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  <title>um voo cego a nada</title>
  <subtitle>miguel</subtitle>
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  <updated>2009-12-25T03:03:19Z</updated>
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    <title>a noite mais longa do ano</title>
    <published>2009-12-25T03:03:19Z</published>
    <updated>2009-12-25T03:03:19Z</updated>
    <category term="contos"/>
    <content type="html">A NOITE MAIS LONGA DO ANO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando penso nessa noite, o que me vem à ideia é eu estar deitado no sofá, a ler o jornal, enquanto na televisão passa um programa qualquer. São quase onze da noite e Bernard, o meu pai, começa a agitar-se, o que é sinal de que se quer ir deitar. «Benji», chama-me a minha mãe, «o teu pai parece que se quer ir deitar». O meu nome é Benjamin, é assim que os meus colegas me tratam, Professor Harrer para os alunos, mas a minha mãe, juntamente com duas das suas amigas, as únicas sobreviventes do meu tempo de infância e juventude, sempre me tratou e continua a tratar por esse diminutivo irritante. «Já tinha reparado», respondo meio absorto, «mas não acha que hoje à noite ele devia deitar-se um pouco mais tarde? Afinal ainda temos os presentes para abrir». Ela continuou a olhar para a televisão, como se eu não tivesse aberto a boca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Vem, Bernie», digo para o meu pai, num tom que costumamos usar com as crianças e os cachorros, «anda vestir o pijama». Ele faz um esforço para se levantar, a mão direita a tremer, e eu seguro-o pelas axilas e faço força para o levantar. «Tens fome paizinho? Eu estou a morrer de fome, o jantar estava uma bela porcaria, não estava?» Tinha sido eu, pela primeira vez na vida, a fazer o jantar daquele dia especial. Foi uma teimosia. Habitualmente mandamos vir a comida de uma dessas casas que fazem entrega ao domicílio, mas eu, por preguiça de fazer uma encomenda prévia e também por alguma determinação em não quebrar a tradição da ceia, tinha insistido em fazermos o jantar em casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encomendei todos os ingredientes on-line e às sete da tarde fui sentar a minha mãe numa cadeira junto à porta da cozinha. «Traz-me o telefone, Benji. Não quero perder nenhuma chamada importante». Trouxe-lhe o telefone e mal tinha posto as coisas ao lume para fazer o jantar, o telefone começou a tocar. A minha mãe ia-me dando instruções por gestos, ou no intervalo entre duas chamadas, e claramente, para ela, o jantar era uma segunda prioridade face aos telefonemas das irmãs, das primas afastadas, e das amigas com quem não estava desde o acidente. Eu enervei-me quando demasiadas coisas começaram a acontecer ao mesmo tempo e a situação no fogão parecia descontrolada. Ao mesmo tempo fui dando instruções ao meu pai, que estava parado, de pé, à porta da cozinha, atrás da cadeira da minha mãe. «Paizinho», pedi-lhe, «não te importas de ir pondo a mesa?», e fui-lhe indicando, uma por uma, as coisas que ele devia pôr na mesa: primeiro a toalha, depois os pratos, os talheres, os copos, os guardanapos, as taças e as colheres para a sobremesa, que tinha sido oferecida pela vizinha, o pão, as bebidas. A minha mãe bebe sempre Sprite, eu bebo chá gelado, e o meu pai divide a refeição: na primeira metade, bebe um copo com água onde deita as gotas do medicamento, depois, a meio, levanta-se, pega no copo e vai ao frigorífico servir-se de um vinho doce e diluído que ele compra em pacotes na mercearia perto de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jantar não estava tão bom como quando era a minha mãe a prepará-lo, mas mesmo assim era uma aproximação razoável. Ficou tudo um pouco cozinhado demais, as batatas praticamente desfeitas, o que fez alguma confusão ao meu pai, que não lhes conseguia espetar o garfo, mas o sabor estava bom. A minha mãe passou o jantar descontraída, comeu bem, elogiou a qualidade das matérias-primas, que tinha vencido a sua desconfiança relativamente às coisas que se compram através da intranet, mas sempre com um tom um pouco forçado, como que a disfarçar um certo desapontamento pela comida não estar exactamente como devia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei um copo de leite amornado ao meu pai, levei-o para o quarto, despi-o, vesti-lhe o pijama, pus o penico ao lado da cama para ele não ter de ir à casa de banho durante a noite, e deitei-o. Voltei para a sala e a minha mãe desviou os olhos da telenovela que estava a seguir na tv e disse-me: «Benji, é melhor abrires os presentes do teu pai». «Acho que não vale muito a pena, mãezinha, é melhor ser ele a abri-los amanhã de manhã». «Não, Benji, amanhã já não fará muito sentido abri-los, já será tarde. Estas coisas têm um momento próprio e como muito bem sabes, o momento próprio é hoje à noite». «Mãezinha, o que não faz sentido nenhum é eu abrir os presentes que eu próprio comprei para o paizinho». «E que eu não vi», disse ela, quase no seu tom de impassibilidade, «mas faz como achares melhor. Eu estou a ver a minha novela».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitei-me no sofá, com a cabeça encostada ao braço elevado, tapei as pernas com uma velha manta cheia de pelos do gato Felix, que já morreu há dois anos, e peguei outra vez no jornal.</content>
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    <title>twitfiction #17 (especial de natal): nicolau</title>
    <published>2009-12-24T01:25:01Z</published>
    <updated>2009-12-24T01:25:01Z</updated>
    <category term="contos"/>
    <content type="html">Ao entrar em casa depois de distribuídas as prendas, Nicolau teve um mau pressentimento: na mesa, não fumegava a habitual malga de sopa.</content>
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    <title>boas festas</title>
    <published>2009-12-23T11:29:21Z</published>
    <updated>2009-12-23T11:46:09Z</updated>
    <category term="coisas"/>
    <content type="html">Falta de inspiração e falta de assunto, eis as razões porque tenho escrito pouco por aqui. A vida lá fora não tem andado doce, e consome-me muita energia. Entre o trabalho e as obrigações familiares sobra-me pouca disposição para contemplar o mundo. Mas o Natal é sempre o milagre do amor, e o milagre do amor é sempre o milagre dos outros. Por isso devemos estar sempre disponíveis, expectantes e atentos. Só assim pode ser que o milagre do Natal aconteça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com este anjinho que foi oferecido por quem o fez e que é a única decoração do Natal deste ano, aqui ficam os meus votos de BOM NATAL para todos os amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kpg4g/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kpg4g/s320x240" width="306" height="240" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;</content>
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    <title>my stats</title>
    <published>2009-12-20T19:12:03Z</published>
    <updated>2009-12-20T19:12:03Z</updated>
    <category term="poemas"/>
    <content type="html">Agora que o livejournal tem uma página de estatísticas muito catita (hélàs, só para quem tem conta paga), decidi fazer um pequeno poema:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Secam-me as palavras muito místicas&lt;br /&gt;Estou à míngua de entradas aforísticas&lt;br /&gt;Faço então um limerick&lt;br /&gt;Só para ter algo que fique&lt;br /&gt;A pulsar na página das estatísticas</content>
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    <title>piscina</title>
    <published>2009-12-18T18:00:26Z</published>
    <updated>2009-12-18T18:00:26Z</updated>
    <category term="poemas"/>
    <content type="html">o teu esplendor é um lar em chamas &lt;br /&gt;uma felicidade dolorosa&lt;br /&gt;um crime redentor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como te vejo, &lt;br /&gt;tatuagens que sobem rios como peixes, &lt;br /&gt;o sal da nuca, &lt;br /&gt;despojos da faina espalhados no banco; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tão certas as tuas veias&lt;br /&gt;a areia áspera dos poros &lt;br /&gt;as linhas onde me afogo a cada volta dos braços, &lt;br /&gt;casco velho à deriva&lt;br /&gt;ao lado da luminosa textura dos teus gestos.</content>
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    <title>homossexualidades</title>
    <published>2009-12-17T23:11:15Z</published>
    <updated>2009-12-17T23:11:15Z</updated>
    <content type="html">Contributo, à laia de comentário, no dia em que o governo de Portugal aprovou o projecto de lei que consagra a possibilidade de celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;"(…) a paz do lar. Allende reconhecia que a isto nada se podia censurar: só que resultava inefavelmente cómico de vez em quando. O bem é um almoço em família. Allende dava-se conta de que aquilo que ele próprio recusava nestes clichés não era tanto o bem-estar ou a boa mesa (coisas que Allende apreciava grandemente), mas a imersão deliberada na normalização burguesa. Será a homossexualidade compatível com esta vida beata? O que é evidentemente incompatível com isso é uma ideia de homossexualidade inspirada em Gide, Wilde, Proust, Verlaine e Rimbaud, Luis Cernuda, Whitman, García Lorca, E.M. Forster ou Gore Vdal, para já não falarmos de Tennessee Williams ou Truman Capote ou Auden ou Christopher Isherwood. A lista interminável de homossexualidades não domésticas estendia-se a montante até Teógnis de Mégara e Sócrates e Platão, e, a jusante, compreendia toda a variegada série de homossexuais dos nossos dias (…) Em todos estes casos, a contraposição doméstico e não-doméstico, casal normalizado e casal excepcional, casal fixo e casal móvel, ou multicasal, surge muito visivelmente. Allende pensava em todas estas coisas à medida que observava como a relação de Joaquín e Pipe se consolidava por meio de uma homossexualidade normalizada, doméstica, conjugal, e que a sua própria vida assumia cada vez mais claramente a figura do homem solteiro."&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Álvaro Pombo, CONTRA-NATURA (ed. Minotauro)</content>
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    <title>slides</title>
    <published>2009-12-14T22:21:37Z</published>
    <updated>2009-12-14T22:21:37Z</updated>
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    <content type="html">Até uma destas noites, eu só tinha ouvido o Richard Harris (esse da fama tardia com o Professor Dumbledore da série Harry Potter) a cantar/dizer o tema 'Slides', umas quatro ou cinco vezes na vida. Tanto quanto me lembro, todas as vezes que o ouvi foi num programa da RFM, Oceano Pacífico, que era transmitido à noite. Não sei se ainda há esse programa, praticamente não ouço rádio à noite, e quando ouço normalmente é a Antena 2, para me fazer companhia quando estou a ler.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas apesar de o ter ouvido tão poucas vezes, ele estava completo na minha cabeça, o que mostra a impressão forte que me causou. Recordava-me da estrutura da canção, da melodia, toda, e de alguns pedaços da letra. E isto, como digo, com muitas poucas audições, muito espaçadas no tempo, e há muito tempo. É uma canção muito dramática, no sentido em que é intensa, mas também no de que conta uma história, ou melhor ela própria é uma história. E é uma canção evocativa, que nos fala de paisagens, de recordações, de viagens, de pessoas que encontrámos em circunstâncias especiais.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tentei várias vezes encontrá-lo na net, mas nada, nem para ouvir, nem para download, nem a letra, nem um clip no YouTube. Tinha-o apenas encontrado num disco à venda na Amazon, e várias vezes pensei encomendar o disco só para poder ouvir o tema. Mas uma destas noites, já nem sei porquê, lembrei-me dele novamente e tornei a procurá-lo na net. E desta vez correu bem: encontrei o clip na net, que vou pôr a seguir, e até encontrei a letra num blog português. Cá para mim também devia ser um ouvinte do Oceano Pacífico, todas as pessoas que eu sei que conhecem este tema, ouviram-no nesse programa. Nem vale a pena explicar muito porque é que ele me toca tanto, mas há na voz do Richard Harris, nas palavras que ele diz e sobretudo no modo como o faz, alguma coisa que me transmite uma espécie de tranquilidade resiliente, uma maneira de resistir com serenidade aos golpes e às adversidades da vida, de estarmos bem, em paz, mesmo quando as coisas não correm bem, quando estamos desapontados ou tristes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que não passa de uma coincidência, mas é curioso que encontrei o clip e a letra da canção numa noite particularmente má, em que estava, isso mesmo, triste e desapontado. Em que, mais uma vez, alguém de quem gosto muito não me tratou com a consideração, o respeito, e mesmo o amor que eu acho que lhe tenho e que mereço em retorno. Se calhar até foi por isso que eu fui procurar mais uma vez a canção. Porque precisava que o Richard Harris me dissesse, mais uma vez, que "somehow I'll get by, I will endure, living well is my best revenge".  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;
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    &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;i&gt;«‘Morning chaps. I’d like to welcome you back to the third form of your years, I trust you’ll thrive in here. Others in the past have come alive in here. Happy to say they found their way. &lt;br /&gt;You recall I asked, back when I saw you last, that you’d consult my list of books for summer reading. We’ll go over those and others you’ll be needing for the coming year, if I’m still here. I suppose you heard the word that’s going about, my superiors doubt I’m fit to teach you. Have a nip before the game and they’ll impeach you. Forget about the fact that I reach you. I reach you. &lt;br /&gt;Well, enough of that. Lets get on with it. I’ve arranged to show some slides that might amuse you. And if, of course, you’re bored, then I’ll excuse you. Though what you’re about to see, in times of sickness, is my cure, living well is my best revenge, you can be sure.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;This is the Grand Canyon, in the great State of Arizona. See there, the magnificent blend of all the colours of the rainbow. It is virtually unphotographable at any given point it is so vast. The Colorado River trickles through its base like a deeply buried brook. Geologists say that with time and erosion the Pacific Ocean, some 300 miles West, will one day reach the Canyon and flow through there. &lt;br /&gt;I camped here, see? Right there. Oh, what peace I found. The only sounds I heard were the sounds I made. No-no, it is true. &lt;br /&gt;And here beyond, on a remote roadside stand, an Indian boy planted himself arms folded beneath a sign that said “seashells should lead the world”. &lt;br /&gt;This is a hobo, a dying bread. A pity. He claimed that an inheritance fortune awaited him in a bank back East but he couldn’t care less. &lt;br /&gt;There’s more of them. The one with the umbrella claimed to be the real Mr. Bojangles. &lt;br /&gt;Sunset. &lt;br /&gt;Another sunset. I know it looks undistinguishable from the last but I remember the difference. &lt;br /&gt;Vancouver, British Columbia. I spent some time there at a ski lodge. Something so healthy and wholesome about skiers. &lt;br /&gt;Like this one. She always seemed to appear when I took a slip on the slops where I had no business being. But I’d look up and there she’d be. And soon it happen that whenever she’d turned and look up, there I’d be. &lt;br /&gt;The chalet. Inside there, by a warm fire, is where my mind has want to wander now. To the scent of pine and the taste of wine. You’re too young for wine now but make a note of it. &lt;br /&gt;There she is again. We rented those horses for a day. See mine? His name was... Oh what was it now? I forget. Oh yes, it was sugar. &lt;br /&gt;And there’s my friend again. She looks rather sad there. It seems that everyday, well, she always had some special plan for us. &lt;br /&gt;And this, this is a beautiful Indian girl. Look at her! She and her secret mysterious ways. The pride of her people. Our sunshine, they said of her. &lt;br /&gt;This was the road South into Oregon. &lt;br /&gt;This is how logs are transported, long rafts that trail the northwest rivers. &lt;br /&gt;Big Sur, California. &lt;br /&gt;An old Spanish Mission. &lt;br /&gt;Carmel, California. Those trees seemed frozen against the landscape. They remind me of a book I once heard of called The Cypresses Believe in God. &lt;br /&gt;This was near the end of my adventure. The clock in my head told me it was time to leave. So that I was more concerned with seeing what I could first hand rather then rush for the camera. I find that travelling alone is somehow more realistic then with others. You find yourself in a new place all alone and you deal with it as oppose to when you’re with others who are familiar to you and in a sense shelter you from situations you would otherwise meet head on. You know what I mean? Besides, if your loved ones are with you, you have no one to go home to. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;So on Monday, Lord, I’ll go before the Board and hear what adjective they give this life I live. It makes me laugh that they should write my epitaph. But somehow I’ll get by, I’ve got my slides, I will endure, living well is my best revenge, you can be sure. Yes, in times of doubt, in times of sickness, they’re my cure. Living well is my best revenge, you can be sure.»&lt;/i&gt;</content>
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    <title>ágora</title>
    <published>2009-12-13T17:10:59Z</published>
    <updated>2009-12-13T17:10:59Z</updated>
    <category term="cinema"/>
    <content type="html">Há filmes assim, que nos batem na fraqueza, um tipo está a vê-los e está regaladinho de todo, a gostar de tudo, da história, da realização, das personagens, dos actores. Nem precisa de ser um grande filme, uma obra-prima, basta ser um filme feito com honestidade, com uma franqueza, uma straight-forwardness, que vemos quase como se conseguimos perceber o que estava a passar pela cabeça dos seus autores, o que é que eles nos queriam dizer. É tudo isto com &lt;a href="http://www.agoralapelicula.com/"&gt;Agora&lt;/a&gt;, o mais recente filme de Alejandro Amenábar, que nos conta a história ficcionada de Hipátia, uma mulher de verdade, filósofa, matemática e astrónoma que viveu em Alexandria, no século IV da nossa era. O filme tem pormenores que só resultam quando acreditamos neles, quando aceitamos a bondade com que nos são transmitidos, como aquelas tomadas do planeta visto do céu, ou do firmamento estrelado. Como se vê, estou mesmo encantado com o filme, quando acabou apeteceu-me vê-lo outra vez. E para isto muito contribuiu a Rachel Weisz, que passa o filme todo como se fosse iluminada por dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, acho que também contribuiu para eu gostar do filme o facto de já ter estado em Alexandria, e apesar de ter sido apenas por algumas horas, ter ficado um bocado apaixonado pela cidade. Ok, eu sei que não tem nada a ver uma coisa com a outra, não faz sentido um tipo gostar de um filme por se passar na antiguidade de uma cidade onde já esteve, ou comover-se a ver a (enfim, uma visão da) Biblioteca de Alexandria por se lembrar que já esteve na actual biblioteca que foi construída em Alexandria, sob os auspícios da Unesco, para homenagear a cidade e o seu papel de centro da cultura na antiguidade. Eu sei que não faz sentido, mas estas coisas contam, não é?</content>
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    <title>i promise to be yar</title>
    <published>2009-12-12T01:58:02Z</published>
    <updated>2009-12-12T02:01:33Z</updated>
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    <category term="cinema"/>
    <category term="citações"/>
    <content type="html">Desde que abri a conta no Twitter sempre tive muita dificuldade em pensar em coisas para lá escrever. Não me seduz muito a componente Messenger da coisa, e, para quem gosta de escrever textos grandes, a noção do micro-blogging é um bocadinho complicada. Houve uma altura em que punha frases de letras de canções, mas desde há uns tempos comecei a achar graça a abrir aquilo todos os dias (ou pelo menos quando me lembro de ir ao Twitter de manhã) com frases de diálogos de filmes. Tento lembrar-me de um filme que tenha impressionado pelo argumento e agarro-me aos diálogos, normalmente através dos sites de citações ou através da página de citações que as fichas do imdb.com têm. Ou mesmo através do script do filme, que também não é raro encontrar na net.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ultimamente pus muitas frases do filme de George Cukor The Philadelphia Story, uma screwball comedy com diálogos espectaculares, cheios de ‘innuendos’ e segundas intenções, normalmente de conteúdo sexual, mas sempre muito desafiadores da moral e dos bons costumes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das frases mais bonitas do filme, e que ensinou uma palavra que não conhecia, aparece quase no fim do filme, quando Dexter, a personagem de Cary Grant vai dizendo a Tracy, desempenhada pela fabulosa Katharine Hepburn, o que ela deve anunciar aos convidados do casamento de Tracy com George, que acabou de ser cancelado. É dessa forma indirecta que Tracy percebe que Dexter a está a pedir em casamento, depois de, como é óbvio, terem passado o filme todo num jogo de sedução e rejeição. Quando Tracy se apercebe que Dexter se acabou de propor, têm este diálogo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;«Tracy: Oh Dexter you're not doing it just to soften the blow? &lt;br /&gt;Dexter: No. &lt;br /&gt;Tracy: Nor to save my face? &lt;br /&gt;Dexter: Oh, it's a nice little face. &lt;br /&gt;Tracy: Oh Dexter, I'll be yar now, I promise to be yar. &lt;br /&gt;Dexter: Be whatever you like, you're my redhead.»&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Yar’, ou ‘Yare’, fui ver ao dicionário, refere-se ao barco que é ágil e ligeiro, fácil de manobrar ao leme, e a utilização desta expressão faz todo o sentido no contexto do filme e da relação atribulada entre Tracy e Dexter. É este tipo de escrita perfeita que o filme nos dá quase em cada cena. Uma delícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este clip da cena final contém o excerto onde está a frase, aí por volta do minuto 5:20. A boa notícia, é claro, é que este é o último dos 11 clips em que no YouTube se pode ver a totalidade do filme. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;
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    <title>contra naturas</title>
    <published>2009-12-11T15:53:14Z</published>
    <updated>2009-12-11T16:49:09Z</updated>
    <category term="livros"/>
    <content type="html">&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kk5fq/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kk5fq/s320x240" width="159" height="240" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho lidas pouco mais de cem das quinhentas e muitas páginas de Contra Natura, da autoria do espanhol Álvaro Pombo (uma edição belíssima da Minotauro, um selo das Edições 70). O romance segue em close reading as vidas afectiva, sentimental e sexual de quatro homossexuais e o aspecto não é lá muito famoso. Em Espanha o livro causou polémica entre a comunidade gay por traçar um retrato demasiado desencantado das relações amorosas entre os homossexuais, numa época em que o reconhecimento de casamento e a promoção de um certo estilo de vida (a Chueca, a pink pound, a cultura club) parecem garantir a felicidade emocional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das suas caracteristicas é uma certa crueza de linguagem, nomeadamente no que se refere ao sexo. Tendo em atenção que Pombo é membro da Real Academia Espanhola, poeta e novelista laureado, com intervenção política activa, não deixa de ser curioso esse desbragamento literário, sobretudo se comparado com o "parece mal" português. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro é muito denso, muito psicológico, com um plano acentuadamente político, mas é igualmente divertido e atravessado por uma ironia finíssima e, como se compreende até pela polémica que causou, implacável. Digamos que até agora o livro me entediou, interessou e divertiu em partes mais ou menos iguais. Mas não sei se vou ter pedalada para o levar até ao fim.</content>
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    <title>edson cordeiro</title>
    <published>2009-12-10T13:00:39Z</published>
    <updated>2009-12-10T13:00:39Z</updated>
    <category term="concertos"/>
    <content type="html">Nem o facto de a plateia estar desoladoramente vazia beliscou aquele que foi um dos melhores concertos a que assisti: Edson Cordeiro ontem à noite, no TAGV, ofereceu uma performance rara, um espectáculo comovente e inesquecível. Não é apenas a sua imensa capacidade vocal, a capacidade de mudar de registo de canção para canção, criando com a voz e com a maneira de cantar interpretações pessoalíssimas e distintas de canções criadas por grandes divas da música vocal. É, além disso, Edson ser um artista, um crooner, com um perfeito sentido do palco, do espectáculo e do público. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob a forma de recital, acompanhado pelo pianista Broder Kuhne, que não se limita a ser um acompanhador, mas intervém e faz parte do próprio espectáculo, Edson Cordeiro passa em revista canções famosas e outras menos conhecidas de grandes cantoras, de Billie Holliday a Edith Piaf, passando por Madonna ou Amália, ou pelas brasileiras Dalva Oliveira e sobretudo Cármen Miranda, que ocupa a fatia maior desta homenagem. Uma das habilidades mais espectaculares da noite, acho eu, foi a recriação do clássico do disco I Love The Nightlife à maneira de Billie Holliday, nem faltando o microfone que dava à voz aquele som meio encaixotado das gravações antigas. Mas, claro, foi nos trechos de ópera que o contratenor de Edson Cordeiro soou verdadeiramente magnífico, uma coisa próxima do arrepio, que não fica a dever nada às grandes vozes de contratenor dos repertórios mais clássicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como disse o concerto não foi só feito de voz. Edson e Broder injectam humor nas suas performances, mais directo e popular numas ocasiões, mais subtil e transgressor noutras. Outro aspecto importante é o facto de Edson usar, se maneira natural e nada espaventosa, a homossexualidade e a circunstância de ter alguma notoriedade enquanto símbolo gay, para fazer humor e provocar a plateia, introduzindo, além disso, uma nota, mais uma, pessoal nas interpretações das canções, particularmente ao masculinizar o género das palavras criadas para serem cantadas por mulheres (“disseram que eu voltei americanizado”, por exemplo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, como comecei por referir, nem o facto de a plateia ser escassa perturbou a excelência do concerto. A princípio tímido e até um pouco desconfiado, Edson soube cativar o público, e aos poucos, o crescendo do entusiasmo dos aplausos e a resposta aos estímulos que vinham do palco, ajudaram a criar um certo clima de festa e até de comunhão, por sermos tão poucos a ter oportunidade de partilhar esta experiência extraordinária. Foi particularmente bonito o acompanhamento ‘sotto voce’ por parte do público na canção Carinhoso, de Pixinguinha, graças também ao facto de haver muitos brasileiros na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Edson retribuiu a carinho, no final do concerto, vindo quase de imediato para o foyer do TAGV (sem aquele compasso com que as divas gostam de se fazer esperar) para assinar autógrafos e distribuir simpatia. Enfim, um privilégio raro ter estado ontem à noite com Edson Cordeiro.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kg9ze/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kg9ze/s320x240" width="320" height="240" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;</content>
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    <title>underground</title>
    <published>2009-12-08T12:06:38Z</published>
    <updated>2009-12-08T12:06:38Z</updated>
    <category term="livros"/>
    <content type="html">&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kfbc6/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kfbc6" width="150" height="225" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Underground foi o primeiro livro que li do escritor japonês Haruki Murakami. Mais conhecido pelos seus romances, este livro é de não-ficção, uma espécie de docu-livro sobre o ataque ao metropolitano de Tóquio com gás sarin, perpetrado pela seita Aum, em Março de 1995. Na sua edição original, Underground era composto apenas por entrevistas às vítimas do ataque e por um pequeno ensaio. Posteriormente Murakami editou um outro livro com entrevistas a antigos membros da seita, e esta edição de Underground integra essas entrevistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostei bastante mais da parte original, que está organizada por linhas de metro. Cada capítulo começa com uma descrição breve dos autores em concreto do atentado, ou seja dos homens da seita que puseram o gás na carruagem do metro, da forma como a operação foi desencadeada, seguindo-se as entrevistas às vítimas que seguiam nesse comboio ou foram por ele afectadas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retrato que resulta destas entrevistas é, no essencial, o de um povo muito dedicado ao trabalho, que é apanhado no seu momento mais fragilizado, quando se deslocam de manhã para o emprego já completamente focalizados no que vai ser a sua jornada de trabalho. É por isso que nos conseguimos pôr na pele destas pessoas, cujo quotidiano não será, afinal, assim tão distante do nosso. É importante essa consciência de que as vítimas do terrorismo são sempre pessoas como nós, somos sempre nós. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro retrato que surge é o das autoridades (todas: do metropolitano, policiais, bombeiros, hospitais) completamente perdidas perante o desencadear dos atentados, sem capacidade de reacção e de organizar uma resposta aos acontecimentos. O que, naturalmente, deixou os cidadãos ainda mais desprotegidos e fragilizados. E essa falta de planos de emergência é ainda agravada pelo facto de a seita Aum, nos meses prévios ao atentado, ter praticado uma série de ataques que as polícias teriam obrigação de ver como ensaios para um atentado em grande escala.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda parte, a das entrevistas aos membros da Aum, entediou-me, talvez por não ter capacidade de compreensão nem paciência para aquele tipo de misticismo, muito cruzado com tentativas de auto-justificação. Apesar de tudo, ficam claros os métodos de funcionamento da seita, a maneira como os seus membros são aos poucos, e com que processos, desprovidos de vontade própria substituída por uma obediência, feita tanto de ilusão como de medo, ao chefe.</content>
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    <title>memórias da infância colonial</title>
    <published>2009-12-07T16:32:48Z</published>
    <updated>2009-12-07T18:11:39Z</updated>
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    <category term="coisas"/>
    <content type="html">&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kergc/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kergc/s320x240" width="148" height="240" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Aproveitei ontem o Domingo marralheiro para ler o Caderno das Memórias Coloniais, da autoria de Isabela Figueiredo, que mantém o blog &lt;a href="http://novomundoperfeito.blogspot.com/"&gt;Novo Mundo&lt;/a&gt;, sendo que os textos deste caderno resultaram de posts do anterior blog da autora. Isabela Figueiredo nasceu um ano depois de mim e saiu de Moçambique um ano antes de mim, por isso suponho que a sua memória colonial e a sua relação com essas memórias da infância, são qualquer coisa que me é familiar, com que me posso relacionar. Há um aspecto do livro, contudo, em que não me revejo, que é numa identificação que a autora faz entre essa memória colonial e a figura paterna. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais gostei no livro foi do modo desabrido como a autora se refere à situação que se vivia no Moçambique colonial, sobretudo ao nível da mentalidade do colono. A autora é muito crua ao falar nos assuntos, no racismo, no estilo de vida dos brancos, nas suas aspirações, e, depois, no confronto entre os retornados e os seus familiares da ‘metrópole’. Faz bem confrontarmo-nos que todo um conjunto de problemas que foram comuns a muita gente, e que, na maior parte dos casos, foram resolvidos na intimidade das famílias um pouco à maneira do don’t ask don’t tell, assuntos que se resolveram (em muitos casos mal) por si, sem serem confrontados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também gostei muito do facto de o texto do livro, sendo autobiográfico, e apesar do nível de intimidade que por vezes é exposta, nunca ser de carácter confessional, nunca é um desabafo. É sempre um texto mediado pela distância literária, é, se quisermos, uma memória tratada com distanciamento literário, e isso é bom porque nos obriga a ser mais exigentes e racionais, mesmo quando a tendência de identificação com aquilo que é relatado, é maior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por tudo isto o livro soube-me a ajuste de contas, à necessidade de confrontar problemas que trazemos, uma herança interior, e, se não resolvê-la, pelo menos dar-lhe uma forma, torná-la um objecto exterior, para o qual possamos olhar com um mínimo de frieza, e até crueza, quando não mesmo crueldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosamente, a autora refere, numa entrevista que vem apensa ao livro, que não regressou a Moçambique. Acho que essa necessidade de ajuste de contas vem muito disso, dessa impossibilidade de regressarmos aos lugares da infância e de nos medirmos lá. De certo modo, era isso que se passava comigo até ter regressado a Moçambique, em 2003, quando tinha 41 anos, e tinham passado mais de 26 anos desde que tinha saído. É horrível a sensação de não pertença, de que há um buraco negro no nosso passado, um lugar aonde não podemos nunca regressar, nem sequer, ao menos visitar. E de certo modo, esse meu regresso a Moçambique apaziguou-me, porque me permitiu reconhecer muitas coisas em mim, reconhecer as peças do puzzle que faltavam. Podem continuar a faltar, mas já é um avanço conseguir nomeá-las, saber quais são, e o lugar que deveriam ocupar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo a falar disto e quase que não consigo parar, fico quase torrencial, a escrever ao ritmo do pensamento, e até quase num estado de semi-consciência. Mas o que quero dizer é que por todas estas razões, dialoguei muito com o livro, foi uma leitura muito importante, e aconteceu-me uma coisa muito rara, que é ter vontade de falar com a autora, quer dizer, não tanto se calhar com a pessoa que escreveu o livro, mas com a autora enquanto tal, a autora escrevente.</content>
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    <title>julie &amp; julia</title>
    <published>2009-12-06T18:59:14Z</published>
    <updated>2009-12-06T18:59:14Z</updated>
    <category term="cinema"/>
    <content type="html">Ali na passagem dos anos 80 para os anos 90, a Nora Ephron escreveu e realizou comédias românticas que iriam marcar, pelo menos durante algum tempo, o género. Primeiro foi a argumentista de When Harry Met Sally (com realização do Rob Reiner), e depois escreveu e realizou Sleepless In Seattle e, mais tarde, You Got Mail. Para além de marcarem o género, com histórias urbanas e sofisticadas e diálogos vivos e imaginativos, estes filmes iriam definir o essencial da carreira da actriz Meg Ryan, que raramente voltou a ser tão luminosa como neles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora a Nora Ephron realizou mais uma comédia, &lt;a href="http://www.sonypictures.com/homevideo/julieandjulia/"&gt;Julie &amp; Julia&lt;/a&gt;, que adapta livros baseados em histórias verdadeiras de duas mulheres que viveram em épocas distintas mas que tinham a uni-las o facto de ambas terem utilizado a cozinha e a gastronomia como formas de dar sentido às suas vidas. O que não deixa de ser um aspecto curioso, assim uma espécie de feminismo ‘a contrario’. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de ser um nadinha comprido demais (o valor narrativo da elipse, como recurso por excelência do cinema, vai-se perdendo), o filme é elegante, leve, sofisticado, e muito divertido. Além disso faz-nos ter vontade de correr para a cozinha mais próxima e começar a descobrir os encantos da manteiga e dos ovos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aquilo que torna o filme uma delicia, é a dupla de actrizes que lhe dão corpo: a Amy Adams (que é a Meg Ryan de serviço, versão anos 2000) e sobretudo a Meryl Streep. É um bocado inacreditável como a Meryl Streep ainda nos consegue surpreender de filme para filme, como nos encanta como se fosse a primeira vez que a vimos, como é sempre uma actriz que nos deixa numa quase euforia só de a ver trabalhar, de ver a maneira como ela habita as personagens, como lhes dá alma e sopro. E se sempre foi uma actriz dramática excepcional, a sua mais recente participação em filmes de comédia têm mostrado como ela é igualmente genial neste género, sobretudo porque consegue sempre transmitir a ideia de que se está a divertir imenso, e não há nada mais contagioso no humor do que vermos que o comediante se está verdadeiramente a divertir.</content>
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    <title>never walk alone</title>
    <published>2009-12-05T19:22:00Z</published>
    <updated>2009-12-05T19:22:00Z</updated>
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    <category term="coisas"/>
    <content type="html">O meu clube preferido no futebol inglês é, e foi sempre, o Manchester United, mas o hino de um clube de futebol mais bonito do mundo é o do Liverpool. You’ll Never Walk Alone é uma canção da autoria da dupla Rogers &amp; Hamerstein que, como não podia deixar de ser, nasceu num musical, tendo sido adoptado pelos ‘kopites’, os fãs do Kop do estádio de Anfield, em princípios dos anos 60. Claro que é espectacular ouvi-la cantada pelos adeptos, mas escolhi esta versão pelo Johnny Cash porque, enfim, é do Johnny Cash.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;
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    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi ontem esta canção, logo de manhãzinha, na derradeira edição dos Ruídos de Inveja, uma rubrica musical que o Luís Norton de Matos manteve durante muito tempo (quinhentas e tal edições, acho eu) na rádio M80 (já agora, a versão da canção que o programa tocou é a mais identificada com o Liverpool, a dos Gerry and The Peacemakers). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a escolha desta canção para finalizar o programa é mais um toque da inteligência e do bom gosto com que o Luís Norton de Matos conduziu estes breves apontamentos musicais, e que eu ouvia, quase todas as manhãs, no percurso de casa para o trabalho. Devo aos Ruídos de Inveja algumas descobertas bem saborosas, e devo-lhe ainda o relembrar de grandes canções da pop das últimas décadas, sobretudo daquelas em que eu era jovem. Mas devo-lhe sobretudo, e muitas vezes, aquela canção que me dava uma enorme boa disposição logo de manhã, que me punha a cantar aos berros dentro do carro a descer o viaduto do Bairro ou a subir para os Olivais, e que depois ficava a tocar na minha cabeça durante o resto do dia.</content>
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    <title>sabina freire</title>
    <published>2009-12-04T11:17:46Z</published>
    <updated>2009-12-04T11:17:46Z</updated>
    <category term="teatro"/>
    <content type="html">Há já muito tempo que não via um espectáculo da Escola da Noite, aliás, nunca tinha ido ao Teatro da Cerca de São Bernardo, que é muito bonito. Felizmente vai havendo quem me tire da inércia preguiçosa, e fui ontem, último dia, ver o espectáculo &lt;a href="http://ctb-sabinafreire.blogspot.com/"&gt;Sabina Freire&lt;/a&gt;, co-produzido pela Escola e pela Companhia de Teatro de Braga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A peça é de autoria de Manoel Teixeira-Gomes, escritor algarvio e vulto da história da I República, da qual foi presidente. De resto este espectáculo tem o patrocínio da comissão das comemorações do primeiro centenário da implantação da República. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O texto situa-se ali na ponte entre a comédia de costumes e a farsa de cariz social, pondo em confronto o Portugal profundo do moralismo clerical e provinciano, feito de proprietários da terra, poetas líricos e idiotas bajuladores, e o Portugal arrivista do cosmopolitismo parisiense, tão provinciano como o outro, mas disfarçado por um certo ar de licenciosidade. É este confronto que a encenação de Rui Madeira põe em evidência, tratando o palco quase como se fosse uma arena, acentuada pela imagem projectada do palco visto de cima, confronto do qual resulta, em final trágico, a morte desse Portugal lírico, galante, febril e tão ingénuo como inútil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas para além desta leitura mais interventiva, chamemos-lhe assim, a peça é ainda a história de uma luta feroz travada entre duas mulheres, evadas de poder e ambição, que são, apesar de tudo o que as divide, mais parecidas do que parece, unidas que estão na luta pelos seus interesses. Os homens são fracos, são joguetes sem interesse, manobrados quando e como convém, meros adornos do salão e das vidas destas duas mulheres. A peça é inteiramente delas, e é nos momentos em que o confronto entre ambas se materializa e encena, que o espectáculo ganha em tensão, ritmo e desenvoltura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contribuem muito para isso as actrizes que defendem os papéis, a Sílvia Brito e a Solange Sá (embora em relação a esta a dicção nem sempre fosse perfeita, muito prejudicada pelo falso sotaque afrancesado), que dão espessura e profundidade a papéis que muito facilmente poderiam ficar prisioneiros de uma certa caricatura.</content>
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    <title>a very british sex scandal</title>
    <published>2009-12-02T21:50:52Z</published>
    <updated>2009-12-02T21:50:52Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <category term="cinema"/>
    <content type="html">A Very British Sex Scandal é um documentário dramatizado (um docu-drama), realizado por Patrick Reams, e apresentado no Channel 4 britânico em 2007, para assinalar os 40 anos da descriminalização da prática consentida de actos homossexuais entre adultos. Sim, até 1967, data da publicação do Sex Offences Act, a prática de actos homossexuais era considerada um crime, ao qual correspondiam pesadas penas de prisão que, no caso de ‘buggery’, podiam chegar à prisão perpétua. Buggery era o nome técnico dado à prática da sodomia, ou seja… sexo anal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, ao sabor do maior ou menos rigor moralista das chefias policiais, foram muitos os homens que cumpriram pena pela prática destes crimes, vítimas de raides policiais a bares e inclusivamente a casas particulares onde se suspeitava que os amantes estivessem. Em épocas mais complicadas a polícia recorria aos infames agentes provocadores, que frequentavam os locais de engate, sobretudo as casas de banho públicas e as saídas do metro, para prender aqueles que os tentavam engatar. O cottage, ou seja, o engate nos lugares públicos era o método preferido para procurar encontros sexuais, uma vez que garantia o anonimato e a precariedade necessários a quem não queria ser apanhado pela polícia a cometer um crime ou ser vítima de chantagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme, que junta testemunhos, no estilo talking head, de pessoas envolvidas no escândalo ou simples contemporâneos, com a reconstrução dramática de algumas cenas, segue o percurso de um jornalista do Daily Mail, Peter Wildeblood, que conhece, no início dos anos 50, junto a uma saída de metro, um soldado, por quem acaba por se apaixonar. No curso da sua relação, passam um fim de semana de férias, juntamente com amigos e colegas militares, numa casa de praia de Lord Montagu. Eventualmente as cartas trocadas entre ambos são descobertas pela hierarquia militar, que as passa para as instâncias judiciais civis, que não perdem a oportunidade de expor, e levar a julgamento, o aristocrata Montagu, então o mais jovem dos membros da câmara dos lordes.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo do julgamento, durante o qual Edward Montagu sempre negou o seu envolvimento, Peter Wildeblood, respondendo a uma pergunta directa do procurador, admitiu que era homossexual. Claro que isso correspondeu a uma pena de prisão, mas desencadeou igualmente uma onda de simpatia na opinião pública pelas vítimas destes crimes. Wildeblood, juntamente com outros homossexuais, viria a ser ouvido por uma comissão do Home Office, o ministério do interior inglês, que estava a estudar a reforma da legislação britânica sobre crimes sexuais, em particular no que se referia à homossexualidade e à prostituição. Em 1957 esta comissão produziu um relatório, conhecido pelo nome do seu presidente, o Wolfenden Report, onde recomendava que os comportamentos homossexuais consentidos, praticados por adultos em privado, deveriam deixar de constituir ofensa criminal, ou seja, deveriam deixar de ser crime.             &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta recomendação do relatório Wolfenden é um marco histórico na luta pelos direitos cívicos dos homossexuais em Inglaterra, tanto mais que, à época, a homossexualidade era ainda considerada, pela medicina em geral e em especial pela psiquiatria, como uma doença. E o seu fundamento prende-se sobretudo com a preservação da privacidade e com a ideia de que comportamentos privados não põem em causa a ordem pública. O relatório foi polémico e deu origem a intenso debate, o que explica que apenas dez anos depois, o parlamento tenha aprovado a lei que despenalizava a homossexualidade. E que, mesmo assim, apenas se aplicava à Inglaterra e ao País de Gales; na Escócia, apenas em 1981 a prática da homossexualidade foi retirada da lista dos crimes sexuais, e na Irlanda do Norte apenas em finais de 1982, e mesmo assim no seguimento de uma determinação do tribunal europeu dos direitos humanos.</content>
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    <title>o ano do pensamento mágico</title>
    <published>2009-12-01T00:01:06Z</published>
    <updated>2009-12-01T00:01:06Z</updated>
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    <category term="teatro"/>
    <content type="html">Fui no Domingo a Lisboa de propósito para ver uma peça de teatro, mas além disso, no geral e apesar do tempo ranhosito, o passeio foi muito bom e muito bem acompanhado. Sobretudo o declinar pelas capelinhas do Chiado abaixo, era coisa que já não fazia há muito tempo e que me soube mesmo bem.  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O ano passado li um livro da Joan Didion, O Ano do Pensamento Mágico, e fiquei mito impressionado. Ainda agora fui ler o que escrevi aqui sobre o livro, na altura, e tudo o que lá digo continua a fazer todo o sentido, e sobretudo continua muito presente no meu espírito. Fiquei por isso com muita vontade de ver a adaptação que a própria escritora do texto para versão teatral, para ser interpretado pela Vanessa Redgrave, e que agora está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação do seu director artístico, Diogo Infante, e servido pela sempre competente, e fascinante, Eunice Muñoz. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É sempre um bocado perigoso irmos ver o modo como os outros se apropriam de um texto que nós sentimos de maneira tão intensa, e por isso foi, de certa maneira, um erro ter ido ver esta peça, porque adocicou, tornou mais fácil, uma impressão que era muito rigorosa, quase dura, mesmo com o seu quê de estoicismo, apesar de o livro da Joan Didion não o ser de todo, se calhar até antes pelo contrário. &lt;br /&gt;Claro que não há nada a dizer da Eunice Muñoz, para quem este espectáculo funciona um pouco como homenagem e um pouco como veículo para regresso aos palcos. O tom da actriz é o certo, e serve o texto, sem nunca, ou pelo menos sem nunca de um modo pouco subtil, se servir dele. E o próprio espectáculo cumpre, tendo em consideração que estamos a falar de uma tentativa de fazer teatro comercial, muito dirigido a um público cujo gosto e apetência é sempre superior ao grau de exigência, o que não tem nada, nada mesmo, de errado. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O problema é mesmo aquilo que já referi, a peça torna o texto da Joan Didion mais fácil, mais doce, até mais suportável numa determinada perspectiva. Ora, não há lugar mais poderoso e difícil do que o abismo do nosso espírito, do que essa sede perturbadora onde radicam os nossos medos mais fundos, e é sempre um pouco decepcionante vê-los tratados com a ligeireza de uma matiné de Domingo. Por isso saí da peça um pouco perturbado: tinha sido tudo muito agradável, ver a Eunice Muñoz em palco é sempre uma emoção (e felizmente já não é a minha primeira), mas sabe-nos sempre a fraude vermos tratados com alguma superficialidade os nosso transtornos mais íntimos.</content>
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    <title>innersmile @ 2009-11-30T09:14:00</title>
    <published>2009-11-30T09:12:08Z</published>
    <updated>2009-11-30T12:31:59Z</updated>
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    <content type="html">&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kcrz5/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kcrz5" width="100" height="150" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Terminei a leitura este fim de semana de A Tábua de Flandres. E vão cinco do Arturo Pérez-Reverte, e acho que por enquanto não vai mais nenhum. Os livros do escritor espanhol são fáceis e bem feitos, com elevado potencial de entretenimento, e podem tornar-se viciantes. Acho que dos cinco este foi o melhor, o mais bem construído, um livro muito justinho, quase sem ganga ou gorduras. Sabe bem ler um livro assim, em que se progride quase linha a linha, em que tudo parece fazer sentido, e desse modo nos mantém completamente subjugados, e suspensos do evoluir da história. Não gostei muito do desenlace final (é o segundo final de romance do AP-R de que não gosto, mas mesmo assim não é tão mau como o de O Cemitério dos Barcos Sem Nome), mas pelo menos é muito honesto e aparece como um desenvolvimento natural da história. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais gostei nos romances do AP-R, para além, é claro, da sua capacidade de criar histórias bem esgalhadas e verosímeis, foi do facto de serem livros muito bem pesquisados, em que tudo na narrativa, o vocabulário, os lugares, a própria lógica interna da acção, tem a ver com um tema. Acho que este será mesmo o seu aspecto mais apelativo, e inclusivamente o maior factor de sucesso, porque permite ao leitor entrar assim numa espécie de sistema, um universo e um ambiente que lhe preenche a imaginação e o põe verdadeiramente a respirar a atmosfera do romance. Foi assim com o xadrez em A Tábua de Flandres, com os barcos e a navegação em O Cemitério..., com a esgrima no Mestre de Esgrima, com o tráfico e com os carteis em A Rainha do Sul. Mas para mim o caso mais conseguido, e também o mais espectacular, digamos assim, foi o de A Pele do Tambor, que é um romance de uma cidade, Sevilha, em que toda a narrativa respira a cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei fã do Arturo Pérez-Reverte e da sua escrita honesta e impecável, das histórias bem buriladas, do universo de referências, do papel da música nas narrativas, e até de algumas das suas personagens, apesar de achar que, no geral, elas são inferiores à trama (a excepção é, para mim, o Coy do Cemitério dos Barcos Sem Nome. Acho que este personagem vai ficar para sempre comigo).</content>
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    <title>boletim meteorológico.</title>
    <published>2009-11-27T12:42:34Z</published>
    <updated>2009-11-27T13:04:43Z</updated>
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    <content type="html">&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kadq1/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kadq1/s320x240" width="320" height="240" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou aqui, mas estou lá. À espera do fim de semana. Ainda por cima, agora (re)começou a chover.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fotografias de livros a serem lidos. &lt;br /&gt;Já agora esta, que recuperei para ícone, com a tag 'ghost'. É já uma foto antiga, tirada naquees dias medonhos de Setembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kbtgf/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000kbtgf" width="221" height="166" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;</content>
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    <title>xadrez</title>
    <published>2009-11-26T23:57:28Z</published>
    <updated>2009-11-27T09:23:43Z</updated>
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    <content type="html">Devia ter uns nove ou dez anos quando aprendi a jogar xadrez. Ou, pelo menos, a movimentar as peças. Quem me ensinou os movimentos foi, tanto quanto me lembro, um daqueles jovens militares que passavam por casa dos meus pais, em Nampula, a caminho ou de regresso das missões de combate durante a guerra colonial. E num tabuleiro miniatural, de viagem, que eu tinha recebido de oferta, e que ainda deve existir na casa dos meus pais, com a caixa de plástico partida e, muito provavelmente, incompleto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com dez anos entrei para o primeiro ano do ciclo. Foi ainda antes do 25 de Abril, e o ciclo preparatório estava dividido: o dos rapazes era na escola comercial e industrial (Neutel de Abreu, já agora) e o das meninas no liceu. A escola (a escola técnica, como a chamávamos) tinha um núcleo bastante activo da Mocidade Portuguesa, com karting, acampamentos, aeromodelismo, entre muitas outras coisas, mas eu, a única actividade que fui autorizado a praticar, foi o grupo de xadrez, que funcionava aos sábados, na sala de trabalhos manuais. Esses dois anos do ciclo preparatório, pelo menos até o 25 de Abril me ter apanhado no último período do segundo ano, foram o meu apogeu enquanto xadrezista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardo, desse tempo, uma meia dúzia, se tanto, de livros de xadrez, nomeadamente um acho que da autoria de João Cordovil sobre o célebre match que opôs o Bobby Fischer ao Boris Spassky. Já agora, a minha carreira de jogador de xadrez coincidiu com a de ladrão, uma vez que alguns desses livros foram roubados na Livraria Villares. Mas apenas pelo prazer de roubar a meias com um amigo, já que a minha mãe me comprava os livros todos que eu quisesse.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de que participei num torneio, onde fui acompanhado pelo Tó Esteves, outro dos tropas que paravam lá por casa, e cuja primeira jornada serviu para inaugurar as novas instalações de um stand de automóveis. Contra todas as expectativas, e contra um adversário mais velho, com fama de bom jogador, e que momentos antes da partida me tentava desmoralizar debitando nomes de jogadas famosas, ganhei a eliminatória. Na segunda ronda, disputada nas instalações do Clube Niassa, e perante um adversário que achei fácil, perdi. Acho que foram as minhas primeiras lições em concentração através da ansiedade, por um lado, e em excesso de confiança, por outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disto só voltei a jogar xadrez, en passant, nas três ou quatro semanas em que frequentei o liceu da Amadora, tinha 15 anos, ainda jogava razoavelmente, e depois quando já andava na faculdade, no segundo ano. Durante uns anos viveu em casa dos meus pais um rapaz de fora que veio para Coimbra estudar engenharia, e que em certa ocasião me pediu para lhe ensinar a jogar. Chamava-se Bravo. Ensinei-lhe os movimentos das peças e começámos a disputar umas partidas. Em muito pouco tempo não só deixei de lhe conseguir vencer, como era sistematicamente derrotado e sempre de forma cada vez mais implacável e eficaz. Fiquei tão chocado com a forma como ele me cilindrou, e pelo que isso significava quanto à sua capacidade de jogar e quanto à minha total inabilidade, que acho que nunca mais disputei uma partida na minha vida. Excepto com um jogo de computador, ainda no tempo dos pc’s 286 e 386 da IBM,  que tinha um nível que era tão fácil tão fácil que até eu era capaz de vencer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me disto a propósito do livro do Arturo Pérez-Reverte que estou a ler, A Tábua de Flandres. De repente dei por mim a olhar para as quadrículas que representam graficamente o tabuleiro, a estudar a posição das peças e a analisar os movimentos possíveis, passados e futuros. E a ter vontade de ver novamente um tabuleiro verdadeiro, físico, e de tocar as peças e de as dispor e de as movimentar. Só mesmo a literatura seria capaz de me fazer voltar a ter vontade de jogar, a experimentar o frémito de tensão e concentração que se sente durante uma partida de xadrez.</content>
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    <title>the lion sleeps tonight</title>
    <published>2009-11-24T22:39:04Z</published>
    <updated>2009-11-24T22:39:04Z</updated>
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    <content type="html">A propósito do blog do David Byrne, de que falei aqui ontem, e seguindo os links do seu website, fui parar, como acontece muitas vezes, ao Brian Eno. Já não sei bem porquê, mas lembrei-me de procurar no YouTube uma gravação que o Brian Eno fez, na fase imediata pós-Roxy Music, de uma canção que tem vários títulos, Mbube, o título original sul-africano, Wimoweh, o título da versão norte-americana, e, na versão mais pop, The Lion Sleeps Tonight. Dizem as más línguas que o Brian Eno gravou a canção porque precisava desesperadamente de um hit, para equilibrar as finanças lá de casa. Vá savoir. As versões do título canção não são exactamente coincidentes, uma vez que Mbube é mais fiel ao original sul-africano, Wimoweh se refere à versão tal como foi acolhida inicialmente pela folk norte-americana, nomeadamente pelo Pete Seeger.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto é que encontrei um canal do YouTube (segue o link: &lt;a href="http://www.youtube.com/user/FLORENCOM"&gt;youtube.com/user/FLORENCOM&lt;/a&gt; ), e um correspondente site na net (segue o link: &lt;a href="http://florencom.es/"&gt;http://florencom.es/&lt;/a&gt;), só com versões desta canção, desde o original que Solomon Linda gravou, nos anos 30, com os seus Evening Birds, um grupo de harmonias vocais, um estilo que os Ladysmith Black Mambazo viriam a popularizar sobretudo depois de terem participado, com muito sucesso, no álbum Graceland, do Paul Simon. O site identifica perto de 200 versões, e apresenta-as todas em clips produzidos pelo seu autor. Não as contei, mas suponho que os Ladysmith BM e a Miriam Makeba são os vencedores do número de versões que interpretaram, mas também não admira, estão entre os maiores divulgadores da música africana. Seria fastidioso enumerar aqui os músicos presentes, mas há versões que vão de músicos incontornáveis da África do Sul, como o Hugh Masakela, até nomes inesperados como os Young Marble Giants e, vamos lá, o próprio Brian Eno. Como é uma canção muito fácil e catchy, há resmas de versões pop, aproveitando as modas musicais. E, claro, a canção foi também muito popularizada pelo filme Rei Leão que, de resto, esteve, ainda que involuntariamente, na origem do reconhecimento de Solomon Linda como o criador de um dos maiores êxitos da música popular em todo o mundo, sem nunca ter recebido nem o crédito correspondente nem os respectivos royalties.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É muito difícil escolher apenas uma versão para pôr aqui. Decidi, apesar de tudo, pôr a do Brian Eno, porque foi quem despoletou esta entrada. Mas estas são absolutamente incontornáveis: a dos &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=mrrQT4WkbNE"&gt;Solomon Linda And The Original Evening Birds&lt;/a&gt;, uma dos &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=sJF87m4_k88"&gt;Ladysmith&lt;/a&gt; e outra da &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=0fEHguhykD8"&gt;Miriam Makeba&lt;/a&gt;, e a dos &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=9gVTfT3tJAY"&gt;Weavers&lt;/a&gt;, o grupo do Pete Seeger, e finalmente a dos &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=_LBmUwi6mEo"&gt;Tokens&lt;/a&gt;, que transformaram uma canção do repertório folk num clássico da pop (optei por pôr apenas os clips do canal do FlorenCom, mas há no YouTube muitas alternativas destes mesmos artistas, nomeadamente com imagens gravadas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;
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    <title>byrne em portugal</title>
    <published>2009-11-23T15:57:18Z</published>
    <updated>2009-11-23T15:57:18Z</updated>
    <category term="crónica"/>
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    <content type="html">O David Byrne e a sua namorada, a fotógrafa Cindy Sherman, estiveram em Portugal, para integrarem o júri do festival de cinema do Estoril. Esta passagem do DB por Portugal já rendeu três entradas no seu blog (seguir o link: &lt;a href="http://journal.davidbyrne.com/"&gt;journal.davidbyrne.com&lt;/a&gt;): a última sobre o próprio festival e os filmes premiados, a anterior sobre Sintra e os templários, e a primeira, e a meu ver a mais interessante, sobre a arte e a cultura nos tempos que correm. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O DB é muito palavroso, as entradas do diário são muito extensas, mas as suas ideias são muito interessantes, porque reflectem uma pessoa que tem muita experiência na área da cultura popular, que acompanha as vanguardas artísticas, e que é um tipo muito atento, curioso, interessado e reflectido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse texto do blog datado de 9 de Novembro tem ainda o interesse suplementar de poder ler as reflexões do DB motivadas ou sugeridas pelos seus companheiros de estadia e de festival, nomeadamente o coreógrafo Rui Horta, a Inês de Medeiros ou o Francis Coppola, que também esteve no Estoril a apresentar o seu filme mais recente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, como disse, um texto longo, e com vários pontos de interesse. Chamaram-me a atenção dois em particular. O primeiro surge como reacção à opinião de que a partilha de ficheiros e os downloads ilegais estão a matar a música, ao que o DB contrapõe que a ameaça séria existe apenas em relação à indústria discográfica e a alguns músicos, e que os consumidores que fazem mais partilha de ficheiros são também aqueles que gastam mais dinheiro em produtos relacionados com a música, nomeadamente com concertos. Contrapõe ainda que a tecnologia digital dá aos artistas maior controlo sobre as suas obras, e que isso vale igualmente para a distribuição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro aspecto que retive, surgiu a propósito de um comentário ouvido a Coppola à mesa do pequeno-almoço, e tem a ver com a ideia de que há uma diferença muito grande no modo como europeus e norte-americanos se posicionam em relação à inovação e, modo geral, ao tempo. Concedendo embora que haja muito de cliché nesta ideia, DB ensaia a explicação de que os europeus se projectam sobretudo para o passado porque se vêem como parte de um continuum civilizacional, enquanto os norte-americanos se posicionam numa estreita camada de história e por isso têm uma enorme apetência (que pode atingir a raia a insanidade, diz Byrne) para tudo o que seja novo, para aquilo que ainda não foi experimentado. E é por isso que, sendo uma nação mais selvagem, no sentido de menos civilizada, do que a Europa, os Estados Unidos são uma terra de criatividade e de oportunidades, e um chamariz da imigração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para além destes textos a propósito da sua passagem por Portugal, os diários do David Byrne são sempre riquíssima fonte de interesse e estímulo de reflexão. De resto vale a pena dar uma olhadela mais demorada a todo o site e às suas imensas ligações. Dificilmente a Internet consegue ser mais plena de conteúdos relevantes e ao mesmo tempo um exemplo e uma reflexão acerca do seu próprio papel no contexto cultural, artístico e das mentalidades, no mundo e no tempo que são os nossos.</content>
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    <title>planeta reverte</title>
    <published>2009-11-22T16:56:29Z</published>
    <updated>2009-11-22T17:05:43Z</updated>
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    <content type="html">Tenho a impressão de que o Arturo Pérez-Reverte de vez em quando faz uns envios de uns romances para os outros. São quase como os cameos no cinema, personagens de um livro a aparecerem numa outra história. O primeiro caso que percebi foi no A Rainha do Sul. Há uma passagem, em que Teresa Mendoza está em Gibraltar, e vê passar um carro a subir em direcção ao Rochedo com um casal lá dentro. Quando li esse trecho lembrei-me logo da viagem que Tanger e Coy fizeram ao alto do Rochedo para se encontrarem com o salteador de tesouros afundados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No livro A Pele do Tambor há um velho padre, Don Príamo, que defende com unhas e dentes a igreja barroca de ser destruída, sobre quem impende a acusação de, no passado, quando era um pároco rural, ter vendido arte sacra para conseguir dinheiro para as suas paróquias. Agora em A Tábua de Flandres, há um leiloeiro que, segundo uma das personagens, é suspeito de comprar arte sacra roubada das igrejas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que podem ser acasos, mas na literatura, como na vida dos romances da famosa best-seller nacional, não há coincidências. Além disso um leitor sabe, percebe logo quando aparece uma personagem que já conhece, ainda que seja de raspão. Acho deliciosa esta ideia de pôr as personagens a aparecerem, sem qualquer valor narrativo, noutras histórias que não aquelas em que protagonizam. Dá assim uma ideia de planeta revertiano, um universo em que habitam as personagens e as histórias criadas por um escritor.</content>
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    <title>a rainha do sul</title>
    <published>2009-11-21T17:54:28Z</published>
    <updated>2009-11-21T17:54:28Z</updated>
    <category term="livros"/>
    <content type="html">&lt;a href="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000k8rfa/"&gt;&lt;img src="http://pics.livejournal.com/innersmile/pic/000k8rfa/s320x240" width="157" height="240" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Terminei hoje de manhã (a única coisa boa que sou capaz de me lembrar a propósito do tempo invernoso, são as manhãs passadas na cama a ler) a leitura de mais um livro de Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul. Mais um romance muito bem urdido, com os ingredientes habituais do autor: narrativa bem balanceada entre momentos de acção, cheios de peripécias, e outros mais contemplativos e, dígamos assim, psicológicos, personagens fortes e sedutoras, com um toque de mistério, uma atenção quase luxuriante aos detalhes, forte envolvência geográfica (os romances de AP-R são sempre histórias de um lugar, mais do histórias num lugar), referências culturais (o papel da música nestes romances é quase uma aventura em si para o leitor melómano).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande leit-motif de A Rainha do Sul, como o título anúncia, é a personagem de Teresa Mendoza, uma mexicana que foge a um assassinato certo no meio do narco-tráfico do seu país natal, e que se torna na patroa do tráfico no estreito de Gibraltar. É uma história do nosso tempo, que de certa forma nos vem mostrar as vidas que se escondem por detrás das notícias breves nos telejornais sobre o tráfico e os traficantes. Apesar de a personagem principal ser irresistivelmente sedutora e fascinante, não me parece que de forma alguma o livro dê charme, e desse modo branqueie, ao crime ligado ao tráfico de droga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, e aproveitando este final de tarde escuro e chuvoso, já comecei a ler mais um livro do espanhol. E vão cinco.</content>
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