anda nada a apetecer ver filmes. Há mais de três meses que não vou ao cinema, e nem em casa tenho visto. Quer dizer, de vez em quando começo a ver um filme, mas normalmente desinteresso-me e nem acabo de o ver. É um bocado estranho, eu adorava cinema e via filmes em barda, e agora simplesmente não me apetece. Isto para dizer que um dia destes vi um trailer e despertou-me a curiosidade. Consegui arranjar o filme e vi-o todo. Ok, em duas prestações, mas mesmo assim já é um avanço.
Apesar de não ser um filme extraordinário, Were The World Mine é um filme curioso, nomeadamente porque junta uma série de ingredientes e fá-lo de um modo feliz. O filme conta a história de uma turma escolar que se prepara para levar à cena a peça Sonhos de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare. O protagonista da peça é um rapaz homossexual que a mais de ser gozado e perseguido pelos atletas da escola, está secretamente apaixonado por um deles.
O primeiro aspecto interessante do filme é todo ele, a história, as peripécias, as personagens, o próprio tom da narrativa, decorrer sob o signo da peça de Shakespeare. Além disso, filme representa um trabalho exaustivo sobre o texto da peça, que está presente, por exemplo, nos diálogos ou nas letras das canções. Sim, porque, e isso é outra coisa interessante, o filme é um musical, ou pelo menos tem alguns números musicais, que mais do que ilustrarem a história, fazem mover a narrativa. Finalmente, todo o universo de Midsummer Night's Dream é adaptado para um contexto gay, focando o filme sobretudo os aspectos relacionados com a dificuldade de realização afectiva dos adolescentes homossexuais e com o modo como lidam com o preconceito, nomeadamente por parte dos seus pares.
Além destes aspectos, há ainda outros que contribuem para que Were The World Mine seja um filme simpático, nomeadamente uma certa honestidade indy, em que a escassez de recursos é sempre ultrapassada com eficácia, e até algum arrojo narrativo, e que se nota igualmente na prestação dos actores. Também gostei do modo como o filme junta os universos do musical e do filme passado em escolas masculinas, nomeadamente através das coreografias baseadas nos movimentos de certos desportos. Quer dizer, não estamos propriamente a falar de coreografias à Busby Berkerly, mas pronto, estão divertidas e minimamente originais. | comments: 8 comments or Leave a comment  |
| Durante o verão de 2001, e boa parte do Outono, li o primeiro volume dos Diários de Christopher Isherwood. Um livro com mais de 1000 páginas, cobrindo os anos de 1939 a 1960. Foi também nesse verão, em finais de Julho, que comecei a escrever este diário on-line, e muitas dessas entradas iniciais foram escritas ao ritmo, e sob influência, da leitura dos diários de Isherwood. Tive agora a sorte de ver o documentário Chris & Don, A Love Story, que relata, como o título deixa adivinhar, a relação de mais de 30 anos que uniu Isherwood a Don Bachardy. Na realidade, conheceram-se no início da década de 50, e em 1952 já viviam juntos, quando Isherwood tinha 48 anos e Don 18. Isherwood, que nunca tinha escondido a sua condição de homossexual, decidiu igualmente nunca esconder essa relação que, por causa da diferença de idades e de estatuto social, foi escandalosa. E estiveram juntos durante mais de 30 anos, até à morte de Isherwood, em 1986.
O filme, realizado em 2007, é uma crónica afectuosa e comovente dessa relação, centrando a sua atenção em Don, e juntando depoimentos de amigos e especialistas na obra de Isherwood, filmes antigos feitos pelo casal, pequenas reconstituições da relação entre os dois (na minha opinião a parte mais débil do filme, perfeitamente dispensável), e até pedaços de filmes de animação a partir de duas personagens de animais que Chris e Don assumiam na sua intimidade.
O resultado, sem escamotear as dificuldades porque passa uma relação tão duradoura, dá evidência de um amor extraordinário, pelas circunstâncias, pelas formas que esse amor assumia, e também pelo retrato que fica de Christopher Isherwood. É que se o filme se baseia e perspectiva em torno de Don Bachardy, dos seus relatos, das suas memórias, e até da sua vivência nos anos pós-Chris, a verdade é que é sempre e em cada fotograma, um veemente canto de amor que Don dirige a Chris. Aliás, mais até do que um canto de amor, a evocação que Don faz de Chris é um verdadeiro canto de vida.
A produtora do filme tem um site rico em material sobre o filme (www.asphalt-stars.com). O site da Isherwood Foundation tem o arquivo das newsletters onde há igualmente material sobre o filme e uma lista muito boa de recursos on-line sobre Christopher Isherwood. | comments: 4 comments or Leave a comment  |
| Passei a semana com muita sinusite, febril e a chocar uma infecção. Isso, por um lado. Por outro, horas intermináveis no trabalho, desde as oito da manhã até sempre depois das sete da tarde. Para além da falta de tempo, falta igualmente de disposição para escrever aqui, ou sequer pensar em escrever.
As noites, passeia-as a ver, finalmente, o filme The Curious Case of Benjamin Button, de um realizador interessante, o David Fincher, e que valeu ao Brad Pitt uma nomeação para o Oscar de melhor actor. É um filme irresistível, uma fábula enternecedora acerca do amor e do tempo, que, como se sabe, são os únicos temas verdadeiramente interessantes.
Mas na minha opinião o filme sofre de um pecado absolutamente capital e que compromete a sua eficácia: nunca, ao longo das cerca de três horas de duração, conseguimos acreditar em Benjamin e em Daisy, mas sobretudo no primeiro, como verdadeiras personagens, como verdadeiros protagonistas de um caso tão peculiar. São, afinal, como as personagens das fábulas: se tirarmos aquela raposa e pusermos outra, de mudarmos um capuchinho vermelho por outro, tudo se mantém inalterado, porque são apenas símbolos, e não verdadeiros personagens ficcionais. Nunca o extraordinário destino de Benjamin nos comove, e isso é fatal numa narrativa que gira toda em torno desse destino. | comments: 9 comments or Leave a comment  |
| O tempo (quase) todo que passei em casa no fim de semana, e foi bastante, foi a ler (progrido, em marcha lenta mas determinada e sobretudo muito envolvida, por essa saga gigantesca que é Viva O Povo Brasileiro, de João Ubaldo) e a ver filmes. Ou melhor, pedaços de filmes, pois estou a estender o modo de leitura aos filmes que vejo em casa: aos bocadinhos, quinze minutos agora, vinte mais daqui a bocadinho. Assim acabei de ver o mais recente Clint Eastwood, Gran Torino, e mais uma vez me deixo arrebatar pelo cinema clássico e seco do mestre. Desta feita temos um regresso de Eastwood à frente das câmaras, dando corpo a um velho veterano da guerra da Coreia, defensor dos tradicionais (e reaccionários)valores americanos, a braços com a sua própria decadência e com a decadência dessa América que ele defendeu. É de certo modo uma redenção que Eastwood oferece a um tipo de personagens que lhe deu fama, tentando não propriamente justificar a violência ou uma justiça baseada num código moral pessoal, mas reclamando uma certa pureza e 'straight-forwardness' que, mais do que um código moral (veja-se a reacção de Walt em relação às tentativas do padre irlandês de o levar à confissão), preconiza um manual de sobrevivência com dignidade. Claro que estamos aqui a pisar terrenos politicamente movediços, mas aceitar isso, e tentar perceber o que faz correr o cinema de Eastwood, faz parte da proposta de ver e amar esse cinema. Uma curiosidade: o filme passa-se no seio de uma comunidade hmong, originalmente proveniente do Laos, e constituída por pessoas que depois da revolução comunista, em 1975, tiveram de ser literalmente resgatadas (de campos de refugiados na Tailândia) por terem apoiado os EUA durante a guerra do Vietname. Um dos estados norte-americanos onde foram realojados muitos desses refugiados (de um total de quatro ou cinco milhões) foi o Wisconsin. Em Eau Claire, onde estive em 1998, havia uma comunidade enorme de hmongs, que viviam nos arredores da cidade, sobretudo da agricultura, descendo uma vez por semana à downtown onde vendiam os seus produtos numa feira semanal. Era uma comunidade empobrecida e com alguns problemas sociais, que de vez em quando faziam as primeiras páginas do Lieder-Telegram, o jornal local, quase sempre pelas piores razões. Foi interessante ver esta realidade que eu conhecia, tratada no filme de Eastwood, e de uma forma simpática e favorável, não direi à comunidade em si, mas em relação aos seus membros. A lembrar que o vírus do racismo, como da discriminação em geral, passa sempre por só conseguirmos ver a floresta, sem repararmos na individualidade das árvores que a compõem. O outro filme que vi no fim de semana (sem contar com duas idas ao cinema, de que já falei) foi The Visitor, que tem a particularidade de nos trazer de volta o actor Richard Jenkins, o pai da família Fischer de Six Feet Under, que morria no primeiro episódio, e passava o restante da série a voltar para atormentar os seus filhos, sobretudo o Nate. Esta interpretação de Jenkins no filme realizado por Thomas McCarthy, valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actor.
Trata-se de um filme muito interessante, que conta a história da amizade improvável entre um velho professor universitário, em estado de depressão por morte da mulher e insatisfação profissional, e um casal de emigrantes ilegais, ela senegalesa e ele sírio, apanhados na paranóia securitária pós 11 de Setembro. Este fundo político dá ao filme um tom desencantado, mas sobretudo, como se revela no final, de revolta perante a injustiça de uma das mais polémicas medidas políticas da administração norte-americana.
Por outro lado o facto de o filme recusar dar sempre uma dimensão heróica aos seus protagonistas, seguindo-os sobretudo na sua dimensão quotidiana, dá ao filme uma verosimilhança extraordinária, fazendo-nos acreditar deveras naquela história e naquelas personagens, o que, como é natural, aumenta a nossa disponibilidade e empatia em relação ao drama por elas vivido. | comments: 5 comments or Leave a comment  |
| Por todas as razões, a primeira pergunta que fazemos a propósito do visionamento de The Wrestler é inevitável: e o Mickey Rourke? Não que se trate exactamente daquilo a que estamos habituados nos chamados filmes-veículo, mas a verdade é que o filme de Darren Aronofsky parece sempre confundir-se com a personagem de Randy The Ram, que ocupa literalmente todas as cenas, que sobra pouco filme para além de Rourke. O que não é mau, em si, mas coloca a pressão toda do lado do actor. Que se safa muito bem, sobretudo, na minha opinião, na segunda parte da história, quando a personagem abandona os ringues e tenta organizar a sua vida fora do wrestling. É nestas cenas, acho eu, que Mickey Rourke consegue um jogo mais subtil, a fazer lembrar uma certa aura de anjo maldito que lhe sobra da sua carreira nos anos 80.
Centrando-se o filme de tal modo em Rourke e na sua personagem, poderá haver alguma dificuldade em ver mais alguma coisa para além dele. Não sendo propriamente um filme brilhante, o filme tem, contudo, uma certa crueza, um despojo, mesmo uma ingenuidade, que tornam impossível não simpatizar com ele, mesmo quando não é totalmente eficaz, por um certo acumular de lugares-comuns e por uma superficialidade na observação que faz.
Ofuscados pelo comeback de Rourke e do seu Randy The Ram, podemos nem reparar que o filme nos traz igualmente de volta a Marisa Tomei, que é das presenças mais comoventes no ecrã, uma actriz que domina com um rigor admirável a paleta de sentimentos e emoções que a sua representação é capaz de transmitir. | comments: 2 comments or Leave a comment  |
| Sim senhor, bela noite dos Oscars, com um Hugh Jackman a surpreender com o seu song and dance e com a boa pinta do seu sotaque australiano. O número de entrada foi engraçado e imaginativo, mas do que gostei mesmo foi da homenagem ao musical, ou não tivesse sido encenada por Mr. Baz Luhrman himself. Também gostei do esquema do grupo de 5 ex-vencedores do prémio no anúncio dos Oscars de representação, acho que resultou em homenagens bonitas a todos os nomeados, e não apenas aos vencedores.
Apesar de eu ser fã dos oscars, acho sobretudo graça ao espectáculo, à oportunidade ver os actores ali todos bem vestidinhos, à celebração do cinema made in Hollywood. Normalmente não tenho preferidos e não costumo ficar surpreendido com as escolhas, e muito menos desiludido. Ganhar este em vez daquele filme é um bocado indiferente. Não preciso que os Oscars vindiquem o meu gosto, porque o gosto, como se sabe, é sempre muito relativo, e as razões porque gostamos muito de um filme têm sempre mais a ver connosco do que com o próprio filme. Mas devo dizer que ontem fiquei muito contente com a vitória do Sean Penn (e já agora com a do argumento original de Milk) e com os dois Oscars que o A.R. Rahman ganhou com a banda sonora e com a melhor canção, ambos de Slumdog Millionaire.
Quanto ao resto, tudo bem. Quer dizer, gosto muito da Meryl Streep, mas não sei se posso dizer que preferia que ela tivesse ganho em vez da Kate Winslet, é tudo a mesma coisa. E La Winslet tem um delicioso sotaque britânico, parece a Julie Andrews a falar. Também fiquei contente com a Penelope, e tenho pena que o casal BrAngelina tenham ido de mãos a abanar para casa; mas não podem ganhar todos e um casal tão sexy de certeza que não ficou com as mãos a abanar durante muito tempo. A ida ao palco mais bonita, na minha opinião, foi a do Phillipe Petit, a estrela do documentário premiado, Man On Wire, que aproveitou para fazer um truque de magia. É o que se chama, para terminar com um cliché clássico e muito 'à propos', a verdadeira magia do espectáculo. E pronto, para o ano há mais. | comments: 19 comments or Leave a comment  |
| Vi uma noite destas no computador um documentário intitulado Man On Wire, que, salvo erro, é candidato a um Oscar na respectiva categoria (a propósito, a noite dos Oscars é já no próximo Domingo). O filme conta a história de Philippe Petit, um francês fonâmbulo que no dia 7 de Agosto de 1974 atravessou um cabo esticado entre a cobertura das duas torres do World Trade Centre, e segue diversos cursos narrativos: a história do próprio Philippe, os longos preparativos da operação, e, através de uma reconstituição com actores, o próprio desenrolar da operação, ou seja, a entrada no edifício e a montagem dos cabos necessários. Tratou-se, como é fácil perceber, de uma façanha muito arriscada e completamente ilegal, mas com uma grande carga poética. Não só a ideia de alguém caminhar literalmente no céu de Nova Iorque é mais do domínio do sonho do que da realidade, como toda a história da operação ('le coup', como lhe chamam os protagonistas) se calhar só foi possível num mundo que já não é exactamente o mesmo mundo em que vivemos hoje.
O filme, produzido o ano passado, nunca refere a tragédia do 11 de Setembro e do WTC, mas é inevitável que ele esteja sempre presente, quer por parte de quem o visiona quer seguramente de quem o fez. Li uma entrevista em que Philippe Petit se recusa a responder sobre o que sentiu quando assistiu ao desabar das torres, por serem sentimentos demasiado íntimos e privados. Nesse aspecto o filme é também um lindíssimo e profundamente lírico canto de amor pelas torres gémeas do World Trade Centre, pelo carácter icónico (ou seja, com o seu quê de sagrado) que o desenho dos prédios e do skyline de Manhattan representaram na cultura ocidental. | comments: 9 comments or Leave a comment  |
| Para mim a discussão entre filmes e os livros que lhes estiveram na origem (reacendida entre nós, há pouco tempo, a propósito do filme Blindness, de Fernando Meirelles, e o Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago) é totalmente inútil e desinteressante. Livros e filmes pertencem a universos diferentes, utilizam códigos e linguagens diversas, e sobretudo tocam-nos de modos absolutamente distintos, apelando a emoções e racionalidades diferentes. Não faz sentido, por isso, analisar um filme a partir do ponto de vista do livro que lhe esteve na origem, ou vice-versa, se for esse o caso.
Isto para, muito contraditoriamente, dizer que a relativa desilusão que constituiu, para mim, o visionamento de O Leitor, o filme realizado por Stephen Daltry (autor de dois excelentes filmes, Billy Elliot e The Hours), teve sobretudo a ver com as expectativas com que eu vim para o filme, tendo gostado imenso do livro de Bernhard Schlink, que li há dois ou três meses, e que foi uma daquelas leituras reveladoras e transformadoras.
E pensando bem acho que as minhas reservas em relação ao filme têm a ver com a personagem de Hanna Schmidtz e com o modo como a Kate Winslet lhe dá corpo. Acho que o filme nunca consegue transmitir bem o mistério de Hanna, transformando num truque narrativo (a reviravolta que tem a ver com o seu segredo) aquilo que é o verdadeiro motor da sua vida, no sentido de a condicionar por completo.
Além disso acho que o livro levantava muitas questões (a moral e a verdade, a vergonha, a força do passado, o poder do amor, a culpa) que no filme, se calhar inevitavelmente, se diluem um pouco no romanesco.
Em suma, o que o filme veio fazer foi estragar um pouco da magia que o livro tinha, dando formas e rostos a coisas que estavam melhor servidas pela minha capacidade de criar um imaginário para o livro de Schlink. E pronto, agora que já fui completamente contraditório, posso regressar à minha opinião habitual de que os filmes não devem nada ser vistos à luz dos livros que lhes deram origem. | comments: 4 comments or Leave a comment  |
| Diverti-me muito a ver Valkyrie, o filme de Bryan Singer que procede à reconstituição daquela que foi a última tentativa de assassinato de Adolf Hitler, condição obrigatória para dar o golpe de estado que terminasse com a tenebrosa aventura da Alemanha Nazi. O filme, como seria de esperar, não levanta muito acima do convencional, mas acho que consegue um tom adequado para tratar esta história, concentando-se essencialmente na preparação e na operacionalização do atentado, condimentado q.b. com as motivações políticas que lhe estiveram na origem. Mas tratando-se de cinema comercial também não se podia exigir uma contextualização mais rigorosa das circunstâncias em que o atentado surgiu. Mas como disse, mesmo assim está bem, o filme tem um bom clima de filme de guerra, é rigoroso na reconstituição histórica, revela sentido estético nessa reconstituição, sem todavia ulrapassar para o exagero do fascínio militarista, concentra a sua atenção num personagem, dando-lhe o inevitável estofo heróico. Em suma, um bom filme, ou pelo menos razoável, sobre um tema fascinante, e que tem o mérito, pelo menos, de despertar a atenção para esse tema.
Uma nota para o Tom Cruise que recentemente anda nas bocas do mundo pelas razões mais patetas,e que neste filme tem um personagem à sua medida, talhado para ele e para o seu acting. Confesso que tenho um fraquinho pelo TC (afinal de contas, ele é da minha idade, crescemos juntos e tal) e é sempre um regalo vê-lo a encher tão bem um papel. E depois aquele cabelinho às ondas a dar o toque de aristocracia europeia fica-lhe lindamente... | comments: 10 comments or Leave a comment  |
| Há muito tempo que não me dava uma vontade tão grande de ver filmes. Quer dizer, pelo menos comparado com o que tem sido habitual nos últimos tempos.
Isto para dizer que fui ontem ver Doubt, realizado por John Patrick Shanley, baseado na sua própria peça de teatro (apesar de não ser muito conhecido, JPS não é propriamente um novato: para além de ter realizado Joe and The Volcano, com o Tom Hanks, foi o argumentista de Moonstruck, um velho sucesso dos anos 80, com a Cher e o Cicholas Cage).
A história situa-se nos anos 60, a seguir ao assassinato de JFK, e aborda temas sociais, como o racismo e a homossexualidade tendo como pano de fundo uma comunidade irlandesa fortemente católica. Temas fortes num filme muito maduro e grave, nesse sentido muito pouco habitual no cinema americano mais recente, mas a honrar uma extensa galeria de clássicos do melodrama. O facto de o final do filme ser aberto em relação ao tema da discórdia constitui mais uma indicação de que não estamos propriamente perante um filme destinado a audiências muito fáceis.
No entanto o grande trunfo do filme vem do embate colossal entre dois monstros do cinema actual, a Meryl Streep e o Philip Seymour Hoffman, nos papeis de uma freira e de um padre que se digladiam num jogo de acusações e desconfianças. O antagonismo das personagens potencia a excelência das interpretações, num filme que deu ainda duas interpretações secundárias excelentes, as de Amy Adams e Viola David. Não admira que os quatro estejam nomeados aos Oscars da Academia. | comments: 4 comments or Leave a comment  |
| Vi no computador (creio que estreia hoje nas salas de cinema) o filme Slumdog Millionaire, de Danny Boyle. Estava cheio de vontade de ver o filme, cheio de feeling em relação a ele, nem sei bem porquê, a não ser porque se tratava de uma história passada na Índia. O filme tem sido um sucesso, nomeadamente nos festivais e no circuito dos prémios do costume, tendo ganho, com alguma surpresa, os globos de ouro (os do Hollywood, não os da Sic), e não me admirava nada que fosse um dos vencedores da próxima edição dos Oscars.
De certa forma, o filme tem uma fórmula vencedora: o ritmo sincopado, a história muito up-lifting, as referências à cultura popular, o toque de multi-culturalismo centrado num dos países emergentes no mundo deste início de século, o feerismo do cinema de Bollywood, a ligação à televisão através de um dos mais populares concursos televisivos, a preocupação social mas sem esquecer a festa, o tom épico e grandiloquente, etc etc.
Eu gostei bastante do filme, vi-o num estado de grande entusiasmo (eu ia escrever frenesim, mas convém não exagerar), mas tenho de confessar que não estou muito certo do que é que me agarrou no filme: se o filme em si, se a música fabulosa do A.R. Rahman. Sim porque a melhor coisa do filme é uma banda sonora endiabrada, da autoria de um dos maiores compositores indianos da actualidade, autor, como não podia deixar de ser, de muitas bandas sonoras de filmes da indústria cinematográfica indiana. Houve trechos e sequências do filme que vi em modo repeat (duas, três, quatro vezes) apenas pelo gozo de ouvir a música e perceber como ela elevava o potencial das cenas. No fim há um número de coreografia, à Bollywood, que é uma jóia de humor e homenagem, e que torna obrigatório ver o genérico final do filme.
Eu já tinha cá em casa dois cd's com música de Rahman, um, Rahmania, com diferentes obras escritas para cinema tocadas por uma banda de metais (uma brass band) e o disco com as canções do musical Bombay Dreams, que vi em Londres, e que eu adoro (o musical e as canções; uma delas, Love´s Never Easy, é uma das canções que constam da drive de músicas que está instalada no meu cérebro).
As canções de Slumdog Millionaire são quase todas de A.R. Rahman, e o título-tema, O... Saya, é de co-autoria do Rahman com a M.I.A. Até sinto formigueiro nos ouvidos com vontade de ter o cd com a banda sonora do filme. E fica já aqui escrito que se não ganhar os oscars para melhor banda sonora e melhor canção, é uma tremenda injustiça (olha o cliché). | comments: 9 comments or Leave a comment  |
| É inevitável pensar em American Beauty a propósito do mais recente filme de Sam Mendes, Revolutionary Road, já que ambos se dedicam a lançar um olhar à neurose do subúrbio, como uma espécie de shangri-la onde a média e alta burguesia atinge o zénite do tédio e começa um inexorável e miserável processo de decadência. Mas enquanto Beleza Americana tinha como que uma camada onírica onde Lester, o personagem de Kevin Spacey, procurava desfazer a sua abjecção em dignidade (mas não tanto ‘com’ dignidade), em Revolutionary Road tudo se passa com a crueza de um episódio da national geographic. Um episódio, digamos assim, em que se analisasse a capacidade auto-destruidora dos mamíferos, incendiada por um impulso de conformismo e desassossego. ‘Hopeless emptiness’, chama-lhe a personagem de John Givings.
É evidente que o filme se apoia muito no embate entre Kate Winslet e Leonardo Di Caprio, mas sobretudo num aspecto que poderia constituir uma fragilidade do filme mas que para mim é o seu principal motivo de interesse: o modo teatral como todo o filme se constrói à volta e em volta deste duo e do seu duelo. Revolutionary Road quase se poderia aproximar de uma qualquer espécie de teatro filmado, se a sua dinâmica não fosse tão própria do cinema comercial. Mas é um ponto a favor do filme escolher encenar o duelo de Kate e Leo mais como uma peça de teatro do que como uma novela televisiva.
Sam Mendes pode não fazer os melhores filmes (quanta da eficácia de American Beauty não se deveria sobretudo ao Alan Ball, sobretudo agora que vamos ficando mais familiarizados com a escrita televisiva de Ball), mas faz algum do cinema mais estimulante e desafiador que vai passando pelas salas dos centros comerciais. | comments: 7 comments or Leave a comment  |
| É-me sempre mais difícil falar de um filme (ou de um livro, ou seja do que for) quando ele me tocou de muitas maneiras e me comoveu. É mais fácil quando conseguimos alguma distância, que nos permite uma aproximação mais crítica e racional. É um pouco o que me está a acontecer em relação a Milk, o filme de Gus Van Sant, em que Sean Penn dá corpo à figura de Harvey Milk, o primeiro político gay eleito nos EUA, símbolo do bairro de Castro, em São Francisco, como meca da liberdade e da plena cidadania dos homossexuais e lésbicas. Talvez começar por dizer que se trata de um filme inspirador e que tem um cunho marcadamente político, não se esgotando, mas gerindo com eficácia, no melodrama biográfico.
Sendo evidente que se trata de uma bio-pic, é igualmente, ou sobretudo, um filme sobre o activismo gay, contendo uma clara mensagem (política) de que apenas a visibilidade pode trazer a conquista de direitos civis. Gostei que o filme, ainda que não negando reconhecer a Milk o estatuto de herói e mártir do activismo gay, tenha tido a preocupação de contextualizar sempre essa dupla condição, não tanto na perspectiva da biografia de Harvey Milk, mas sobretudo no tempo e no lugar em que aconteceram.
Mas como disse acima, o filme não se esgota no melodrama, mas também não o elimina de todo, e muita da sua eficácia vem precisamente do modo como ele gere aquilo a que poderemos chamar a vida privada de Harvey Milk, até no sentido em que muita dessa esfera privada se sobrepunha, ou deixava sobrepor, pelo activismo público. E, na minha opinião, é nessa camada mais íntima que a interpretação do Sean Penn é magistral porque consegue dar sempre profundidade e espessura à personagem que representa. E acreditarmos no Harvey Milk de Sean Penn, percebermos a sua psicologia e aderirmos ao seu drive emocional, é essencial para recebermos e aceitarmos a sua mensagem transformadora. É esta a estratégia narrativa do filme, e, na minha opinião, é desenvolvida com enormes inteligência e eficácia.
Vemos muitos filmes e de tempos a tempos há filmes que nos marcam, por uma ou outra razão. Mas mais raro é haver filmes que nos transformam, que se inscrevem, e que escrevem, a nossa maneira de olhar e estar no mundo. Milk é, em relação a mim, um desses filmes. | comments: 12 comments or Leave a comment  |
| Estou a ouvir o concerto de Colónia do Keith Jarrett (que o Last-fm não apanha no scrobbling) e a beber um chá quente para sacudir a intempérie. Cheguei há bocadinho a casa, depois de ter ido ao Porto basicamente para bisar a exposição retrospectiva sobre Juan Muñoz, na fundação de Serralves.
Volto a experimentar o impacto que os trabalhos de Muñoz têm em mim, e vejo as peças com o espanto e o entusiasmo da primeira vez. Talvez com mais, porque afinei a companhia e com a C. posso teorizar à vontade e dizer disparates. Desta vez segui a exposição com o guia-áudio e confirmei as impressões que tive quando vi a exposição pela primeira vez e que estão, creio, na base da minha adesão: uma qualidade arquitectónica, uma maneira de usar a arte para criar uma tensão entre o espaço e o espectador. As figuras de Many Times criam um efeito surpreendente, que parece ser acolhedor, como se nos convidassem à conversa, mas da qual acabamos por nos sentir excluídos. Mas há uma qualidade intrínseca em cada uma das figuras, que, quando juntas parecem embrenhadas em animados e entabulados convívios, mas que quando estão isoladas parece conterem um segredo qualquer que lhes permite ver o lado mais maravilhado do mundo. Acho que The Wasteland é a minha peça preferida, sobretudo por causa do piso que me convida à vertigem e ao voo. Tenho uma vontade quase irresistível de entrar na sala e sobrevoar o piso até à pequena figura sentada na parede, em modo loop, again & again. Seated Figures With Five Drums tinha-me fascinado mas tinha passado demasiado depressa por ela para desfrutar desse fascínio. Um fascínio um pouco doloroso, note-se, já que parece haver nessa peça (mas haverá em todas?) uma pulsão dramática, ou mesmo uma tragédia à espera de acontecer, ou mesmo que já aconteceu noutro lugar mas ainda não chegou à sala. Como se fosse uma serenidade que é a negação da serenidade.
Fomos almoçar francesinhas (e sangria) e depois fomos ver o Vicky Cristina Barcelona. Talvez fosse porque eu estava bem disposto (apesar de ensonado, à conta da sangria) mas o filme divertiu-me muito, paesar de ser mais triste do que alegre. Mas é uma tristeza alegre, nada lamechas, sombria, até um pouco desoladora, mas leve e aérea. O Woody Allen, digam lá o que disserem, continua em forma, e a dar-nos filmes que nos espevitam e divertem. Entretenimento para adultos, numa época que essa denominação parece totalmente desadequada aos filmes que passam nos multiplexes dos centros comerciais. A banda sonora é maravilhosa, e eu quero comprá-la (é a segunda BD de um filme de WA que me apetece ter, depois de Match Point). E o filme não sendo propriamente uma ode a Barcelona, é um filme pensado para aquela cidade, mesmo quando tropeça nos lugares comuns (e não, não estou a pensar na Sagrada Família ou na Casa Millá).
Mas o bom do fim de semana já tinha começado ontem à noite, quando fui ao TAGV ver Os Produtores, uma versão portuguesa do famoso musical de Mel Brooks, o famoso filme que se tornou um musical que se tornou um filme. Gostei muito de ver o Manuel Marques, sobretudo quando ele se cola ao registo do Mathew Broderick no filme. E gostei do tamanho da banda em palco, e dos quadros com o corpo de baile todo em cena. E acho que a versão portuguesa da peça preserva muito das piadas e do tipo de humor do Mel Brooks, mesmo quando esse humor nos é um pouco mais estranho. Aliás, ontem estava a ver a peça, e a divertir-me à grande, e a pensar que de facto não fazia muito sentido, aqui há uns anos, adaptar a versões portuguesas os grandes musicais do West End e da Broadway, porque as referências, em termos de cultura popular, são tão distantes das nossas. Agora que parece estar na moda adaptar os musicais, isso de certa forma significa que a nossa cultura popular perdeu idiossincrasia, ficou mais plana e indistinta, muito por efeito da televisão, e sobretudo da forma como as gerações mais recentes recebem toda a cultura popular de raiz anglo-saxónica.
O chá já acabou, o Keith Jarrett ainda não, e eu vou ali para o sofá, para a leitura e para a sornice. Estou a ler, e quase a terminar, um livro muito divertido, mas fica para outra vez falar nele. | comments: 13 comments or Leave a comment  |
| | Apesar de não ser uma obra tão depurada como outros filmes do realizador, ainda assim Changeling, de Clint Eastwood é um entusiasmante exercício de contenção e rigor narrativo e que, entre outras coisas, se destaca pela fabulosa interpretação de Angelina Jolie. Eastwood é um grande director de actores, mas há qualquer coisa de simultaneamente forte e subtil quando dirige actrizes, uma espécie de mistério que acrescenta grandeza às actrizes e aos papéis a que elas dão corpo. Raras vezes me lembro de ver a Angelina Jolie tão madura, totalmente desprovida da carga de sex symbol (o que a torna ainda mais feminina e sedutora). E, além disso, capaz de dar, da forma contida que é marca do realizador, expressão a sentimentos e emoções intensas, e ao mesmo tempo dar ao papel uma espécie de camada política que funciona como uma caução de intervenção social, mas sobretudo que dá mais expressão ao drama vivido pela protagonista. | comments: 4 comments or Leave a comment  |
| E bom, para abrir as hostilidades do ano novo, mas sobretudo para me encontrar com uma grande amiga que vive longe, fui ontem ao Porto. O encontro foi marcado em Serralves, para ver a exposição retrospectiva dedicada a Juan Muñoz, e não havia maneira melhor e mais impressiva de começar o ano. Apenas conhecia de Muñoz dois conjuntos escultóricos, um no Jardim da Cordoaria, no Porto (‘Treze a Rir Uns dos Outros’, que creio ter sido o derradeiro trabalho do artista, e que segundo li algures, se encontra vandalizado e em muito mau estado, o que deveria constituir crime, se não para os autores pelo menos para as autoridades que têm obrigação de velar pelo bom estado das obras de arte públicas), e outro, Una Habitació On Sempre Plou, na praia da Barceloneta, em Barcelona. Esta retrospectiva em Serralves foi das exposições que mais impacto me causaram. Beneficiei de a ver quando o museu ainda estava com relativamente pouco público, o que proporcionou a experiência do confronto com os trabalhos e o espaço, que julgo serem dois aspectos muito importantes da obra de Muñoz. Mais do que a escultura, a impressão mais forte que as obras de Muñoz me causaram foi de estarmos diante de uma verdadeira arquitectura, uma forma de ocupar o espaço e de o transformar numa aventura de humanidade. As suas obras criam uma tensão muito grande, particularmente nítida em Many Times, a peça que reúne 100 figuras humanas em poses de interacção, e sobretudo em The Wasteland, mas de um modo geral em todas as obras, pois, como disse, a obra de Muñoz vive desse modo como organiza o espaço à sua volta e como isso interfere connosco. Não é uma arte que se vê, mas sim que se experimenta, que verdadeiramente se vive. Não há muitos momentos em que temos a sensação de que estamos a ser transformados, e isso em relação às artes plásticas acontece-me muito raramente, pois é uma área em sou profundamente ignorante. Mas conhecer esta exposição retrospectiva foi dos momentos mais intensos e transformadores que vivi.
A seguir a Serralves, zarpámos para o Arrábida, para ver filmes. Talvez porque a exposição de Juan Muñoz me tenha impressionado tanto, os dois filmes que vi não me entusiasmaram por aí além.
No entanto, gostei muito de ver Caos Calmo, do italiano Antonio Luigi Grimaldi, com argumento e interpretação de Nani Moretti. É impossível ficarmos imunes ao factor Moretti, e em alguns momentos do filme, os melhores, temos mesmo a sensação de estar a assistir a um filme do realizador de Caro Diario, Palombella Rossa ou La Stanza del Figlio, com o qual tem inegáveis semelhanças, mas que se ficam sobretudo pelo tema. Ao filme de Grimaldi falta a subtileza do filme de Moretti, e sobretudo a forma genial como o filme de Moretti conseguia captar esse momento de extrema fragilidade que é o luto. Mas dizer que ao filme falta a delicadeza de La Stanza, não significa que o filme de Grimaldi é desastrado ou excessivo. Pelo contrário, é um filme bem construído, que consegue equilibrar bem o melodrama e uma reflexão sobre o momento do cinema em Itália, e que consegue, tratando de um tema pesado, ter apontamentos de humor e de alegria, conseguindo, parece-me, uma comunicação eficaz e empática com o espectador.
Já Body of Lies, do Ridley Scott, me deu um bocado de seca, apesar da bem urdida trama, do tema político, e da presença de dois grandes actores, o Russell Crowe e o cada vez melhor Leonardo DiCaprio. Acho que o filme não convenceu sobretudo como thriller, que achei pouco eficaz, e que é de tal modo barulhento que temos de fazer um esforço significativo para conseguir perceber a mensagem política que constitui, aparentemente, a razão de ser do filme. | comments: 7 comments or Leave a comment  |
| E pronto, eis que chegaram as entradas maçadoras com os balanços do ano. Acho que vou manter mais ou menos o formato do ano passado e fazer quatro balanços. Começamos pelo cinema.
Num ano não muito famoso, e em que a principal caracteristíca continuou a ser a minha enorme preguiça em ir ao cinema, ainda assim é possível seleccionar uma mão cheia de filmes entusiasmantes. Foram sobretudo estes OS MELHORES: - There Will Be Blood, P.T. Anderson - No Country For Old Men, Joel e Ethan Coen - We Own The Night, James Gray - Youth Without Youth, Francis Ford Coppola - Blindness, Fernando Meirelles - Australia, Baz Luhrmann E os outros:
- Cassandra's Dream, Woody Allen - Sweeny Todd, Tim Burton - Charlie Wilson's War, Mike Nichols - Atonement, Joe Wright - 3:10 To Yuma, James Mangold - Juno, Jason Reitman - In The Valley of Ellah, Paul Higgis - Michael Clayton, Tony Gilroy - The Other Boleyn Girl, Justin Chadwick - My Blueberry Nights, Wong Kar Wai - Indiana Jones and The Kingdom of The Crystal Skull, Steven Spielberg - The Happening, M. Night Shyamalan - The Darjeeling Limited, Wes Andersen - Into The Wild, Sean Penn - Batman, The Dark Night, Chris Nolan - Tropa de Elite, José Padilha - Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes - Mamma Mia!, Phyllida Lloyd - Burn After Reading, Ethan e Joel Coen - Death of A President, Gabriel Range - W., Oliver Stone - Entre Les Murs, Laurent Cantet - Quantum of Solace, Marc Forster Quanto aos actores, estes foram os principais rostos que me fizeram sair de casa para ir ao cinema ou que eu trouxe para casa depois de ver os filmes:
- Daniel Day Lewis - Keira Knightley - Ellen Page - Tommy Lee Jones - Javier Bardem - Josh Brolin - Tilda Swinton - Joaquin Phoenix - Robert Duvall - Tim Roth - Wagner Moura - Meryl Streep - Julianne Moore - Nicole Kidman | comments: 13 comments or Leave a comment  |
| | Adorei o filme Australia, do Baz Luhrman. Há muito tempo que não me divertia tanto a ver um filme, que não babava a olhar deslumbrado para o grande ecrã. O filme parece ter uma ambição desmedida, mas a verdade é que é tão parcimonioso a gerir a narrativa, tão justo nos tempos que dedica a cada segmento da história, tão rigoroso na construção das cenas, tão equilibrado nas citações, referências e homenagens que faz ao cinema e aos géneros clássicos, que nunca temos a sensação empastelada que muitas vezes atropela os filmes que têm aspiração a grandes épicos. E depois está um filme feito com amor ao cinema, mas sobretudo com inteligência, uma tentativa de fazer o grande filme da Austrália, mas com humor e ironia, e com o toquezinho de camp tão típico dos filmes do Baz Luhrman. E depois achei a Nicole Kidman fantástica, acho que é o seu grande papel, feito sempre com o tom certo, seja no burlesco seja no melodrama. | comments: 11 comments or Leave a comment  |
| Não percebo muito bem porque é que os críticos desancam em Blindness, o filme que Fernando Meirelles fez a partir do romance de José Saramago. Eu achei o filme excelente, muito bem feito, com uma perspectiva e um sentido, bem construído do ponto de vista narrativo, com vontade de contar uma história mais por imagens do que por palavras, com um conjunto de interpretações muito equilibrado e um desempenho excepcional da Julianne Moore.
E, além disso, não faz sentido nenhum comparar o filme de Meirelles com o livro de Saramago. Que o livro é mais rico do que o filme, mais subtil, com uma multiplicidade maior de sentidos e interpretações? É verdade, mas isso, na minha opinião, tem sobretudo a ver com as características próprias da literatura. Aceito que se diga que o livro de Saramago é uma melhor obra de literatura do que o filme de Meirelles é uma obra cinematográfica. Mas dizer isso não é em si grande coisa, e sobretudo não deve servir para apoucar o filme de Meirelles. De resto achei o filme muito fiel ao livro, não obviamente no sentido de traduzir em imagens todo o conteúdo do filme (seria impossível, provavelmente desinteressante e totalmente absurdo), mas naquele em que se percebe perfeitamente a medida em que o filme cabe no livro de Saramago, qual foi, das inúmeras leituras possíveis, aquela que o filme escolheu. E poder dizer isso é muito mais do que se pode dizer de grande parte dos filmes criados a partir de obras literárias.
Com um material muito complexo em mãos, pretender contar uma história numa linguagem cinematográfica convencional (ou seja, que caiba nos códigos da indústria do cinema e dos circuitos internacionais de distribuição comercial) cujos personagens não têm nome ou espessura psicológica, e que o enredo não é muito mais do que um dispositivo mínimo que sirva a necessidade de dar corpo narrativo a uma parábola, perante este ponto de partida parece-me que Fernando Meirelles fez um óptimo trabalho. O filme é fortíssimo, não dá tréguas ao espectador no seu convite a uma viagem pelo lado mais horrífico e desumano da humanidade, mas nem por isso deixa de tratar com atenção e cuidado as personagens e o seu destino de sobrevivência nas condições mais miseráveis.
E tem pelo menos uma cena comoventíssima, que é quando a mulher do médico decide contar à mulher dos óculos escuros que vê, no momento em que o médico a trai justamente com a mulher dos óculos escuros. Há nesta sequência qualquer coisa de profunda e essencialmente humano, que, mais não fosse, valia por si a experiência de assistir ao filme. | comments: 15 comments or Leave a comment  |
| Está a passar na Sic Radical (Sábados e Domingos, às onze da noite) uma série de animação chamada Rick & Steve: The Happiest Gay Couple in The World. Feita em técnica 'stop motion' as figuras são inspiradas nos bonecos da Playmobil e da Lego (acho que já houve o competente processo) e retrata a vida de três casais homossexuais típica de quem vive num gueto gay (daqueles que só há na Califórnia e no Príncipe Real - atenção à ironia!)
É uma série divertidíssima, com um humor cáustico e demolidor, que goza com todos os clichés da cultura e do estilo de vida gay, alguns deles tão poderosos que até existem em comunidades gay muito incipientes como é a portuguesa. Os três casais protagonistas (há depois uma série de personagens secundárias, não menos caricaturais) retratam, entre gays e lésbicas, três situações mais ou menos típicas de casais homossexuais. Claro que a vida gay não se resume a essas caricaturas, mas como qualquer boa caricatura, a ideia é conseguir retratos a traço grosso com umas linhas mais subtis para dar credibilidade. A série é ainda um exemplo de como se pode ser mordaz sem nunca se ser ofensivo, apesar de ser bastante forte nos temas, nas situações e nas linguagens. Aliás, deu-me um gozo especial a semana passada, quando a apanhei pela primeira vez, porque a vi em casa dos meus pais e foi divertido assistir à reacção deles (também muito divertida) à linguagem e aos temas bastante ousados.
O criador e realizador da série é A. Allan Brocka, de quem já tinha visto dois filmes, de temática gay: Boy Culture e Eating Out. Este último é um dos filmes LGBT mais populares, tanto que, se não estou em erro, já gerou duas sequelas. Tenho de confessar que não me entusiasmei muito com estes filmes, achei-os pouco consistentes do ponto de vista narrativo e com direcções de actores igualmente pouco convincentes. Além de que são, em termos de história, muito ancorados nos clichés e lugares comuns do estilo de vida gay! O que é, precisamente, o principal traço do humor sarcástico de Rick & Steve. Ou seja, o realizador é muito mais eficaz a gozar com esse estilo de vida do que tentar retratá-lo com seriedade.
Duas pequenas curiosidades. A primeira é a de que, pelo menos em alguns episódios da primeira temporada de episódios, o grande actor Alan Cumming (ele próprio gay assumido e interventivo) dá voz a um dos personagens (Chuck, o membro de um dos casais, que é 31 anos mais velho do que o seu parceiro). A outra é que Q. Allan Brocka é sobrinho (apesar de nunca ter conhecido o tio) de Lino Brocka um mítico realizador filipino que nos anos 70 e 80 adquiriu prestígio internacional, assinando filmes de qualidade (era presença habitual em Cannes, tendo sido premiado), e que realizou igualmente alguns filmes de temática homossexual. | comments: 9 comments or Leave a comment  |
| Se calhar escolhi mal a ocasião em que fui ver Quantum of Solace, o último James Bond, porque estava cheio de sono e a fazer um enorme esforço para me manter acordado, mas a verdade é que achei o filme uma seca, e uma enorme desilusão depois do entusiasmo e da animação que foi o Casino Royale. Um filme de acção muito a atirar para o banal, em que a única coisa a que achei graça foi aos tipos de letras usados para indicar os locais da acção. Pronto, fica assim, aviado o filme em duas frases. Ou três? | comments: 4 comments or Leave a comment  |
| A amiga te-amo-azul chamou-me a atenção para um documentário sobre a vida da Carmen Miranda, intitulado CM: Bananas Is My Business, realizado em 1995 por Helena Solberg e por David Meyer, sendo a primeira uma brasileira residente nos Estados Unidos, tal como a própria Carmen.
O filme é muito interessante sobretudo porque tenta raspar um pouco para além dos clichés superficiais que rodeiam a imagem e até a biografia de Carmen, mostrando como de certa forma ela ficou um pouco prisioneira dessa imagem, e como, pelo menos na fase final da sua vida (essencialmente depois do final da segunda guerra mundial), as coisas nem sempre se passaram com o glamour que pareciam ter. Mas fá-lo sem pôr em causa a importância de Carmen Miranda no eclodir da música popular brasileira, e o seu papel de estrelíssima de Hollywood, antes tentando perceber o que é que em Carmen e no seu percurso de vida levaram a esses lugares tão preponderantes na história da cultura popular.
Para além disso o filme é riquíssimo em acervo documental, nos clips de imagens de arquivo (fotografias e filme), nas trilhas sonoras, e sobretudo nos depoimentos que apresenta, que são todos de primeiríssimo nível, quer pela sua importância quer pelo interesse que revestem, quer até pela oportunidade. Destaco, de cor, os de Mário Cunha, que foi o primeiro (e dizem que o maior) amor de Carmen, de Aloysio de Oliveira, seu companheiro musical e na aventura de Hollywood (e também nos amores) ou de Aurora Miranda, a irmã de Carmen que chegou a ter uma carreira de cantora quase tão promissora como a dela (para quem não saiba, Carmen e Aurora eram as famosas Cantoras da Rádio, uma canção e um número musical com estatuto de mito na história da música popular brasileira).
O meu testemunho preferido, todavia, é o de Synval Silva, sambista emérito, um dos compositores favoritos de Carmen, cuja profissão era mecânico de automóveis e que fazia muitas vezes de motorista de Carmen. É um testemunho muito comovente, que nos dá a exacta medida da importância de Carmen neste tempo, e neste lugar, o Rio de Janeiro, fundador da música popular no Brasil.
Só mais uma nota a propósito de Bananas Is My Business. O filme de Helena Solberg, entre imagens de arquivo e depoimentos, tem ainda peças de reportagem (uma delas em Portugal, a propósito das origens de Carmen) e pequenos apontamentos fílmicos que pretendem apresentar, sob a forma de fantasias, momentos marcantes da vida de Carmen Miranda. E curiosamente nestes apontamentos quem dá corpo e rosto a Carmen é Erik Barreto, um famoso artista de travesti (transformismo, como se diz no Brasil) que vem da década de oitenta, o eldorado do travestismo no Brasil.
O filme Carmen Miranda: Bananas Is My Business está disponível no YouTube, dividido em 10 partes. Para não carregar muito aqui a página com os próprios clips, aí ficam os links para as páginas respectivas.
Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4 Parte 5 Parte 6 Parte 7 Parte 8 Parte 9 Parte 10 | comments: 2 comments or Leave a comment  |
| Fui ontem ver Entre Les Murs (A Turma), um filme realizado por Laurent Cantet, baseado num livro de François Bégaudeau, que também interpreta. O filme foi vencedor em Cannes e chega até nós com muito hype (enfim, tanto quanto se pode falar de hype a propósito de um filme europeu...) que, diga-se de passagem, é inteiramente merecido. Para quem não sabe, o filme acompanha as actividades de uma turma de um liceu francês urbano, durante um ano lectivo.
O truque de Entre Les Murs é evitar tanto quanto possível um olhar carregado quer de moral quer de emoções. A câmara como que se limita a encostar-se ao desenrolar das coisas na sala de aula (à luta de classes, poderíamos dizer), sem fazer julgamentos, sem apelar muito (é de todo impossível evitar) aos sentimentos de quem visiona, convencida que o resultado daquilo que se passa lá dentro será sempre mais poderoso e perturbador do que qualquer retórica.
Não sei se poderemos dizer que se trata de um filme revolucionário, no sentido em que questiona, mais do que o ensino ou o sistema de ensino, o próprio lugar da escola, sabendo-se que a escola é a principal arena da aprendizagem social, é na escola que o 'sistema' nos forma e se forma. A verdade é que o filme funciona como um murro no estômago, ou melhor nas nossas convenções. Porque o que está em causa ultrapassa em muito as questões da disciplina ou da eficácia do sistema de ensino. A pergunta, verdadeiramente subversiva, que o filme nos põe a formular ao fim de duas horas é de facto do sentido que faz a escola.
O encanto do filme advém destes dois factores: por um lado o carácter esmagador da interrogação que nos semeia no espírito; e por outro de uma espécie de respeito pela pessoa dos alunos, dos professores, da mãe de Soulymane, em suma de respeito pela pessoa dos actores, negando-se qualquer tentativa de traçar retratos psicológicos, trazendo das suas vidas quase apenas o essencial ao evoluir dos acontecimentos, quase como se eles não tivesse biografia, vida própria. A ironia deliciosa é que o filme tem este pudor de tratar os actores do filme como pessoas, como pessoas que têm vida própria enquanto, justamente, os alunos passam boa parte do filme a traçarem o seu próprio auto-retrato. De mestre, como todo o filme. | comments: 3 comments or Leave a comment  |
| Apesar da habitual falta de subtileza de Oliver Stone, W. constitui um retrato cruel de George Bush, tanto mais eficaz por não ser estridente nem óbvio, evitando qualquer anti-bushismo primário, investindo em pintar o 43º presidente dos Estados Unidos com tons de personagem trágica, perdida não no seu labirinto, mas numa patética falta de consciência do seu próprio destino. A verdadeira tragédia, naturalmente, reside no facto de o nosso destino estar tão amarrado ao dele.
Mas é mais o filme. Tratando-se de uma comédia ácida, traça igualmente um retrato impiedoso da América, ao colar a figura de Bush a uma certa 'americana' (ou mais exactamente a uma certa 'texana'). Dispensável, porque forçada, era a nota freudiana de tentar explicar Bush como o resultado da relação difícil com o pai, uma espécie de conto bíblico em que George W. seria o filho mau e Jeb o filho bom.
Fabulosas, e essenciais para a eficácia do filme, as interpretações de todo o ensemble, que não querendo fazer imitações a la minuta do bush gang, consegue criar personagens que são projecções certeiras das personagens reais. Para além do Josh Brolin, que encarna George W. de uma maneira que chega a ser arrepiante, destaco o regresso de Richard Dreyfuss, um dos meus actores preferidos e de quem tenho tantas saudades de ver no ecrã, e que no filme se encarrega do verdadeiro mau da fita, o vice Dick Cheney.
Espero que o filme não se perca na retórica pró e sobretudo anti-Bush, nomeadamente no momento em que a campanha eleitoral norte-americana está a atingir o zénite. Porque o filme representa um contributo valioso para a compreensão daquela que foi não só uma das piores mas principalmente das mais negras e trágicas presidências dos EUA: não só (mas também, claro, e muito) por causa do abismal death count das guerras que provocou, mas também pelo recuo civilizacional que representou precisamente naqueles dois aspectos que sempre invocou como bandeiras: a liberdade e a democracia. | comments: 11 comments or Leave a comment  |
| Death of a President é um filme de ficção, que, sob a aparência, falsa, de um documentário de televisão, encena a morte por atentado do presidente Bush e as investigações subsequentes para encontrar o seu autor. Uma primeira nota prévia, importante para se delimitar bem o âmbito do filme, para dizer que, sendo um documentário sobre um acontecimento já passado, a hipótese que o filme encena é futuro em relação à sua produção. Ou seja, o filme foi feito em 2006, o atentado teria hipoteticamente tido lugar em Outubro de 2007 e o tempo da acção do documentário seria 2009 ou mesmo 2010. Este pormenor é importante porque coloca definitivamente o filme no campo da ficção: passando-se num tempo que ainda não ocorreu não corre o risco de qualquer espectador tomar como verdadeiro aquilo que é falso. Claro que postas as coisas neste pé também se pode levantar outra questão, que é a de saber se ao projectar assim o atentado no futuro o filme não está a fazer um convite à sua concretização. Mas isto é só um sarcasmo e, como diria a outra, isso agora não interessa nada. Outra nota importante tem a ver com o facto de Bush ser um dos presidentes mais odiados. Se a hipótese do filme se passasse com um presidente ou um monarca amado do povo, a hipótese do seu atentado seria sempre vista como um mero exercício teórico, ainda que de gosto duvidoso. Mas o facto de Bush ser odiado e de o filme encenar uma hipótese que muita gente poderá ver como plausível ou mesmo desejável, confere ao filme, no mínimo, um intuito, ou pelo menos uma certa aura, de provocação. E este pormenor é importante porque por ele passa a possibilidade de se fazer uma leitura mais acentuadamente política do filme. É portanto nestes dois factores, o tratar-se de uma obra de ficção e a possibilidade de ser lido politicamente, que se jogam as hipóteses do filme. A primeira é de DOAP (o nome secreto do filme enquanto estava a ser produzido, para nem os actores perceberem bem a trama) se esgotar enquanto dispositivo narrativo clássico, no caso um thriller policial,em que a política é apenas o pano de fundo, aquilo a que habitualmente se chama o McGuffin. Parece-me, apesar de tudo, a hipótese mais plausível, ainda que seja a menos interessante e até aquela em que o filme mais falha, pois a investigação acerca da autoria do atentado nunca chega a ter grande espessura dramática, nunca ganha dimensão narrativa. Ou seja, nunca se cria verdadeiro suspense acerca da identidade do autor nem isso é fonte de tensão dramática. É bem mais interessante a hipótese de se tratar de um filme com uma clara dimensão política. Não tanto, como se poderia supor à primeira vista (sobretudo por causa do já referido ódio a Bush), centrada no papel e no desempenho de Bush, mas especialmente na relação entre o poder político e os media, no modo como essa relação é sempre colocada sob o signo da manipulação mútua, e de como a principal vítima da administração Bush foi a liberdade individual, nomeadamente a liberdade de expressão. Neste aspecto o assassinato do presidente constrói-se quase como um duplo dos atentados do 11 de Setembro, em que um acontecimento trágico ganha uma tal dimensão política que acaba por justificar um tremendo recuo nas liberdades individuais nas próprias sociedades que são vítimas desses acontecimentos. O que o filme nos diz é que raras vezes nas democracias ocidentais, a pretexto da luta contra o terrorismo, o poder foi tão longe na limitação da liberdade dos seus cidadãos. Aliás, é significativo que no forum do site imdb.com um participante pergunta, não sabemos se com ironia ou não, se será seguro ele ir ao clube de video alugar o filme ou se corre o risco de, só por isso, passar a ser vigiado pelos serviços secretos! Referir por fim que o filme é de origem britância, o que lhe dá uma caracteristica própria, pois é muito feito à imagem e semelhança da grande tradição da televisão inglesa de produzir documentários de actualidade sérios e graves. O filme mistura imagens noticiosas reais com entrevistas a diversos participantes (assessores do presidente, responsáveis de segurança, peritos em investigação forense, etc.) e sobretudo com imagens e segmentos sonoros reais manipulados ou descontextualizados (como o discurso fúnebre de Cheney, que foi proferido a propósito da morte de Reagan). Na maior parte das vezes esta manipulação de som e imagem é tão bem feita que é dificil acreditar que não é real. No entanto, nunca é abusiva pois faz parte do pressuposto do filme de que nada do que estamos a ver se funda na realidade. | comments: 2 comments or Leave a comment  |
| Achei divertidíssima a comédia que os irmãos Coen fizeram, suponho que para dar sequência à gravidade de Este País Não é Para Velhos. E se quem descobriu o cinema dos manos com os Oscars pode estranhar a mudança de tom de um filme para outro, quem, por seu lado, está familiarizado com a cinematografia de Joel e Ethan Coen sabe que Burn After Reading se insere numa tradição de comédias q.b. disparatadas, assentes num certo feerismo narrativo, e que descambam muitas vezes num festival de violência e screwball comedy. A vantagem, na minha perspectiva, deste filme sobre os outros filmes dos Coen dentro do mesmo género (estou a falar sobretudo das comédias Intolerable Cruelty e Hudsucker Proxy, mas mesmo de O Brother Where Art Thou, dentro de um subgénero de comédia diferente, ou do mais remoto Raising Arizona) é que é muito menos cerebral e construído, e assim a comédia parece ser mais fluída e natural e até, palavra que não parece fazer parte do léxico cinematográfico dos Coen, espontânea. Muita da delícia de Burn After Reading está no desenho das personagens (que mesmo quando se aproximam perigosamente são sempre mais do que simples 'bonecos') e sobretudo no tom justo das interpretações. Um lote de actores fantástico, destacando o regresso em forma de John Malkovitch, a Tilda Swinton sempre fantástica, a Frances McDormand sempre no ponto exacto. | comments: 12 comments or Leave a comment  |
| Não há outra maneira de o dizer sem ser através do cliché: o mundo está efectivamente mais pobre desde ontem. A conversar com amigos, ainda sob o efeito desconsolador da notícia, comentei que era a primeira vez que eu vivia num mundo sem Paul Newman.
A minha mais antiga recordação do actor, não é dele, mas do meu tio: eu tinha um tio que toda a gente dizia que era parecido com o Paul Newman. E era. Por isso a primeira recordação que tenho do Paul Newman é andar à procura do rosto do actor que era parecido com o meu tio. Paul Newman era assim, uma lenda viva. A fama precedia-o. Antes de algum de nós ter visto algum filme dele, já sabia quem ele era: um dos maiores actores do mundo.
Talvez o primeiro filme que vi dele tenha sido um dos mais fracos, The Towering Inferno, um filme catástrofe, que eu vi num velho cinema piolho, num verão (de 77) que passei na Amadora. Ou talvez tenha sido Buffalo Bill e Os índios, do Robert Altman, que vi já em Coimbra. Ou, também de Altman, Quinteto. Amar o cinema no lugar dele, na sala escura, é ter visto O Veredicto no grande ecrã. Ou The Color of Money, do Scorsese. Quase todos os filmes que Newman fez até Road To Perdition, do Sam Mendes.
Mas é também ir à procura da cinematografia de Paul Newman e descobrir a quantidade imensa de filmes que vi com ele, a maior parte, alguns dos melhores, num tempo em que nem eu próprio tinha ainda nascido. Sim, muitos deles ainda não tinha nascido para a cinefilía, mas muitos outros ainda não tinha nascido mesmo, nascer tout court! Alguns que fazem parte daquele grupo de filmes que vemos e revemos constantemente: Sweet Bird of Youth, Cat on a Hot Thin Roof, The Hustler, Hud (que em português tinha o título para mim hipnótico de ‘o mais selvagem entre mil’), A Cortina Rasgada, do mestre Hitchcock, A Golpada, ou aquele que terá sido um dos seus maiores sucessos, Butch Cassidy and The Sundance Kid, que entre nós levou o título também mítico de Dois Homens e Um Destino (uma história que fui reencontrar num dos meus livros preferidos, o In Patagonia, do Bruce Chatwin). Tantos filmes, todos inesquecíveis. Inesquecíveis, em parte, em grande, em enormíssima parte, graças ao Paul Newman.
Nas décadas de quarenta e cinquenta, o cinema recebeu quatro actores belíssimos, que marcariam para sempre, pelo menos no cinema norte-americano, o estatuto do actor de cinema. James Dean, que ficou para sempre jovem porque trocou a vida pelo mito. Marlon Brando, que era realmente o mais belo animal do mundo (perdão Ava Gardner). Montgomery Clift, provavelmente o mais belo de todos, o próprio epítome da perfeição masculina. E Paul Newman, o mais humano de todos, a prova de que ser-se espantosamente belo e carismático é uma coisa que está ao alcance de qualquer ser humano. Paul Newman foi o único que conseguiu colar o mito e o homem quase sem costuras, sem falhas, sem máculas.
Por isso, por ser um actor tão especial, um actor que nos dava tanto prazer e tanto sentido à nossa aventura de cinéfilos e humanos, é que não há de facto outra maneira de o dizer: o mundo sem Newman é realmente um mundo mais pobre. | comments: 14 comments or Leave a comment  |
| Ontem à noite fui jantar a casa dos meus pais e, ao serão, pus-me a zappar nos milhares de canais de televisão que tem a box, até parar, como é hábito, no canal Arte, o único que lastimo não ter. Estava a dar um filme com um Alain Delon novísismo e superlativamente belo, e passados poucos minutos percebi que estava a ver a primeira versão do romance Talentoso Mr. Ripley, da Patricia Highsmith, um filme realizado por René Clément em 1960 (uns meros cinco anos depois do livro ter sido publicado), com o título original Plein Soeil. Vi apenas pouco menos de uma hora de um filme que dura mais de duas, mas fiquei completamente rendido. Apesar de não ser, em termos de história, completamente fiel ao livro (nomeadamente o final, que é mais convencional e de sentido oposto ao desenlace do romance de Highsmith, e que foi a única nota negativa que vi), o filme capta com grande eficácia a atmosfera de Highsmith, de tal forma que ao ver as imagens parecia que estava a ver a transposição não só das cenas do livro, como das próprias palavras escritas por Patricia Highsmith. Os cenários, os décors, os figurinos, os adereços, tudo era fortemente evocativo das páginas do romance. E então o Alain Delon, bem, era a verdadeira encarnação de Tom Ripley, se bem que não tenho a certeza de o herói da Highsmith ser assim tão jovem e tão bonito. Já vi, acho eu, todas as versões do Tom Riply que se fizeram. Claro, a mais famosa, e de certo modo a que eu achava mais conseguida, era do filme de Anthony Minghella, com o Matt Damon e o Jude Law, por ser a que me parecia captar melhor a marca de Patricia Highsmith. Mas depois de ver este Plein Soleil (enfim, só metade, que vontade que eu tenho de arranjar o filme inteiro!) e o Alain Delon, não tenho dúvidas de que é a melhor e mais conseguida personificação de Ripley no ecrã. | comments: 8 comments or Leave a comment  |
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um voo cego a nada
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