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a última companhia
rosas
innersmile
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Ponto prévio: sou amigo do João há muito tempo e de alguma maneira estive envolvido na sua decisão de ‘fazer’ este livro, pelo menos na parte motivacional. O João tem um blog onde, ao longo dos anos, foi publicando escritos seus sobre coisas da (sua) vida. E como o João tem tido uma vida cheia, tem muitas coisas para contar; e como é um tipo cheio de carácter, escreve com graça e personalidade; e como lê muito e vem de um tempo em que a escola, mais do que para tirar cursos, servia para aprender, o João, ainda por cima, escreve muito bem. Neste porém o João só tem um defeito, que é belíssimo: como gosta mais de ler do que de escrever, o João escreve menos do que devia.

Uma das coisas que o João publicou no seu blog foi a história, ou melhor, as histórias da sua vida militar, a que chamou ‘a tropa cá do João’. E como calhou a parte mais substancial da sua tropa ter sido feita no norte de Moçambique, essa sua experiência sempre me disse muito respeito, interessando-me particularmente não apenas o seu relato mas o tema em geral. Em conversas, o João e eu chegámos, ainda por cima, à conclusão que partilhamos tempos e lugares da história e das nossas histórias, nomeadamente uma razoável parte do ano de 1974, em Nampula.

Isto para dizer que este pedaço da vida do João sempre despertou em mim uma imensa curiosidade, e um ainda maior interesse nos seus relatos. Felizmente, agora, o João decidiu-se, e pegou nos textos que tinha escrito para o blog, trabalhou-os, aumentou-lhes mais prosa e mais histórias e, com a ajuda de uma equipa de editores de luxo, a Index eBooks (orgulho: também foram eles que me editaram um livrito), publicou um livro.

De memórias. Pois é assim que se chama: Ilha de Metarica - Memórias da Guerra Colonial. Comecemos pela Ilha: a Metarica era um aquartelamente que ficava no meio, literalmente no meio, da coisa nenhuma que era o mato do norte da província do Niassa no norte de Moçambique. E era ilha por isso, por ser um pedacinho de chão rodeado de nada por todos os lados. Mas não era um nada vazio, note-se; apesar de relativamente pacificada na altura em que o João lá esteve, o aquartelamento da Metarica situava-se em plena zona de operações militares. Digamos que era uma ilha também por isso: por ser uma companhia do exército colonial português rodeada de turras (era assim que na altura se chamavam os nacionalistas moçambicanos) por todos os lados. Havia uma picada por onde circulava uma coluna militar três vezes por ano, e uma pista de terra aplanada onde aterrava um avião duas vezes por semana. E o João relata-nos de maneira muito viva de que era feita a matéria do dia-a-dia naquele ‘cú de Judas’ e que no essencial se pode traduzir em duas palavras alternantes: ou um tédio de morte ou o medo da morte!

E é o título que nos revela ainda: o que se trata aqui é de memórias, de um relato pessoal, diria mesmo íntimo, da vida de um jovem português, estudante na capital do império, a quem um dia chamam e dizem: toma lá uma espingarda, vais para a guerra. Por isso o livro é a história dessa passagem pela guerra, mas é sobretudo a história de como o João a viveu: com humor, até mesmo com um certo desprendimento, tentando fazer as coisas certas, com sentido de justiça e de honra; mas a honra pessoal, não a dos grandes feitos pseudo-heróicos, mas a de quem tenta safar-se daquele inferno trazendo íntegro aquilo que é essencial: o corpo e a dignidade. Ou seja, este relato da tropa do João alinha-se muito com aquilo que já conhecíamos do João.

Como se sabe, sempre que um homem olha para si próprio, o que nós vemos é o mundo. E este relato pessoalíssimo do João constitui uma riquíssima lição da história de Portugal, de um pedaço da história, todavia recente, mas que parecemos querer ignorar com o mal disfarçado desprezo que votamos aos abcessos. Pelas páginas deste apesar de tudo breve livro passam soldados e generais (e capitães, ora essa!), papas e capelães, palácios-conventos, quartéis-generais e palhotas, unimogs e berliets, barcos, comboios e aviões, a estrada de Sintra e picadas no mato intransitáveis, e ainda sexo de várias declinações: hetero, homo e até partouzes com catorzinhas.

Há dois momentos sublimes no livro, cada qual de sua jaez, mas antes disso cabe dizer que ele padece de dois graves defeitos: é muito pequeno e muito rápido. Os editores do João deviam-no ter sequestrado, fechado num apartamento durante seis meses (com vista pró mar vá lá), e obrigado a escrever mais, mais, e mais. O João podia ter escrito mais (mas não melhor) e com mais tempo, mais respiração, mais silêncios, e sobretudo mais histórias, mais pormenores, mais detalhes da memória. Mas como comecei por dizer que o João gosta mais de ler do que de escrever, olha, assim como está já foi uma sorte.

E atenção que daqui para a frente há spoilers, por isso estão avisados e só lê quem quer. Disse acima que há dois momentos sublimes neste livro, absolutamente extraordinários, e cada um deles merecia, só por si, um romance de mil páginas ou um filme de quatro horas. São dois finais.

O primeiro final é do género épico. Em agosto de 74 o João recebe ordens para abandonar o aquartelamento da Metarica, e rumar a Nampula, para desmembrar a companhia. Organiza-se uma coluna militar para retirar homens e materiais. Para trás, ficam as edificações precárias onde funcionava o aquartelamento, viaturas e outro material inoperacional, e a pista de aterragem. A 1ª Companhia de Caçadores do 17º Batalhão de Caçadores, é, em nome do império que caía de joelhos, ferido há muito de morte, a Última Companhia da Metarica. As imagens de satélite do Google devolvem-nos, quarenta anos depois, o que sobrou dos soldados do império que por lá andaram perdidos da vida e do mundo: o ainda perceptível traçado da frágil pista de aviação. Mais nada.

Mas a este final sobrepõe-se outro, com que fecha o livro. Um capitão miliciano andou na guerra e voltou. Viveu toda a vida depois dela, com tudo a que a vida dá direito, amores e amigos, trabalhos e viagens, livros e espectáculos, aventuras e desventuras. O que lhe sobra então da Metarica? Um dia, no decorrer de uma operação, um ‘turra’ é atingido com um tiro no abdómen e agoniza ali, no chão do mato. Os soldados querem ‘despachá-lo’ para poderem abandonar rapidamente o local. Todos os olhares se voltam para o capitão. Que fazer?
“Hesitei uns segundos, terríveis segundos, e acabei por dar a ordem… Voltei costas e ainda hoje oiço aquele tiro soar nos meus ouvidos, quarenta anos depois…”


O livro está à venda neste link: www.indexebooks.com

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(engolindo fundo): uau! uau! e concordo em absoluto: um livro muito pequeno para tantas memórias da vida militar do João. por isso eu, se for preciso, sou uma das que rapto o João e o encafuo num quarto, vá, com vista para o mar. é obrigatória a continuação destas memórias. muito ainda tem para nos oferecer. :)

tem sim, Margarida. não sei se teremos essa sorte, mas o nosso amigo é uma mina de histórias e livros em potência :)

Olha Miguel, nem sei que te diga...
Talvez apenas uma coisa muito simples: para ler palavras assim escritas, já terá valido escrever o livro.
Note-se que eu não considero o livro uma obra prima, muito longe disso, tem muitas lacunas, e o próprio Miguel embora o elogie, não o classifica como tal, pois seria ridículo.
Mas o Miguel, talvez porque é realmente um grande amigo meu, porque me conhece perfeitamente, porque embora de uma outra forma, também "lá esteve", o Miguel dizia eu, percebeu quanto eu pus de mim naquilo que conto. Sou eu que estou ali, de corpo inteiro, naqueles quase quatro anos (falo de todo o tempo de tropa), e conto como foi...
Como foi um período importantíssimo da minha vida, talvez o mais importante.
Há algo que falta no livro, e não sei se será uma falha ou se será uma mais valia, e quem me apontou esse facto foi o João Máximo, quando preparávamos a edição do livro: eu "limito-me" a expor os factos e quase nunca exprimo os meus sentimentos ou o meu juízo de valor acerca dos mesmos; consegui esse distanciamento, o que nem sempre é fácil numa pessoa tão extrovertida como eu. Gostaria talvez de poder ter contado toda a emoção da despedida da família, todo o medo que senti nalgumas ocasiões, toda a imensa solidão a que a minha posição hierárquica me obrigava. Enfim tanta coisa...
Obrigado, Miguel por me teres "obrigado" a falar pela primeira vez deste meu livro, e tu sabes como eu estava a precisar disso, não sabes?

sei sim, João. e fico sensibilizado por teres escolhido este meu texto para dizeres o que estava a precisar de ser dito.


Ora aqui está um livro que eu gostava de ler. O teu amigo João Roque escreve muito bem. Viveu o seu tempo estudantil, a guerra, o fim da guerra, o regresso a um país atrasado, e as transformações após 1974. Tem uma experiência de vida que lhe darão inspiração para escrever os melhores contos.
Como eu pertenço aquele grupo cada vez mais reduzido, que só adquire livros na livraria, vou perder a oportunidade desta leitura. Aliás também fiquei com pena de não ter lido o livro da Margarida, que também escreve muito bem, pois li alguns contos no blog.
Miguel, dá os meus parabéns ao teu amigo João pela Ilha de Metarica, e como ele também esteve na Guiné quem sabe se não terá também boas histórias para contar.
Um beijinho
Lídia

Olá Lídia.
Que bom ter um comentário teu, já tinha sentido a falta e tenho-me lembrado muito de ti.
Os livros, quer o do João quer o da Margarida, podem ser encomendados em versão impressa. Mas está descansada que eu vou arranjar exemplares de ambos e depois faço-tos chegar.
E também vou garantir que ele leia este teu comentário :)

Olá, Lídia
não posso deixar de lhe enviar por meio deste blog do nosso comum amigo Miguel, uma palavra de agradecimento pelas considerações aqui expressas.
Não sei onde me tem lido, se aqui nos comentários que vou deixando ao Miguel, se eventualmente no meu blog...
A propósito de blogs eu tenho sido nos últimos tempos um acérrimo defensor da sua manutenção (daqueles bons blogs que havia dantes e têm desaparecido na voragem das redes sociais), e estou satisfeito de estar a escrever estas palavras num desses blogs - o Innersmile.
Não sei se tem algum blog, e em caso afirmativo gostaria de o conhecer. O meu chama-se Whynotnow e de momento é sobretudo de partilhas, de coisas de que gosto muito e que por esse motivo tenho gosto que outros conheçam também.
Ainda quanto ao meu livro, e como sei que o Miguel cumpre sempre as suas promessas, gostaria de mais tarde conhecer as suas impressões.

Como é hábito, uma descrição ímpar da obra.
Parabéns, rapaz ;)

o rapaz dos parabéns é o João, claro :)

Caro João
Vou-o lendo nos dois sítios, e aprecio muito o que escreve. Como diz o ditado “ os amigos dos meus amigos, meus amigos são”. E eu sinto um pouco isso em relação aos amigos do Miguel. Leio os textos dele, leio os vossos comentários e sinto alguma familiaridade com vocês.
O blog do Miguel faz parte das minhas leituras diárias. É um privilégio enorme, encontrar pessoas que têm sempre alguma coisa importante para comunicar e até para nos deslumbrar. O Miguel é assim, prende-nos com os seus textos sobre livros, viagens, cinema, teatro, música e até sobre política …….. Depois deixa-nos o coração pequenino quando nos fala sobre problemas de saúde, preocupações familiares……
De repente contagia-nos com imensa alegria, quando nos fala da sua Baby. Eu adoro o Miguel.
João eu não tenho blog, a minha vida familiar e as responsabilidades profissionais deixam-me pouco tempo livre. Adoro ler, escrevo pequenos registos nos meus cadernos pessoais, para memória futura.
Mais uma vez, parabéns. O texto do Miguel diz-nos que o seu livro é excelente. Prometo deixar a minha opinião no Whynotnow.
Um abraço. Lídia

Lídia, muito obrigada pelas suas palavras. o Miguel comunicou-nos do seu simpático comentário cedo, via Google+, mas só há poucos minutos cheguei a casa. eu também a tenho seguido aqui, no blogue do Miguel, um pedaço de céu nesta blogosfera :) será que um dia teremos o prazer de ler os seus pequenos registos, mesmo num blogue 'emprestado', como o este do Miguel?
sim, o texto do João é muito bom :)

ah, é tão bom ver os amigos à conversa aqui nos comentários :)

Olá Margarida
Eu já sabia que a Margarida é uma pessoa pronta a incentivar projetos. Agradeço a sua amabilidade. Na verdade apenas faço uns registos da minha vivência diária, daquilo que observo e que de alguma forma me impressiona, para mais tarde poder relembrar.
Considero que, escrever é uma “arte maior”, é preciso ter esse dom, sabedoria e muita imaginação.
Cara Margarida, embora não tenha pedido permissão eu sigo o seu blog, porque gosto da sua escrita e não resisto a saber notícias dos seus gatos. Posso continuar?
Um beijinho. Lídia

Lídia, a Margarida pediu-me para te transmitir a seguinte mensagem:

«isso nem se pergunta, Lídia! :) claro que sim, e comentar, se o desejar. bjs. margarida»

Obrigada a ambos. Lídia

Miguel, que textaço: bonito de ler (de um só trago... sem parar) e de pensar! Mas a matéria-prima também é de primeira água, por isso, parabéns aos dois, ao autor e ao recensor.

obrigado João, mas não percamos o foco que, neste caso, é só o livro do JR :)

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